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terça-feira, fevereiro 07, 2006

Ainda há políticos? Melhor: alguém viu por aí a POLÍTICA?



Algumas (quase todas) reacções políticas ao caso “cartoon-que-irritou-um-punhado-de-gente-que-acha-que-sentido-de-humor-é-doença” tem demonstrado o seguinte: os políticos europeus perderam a noção do abismo que separa a Política da sua moral privada. Oiço declarações pessoais e morais, quando deveria estar a ouvir declarações políticas. POLÍTICAS. Oiço o “Jorge” quando deveria estar a ouvir o “Ministro Jorge”. Oiço o meu vizinho quando deveria estar a ouvir o meu líder político. A Europa anda a perder, aos poucos, a ideia de separação entre o espaço público e o espaço privado. É como se isto fosse uma grande família europeia. "Olha o avô Jorge!" quando deveria ser "Olha, ali está o Ministro Jorge, aquele que defende os nossos interesses e princípios". O Político europeu de hoje não quer ser político de um Estado. Quer apenas ser um amigo, um vizinho do Povo europeu.

Não me interessa se ministro X não gosta pessoalmente das caricaturas. Não pagamos impostos para ouvir declarações privadas de cargos políticos. O político tem uma ética de responsabilidade que está acima da sua ética absoluta e privada. Não me interessa o juízo moral do Político. Não é relevante. É tão importante como uma máquina de calcular durante o acto amoroso.

Não me interessa saber se o Ministro X acha que os cartoonistas são uma porcaria e mal-educados. Interessa-me, aliás, exijo que o Político defenda os princípios do espaço público que habito. E no topo desses princípios está a liberdade de expressão.

E isto leva-me ao seguinte: o que está aqui a ocorrer é o revelar, pela via indirecta, do desgosto que muita gente tem pela democracia liberal. Para muita boa gente, a democracia deveria ser apenas o votozinho da urna. Essa coisa da liberdade de expressão, das liberdades cívicas é muito complexa, plural e está sempre a fugir ao controlo central. A liberdade de expressão sempre foi uma chatice para os iluminados. "Para quê ouvir os outros quando já tenho a Luz?" - é assim que pensa o iluminado centralista.

Quando oiço políticos a relativizar a importância da liberdade de expressão, tenho, em primeiro lugar, vergonha e, depois, tenho medo. Medo. Pelo regresso de formas de governo que centrem a sua legitimidade apenas no voto e numa centralidade absoluta. Medo de uma Europa sem liberdades. Apenas com uma faraónica Liberdade. Tenho medo de uma Europa apenas com um "L" e sem os muitos "l".

Caros políticos, melhor, caros fanáticos do diálogo e do voto,...

... o voto só interessa se eu tiver total liberdade de expressão. O voto vem depois e não antes. E, já agora, o diálogo não é um bem em si mesmo, mas um instrumento. Ou mais simples: tentem ser... políticos. Já tenho vizinhos e amigos que cheguem.

[Henrique Raposo]