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segunda-feira, janeiro 02, 2006

O país que foge do óbvio


Em 2005, Portugal deixou um rasto de frases. Frases um tanto soltas. Soltas porque não tiveram o devido destaque. Em Portugal, a concentração no imediato, no pessoal, na intriga, no aperto de mão que não foi aperto mas falta de chá, no bolo rei, na conversa oca em directo que faz lembrar as queixinhas do parque infantil (“Dr.Y, X disse W; quer comentar?"), tudo isto, dizia, leva ao desprezo por declarações com real sentido político. Aqui ficam algumas (não sei se estão exactas ao milímetro):

Precisamos de gente a morar em Lisboa”. Maria José Nogueira Pinto. Parece demasiado simples para merecer um destaque? Pois parece. Mas Portugal não é um país simples. É um país, digamos, que gosta do que é complicado. Antes de saber quanto é 2+2 já quer saber as fórmulas da física quântica. Maria José Nogueira Pinto, na campanha para Lisboa, fez aquilo que poucos fazem em Portugal: falou mesmo da realidade. Política, em primeiro lugar, é resolver o óbvio, o que aparenta ser simples, os problemas reais. Política não é a apresentação de visões e sonhos feitos num estirador. E um dos óbvios de Lisboa é a falta de gente. Lisboa é uma loja ou um escritório. Abre às nove; fecha às cinco. Durante a noite – tirando as óbvias zonas nocturnas – é um semi-deserto. Moram duas pessoas no Rossio. DUAS!!! Repito: DUAS!!! Que câmara é esta que permite a desertificação da seu próprio espaço? Andam a pensar em torres e túneis e não sei que mais, e, nos entretantos, deixam a cidade morrer. Façam lá os grandes projectos para a glória da Câmara, que depois terão uma multidão de múmias a aplaudir essa grandeza.
Enquanto os outros candidatos falavam de uma Lisboa que nunca ninguém viu (isto é, não faziam política; partilhavam as suas visões para... 2050), Nogueira Pinto falou da e para a Lisboa que existe. Em Portugal, os políticos devem começar por aprender esta predisposição colocada em prática por Nogueira Pinto: primeiro, faz-se o óbvio e, depois, pode-se inventar. Mas só depois.

“Democracia é a institucionalização do conflito”. José Sócrates. Parece que ninguém reparou no carácter liberal desta afirmação. Normalmente, a esquerda tem da democracia uma visão à la Rousseau: uma vontade geral, uma unidade nacional, uma forma de harmonizar e pôr fim ao conflito entre os homens. A fuga ou anulação - e nunca a institucionalização - do conflito é a marca histórica da Esquerda. O actual PM não só se distanciou, e ainda bem, dessa versão de democracia, como também deu um sinal de maturidade... liberal. Liberal no sentido institucional, no sentido do termo democracia liberal.
Nunca ouvi um político de direita no poder a afirmar a mesma coisa sobre a ideia de democracia. Portanto, quando um homem de esquerda diz isto, só resta perguntar: de que está à espera a nossa direita para fazer um combate a sério, que vá além dos décimos, das dízimas e dos cosenos do orçamento? Para quando o fim da direita da calculadora?

[Henrique Raposo]