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quinta-feira, fevereiro 02, 2006

A liberdade não tem banda magnética

1.Parece que vai haver um novo super-cartão, o super-herói plastificado da burocracia do nosso querido estado-pulha. Tem lá tudo: n.º contribuinte, n.º saúde, n.º segurança social, n.ºBI, o número de vezes que X vai à casa de banho, o número de vezes que o padeiro comete adultério com a mulher do mecânico. Perfeito para um estado policial que pode prender "preventivamente" durante dois anos. Estar preso preventivamente por dois anos é um eufemismo brilhante, só possível num estado com alguns direitos mas sem o Direito.

2.Os políticos portugueses não conseguem pensar sem a ferramenta do Estado. É uma impossibilidade epistemológica colocar um político português a pensar: “Pá, o Estado não é o centro do mundo; posso fazer política sem inventar leis, cartões e burocracia. Posso fazer política decidindo e não legislando”. É mais fácil colonizar Marte do que colocar a Política portuguesa numa lógica não burocrática. Aliás, o político português deve pensar que existe Estado em Marte, à espera de uma iluminada burocracia.

3. A burocracia existe para facilitar a vida às pessoas. As pessoas não existem para facilitar a vida à burocracia. A burocracia ajuda o cidadão. A burocracia não deve criar um súbdito da ordem burocrática.
Este novo cartão tem um nome pomposo: cartão do cidadão. Peço imensa desculpa, mas um cidadão não está inventariado num único pedaço de papel ou plástico. A cidadania é precisamente o contrário: estar livre em relação a um poder que tenha acesso a todos os aspecto da nossa vida.

4. A liberdade não é plastificada nem tem banda magnética. Isto não é o cartão do cidadão. É o cartão do súbdito do estado-pulha. Podem já prender-me: esse cartão não entra na minha carteira.

[Henrique Raposo]