O Acidental: Uma Elegia
Gostaria que o tempo avançasse hoje cinco, dez, quinze anos, o que fosse preciso para uma análise completa do que O Acidental significou para mim e para a vida recente e futura do debate público em Portugal. Tal não é possível, mas não é difícil adivinhar o que dele então se dirá. Julgo que, como acontece com todos estes fenómenos seminais e passageiros (e O Acidental foi uma espécie de Sex Pistols ou David Bowie da blogosfera), serão muitos mais os que dele falarão no futuro do que os que efectivamente o foram lendo com regularidade. O dia 8 de Abril de 2006 ficará na imberbe história da blogosfera ao lado do dia 10 de Junho de 2003, o último da Coluna Infame. O fim do blog fundador do Pedro Mexia, do Pedro Lomba e do João Pereira Coutinho (que chegou a editorial de José Manuel Fernandes no Público), num tempo em que os leitores de blogs cabiam ainda num Renault Twingo, marcou, ele próprio, o fim de um tempo. Um tempo em que a Coluna e outros blogs, nascidos e crescidos em grande parte à sombra da sua influência tutelar (e muitos reunidos na mítica União dos Blogues Livres), revelaram um mundo até então subterrâneo, feito de uma nova geração que à cultura abrangente, livre e descomplexada acrescentavam o facto inusitado de se dizerem de direita. Se a Coluna foi responsável pelo choque inicial e pela definição do padrão, O Acidental foi responsável pela normalização do fenómeno. Foi no tempo d’ O Acidental que a surpresa se esfumou e o país atento a estas coisas aceitou finalmente a legitimidade da liderança da blogosfera política por parte da direita e a ascensão aos canais tradicionais da intelectualidade de pessoas formadas na tradição anglo-saxónica e não pelas importações francesas. Nisso, é certo, não estivémos sozinhos. Blogs como o Blasfémias ou O Insurgente contribuiram também decisivamente para a vitória parcial das nossas pequeninas culture wars. Mas nenhum deles suscitou as paixões, os ódios e demais urticárias suscitadas pel’ O Acidental, como outrora o fizeram a Coluna Infame e, do outro lado da barricada, o Barnabé. Tudo isto se deve, com é óbvio, ao Paulo Pinto Mascarenhas, que começou o blog sozinho. Segundo me lembro, o nome deve-se ao filme “O Turista Acidental”, de Lawrence Kasdan e protagonizado por um absorto e billmurrayiano William Hurt, obra profundamente pessimista e uma espécie de metáfora ou alegoria sobre a natureza imprevisível da vida. Por coincidência - ou talvez não -, penso que O Acidental se tornou – ou talvez não - numa coisa bastante diferente da idealizada pelo Paulo. De blog estritamente político, interessado essencialmente no combate cultural à esquerda e de tom por vezes académico, O Acidental acabou por assumir características diversas e matizes distintas. Foi ao mesmo tempo sério e galhofeiro, violento e ternurento, politicamente empenhado e individualmente livre, informado e, no seu melhor, gloriosamente diletante. Disseram-se as palavras mais acertadas e as maiores parvoíces. E teve sempre, naquela que é, a meu ver, a sua grande vantagem relativamente a outros blogs, a facilidade de se rir de si próprio e de formular as suas próprias caricaturas. É algo que se deve reconhecer. Durante estes dois anos, gozou-se muito com a esquerda, com os seus figurões e com as suas ideias mirabolantes. Mas julgo ter-se brincado ainda mais com as manias e a percepção exterior dos conservadores e liberais da direita. Mais do que a forma descomplexada de se assumir de direita, foi a forma igualmente descomplexada de ver a direita que contribuiu para a “normalização” dessa direita no espaço público. Mais do que toda a self-righteousness (como é que se diz isto em português?) dos políticos portugueses, foi a leveza desta “normalidade” que fez dos blogs a melhor coisa que aconteceu à política portuguesa nos últimos anos. No que a mim me diz respeito, digo-o pesando bem as palavras: depois dos pais e irmã que me calharam, da namorada que escolhi (e que, felizmente, me escolheu também) e de todos os bons amigos que fui fazendo, a descoberta da blogosfera foi a coisa mais importante que me aconteceu. Lembro bem o dia de 2002 em que, folheando O Independente, li uma nota do Paulo Pinto Mascarenhas anunciando a Coluna Infame como um “blog” do Pedro Mexia, do Pedro Lomba e do João Pereira Coutinho. Depois da excitação espantada, vieram as perguntas (o que raio é um blog? Quem é o Pedro Lomba?) e o vício. Dei notícia da descoberta aos meus amigos e correlegionários Fernando Albino, Diogo Henriques e João Vacas e, por impulso deste último, fizémos o No Quinto dos Impérios, a minha morada blogosférica de sempre. Para quem, como eu, despertou politica e intelectualmente com O Independente dos bons velhos tempos mas passou toda a vida fora de Lisboa, não é uma medalha qualquer conhecer o Paulo Pinto Mascarenhas e, no momento em que isso acontece, ser convidado para escrever no seu blog. O Acidental, nunca será demais dizê-lo, foi principalmente um grupo de amigos com um blog, que continuará a ser um grupo de amigos sem (este) blog. Para mim, isso é coisa de uma importância acrescida, já que, ao contrário de outros elementos, que se conheciam há muito entre si, eu conhecia previamente apenas o João Vacas, o Diogo, o Eduardo e o Nuno. E, mesmo assim, não eram amizades de longa data. O melhor que O Acidental fez por mim foi ter-me dado a oportunidade de reforçar esses laços e de fazer novos amigos naquelas que são as pessoas com quem eu mais me identifico na maioria das dimensões da vida. N’ O Acidental e fora d’ (a propósito d’) O Acidental. Tenho pena que isto acabe. Percebi os argumentos que me foram apresentados mas – que querem? – é como quem me tira um brinquedo. Existem, de facto, inúmeros projectos por onde continuar o espírito d’ O Acidental. Acredito que este não se vai perder e se irá tranformar em algo bastante melhor. Mas não me peçam para lançar os foguetes. Para um conservador, Lavoisier não é consolo que se aproveite. Um brinde a todos. Já sabem onde me encontrar. |



Comments on "O Acidental: Uma Elegia"
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Cristina Ribeiro said ... (11:45 da tarde) :
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Heloísa Mirandela said ... (12:11 da manhã) :
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Pedro Picoito said ... (12:30 da tarde) :
post a commentO Acidental foi, tenho a certeza,uma referência para muitos portugueses.Bem hajam!
Sim, bem-hajam, que tenho uma lágrima no canto do olho. Vou mudar para o insurgente, é o único que ainda presta.
Bela despedida, sim senhor.