A Escola Totalitária
Continuo estupefacto com o desbarato de elogios que a direita tem dedicado à política de educação do governo. Compreendo que o desdém e o acinte com que a Sra. Ministra tem tratado os professores cale bem fundo no coração de conservadores autoritáros e liberais anti-função pública. Mas conviria, já agora, entender o alcance material das medidas. Tomemos o exemplo das célebres "aulas de substituição", a mais recente e umas das mais emblemáticas. Em que consiste? Basicamente, no seguinte: os meninos esperam a vinda do professor de Trabalhos Manuais (ainda existe?) para a aula prevista no horário. O professor de Trabalhos Manuais não aparece e, cantando e rindo, os meninos dirigem-se, ordeiramente, para uma outra sala, onde os espera uma outra professora, que não tem aquela turma no seu horário e que, por acaso, lecciona a disciplina de Francês. Ora, segundo consta, é suposto que esta professora tenha preparado qualquer entretenimento educativo para a canalha - que os ajude nos trabalhos de casa, que lhes ensine uns passos de fandango, umas asneirolas na língua de Victor Hugo ou, preferencialmente, qualquer coisa relacionada com Trabalhos Manuais (coisa que alguns petizes até acabariam por agradecer). Ignoremos, para já - de tão evidente que é -, o optimismo pueril dos cérebros responsáveis por estas ideias. Que significam elas verdadeiramente? Tendo em conta o cadastro recente do "eduquês", significam o habitual: a substituição da família pela escola e do indivíduo pelo estado; a transformação da escola, de fornecedora de conhecimentos e competências estruturantes em agente construtivista, formatador de consciências e de comportamentos. O estado quer a escola como centro absoluto da vida da criançada, onde a pode ter controlada e uniformizada, administrando-lhe a "educação sexual", a "educação para a cidadania", entre outros caminhos para a servidão. Os paizinhos que não se preocupem. It's all taken care of. Enquanto os meninos estão a ter uma aula de electrotecnia com o professor de Educação Física, não se metem na droga. Só eu sei o bem que me fizeram as faltas de alguns professores (à precisão do meu remate, à estruturação do meu intelecto e até - reparem no eduquês do linguajar - ao desenvolvimento das minhas capacidades relacionais). A escola deve ser exigente e rigorosa. Não deve ser totalitária. [FMS] |


Comments on "A Escola Totalitária"
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luispedro said ... (4:56 da tarde) :
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fms said ... (5:17 da tarde) :
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Tiago Mendes said ... (8:08 da tarde) :
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Tiago Alves said ... (8:53 da tarde) :
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Paulo Alves said ... (9:20 da tarde) :
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Afredo Gil said ... (9:52 da tarde) :
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Anónimo said ... (10:28 da tarde) :
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Tiago Mendes said ... (12:29 da manhã) :
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JPB said ... (7:14 da manhã) :
post a commentNada na proposta do ministério obriga a que uma aula de Trabalhos Manuais seja substituída por outra de Trabalhos Manuais. Nada impede a tal professora de Francês de dar uma aula de francês.
Nada impede a escola de substituir a aula por outro professor da turma, se possível, e que este dê uma aula da sua disciplina.
A ideia de "um professor de Educação Física a ensinar Física" foi criada pelos professores.
Seja como for, não altera a minha objecção de princípio.
Para além de que pago para ver essa coisa linda a funcionar. É que é já a seguir.
Francisco,
COnsigo entender e apreciar a sua posicao com uma boa dose de humor e ironia. Mas achar que esta proposta, que tem o cunho do "trabalho" e do "esforco", em detrimento do "lazer" e do "intervalo", e' um sinal de "totalitarismo", parece-me, no minimo, excessivo.
Eu tambem sou contra o totalitarismo na escola e no ensino, mas acho que isso nao se aplica a este caso. Nao sou inteiramente favoravel a isto exactamente porque acho que se pode ter um meio termo. SIm, algumas faltas fazem bem 'a criancada.
Ou seja, os incentivos tem de estar sobretudo do lado dos professores (para que faltem menos), mas isso nao deve levar ao exagero de subsituir toda e qualquer aula por uma qualquer actividade que vai enfasiar uns e outros, onde e' provavel que nao se aprenda nada, etc. Um meio termo, isso sim.
(Ainda que eu compreenda que, sendo o "meio-termo" optimo dificil de encontrar e implementar, esta decisao do Governo possa ser justificada, mas teriamos de aferir se a outra "solucao de canto" nao e' preferivel, tendo em conta ajustamentos do lado dos incentivos aos professores para nao faltarem.)
Aquela da "solução de canto" foi brutal, caro Tiago Mendes.
Quanto a questão em si, não pude deixar de rir com a ironia mas tambem não deixar de considerar exagerado o emprego de termos como "caminho para a servidão"..
Tambem não concordo com as aulas de substituição como elas tem sido aplicadas. Aplicadas. Porque acho que na teoria até nao era daquelas ideias de deitar fora. Poder-se-ia, porém, impedir que os alunos ficassem dentro de uma sala..
Quanto aos incentivos propostos pelo Tiago, permitam-me discordar. Então dar aulas não é o seu trabalho? Incentivos a quê?
Ainda bem que não espera «que o Paulo Alves concorde».
Tem-se dado muita volta ao Ensino em Portugal. Em 32 anos houve 19 reformas. Saberão os nossos governantes o que querem com o Ensino? Acredito que sim.
Já se tentou muita coisa mas nenhum governo/ministro teve a coragem de tentar aquilo que resolveria quase todos os problemas do Ensino:
Afastar os pais das escolas - permitir que eles vão à escola apenas para se informarem, nada mais;
Obrigar os alunos a ser obedientes - sem obediência não há atenção, sem atenção não há aprendizagem;
Conceder aos professores a autoridade de outros tempos e facilitar o desenrolar dos processos disciplinares.
Fácil e eficaz! Como um bom tira-nódoas!
Já agora algumas palavrinhas acerca da hipocrisia de quem nos governa: Elogiam o sistema de Ensino que criam, mas têm os filhos em colégios particulares (religiosos ou estrangeiros) onde se pautam por regras bem diferentes daquelas que se aplicam aos filhos dos outros.
Sim, porque isto de trabalhar para os votos tem muito que se lhe diga!
Diz muito bem. A ministra é uma autoritária com uma visão totalitária da escola.
"Aquela da "solução de canto" foi brutal, caro Tiago Mendes."
Como não sei qual a sua área de estudo, não estou seguro que tenha compreendido o que disse (que não tem mal nenhum). Se isso for o caso, "solução de canto" quer apenas dizer que o "óptimo" duma função é um dos extremos do domínio que ela pode tomar. Por exemplo, se X pode tomar valores entre 0 e 1, uma solução de canto envolverá ou 0 ou 1 como óptimos. A ideia era que a solução do minsitério é "radical", "extrema" - ou, uma solução de canto.
"Quanto aos incentivos propostos pelo Tiago, permitam-me discordar. Então dar aulas não é o seu trabalho? Incentivos a quê?"
CLaro que dar aulas é o seu trabalho. Mas não sejamos ingénuos. Porque é que os administradores duma empresa têm remuneração varia´vel? Porque é que quem vende casas fica com uma percentagem? Porque é que os gestores de fundos de investimento ganham prémios consoante os resutados? Não será, para todos eles, o seu "trabalho", a sua "funcão"?
Cada pessoa gere os seus níveis de "esforço" e "entrega", variáveis que não são em geral directamente observáveis. Os professores não são excepção e esses "incentivos" não devem ser diabolizados.
Falava de coisas tão simples como não pagar as aulas a que se faltam (o que julgo que já acontece) e penalizar eventualmente essas mesmas faltas, incluindo porventura um limite às mesmas, ou a obrigatoriedade de reposição (com ou sem pagamento disso), etc.
O problema principal em política está em não atender ao "positivo" e achar que as pessoas agem consoante aquilo que nós "desejaríamos". As pessoas são obviamente seres morais, etc, mas reagem a incentivos. Não vale de nada dizer que "eles não precisam de incentivos porque dar aulas é o trabalho deles". Sem querer ser ofensivo, isso está *formalmente* ao mesmo n~ivel que o pensamento de alguns comunistas, por "idealizar" o comportamento do homem, negando a sua natureza. (Espero que não me interprete mal - é uma analogia).
Acho espantoso como o Governo conseguiu desviar o debate sobre o sistema educativo para inocuidades como as aulas de substituição --ao mesmo tempo que está, discreta e pacientemente, a acabar com os exames nacionais, que são a única forma de implementar uma escola capaz e exigente.
Parece que ninguém repara.
Cá vamos portanto, cantando e rindo...