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sábado, fevereiro 18, 2006

Médicos ao Poder!



1. Assim de repente, conheço quatro formas de Progressismo: o neoconservadorismo (isto é, o Excepcionalismo Americano) mimado por Bush durante o primeiro mandato; o humanitarismo liberal de Blair; a Utopia da comunicação de Habermas/Fischer e, não esquecer, esta paranóia com a saúde de burocratas anónimos armados com “estudos”.

2. Esta santidade da saúde irrita. Os telejornais abrem com o leite estragado de Condeixa-a-Nova ou com a fuga de uma galinha em Famalicão. Irrita. Está em todo o lado. Ameaça tornar-se cultural. Hábito. Até política. Aliás, já é política. Têm os políticos poder para enfrentar esta cultura médica que controla a nossa sociedade? Imagine-se, por exemplo, o que seria se um político afrontasse esta paranóia do tabaco. Imagine-se? Seria, no mínimo, escândalo para uma semana. E a dita semana terminaria com o fim político do dito político. Gostava de viver num tempo com políticos bêbados, fumadores e que chamassem nomes aos jornalistas... e aos médicos.

3. Os velhos instintos científicos dos progressistas morreram. Isto é, já ninguém acredita que a História é controlada por leis. O progressismo morreu no que diz respeito a forças exteriores ao homem. Mas, agora, parece que o instinto científico quer controlar não as forças exteriores mas as forças interiores do Homem - as forças do seu próprio corpo. A velha ciência histórica queria melhorar o Homem, em nome do Bem Comum. Hoje, esta cultura médica quer também reinventar o Homem, em nome de uma coisa que nunca ninguém viu: Saúde Pública. Lamento, mas saúde é privada. Na minha saúde, mando eu. E os meus vícios não são alvos para o burocrata do estetoscópio.

4. Mas a intolerância permanence. A intolerância daqueles que mandavam na História passou para aqueles que mandam no Corpo. Esta cruzada contra o Tabaco também tem o seu Capital. Tem estudos. Os estudos que estão ao serviço da intolerância de quem trabalha, aqui e agora, para a tolerância perfeita dum futuro que haverá de chegar. Não se conseguiu um Homem Novo pelas leis da História e Economia. Agora o Novo Homem será alcançado pelo estetoscópio

5. Esta paranóia também é típica da sociedade da imanência. A sociedade pós-moderna decretou a guerra a qualquer tipo de valor transcendente. Há apenas o aqui e agora. E nada é mais imanente do que na nossa carcaça. O corpo é sagrado. A saúde do corpo é o santo Graal. Não se acredita na santidade da liberdade de expressão mas acredita-se que deixar o tabaco é prova de grande fibra moral!

[Henrique Raposo]