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quarta-feira, março 01, 2006

Caso 24 horas: Justiça tropical

Hoje acordei num país salazarista. Aquela entrada na redacção do 24 horas é coisa do antigamente. E a reacção geral - tirando os suspeitos do costume- tem sido ainda mais grave do que o próprio acto. Ninguém comenta. Ninguém acha estranho aquilo que se está a passar. Os portugueses têm a justiça que a sua cultura política merece.

Temos uma justiça tropical. À colombiana. A justiça não controla o poder político (aliás, há promiscuidade entre o poder judicial e o poder político) e, igualmente grave, o poder político não controla o poder judicial. E quando os jornalistas fazem o seu trabalho de 4º poder, são atacados pelo poder judicial, perante a complacência do poder político. Uma Colômbia que deu à costa europeia.

Perde-se rios de tinta com questões secundárias (casamento gay, etc.) e, depois, não existe tempo ou predisposição para reagir perante assaltos a questões essenciais como a liberdade de imprensa. Este caso e o caso-cartoon mostram que a Liberdade, em Portugal, é uma coisa com maiúscula e que, por isso, fica confinada à constituição versão-romance. Temos uma Liberdade escrita mas não temos liberdades na prática. Como em todos os regimes socialistas. Deveríamos parar de apelidar Portugal com o conceito de “democracia representativa”. Sim, votamos. Mas isto que temos não é uma democracia liberal representativa. Aquilo que aconteceu em Portugal seria impossível numa... democracia liberal. Os nossos poderes fazem o que querem. Brincam entre si. Perante o nosso silêncio. Temos o que merecemos.

Isto é que é realmente grave. Aliás, isto é que é grave. As questões económicas (modelo económico X ou Y) são, perante este desnorte institucional, secundárias.

[Henrique Raposo]