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quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Legalize

Nós por cá gostamos de leis, gostamos do verbo legislar e gostamos até dessa estranha criatura que nos promete soluções para os mais obscuros aspectos da regulação social – o legislador. Qualquer que seja o problema cremos inabalavelmente na existência de um instrumento racional, útil, disciplinado, feito de artigos e numerações, um código, um regulamento, uma construção ordenada capaz de nos resolver o assunto. Esta obsessão legislativa, no seu estentóreo idealismo, sempre nos pareceu grotesca. Mas a verdade é que esta pureza de intenções é essencial numa sociedade que se quer pacata e tolerante. Uma sociedade plural vive sobretudo de uma pluralidade de aspirações. E os nossos compatriotas aspiram fatalmente a uma lei melhor, mais racional, mais justa, uma lei que possa modelar o país à medida de uma visão, uma consciência, uma ideia. Ivariavelmente, a nossa visão, a nossa consciência e a nossa ideia.
Numa altura em que se debatem os sucessos e os fracassos da civilização, olhemos para o Oriente e o Islão. O Islão não alinha connosco na liberdade, nos direitos civis, na democracia liberal. Mas, fundamentalmente, o Islão não alinha connosco neste fervor legislativo, nesta crença indisputável nas virtudes do legislador. Mil e quinhentos anos passaram e o direito muçulmano vive ainda da sua fonte original: o Corão. Um Corão que não pode ser interpretado à luz dos nossos dias. Um Corão irreformável a que nunca nenhuma assembleia pôde deitar as suas revisoras intenções. É pouco, é muito pouco para o incontrolável apetite dos homens. No dia em os muçulmanos se sentarem num hemiciclo a discutir a enfiteuse, a servidão de passagem e a reforma da Constituição, a violência acaba e a paz poderá finalmente prosperar. O processo legislativo é também uma forma de civilizar as ambições.

[Tiago Geraldo]

Comments on "Legalize"

 

Blogger Simões said ... (11:52 da manhã) : 

Como poderao os povos muçulmanos evoluir para uma democracia justa e igualitária se os exemplos que têm do mundo ocidental sao caricaturas de justiça social.
Como é possivel que os países árabes se tornem naquilo que mais odeiam. Bush, Blair, Berlusconi...
Parece-me utópico a cair para o surreal...
A aproximaçao dos dois mundos é o passo que permitirá a paz.
E depois há quem nao defenda a globalizaçao...

 

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