Um breve esclarecimento
| Eu não serei propriamente o melhor exemplo de liberal que por aí se pode encontrar. Por isso, são me indiferentes as acusações de desvio à causa. Gostaria sim que, dado o Estado do país, fossem tomadas algumas (muitas) medidas liberais. Sobretudo de carácter económico e financeiro. Como sei o que a casa gasta (e a casa não é Portugal, é toda a Europa ocidental), sei que ninguém é eleito com um programa razoavelmente liberal (veja-se o que aconteceu a Angela Merkel quando resolveu abrir o livro no fim da campanha), quanto mais com um programa fundamentalmente liberal. Por isso - parece-me óbvio – só se pode fazer qualquer coisa liberal com uma agenda escondida. Só se consegue chegar ao poder, omitindo boa parte das políticas (liberais) que se pretendam aplicar. Aí chegados, e aproveitando a distracção generalizada com “questões” de arbitragem, fenómenos climatéricos e novas epidemias de origem animal, poder-se-á, a pouco e pouco, ir destapando o véu da agenda real. Agenda essa que, em todo caso, não deve ser revolucionária. A mudança tem de ser firme, mas gradual para que não seja interrompida a meio. Já aqui elogiei algumas medidas do governo Sócrates. Reconheço que o que tem sido feito é curto. Mas é mais do que aquilo que, até agora, outros com maior obrigação fizeram. Com a vantagem de uma parte desse pouco que já foi feito ser dificilmente reversível (fim de alguns subsistemas de apoio social). Claro que os liberais com fé devem continuar a acreditar nos dogmas e, tal como a Igreja, a ser intransigentes com certos princípios para si essenciais. Sucede que eu não professo semelhante religião. Quero tão só ver algumas mudanças. Porque sei bem que a alternativa a algumas é – há que não ter ilusões - nenhumas. [ENP] |


Comments on "Um breve esclarecimento"
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André Azevedo Alves said ... (9:51 PM) :
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enp said ... (10:11 PM) :
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RAF said ... (11:55 PM) :
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André Azevedo Alves said ... (12:36 AM) :
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Nuno Gouveia said ... (1:23 AM) :
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Miguel said ... (10:57 AM) :
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sr. silva said ... (12:08 PM) :
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Miguel said ... (1:03 PM) :
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Tiago Alves said ... (6:28 PM) :
post a commentCaro ENP,
Creio que nunca ninguém o acusou de ser liberal (eu pelo menos nunca o fiz e creio que os outros eventuais destinatários do post também não).
Quanto à (muito batida) táctica da "agenda escondida" discordo de si. Se msmo sendo eleito com uma agenda aberta é difícil promover medidas liberais, com uma agenda escondida é puro suícidio. Pode ser, não discuto, uma forma de assegurar o poder por via da alternância. O que sei é que para esse peditório não contribuo. Até porque por esse critério, se formos a avaliar o passado recente, como escrevi, o melhor mesmo é apoiar o PS do Eng. Sócrates (sem ironia).
Constato com agrado que estamos totalmentede acordo quanto à avaliação do governo Sócrates até agora.
Quanto aos dogmas, entristece-me ver a direita (liberal ou não) com a ilusão de que pode prescindir deles. Mas suponho que será o fardo da modernidade a que estamos condenados...
André,
Também não me agrada por aí além a agenda escondida, mas sem ela, nos próximos tempos, não se chega lá.
Já quanto aos dogmas, eu não prescindo deles, só que os meus não coincidem exactamente com os dos liberais "verdadeiros".
Abraço
ENP
Meus caros ENP e AAA,
«Agendas escondidas» são sempre indesejáveis; acima de tudo, um liberal deve respeitar a democracia e - sobretudo - promover a ideia do contratualismo que deve existir entre governantes e governados.
Conhecer bem os aspectos essenciais do liberalismo não é uma «profissão de fé», nem uma «religião»; significa ter bagagem técnica; só assim se pode ser efectivo na definição de uma agenda liberal num futuro próximo. Obviamente uma agenda mitigada, implementável e que possa ser acolhida pelos cidadãos. E existem, em várias áreas, muitos aspectos a liberalizar - e com o apoio dos cidadãos. Com transparência e serenidade, e escolhendo as bandeiras correctas.
Separar a teoria da prática; não submeter a teoria à prática, nem vice-versa. Porque há tanto a fazer, e o caminho faz-se ... caminhando. Obriga a uma certa ambivalência, certamente, mas sem misturar uma coisa com a outra.
Longe das dicotomias direita-esquerda (o elogio que ambos fazer a Sócrates, que parcialmente subscrevo, provam isso mesmo), que não fazem hoje qualquer sentido.
Um grande abraço,
Rodrigo Adão da Fonseca
Eduardo,
Fico mais descansado quanto aos dogmas, independentemente de os seus não coincidirem exactamente com os meus (o que não me surpreende).
Quando leio alguém falar contra os "dogmas" em geral fico logo preocupado porque entramos no caminho mais perigoso de todos. Ainda bem que não foi o caso.
Há que explorar as áreas de coincidência (que no contexto actual julgo serem substanciais) sem, como bem salienta o RAF, submeter a teoria à prática, nem vice-versa.
Abraço,
AAA
Apenas uma correcção:
Angela Merkel disse fez algumas declarações liberais, que a fizeram perder votos. Mas também fez uma proposta, e esta nada liberal, de aumentar impostos, o que a fez perder muitos votos, talvez mais do que a maior parte das suas propostas liberais.
Cumprimentos
Nuno Gouveia
Começo por esclarecer que ao sublinhar-mos desvios ao liberalismo não pretendemos fazer um auto-de-fé com a queima dos herejes.
Convém termos presente que o conservadorismo e o liberalismo tendo alguns pontos de contacto noutros aspectos são divergentes. Que neste exacto momento sejam realçado o que nos une deve-se, penso eu, aos excessos revolucionários do pós-25 de Abril. À medida que a "herença revolucionária" for sendo revertida as divergências tenderão a acentuar-se.
«o que nos une deve-se, penso eu, aos excessos revolucionários do pós-25 de Abril. À medida que a "herança revolucionária" for sendo revertida as divergências tenderão a acentuar-se»
Sim, deve ser isso que vai acontecer. Eliminada a herança revolucionária voltaremos a ter uma ala liberal e uma maioria conservadora, a discutirem na Assembleia Nacional. Perdão... Na Assembleia da República.
Já cá faltava a recorrente e obtusa tentativa de colagem ao Estado Novo.
Pelo menos não nos chamou fascistas. Se calhar esqueceu-se...
Éu também não concordo com as agendas escondidas mas convenhamos que o ENP foi bastante pragmatico.
Talvez algumas medidas mais "revolucionarias" não devessem reveladas. Não seria mentir, seria omitir. Porque muita coisa pode ser muito melhor apreendida quando apresentada pelo Governo, com os holofotes proprios e a clareza necessária, do que durante a guerra eleitoral, onde o ruído é enorme.
Não acho porém que se eva omitir a tónica liberal, até por uma questão de posterior legitimidade.