Segundo o moralismo dominante, o inferno guarda um lugar especial para aqueles que, quando a sua circunstância exigia trabalho, afinco e criatividade, optaram pelos prazeres da preguiça. "The devil will find work for idle hands to do", cantava Morrissey, entre o irónico e o resignado. Mas então que dizer dos outros, daqueles que, perante a papinha feita, resolvem cuspir na sopa? Aqueles que, diante de um manual de instruções perfeitamente elaborado, que tudo explica e tudo prevê, se decidem por elaborações laboratoriais de resultado insondável? Que dizer de um tipo que trata a tradição como um incómodo que atrapalha? Que dizer de Co Adriaanse?
Na sua passagem blitzkrieg pelo Porto, Mourinho deixou um legado como nenhum outro. O melhor e o mais inesquecível foram, obviamente, os dois Campeonatos, a Taça de Portugal, Sevilha e Gelsenkierchen. Mas houve mais, muito mais. Mourinho deixou um estilo de jogo quase perfeito, uma táctica quase irrepreensível, uma disponibilidade mental de encarar todas as partidas como só os melhores as enfrentam.
E o que fizeram Del Neri, Fernández e Adriaanse? Experimentaram, inventaram, impuseram as suas ideias (?!) peregrinas a uma realidade perfeitamente sedimentada e organizada. Octávio Machado gosta de verberar os Big Ladens (sic) do futebol português. Pois os problema do Porto está nestes Robespierres de pacotilha.
Por falar nisso, Adriaanse levou Baía e Jorge Costa à guilhotina. Este facto, que, desportivamente, não terá talvez a importância que lhe tem sido dada, é todavia revelador da atitude que o holandês com cara de prisão de ventre trouxe para o Porto: destruir o que lhe foi dado e construir todo um admirável mundo novo a partir do ano zero. Quando, aliás, as características do plantel lhe permitiriam manter e aproveitar o modelo Mourinho - Lucho é Maniche, Assunção é Costinha, Diego é Deco, Lizandro é Derlei. Não quis. Mordeu a mão que lhe deu de comer e o resultado aí está. Uma equipa completamente descaracterizada, que raramente se impõe nos relvados com aquela arrogância que lhe foi um dia típica e cujos adeptos - pelo menos este - têm vergonha de ver jogar.
Ontem, pela primeira vez, decidi não ver um Benfica-Porto. Não foi porque sabia que ia perder (pressentia-o, de facto), mas porque sabia que a equipa ia jogar temerosa, comezinha na ambição, a pensar no empate como o melhor que lhe poderia acontecer. E isso é coisa a que eu, um adepto dos mais sobranceiros, anti-benfiquista orgulhoso, me dispenso de assistir.
Claro que gente como o inenarrável Rui Santos gosta de Co Adriaanse. Segundo o comentador da Sic, o senhor é um arquitecto e isso, só por si, é elogio suficiente, parece. Ora, o futebol, ao contrário da mentira e do lirismo reinantes, não é uma arte. Ou então, é-o pelo menos tanto quanto é uma ciência. Existem modelos pré-definidos, que comummente são aceites como os mais idóneos em determinadas situações. Toda a gente sabe a merda que, no futebol português e não só, provocaram soluções como os três centrais de Adriaanse ou a defesa em linha de Del Neri. Menos os próprios.
A preguiça, como todas as nobres virtudes conservadoras, vive tempos de má reputação. Mas é de gente preguiçosa que o Porto precisa. Gente cábula que peça ao André o dossier que o Mourinho lhe deixou. Está lá tudo. Aquele dossier é o fim da história. Vejam o Barcelona. Foi a Londres ganhar ao Chelsea com a exacta atitude e táctica cínicas do senhor. Rijkaard é bom treinador porque sabe aprender. Não quer ensinar nada.
Por causa desta engenharia social aplicada à ciência do esférico, o Porto perdeu o campeonato passado e vai certamente perder este. E, pelo que se viu e se vê dos adversários, nem sequer era preciso o Mourinho para os ganhar.
Espero que o João Miranda concorde.
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FMS]