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quarta-feira, janeiro 25, 2006

Comovido com tamanho elogio

Caro Nuno Ramos de Almeida,

Compreendo a sua indisposição. Um conservador a escrever sobre Negri sem o insultar?! Sem o apelidar de terrorista?! E, ainda por cima, usando autores marxistas (Amin)!?
Caro, critiquei Negri fazendo apenas duas constatações óbvias para quem conhece o pensamento de esquerda do século XX: não é novidade e já tem muito pouco de marxista. E não sou eu que o digo. Os verdadeiros neo-marxistas como Samir Amin fizeram-me esse favor. Acho curioso que me critique por usar… autores liberais. Mas quais autores liberais? Tive o cuidado de colocar o meu texto a girar em volta da argumentação de Amin. Mas é isso que o irrita, não é? Ao usar autores de esquerda para criticar um autor de esquerda, sabia que iria causar algumas cócegas, quer à esquerda quer à direita. Estava curioso. Obrigado pela confirmação.

Compreendo que não goste que critiquem os seus autores. Tudo bem. Mas a sua atitude revela uma velha arrogância de esquerda: um autor de esquerda só pode ser criticado por alguém de esquerda. V. não critica o meu argumento. Diz que é apenas um desastre. E porquê? Porque ousei dar uma visão diferente da sua – e da esquerda em geral – sobre um autor da moda. Pior: porque sou de direita e, portanto, a minha visão será sempre um desastre quando a questão é um autor como Negri.
Agradeço esse desdém, essa aura de superioridade. Vindo de um esquerdista, é um elogio e a confirmação que fiz alguma coisa certa. Se Utopia totalitária é pleonasmo, esquerdista humilde é contradição. Essa atitude de provedor dos leitores é gira. Fico satisfeito por verificar que V. sinta a necessidade de avisar as massas que a minha visão não serve. O melhor elogio, meu caro. O melhor. E agradeço que vá comentando tudo aquilo que escrevo. É bom ter um eco. E dá para afinar a pontaria.

[Henrique Raposo]