Agora muito a sério
| Estou de acordo com o que alguém escreveu num comentário no Insurgente (julgo que o João Miranda do Blasfémias, pelo menos era essa a assinatura) e não confio no jornalismo de causas. Mas uma coisa é o jornalismo, enquanto prática profissional, e outra é o jornalista, que não pode ver limitados os seus direitos de cidadania, nomeadamente o de defender as suas causas e opiniões, desde que expressas nos locais adequados. Esta é uma discussão importante, ao contrário do que muitos e muitas possam pensar - e já era tempo de os jornais e de os jornalistas a fazerem sem complexos. Aqui há uns tempos, para dar um exemplo de onde isto nos poderia levar, José Rodrigues dos Santos disse (cito de memória) que não exercia o seu direito de voto exactamente porque achava que isso poderia pôr em causa a sua imagem de independência enquanto jornalista. Eu defendo o contrário: todo o jornalista tem a obrigação de votar - ou de se abster, em função das suas preferências políticas - e não pode ver os seus direitos políticos constrangidos em razão da sua profissão. Se eu toda a vida votei no CDS e se sou militante do CDS não percebo porque tenho de o disfarçar ou esconder só porque sou director de uma revista. Não disfarço nem escondo. Não confundo as minhas preferências partidárias com as minhas responsabilidades profissionais - e isso mesmo poderá ser atestado a qualquer momento lendo as pessoas que convidei para escrever e colaborar na revista que dirijo. Para dar outro exemplo, apesar de julgar saber que Mário Bettencourt Resendes é militante do PS, isso nunca me levou a pensar que as suas opiniões sobre o PS ou sobre a política nacional enquanto director do "DN" ou comentador em vários orgãos de comunicação social fossem condicionadas ou pudessem ser menorizadas por essa sua condição. Nos países mais civilizados e mais livres, onde a liberdade de imprensa é mais poderosa, como é o caso da Grã-Bretanha, a ninguém espanta ou sequer admira que uma personalidade como Boris Johnson tivesse sido director da revista Spectator enquanto ocupava o seu lugar de MP dos tories no Parlamento britânico. É claro que na Spectator regularmente se gozava ou criticava o partido conservador e o respectivo líder da altura. Bem diferente, porém, é determinada causa ser assumida por jornalistas e por membros da direcção editorial de determinado jornal, levando a que todos eles, incluindo o jornal, sejam identificados com a causa que defendem, pondo em dúvida, pelo menos, a imparcialidade das notícias publicadas sobre o assunto. Foi isto que aconteceu recentemente com o "DN" no caso do casamento da Teresa e da Lena e é por isso um pouco ridículo confundir estes simples factos com a circunstância de o "Público" ter sido um dos dois primeiros jornais a dar a notícia sobre o mesmo casamento - a par do jornal "O Independente". Fui um dos primeiros a criticar o modo como no "Público" (e noutros jornais diários, é mais um facto) se tratou a questão do ponto de vista jornalístico, desde logo ao dar nome e microfone aos "filhos biológicos" (menores) das duas senhoras que se pretendiam casar, mas isso não me leva a confundir planos substancialmente diferentes: qualquer jornal ou qualquer jornalista quer dar notícias relevantes em primeira mão. E foi o que aconteceu. [Paulo Pinto Mascarenhas] |


Comments on "Agora muito a sério"
-
Jorge J. said ... (12:30 AM) :
-
roteia said ... (12:48 AM) :
-
PPM said ... (1:42 AM) :
-
Anónimo said ... (9:19 AM) :
-
PPM said ... (2:59 PM) :
post a commentnão lhes ligue Paulo, a ATlântico deixa mto gente com dor de cotovelo.....
Paulo Mascarenhas: Leio o seu artigo "Agora muito a sério" e fico na dúvida se o discurso que põe noutros artigos é "muito a brincar". Também eu lhe falo a sério sobre a questão das CAUSAS.
Não conheço nada mais decisivo, em qualquer área profissional, do que possuir causas qualificadas e actuar de acordo com elas. No campo do jornalismo, e também no seu caso, é também assim. Os seus artigos comprovam-no. Por isso não entendo os seus ataques àquilo que designa como "jornalismo de causas", quando estas são alheias às suas próprias e legítimas causas. Também não entendo que use uma agressividade retumbante em questões da sua indignação subjectiva quando há inúmeros factos de escandalosa indignidade (diria de indignação objectiva) que lhe passam ao lado.
A direita, o centro, a esquerda, deveriam ser campos de debate antes de serem campos de batalha. O país precisa de diferenças partilhadas para abolir velhas debilidades.
Roteia, as palavras não são balas. O que eu estou é a propor debater, não a propor bater. Em Portugal, parece que temos todos de escrever e de falar com muito cuidado e muitas excelências para cá e para lá. Não é o meu estilo. Concordo consigo quando diz que o país precisa de diferenças.
PPM
PS. Quanto ao "Agora muito a sério", é verdade que, muitas vezes, nos blogues, escrevemos à pressa e sem muita reflexão. Este foi escrito depois de ser muito reflectido.
Pois se é isto que escreve depois de muita reflexão, se calhar podia reflectir um bocadinho mais e não escrever nada.
Susana
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.