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quarta-feira, novembro 30, 2005

Um blogue verdadeiramente liberal

Já escrevi que não acredito muito em alguns números de audiências de blogues, até porque todos conhecemos o impacto real que têm (ou não) alguns deles. Mas depois de uma breve polémica com o Paulo Querido (PQ) sobre o assunto, O Acidental aparece agora em vigésimo lugar na lista do blogómetro. Segundo PQ, a anterior posição (930º), devia-se a um erro inicial na inscrição. Aceito a explicação e agradeço a pronta resposta, ainda que continue a duvidar da fiabilidade dos números de alguns blogues lá inscritos.
Mas adiante. O mais engraçado é que até nas classificações de audiências se comprova uma vez mais que o nosso blogue é verdadeiramente liberal, apesar de ter entre os seus convidados diversos conservadores e até um ou outro democrata-cristão. Digo isto, porque no blogómetro, O Acidental encontra-se ligeiramente atrás - salvo seja - dos Renas e Veados, mas mantém-se bravamente à frente das Mulheres Nuas em Portugal. É todo um programa de intenções.

[PPM]

Natal Acidental

Dia 15 de Dezembro, numa casa perto de si.

[PPM]

Quem nunca o fez, que atire a primeira pedra

Alegre diz que não violou Constituição.

[PPM]

O que eu mais estranho sobre esta badalada coisa dos aviões da CIA?

Eu ainda sou do tempo que os serviços secretos americanos eram mesmo secretos.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS diz que Alegre não cumpre dever de deputado

Ainda bem que Jorge Coelho prometeu que Manuel Alegre não iria ser perseguido.

[Rodrigo Moita de Deus]

O novo single dos Strokes é óptimo

Na sua última coluna do Expresso, João Carlos Espada diz, a propósito da edição e apresentação de "Rousseau e Outros Cinco Inimigos da Liberdade", que Isaiah Berlin não era de esquerda nem de direita, ilustrando com o facto de, na obra em causa, o senhor se mostrar perfeitamente equidistante das propostas iliberais dos dois lados. Começa a faltar paciência para esta entronização asséptica, para esta higienização púdica com que alguns tratam determinadas personagens. Como se uma pessoa de direita tenha obrigatoriamente de ser um seguidor de Fichte, Hegel ou Maistre. Como se uma pessoa de esquerda deva inquestionavelmente concordar com Saint-Simon ou Helvétius (dada a natureza antropológica e inaugural da filosofia de Rousseau, este já constituirá requisito essencial). Como se a concepção negativa de Liberdade defendida por Berlin pudesse algum dia ser subscrita por alguém de esquerda. Como se existisse algum esquerdista disposto a reconhecer Sir Isaiah como um dos seus.

[Francisco Mendes da Silva]

Excepcionalmente um poste numerado

1. O Estado é laico,

2. É dever do Estado proteger a liberdade de culto;

3. Não cabe ao Estado promover uma religião civil ou uma não religiosidade;

4. Não há Estado, sem cultura, sem identidade e sem a vontade dos seus cidadãos;

5. A purga de símbolos religiosos é um novelo quase sem fim. Em dois mil anos de história a maior parte dos símbolos deixaram de ter um significado meramente confessional assumindo um outro papel: cultural. Assim é com coisas mais complicadas como a cruz nas moedas, as condecorações do estado, as estátuas nas ruas ou outras mais simples como Deus no meu nome;

6. Alguns sistemas políticos tentaram eliminar todas as referências religiosas. Todas. Foi assim com a Alemanha nazi ou com a Rússia comunista. Cedo se viram forçadas a suprir a necessidade de espiritualidade das sociedades com a criação de religiões civis ou de Estado. Em pouco diferentes de todas as outras. O resultado destas experiências pode ser consultado em qualquer compêndio histórico;

7. Outros sistemas políticos aprenderam a preservar o exercício do poder estatal das influências confessionais sem impor uma laboratorial mutação cultural;

8. Fazer a destrinça entre confessional e cultural exige razoabilidade e bom senso, qualidades raras que não reconheço nos activistas anticlericais mas que também não confio, obviamente, aos próprios clérigos;

9. Não há razão nenhuma para existirem crucifixos nas salas de aula;

10. O problema não é que o ministério da educação mande retirar esses símbolos religiosos. É certo que deveria ter outras prioridades, mas que o ordene é legítimo. O problema é que o anuncie nas primeiras páginas dos jornais;

11. Quando a medida é arremessada a um país que literalmente se funda nos princípios da cristandade, então só podemos considerar que se trata de uma clara hostilização. Aplicaram à questão dos símbolos religiosos o mesmo princípio das paradas gay na avenida da liberdade: choque, provocação e confronto;

12. Havia outros métodos de cumprir com o desejo dessas vítimas da agressão cristã. O ministério podia retirar os crucifixos quando mandasse pintar as paredes das salas de aula, por exemplo;

13. A medida, como foi aplicada e comunicada, não é por isso um súbito ataque de rigor disciplinar e legal. A medida deixou de ser técnica passou a ser política. É política, pura e simples, em todo o fulgor da palavra;

14. De resto, como o Eduardo disse e bem, a terceira via socialista dos engenheiros Sócrates e Guterres continua minada por gente da pequena burguesia urbana com uma velha agenda revolucionária do tempo em que Berlim leste era sítio chique. Atrasados cinquenta anos em relação ao resto do mundo. Nós por cá, mais impressionáveis, achamos que eles são de vanguarda.

[Rodrigo Moita de Deus]

Antes saído do armário

Sobre os meus comentários à reportagem de hoje no Diário de Notícias, acrescento que não devem ser lidos como críticas. Ao contrário da maior parte das pessoas, considero saudável e recomendável o jornalismo de causas. Não acredito em jornalismo "isento" e "imparcial". É por isso um raro privilégio assistir a tão bom exemplo desse jornalismo de causas, descomplexado, militante e sobretudo assumido.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs X


O mais alto reconhecimento por serviços prestados ao Estado laico é a atribuição do grau de cavaleiro da Ordem de Cristo. Solicita-se aos muitos agraciados, não crentes, que a devolvam ao palácio de belém.
[Rodrigo Moita de Deus]
PS: O mesmo é válido para cavaleiros da Ordem de Avis e Ordem de Sant'Iago da Espada.

O Acidental à escuta

A actual vantagem do prof. Cavaco é a medida do fracasso dos seus sucessores nos últimos dez anos. É o resultado das más ideias à esquerda, e da falta de ideias à direita. Foi isso, traduzido em derrapagens orçamentais e estagnação económica, que determinou estas eleições presidenciais. E agora? Acreditam que dez debates podem corrigir dez anos de história? Os debates decisivos já aconteceram. Foram o debate Cavaco-Guterres, e Cavaco-Santana. O prof. Cavaco ganhou-os. Por falta de comparência dos adversários.

Rui Ramos, no "Diário Económico" de hoje

[PPM]

Burka = Biquini


















X investiga a ideologia feminista. Encontra um texto das distintas J. Brumberg e J. Jackson. Estas senhoras fazem o seguinte: comparam o regime opressor dos taliban com o regime opressor… ocidental. “Qual é o espanto X?”, dirá o leitor atento. “Não é esse o truque dos Chomskys e das Sontags deste mundo e do outro?”. Claro. O espanto não vem da comparação, mas do enfoque específico desta comparação. Qual é, então, o ponto de contacto entre o Ocidente e os Taliban, segundo estas distintas senhoras ocidentais? Resposta: ambos os regimes oprimem a Mulher. Não. Não é humor (mas pode muito bem ser um caso magnífico de humor involuntário, isto é, um caso de paragem cardíaca do neurónio). As senhores acreditam mesmo nisto. É que, dizem, se é certo que um regime obriga a Mulher a tapar-se, o outro obriga a Mulher a... destapar-se. Nada mais óbvio: o tapar e o destapar como dois absolutos que oprimem a Mulher. Brilhante. Aliás, dialecticamente brilhante. Escrevem o seguinte: «the burka and the bikini represent opposite ends of the political spectrum» (Boston Globe, 23 Nov. 2001). Uhh… o bikini é de extrema-direita enquanto que a burka é de extrema-esquerda… será isso?

Há coisas que não podem ser levadas muito a sério. Isto é uma dessas coisas. Portanto, vamos lá brincar:

Estão enganadas, minhas simpáticas senhoras. Há, pelo menos, uma diferença. Se a senhora de cima despir a Burka, 20 homens saltam-lhe em cima. Para a matar. Se a mulher em baixo despir o Bikini, 20 homens saltam-lhe em cima. Só. Há, pelo menos, esta diferença. Existe, ainda, outra, suas eminências pós-modernas. Coisa pouca. E é isto: é que o Bikini foi escolhido pela rapariga que o usa; a Burka foi escolhida pela tradição que usa aquela senhora.

3. Já agora, minhas senhoras, leiam isto: «Se dormes só terás poeira / Eu pertenço aos que, por mim, não dormem a noite inteira»; ou isto:«Estou cada vez mais louca /Quando passo perto de um túmulo de um santo, atiro-lhe pedras / Por todos os meus desejos insatisfeitos» (A Voz Secreta das Mulheres Afegãs», de Sayd B. Majrouh). Já leram, simpáticas senhoras? Não ficaram com aquela impressão de que a senhora da esquerda, caso tivesse oportunidade, também gostava de vestir o bikini?! Ou este raciocínio não passa, obviamente, claramente, para além da dúvida, de uma manifestação hiper-neo-pós-machista da minha parte?

[Henrique Raposo]

Anúncios retirados por motivos técnicos

A gerência informa que retirou os anúncios da Google que dificultavam a ligação ao Acidental. Se continuar a ter problemas no acesso, é favor registar a sua reclamação na caixa de comentários. Obrigado.

[O Acidental]

E quando o PS vira à direita, a Igreja é que paga

Calma, Rodrigo. Esta ofensiva contra as cruzes e os crucifixos não passa de uma forma que o governo encontrou para amainar a rapaziada socialista mais ortodoxa. Afinal, um governo PS não pode ficar-se pelos cortes na segurança social, aumentos na idade da reforma e privatizações. Tem também de agradar aos Vitais, Candais e Anas Gomes. De encaixar algures na governação uma nota de esquerda, republicana e laica. Qualquer coisa de original, como, por exemplo, chatear Padres.

[ENP]

Silogismo para multiculturalistas

É um facto notório. É um facto exaltado pela arrogância laica: na Europa e em Portugal, (1) há cada vez menos crentes nas igrejas católicas. (2) Logo, os católicos praticantes são uma minoria, (3) logo, os multiculturalistas deveriam apoiar a minoria católica. Ou não? Não é este o raciocínio do politicamente correcto? Por que razão se calam quando o ataque ocidentalista/iluminista/imperialista é feito sobre a cultura tradicional de um país ocidental? Será que o multiculturalismo não passa de ódio ao Branco (“white-bashing”)? Manifestações culturais de ocidentais não são bem factos culturais mas tentáculos do maldito poder capitalista?

[Henrique Raposo]

Protejam as minorias das agressões cristãs IX

Queria chamar a atenção do Diário de Notícias, da associação república e laicidade, do prof. Vital Moreira e do Dr. Meneres Pimentel que a nossa cultura ocidental está infestada de elementos confessionais que importa expurgar de imediato. Ao contrário do que alguns dizem isso não implica uma descaracterização ou perda de identidade. Esse argumento é uma fantasia reaccionária. Camaradas laicos, contem comigo. Eu farei a minha parte.

Assinado,

Rodrigo Moita (ex- de Deus)*

*Obrigado amigo Karloos pela sugestão

Protejam as minorias das agressões cristãs VIII

Existem organizações subversivas de tendência cristã a usurparem o papel do Estado no auxílio às populações. Importa encerrá-las imediatamente.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs VII

As Câmaras Municipais gastam dinheiro dos contribuintes em decorações para uma festa religiosa.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs VI

Existem capelas em quartéis, padres de vários credos e até um bispo nas forças armadas.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs V

Cardeais e bispos têm lugares no protocolo de Estado.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs IV

Está uma estátua do senhor Ghandi ali num lugar público no restelo que me fere bastante a sensibilidade laica.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs III

A minha sensibilidade laica sente-se agredida de cada vez que o meu carro passa na Avenida Infante Santo.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs II

Há capelas e funcionários de religiões em Hospitais Civis.

[Rodrigo Moita de Deus]

Protejam as minorias das agressões cristãs I

Que horror! Está um presépio no átrio do meu edifício!

[Rodrigo Moita de Deus]

Educando as massas sobre essa coisa da laicidade

O trabalho hoje publicado no Diário de Notícias sobre os símbolos religiosos nas escolas é um verdadeiro serviço público que o povão devia agradecer enternecido. De resto falar sete ou oito vezes sobre Salazar numa reportagem sobre crucifixos ajuda a sensibilizar as ignaras massas sobre a verdadeira natureza do problema. É como se José Saramago nunca tivesse saído da direcção do jornal.

[Rodrigo Moita de Deus]

terça-feira, novembro 29, 2005

O Conservador desconfia do "Poder" e do "Bem"

Eduardo,

1. Parece que acabamos sempre por concordar. Mas, coisa inevitável, dois conservadores discutem sempre. É da praxe. Às vezes, perguntam-me: “como é que dois conservadores podem discutir?”. Respondo sempre: “exactamente porque somos conservadores”. O pluralismo, aqui, não é coisa para enfeitar a parede. Aqui, faz-se pluralismo.

2. A minha crítica a Schmitt é feita a partir de uma posição de quem defende as instituições do liberalismo (para um conservador, o liberalismo é a forma conservadora de organizar a modernidade). Não podes negar: Schmitt foi um adversário da democracia representativa. Criticou-a. Mais: propunha uma forma democrática absoluta, na linha de Rousseau.

3. Claro que há tensão. Nunca a neguei. Aliás, defendo-a. Os homens tendem para o conflito. Não só porque cada homem pode ser um anjo e uma besta no mesmo minuto, mas sobretudo porque há várias concepções de Bem; há sempre várias morais substantivas em jogo. Negar isto – como sempre fez a Esquerda (a verdadeira, a Progressista, a Totalitária porque Utópica) – é negar o pluralismo dos homens.
A grande preocupação do conservador deve ser o estabelecimento de um Poder que funcione como base legítima para essa conflituosidade natural e, diria mesmo, saudável. O conflito - quando enquadrado num regime constitucional que pressupõe a existência de tensão - é salutar. Isto implica recusar constituições que são, na verdade, tratados de ética com a pretensão de acabar com o conflito e a tensão entre os homens (a nossa constituição, por exemplo, tem a pretensão de salvar o mundo em cinco minutos). O conflito não pode, nem deve ser anulado. Mas deve ser enquadrado. A vida civilizada é isso: conflito com luvas de pelúcia (saudade para Ana Albergaria). Em Schmitt, o conflito entre homens é anulado pela decisão de um homem. Em Schmitt, o conflito não é enquadrado pela lei.

4. Ainda bem que falas de Burke. Quando atacou a revolução francesa, Burke reagiu em defesa de uma tradição inglesa (liberal) de governo. Ora, pelas mesmas razões e sem qualquer contradição, Burke apoiou, anos antes, a revolução americana. Tudo isto para dizer o seguinte: também considero que a lei não é eterna. Nem deve ser desculpa para a inércia. Quando a lei não é justa, quando não se enquadra no quadro axiológico X, deve ser alterada, ou, melhor, devemos lutar para que seja alterada.
Defenderei sempre o Ocidente Liberal (tenho este defeito: quando escrevo, coloco-me, quase sempre, num ponto de vista que não é português mas ocidental. E, hoje em dia, defender Portugal implica fazer este desvio e olhar para Lisboa a partir do exterior). Quando vejo as Mouffes e os Negris a falar em democracia radical com base em Schmitt (e tens de convir que há ali muito para aproveitar; resta saber se quem usa Schmitt ainda pode ser de Esquerda…) reajo em defesa da ordem constitucional e liberal que norteia, grosso modo, o Ocidente. Quando defendo a Lei, estou a pensar nisto, no Ocidente em geral. Até porque está relacionado com o meu trabalho. Mas, exactamente pelas mesmas razões, defendo, como sabes, alterações constitucionais na Europa. Não só em Portugal. Se algumas constituições não mudarem (portuguesa incluída), a Europa vai afundar-se. E isto torna-se pornograficamente evidente quando colocamos a Europa na tal perspectiva global. Daqui a 5 anos, o Chile, provavelmente, será superior a Portugal em quase tudo. Um exemplo. Há dezenas. Portugal tem de mudar o seu enquadramento constitucional. Em termos ideológicos, a nossa constituição é uma relíquia de uma época que dava a URSS como vencedora da Guerra-Fria … Em termos de interesses, a Constituição portuguesa é uma ameaça aos interesses dos portugueses. Se Portugal fosse uma Utopia a planar acima do Mundo, vá lá, seria apenas urgente mudar. Mas como Lisboa não é capital de uma ilhota de algodão mas de um pedaço de terra acoplado à Europa, temos mesmo de mudar a Constituição.
Todavia, para defender isto, tens de convir, não é preciso ter Schmitt em mente. Para se pensar que existe uma legitimidade antes da legalidade não é preciso Schmitt. E, com, todo o devido respeito, acho até que Schmitt deve ficar na prateleira.

5. Tenho muita dificuldade em aceitar a Ordem de Schmitt como algo ligado ao conservadorismo. Um conservador não confia no Poder. Confia ainda menos num Poder concentrado num único órgão ou indivíduo. Claro que é preciso o Soberano. Maquiavel, Hobbes e Hume/Madison/Burke (a até Kant, mas isso é outra conversa). É por aqui que vou palmilhando caminho. Defendo sempre o Estado, a Constituição (liberal, entenda-se) e o Indivíduo. E, ponto essencial, a nossa civilização baseia-se num contrato de Cidadania entre o Indivíduo e o Estado Soberano através da Constituição. Ora, o Soberano de Schmitt – e aqui está, a meu ver, o problema – está fora deste contrato. Está fora da lei. Não confio neste poder. Venha da esquerda ou da direita.

6. O conservador deve evitar falar em Bem. Ou melhor, o “Bem” do conservador é evitar que o Poder exerça a sua decisão em nome de um Bem absoluto. Um conservador pede sempre o seguinte à cadeira do Poder: “minha amiga, não estrague muito, se faz favor”. Para um conservador, a Política não pode resolver tudo. Nem tudo é político. Como grande defensor da diversidade e pluralismo, o conservador exige a existência de áreas fora do alcance da decisão do Poder.
Claro que o conservador não deve ter medo de dizer certo ou errado, sim ou sopas. Há valores absolutos. Mas para um conservador, esses valores absolutos estão a montante (base constitucional relacionada com o passado) e não a jusante (posse de um Bem colectivo relacionado com o futuro).

Grande abraço,

[Henrique Raposo]

Ninguém se preocupe, os crentes na laicidade do Estado estão a estudar alternativas à cruz e aos outros símbolos cristãos

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[Rodrigo Moita de Deus]

Poste com dedicatória ao lobo de Tavira

Estas causas moviam Citereia,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que há-de ser celebrada a clara Deia
Onde a gente belígera se estende.
Assi que, um, pela infâmia que arreceia,
E o outro, pelas honras que pretende,
Debatem, e na perfia permanecem;
A qualquer seus amigos favorecem.

[Rodrigo Moita de Deus…salvo seja]

Parabéns Adolfo

Não tenho o teu endereço de e-mail, pelo que "posto" aqui!

[JBR]

Criaturas do mundo do fantástico com medo histórico de crucifixos


Aristocratas romenos...

republicanos portugueses doutros

...e deste tempo!

[Rodrigo Moita de Deus]

Num tempo de balbúrdia há uma organização que funciona sempre

A CGTP apelou hoje ao voto na esquerda nas próximas presidenciais mas recusou-se a “indicar nomes”. Não precisam. Nunca precisaram.

[Rodrigo Moita de Deus]

Lá está o candidato a esconder-se atrás dos seus silêncios.

Mário Soares recusou pronunciar-se sobre a polémica dos crucifixos.

[Rodrigo Moita de Deus]

Natal Acidental

Está aí a chegar a grande festa de Natal (Eduardo Nogueira Pinto, Francisco Mendes da Silva e Nuno Costa Santos: a gerência chama-vos à recepção).

[PPM]

Muito pouco Querido

Francisco, do Mau Tempo no Canil, não ligues muito ao blogómetro, porque as audiências da blogosfera, sobretudo no que diz respeito às que são da responsabilidade de Paulo Querido (habitual comentador de assuntos blogosféricos na imprensa escrita e proprietário da weblog.com.pt), têm mesmo muito que se lhe diga. Olha, aí está uma boa investigação jornalística: verificar a credibilidade de algumas extraordinárias audiências de blogues. Eu já desisti de increver o meu blogue nesse famigerado blogómetro. Quem quiser comparar audiências que vá aos diversos sitemeters e compare. Mas nem sempre os números são pessoas.

[PPM]

Ah e tal o Schmitt

Então e gajas?

[Francisco Mendes da Silva]

Laicidade e uns pontapés valentes

Sou laico, sou laico, sou laico!ARL-002-1

Esta é a liberdade religiosa proposta pela Associação República e Laicidade, a mesma que exigiu a retirada dos crucifixos das escolas públicas - as imagens constam do sítio da mesma associação. O facto da senhora de seio descoberto que representa a República estar a calcar com um pé o senhor vestido de preto que parece ser um padre (figura da esquerda), ou o facto da senhora e do senhor de preto que parece ser um padre estarem a insultar-se mutuamente com grande à-vontade gestual (na ilustração à direita), devem ser entendidos como dois exemplos da profunda liberdade religiosa a que todos os portugueses terão direito.

[PPM]

PS. Para esclarecimento de alguns comentadores, o texto Cruzes, canhoto (III) é pura ficção. Nem o Governo de José Sócrates propôs a abolição dos feriados religiosos, nem essa medida foi aplaudida por Francisco Louçã. Mas como a realidade por vezes ultrapassa a ficção, li algures num jornal de hoje que o senhor que preside à Associação República e Laicidade, exige o fim dos mesmos feriados, que devem ser substituídos por "pacotes de férias" à escolha de cada qual.

O conservador não é um conserveiro

Henrique, falaste (bem) e disseste. Agora que estamos esclarecidos, deixa-me acrescentar ainda o seguinte: a minha veia schmittiana (e conservadora) leva-me a encarar muito a política como uma luta. Não uma luta dramática, de vida ou de morte, onde tudo vale. Não uma luta que resulta de uma angústia contínua. Mas uma luta entre duas ou mais escolhas. E, mesmo nas mais pequenas coisas, a escolha, a decisão, implica sempre uma tensão.

A estabilidade política – sem dúvida desejável – não deve anular esta tensão. Mais, a estabilidade política só se resguarda com a decisão política. E a decisão política – insisto –, por menos relevante que seja, implica sempre alguma tensão. A decisão é uma opção. A opção leva à preterição. A preterição desagrada aos preteridos.

Como forma de gerir tensões, escolhas, desagrados e frustrações, a decisão política deve ser uma decisão legitimada numa autoridade por muitos reconhecida e num quadro comunitário onde avulte um sentimento de pertença. Caso contrário, por que haveriam os preteridos de cada decisão política acatá-la. Daí o soberano. Daí a nação. Daí o Estado. O Estado-nação.

Não há dúvida que a lei é fundamental. A lei é a ordem que permite viver em sociedade. Mas a lei não é sagrada. É a vontade política – democrática no nosso caso – que a legitima. E a vontade política (não tem de, mas) pode mudar. Em querendo, trabalha-se para uma nova vontade política e muda-se a lei. Mas para isso é preciso confronto. Criar alguma tensão. Com ou sem dramas, consoante os tempos. Com ou sem grandes estragos, consoante os valores em causa. Não será um bom exemplo de que o político precede o jurídico a vontade que se está a tentar instituir de mudar a (ou de) Constituição?

A política nasce do confronto. De palavras, de ideias, de argumentos, de votos, de armas. O conservador não venera a legalidade porque é legal. respeita a lei quando é justa. Objectivamente justa, tendo em conta o seu quadro axiológico. Por outro lado, o conservador não é alguém que se limita a fazer perguntas, a reflectir sentado na sua cadeira de baloiço sobre o que é o Poder. O conservador também quer que o seu Bem prevaleça. Também quer ter Poder para, no Poder, fazer com que o seu Bem prevaleça.

O conservador é, antes de mais, um realista. O conservador sabe que a política, tal como a vida, é feita de tensões. O conservador não é passivo. O conservador sabe que decidir é a melhor forma de gerir os conflitos emergentes das inevitáveis e naturais tensões que a vida, em geral, e a política, em particular, implicam. O conservador valoriza, e muito, a decisão política. Mesmo que seja a decisão de deixar tudo como está.

Para Carl Schmitt (que não só formulou a pergunta "o que é o Poder", como lhe deu resposta), o político sobrepõe-se ao jurídico, na medida em que aquele precede este. Mas, uma vez instituída a ordem jurídica, só em casos excepcionais ela poderá ser derrogada. Não vejo qual é o problema. Todas as constituições prevêem a declaração de estados de excepção pelo soberano máximo. Todas. (saber quem declara o estado de excepção é, aliás, a forma clássica de saber quem é o soberano).

De resto, é bom não esquecer que as más leis são a pior forma de tirania. Não sou eu que o digo. É Burke. Alguém que – bem sei – tu também respeitas. E é precisamente por não achar graça ao facto de uma certa esquerda andar a tentar resgatar Carl Schmitt que eu ando com ele debaixo do braço.

[Eduardo Nogueira Pinto]

Só aqui entre nós que ninguém nos ouve

Quantos é que já leram os Lusíadas completos?
E quantos é que já leram os Lusíadas há menos de quinze anos?

[Rodrigo Moita de Deus]

Graçolas para políticos em ascensão

Só somos alguém na política quando tivermos as nossas conversas telefónicas transcritas nas páginas de um diário sério.

[Rodrigo Moita de Deus]

Logo depois do unicórnio e do Santo Graal…

…vou procurar o primeiro estudo de viabilidade encomendado por um governo que demonstre que determinado projecto não tem viabilidade.

[Rodrigo Moita de Deus]

E nem um obrigado?

Porque será que o editor do jornal Público tem uma tendência para colocar as reportagens sobre a campanha de Mário Soares em baixo de página e sem fotografia? José Medeiros Ferreira, ontem.

Hoje, o Público já trazia a reportagem sobre Soares com fotografia e no topo da página.

[Rodrigo Moita de Deus]

Escrita em dia

Nunca devemos subestimar ninguém. O novo coordenador do plano tecnológico deve ser um tipo excepcional. Imaginem vocês que o homem tomou posse e menos de uma semana depois o governo tinha um documento fantástico para apresentar.

[Rodrigo Moita de Deus]

Aposto como foi um daqueles rapazinhos todos engomados que se lembrou desta

Mário Lino: “a eventual privatização da ANA não está relacionada com a construção do novo aeroporto”. Ainda bem senhor ministro. Por momentos fiquei preocupado. Podia ser que a construção do maior aeroporto português tivesse qualquer coisa a ver com o futuro da gestão dos aeroportos portugueses. Como não tem, o projecto promete.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: As voltas que a vida dá. O ministro terminou a sua intervenção afirmando-se preocupado com o peso do estado na economia

Cruzes, canhoto (III)

Governo de José Sócrates está a ponderar acabar com os feriados religiosos. A medida incluirá já o próximo dia 8, quando se celebra a Imaculada Conceição da Nossa Senhora, mas também o dia de Natal. Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, aplaudiu a decisão, afirmando que "só peca por ser tardia". De acordo com o dirigente bloquista, "os feriados religiosos deviam ter acabado com o 25 de Abril".

[PPM]

Cruzes, canhoto (II)

Depois da queixa contra os crucifixos nas escolas públicas, Associação República e Laicidade exige retirada imediata do Cristo-Rei na margem sul do rio Tejo. Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, está a ponderar substituir o símbolo religioso por uma estátua de Mário Soares.

[PPM]

Cruzes, canhoto

Esta história da retirada de crucifixos das escolas públicas portuguesas, lembra-me outras histórias em França, quando o presidente Chirac se lembrou de laicizar os estabelecimentos de ensino e os locais públicos. E depois deu no que deu.

[ PPM ]

Ainda Schmitt

Grande Camarada Eduardo,

Depois de um tarde e noite dedicadas aos rebeldes do Burundi, às bases americanas no Djibouti e aos piratas do estreito de Malaca, nada melhor que um post sobre Schmitt para acabar o dia.
Gosto de saber que te preocupas comigo e com os meus estudos. O meu sincero obrigado. Também gosto de ver que te obriguei a escrever um grande post. É bom ter retorno. Também gosto de saber que cultivas o perdão… coisa tão pouco schmitteana.

1.Volto a afirmar, para que não restem dúvidas: a não concordância pessoal (que importa isso) não invalida a consideração. Schmitt é fundamental. Schmitt foi, talvez, genial. Schmitt deve entrar, e em força, em qualquer currículo de filosofia ou história das ideias.
É de Schmitt um dos textos que mais me abriu os olhos: “Sobre el Parlamentarismo” (desculpa, mas as minhas edições são todas espanholas; Espanha, aliás, é o país onde Schmitt fez mais escola; acho). Neste texto, Schmitt distingue democracia de massas das práticas e instituições do constitucionalismo liberal. Algo que ainda hoje é essencial, pois existe sempre a tendência para se conceber um único modelo de “democracia”, que, ainda por cima, é sempre o de Rousseau. Mas já voltaremos a isto...

2. Pois, o Romantismo não foi um movimento de sentido único. Naturalmente. Teve várias faces. Como qualquer outro grande movimento. Como já escrevi várias vezes, também não há um Iluminismo. Há vários. A minha base é sempre o conservador, que também foi um iluminista das terras altas, David Hume.
Sim, o romantismo teve uma face que assenta, exactamente, no “Eu”. Um romantismo que, hoje, dá muito jeito aos pós-modernaços que fazem análise apenas e só a partir do seu sofá. Mas este romantismo não age sobre o mundo; apenas apreende o mundo de certa maneira, de maneira estética.
Quando falo em Romantismo em política (vamos lá, então, ser rigorosos) falo daquilo que o romântico, comunitarista e vitalista Tönnies cunhou como “Gemeinschaft”, isto é, uma Comunidade ou Nação definida por critérios exclusivos de pertença. Há, se quiseres, um “Eu” colectivo, o Volk, a Vontade Geral unida em redor de um soberano absoluto.

3. Agora pergunto: o “decisionismo” de Schmitt é conservador? Em meu entender, o Conservadorismo é a desconfiança desse Poder absoluto que o decisionismo de Schmitt impõe. Melhor: o conservadorismo é ter a noção de que o Poder é necessário e, simultaneamente, ter a noção de que é preciso controlar esse mesmo Poder. Ser-se conservador (e eu sou conservador, não te esqueças) é pensar nessa tensão. Coisa que mais nenhuma predisposição ou ideologia faz. As outras ideologias querem ter o Poder para implementar o seu Bem; os conservadores reflectem sobre o que é isso de Poder.
Em Schmitt, não vejo nada disso. Vejo o culto da decisão pela decisão (a típica atitude vitalista do romantismo: um acto de vontade política e heróica que fustiga o status). Mais: é uma decisão que depende de um único ser, o Soberano. Não há tensão ou inquietação com a posse do Poder. O decisionismo tem mais a ver com uma atitude quasi-revolucionária do que com a Ordem conservadora. O soberano de Schmitt está fora da alçada jurídica. Não é preciso ser-se da tradição liberal para ficar com a pulga atrás da orelha. É que depois do Hobbes (o decisionista, digamos, assim), escreveu-se e fez-se muita coisa essencial. Melhor: Hobbes é a base, mas é a base de qualquer coisa. E não quero perder essa coisa. Hobbes – e Maquiavel – criou as condições para a tradição liberal; Schmitt pretendia reverter essa construção. Não obrigado.

4. Em Schmitt, há a crítica ao suposto carácter mecânico da vida normal e repetitiva. Só na “excepção” essa condição repetitiva poderia dar lugar à verdadeira dimensão da política e do homem. Isto, meu caro camarada, é romantismo.

5. A “democracia” de Schmitt é uma cópia da democracia do primeiro romântico: Rousseau. É uma democracia sem aparelho liberal de controlo. É uma democracia total, destinada a superar as desumanizantes estruturas liberais. Uma democracia que exige a ausência de heterogeneidade, de pluralismo. Como qualquer romântico que se preze, Schmitt não aturava dissidências.

6. Inimigo vs. Amigo. Sim, em tempos de crise. Perante bin Laden, por exemplo, não há contemplações: o inimigo é o Outro que deve ser combatido. Ponto final. Mas há um problema (para quem vê a coisa de uma perspectiva do status liberal)… Sim, Schmitt diz que esta dicotomia não é um conceito absoluto mas um critério. Mas é um critério de constante aplicação. A política define-se sempre, sempre e sempre, em Schmitt, por esse critério, por esse cálculo. Mas, a meu ver, um conservador deve fazer os possíveis para evitar tantos momentos de ruptura e decisão sim vs. não. Uma sociedade em constante divisão é uma sociedade para esquerdistas da democracia avançada.
Em Schmitt, há um constante estado de excepção. E isso inquieta-me. Posso estar equivocado na minha análise, mas há, em Schmitt, uma correlação sempre directa e quase instintiva entre soberaniadecisão e estado de excepção. E isto numa lógica ad eternum. Como se política fosse um estado de guerra permanente (se calhar, Schmitt é um reflexo do seu tempo).
Um grande conservador – Eric Voegelin – dizia qualquer coisa como isto: o conservadorismo é o pensamento da tensão. O homem vive em permanente tensão entre vida e morte, amor e ódio, verdade e mentira, etc. Mas tudo isto ocorre num ponto essencial para qualquer conservador: o pré-político, a vida antes da política, enfim, a sociedade, que deve ter muito espaço de manobra. E para que exista um pré-político assim é preciso um Poder estável e pouco dado a tensão e decisões permanentes e vitalistas. Ora, Schmitt, à boa maneira romântica, anula esse espaço entre o político e o pré-político. Tudo é político porque tudo é uma unidade. Tudo é político porque tudo é acto de vontade. Schmitt não é conservador. A meu ver.

7. Mas, sabes que mais, o que me preocupa sobre Schmitt é o aproveitamento que a esquerda radical está fazer das suas teses. A Chantal Mouffe anda a atirar o barro à parede há mais de 10 anos. Na sexta, indiquei que o editor da New Left Review também anda a cantar vivas a Schmitt. Agora, Negri anda com ele debaixo do braço. Não é invenção minha. É um facto. E um facto perigoso. A esquerda, à imagem de Schmitt, não gosto de um Estado submetido a controlos externos e legais. Mais: o próprio conceito de Político de Schmitt é perigoso quando em mãos revolucionárias. É que o Político de Schmitt não remete para a política quotidiana, mas para uma suposta essência, algo que está antes de tudo e que, por isso, existe antes da lei. Perigosamente revolucionário. E eles - os esquerdistas - sabem disso. São esquerdistas, mas não são parvos.

Camarada, um grande abraço,

[Henrique Raposo]

segunda-feira, novembro 28, 2005

Schmitt sabe o teu futuro, romântico

Schmitt, Baby Schmitt
Henrique, tens de entender que tocaste num tema sensível para o Rodrigo. Tu até podes ter muitos livros sobre os românticos mas ele escreveu um sobre o assunto. O Eduardo não escreveu mas, acredita, poderia ter escrito.

Olha, não vale a pena continuarem estas discussões, estás a ver aquela Senhora ali em cima?

Ela pode ajudar-vos, a sério, a descobrirem se são mesmos românticos. Ela lê livros, mas também cartas.

Chama-se Schmitt. Baby Schmitt, baby...

[DBH]

PS. E também escreve livros!

Razoabilidade e bom senso

Não há razão nenhuma para existirem crucifixos pendurados nas salas de aula. Não há razão nenhuma para o assunto ser prioridade do ministério da educação.

[Rodrigo Moita de Deus]

Eles também são uns românticos...



Seus...seus...schmittianos...nacional-socialistas...

[Rodrigo Moita de Deus]

Chat Acidental

Acho inacreditável Eduardo! Quebraste a regra de ouro: citaste autores e leste mesmo o livro.
Assim sendo desta vez estou do lado do Henrique. Eu estou sempre ao lado de quem não lê livros.

[Rodrigo Moita de Deus]

Também sou romântico...



Mas schmidtiano...

[DBH]

Interlúdio de nostalgia do futuro

Será que um dia, quando formos todos muito velhos, teremos a oportunidade de mostrar aos netos estes "posts" e estes comentários, tal como noutros tempos se podia mostrar a árvore onde, de canivete em punho, se cravava o nome de alguém?

[Leonardo Ralha]

Contra o romantismo político


[ENP]

Henrique Raposo, o revisionista

Quanto mais leio o Henrique, mais preocupado fico com os seus estudos académicos sobre o pensamento e a obra de Carl Schmitt. É que ao atribuir-lhe o epíteto de romântico, o Henrique está a passar por cima de um dos mais importantes ensaios do velho Schmitt, cujo título é, precisamente, Romantismo Político (Politische Romantik). Neste texto, Schmitt defende as noções de bem e de mal, de justo e de injusto, de certo e de errado (sim, de certo e de errado), contra o relativismo daquilo a que chama o romantismo político (nas suas palavras um ocasionalismo subjetivizado). Romantismo político esse ao qual Carl Schmitt faz equivaler o liberalismo burguês, considerado igualmente como uma forma de romantização da experiência política unicamente feita a partir do “eu”.

Ou seja, aquilo a que Carl Schmitt se refere como o romantismo político - atacando - não é senão a base a partir de onde constrói toda a crítica que faz ao liberalismo. E é depois e só depois, como contraproposta a este romantismo/liberalismo, que Schmitt vem (com brilho, diga-se) defender o decisionismo/conservadorismo.

Posto isto, afirmar que Carl Schmitt padece de romantismo político, quando na realidade é um dos seus mais ferozes críticos, é mais ou menos o mesmo que dizer que o Barbas milita na Juve Leo. Mas, enfim, ao Henrique que parece também padecer de algum romantismo na análise das ideias políticas (ex: “Schmitt é normalmente descrito como um “conservador revolucionário”; não concordo - um conservador não pode ser revolucionário”), tudo deve ser perdoado. Não sem antes, porém, deixar um reparo schmittiano: as coisas nem sempre são o que queremos que sejam.

Claro que poderás vir agora dizer que o "romantismo" que atribuis a Carl Schmitt é diferente daquele sobre o qual este se debruça em Politische Romantik. Claro que sim. Mas então qual é? Pergunta afinal quem lê o Acidental. É que, mesmo sendo isto um blog, quando se pretende escrever posts analíticos sobre matérias um tanto ou quanto mais complexas, torna-se conveniente começar por definir os conceitos usados. Sobretudo se estes divergirem daqueles que imediatamente associamos aos autores sobre quem escrevemos. Eu percebo perfeitamente que não gostes da filosofia política de Carl Schmitt. Schmitt não é um liberal. Mas é escusado chamar-lhe nomes. A menos, claro, que estejas na palhaçada.

(Já no que respeita a algumas das consequências que o filósofo retira do seu pensamento, não hesito um segundo em, à luz da História, considerá-las altamente censuráveis. Mas isso é uma outra conversa).

De nada, Camarada.

[Eduardo Nogueira Pinto]

Silêncios que não valem ouro

Escrevi há uns dias que, pelo andar da carruagem, Mário Soares ainda acabava a atacar Cavaco Silva por este falar demais. A minha previsão ainda não se concretizou e não é Soares mas o soarista "DN" quem o faz na sua capa de hoje, acusando Cavaco do supremo crime de andar a repetir-se. Lá dentro, nas páginas interiores, ficamos também a saber que Cavaco não só se "repete" como ainda por cima tem uma "cassete" e atreveu-se, o malandro, a citar "em Braga uma frase de Kennedy que Mário Soares também usou numa intervenção recente" (não vem ao caso que a tal frase de Kennedy talvez seja a mais citada de todas as frases). Mais interessante, porém, é outra notícia onde se dá conta que Soares resolveu finalmente calar-se e não falar sobre política, preferindo antes comentar a relevância estratégica das migas no futuro de Portugal. Como o título é "Soares à Cavaco não fala de política", pergunto-me agora quando é que os apoiantes de Mário Soares começam a criticar o silêncio do candidato.

[PPM]

Beijos repenicados

Mais de 1200 agressões nas escolas no ano lectivo de 2004/2005. A ministra da Educação já desvalorizou a notícia: "Há efectivamente um aumento de brigas entre alunos, mas que não é em nada preocupante", disse Maria de Lurdes Rodrigues. Afinal de contas, só 191 casos obrigaram a tratamento hospitalar. Podem continuar as pequenas escaramuças.

[PPM]

O capitalista Soares

Fiquei agora a saber que Mário Soares só responde a quem vende. Será que não passa de um capitalista selvagem?

[PPM]

Incoerências multiculturalistas

O dogma reza assim: tudo é cultura; toda a manifestação cultural é legítima. Ora, se tudo é cultura, então, os católicos têm direito a expressar a sua cultura em liberdade e sem megafones esquerdistas nos ouvidos.

Não percebo. Os multi lançam um amor em estado virginal sobre outras religiões, sobre o Outro, mas ao mesmo tempo, lançam um ódio puro sobre os católicos. Onde é que pára aqui a coerência?

[Henrique Raposo]

PS: a única coerência do multi é o ódio ao Ocidente. Tudo o resto é secundário. Tudo o resto é arranjo táctico.

T-shirts para o aeroporto da Ota

Ota......ota o quê?ota de otárioquem?

Pró e contra o aeroporto da Ota.

[PPM]

E para o resto da semana um poste peripoético da doutrina dos beijos

Por outro lado, os liberais gostam de beijos repenicados. Eis a divergência ideológica que nos separa. Eis que as teses divergem.

Perguntem-me o que é um beijo
e eu aponto a montante:
entre a sede e a obscenidade,
entre a avidez e a luxúria, ali mesmo,
na avenida larga para a imoralidade.
Perguntem-me o que é um beijo
e eu aponto para um olhar luminoso.
É o demónio que não afugento,
quase tara de incendiário
à solta num convento.
Repenica o inocente,
mas beijo é coisa de predador:
é guerra é lobo é tragédia;
é fazer por que não esqueçam o sabor.

Perguntem-me o que é um beijo:
É vontade! Não é intenção!
É querer! Com ou sem propósito.
É fogo que arde, sim, mas garanto que se vê
É fazer mas também é desejo,
É roubar antes que alguém to dê…
Até admito que tem algo de doutrinário.
beijo por princípio é: subversivo…
deliciosamente revolucionário.
Mas isso não é coisa que leia
nas aulas que tu dás.
O beijo é de esquerda, é de direita.
É de frente e às vezes por trás.
A misturada faz o beijo ditoso
rejeita-se lamento pela incompreensão.
chocho que é bem roubado,
tem mais cem anos de perdão.

Beijo não é coisa de pátio de escola.
É tarracha, tarrachinha,
é parafuso…em rosca moída
é ardor incontido, que até rebenta
É jogo de bate pé,
só com múltiplos de cinquenta.
Um beijo repenicado?
Tiraste isso das páginas do livro?
O liberal gosta sempre de negar a tenção.
Um beijo repenicado?
Isso é coisa de menina!
Que o exercitem entre elas, pois então!

[Rodrigo Moita de Deus]

Revisão da matéria dada – genealogia das doutrinas em verdadeiro raciocínio mirandês

A luta anti-globalização não é de esquerda, explico:

1. Schmitt não é liberal
2. Se schmitt não é liberal logo não gosta de liberdade
3. Se não gosta de liberdade logo é um totalitário
4. Se é um totalitário logo é um defensor de Hitler
5. A globalização é liberdade
6. Se a globalização é liberdade logo os movimentos anti-globalização são anti-liberdade
7. Se são anti-liberdade logo são conservadores
8. Se são conservadores logo são de direita, logo são leitores de Schmitt e logo são defensores de Adolf Hitler, discípulos de Rosenberg e tal…

Logo a anti-globalização não é de esquerda.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: Para opiniões sobre outras matérias é favor aplicar a matriz: “se não é liberal, não gosta de liberdade.” Obrigado.

Revisão da matéria dada – os guerreiros e meninos

A semana passada foi profícua. Aprendi que:

1.O amor à liberdade tem copyright;
2.Os liberais são discriminados;
3.João Miranda foi crucificado

Aguardo por isso com triplicada impaciência o segundo volume do “Manual de bons costumes do verdadeiro liberal”.

[Rodrigo Moita de Deus]

A minha família era muito mais pobre que a tua

A campanha chegou agora ao nível do complexo social. Os principais candidatos preparam-se para discutir qual deles andou durante mais tempo descalço. Na realidade o país mudou pouco desde que jovem Salazar chegou a Lisboa vindo da aldeia.

[Rodrigo Moita de Deus]

Freitas as contas

Depois de Freitas do Amaral ter posto em causa a mais antiga aliança internacional de Portugal, criticando despropositadamente a actual presidência da União Europeia, não é de admirar que a Espanha aproveite e Zapatero escreva artigos de opinião a duas mãos com Tony Blair. Uma cimeira para o futuro, no "Público" de hoje, é um testemunho conjunto onde não consta a assinatura de José Sócrates.

[PPM]

Guerra de civilizações?

Países árabes e países europeus, reunidos na cimeira de Barcelona, não se entendem na definição de terrorismo.

[PPM]

Ideologia e Predisposição. Jusante e Montante

1. No rescaldo do período revolucionário francês, surgiram, grosso modo, três grandes atitudes: a progressista (Comte), a tradicionalista (ex: Maistre) e a liberal clássica (ex: Constant).

2. E qual era a questão-chave da época? Resposta: como reorganizar a sociedade depois do choque, como reorganizar a relação da sociedade com o Poder?

3. Maistre queria o regresso (impossível) à ordem anterior, à ordem fechada e total do chamado antigo regime. Uma ordem onde tudo estava definido à priori, onde não havia mudanças, evoluções, etc. O Homem – e definido assim: Homem – é uma besta, um animal e por isso tem de ser repreendido e controlado por um Poder total. O indivíduo não é senhor do seu Futuro. Perigoso? Sem dúvida, mas de uma escrita formidável. Como alguém escreveu, “Maistre, the dark genious of the French Counter-Revolution”.

4. E Comte, e os progressistas? Bom, os progressistas foram inspirados por Maistre... “Ultraje”, gritam os progressistas. "Não é possível que o Bem progressista tenha como raiz uma posição reaccionária?", gritam. Ora, mas é mais do que possível. É uma das realidades mais bem escondidas da história. A verdade, por Comte: «este grupo imortal – a escola retrógrada - , sob a liderança de Maistre vai sempre merecer a admiração dos Positivistas». Paradoxal? Não. Os progressistas também criaram um sistema fechado, onde o Futuro pertence ao Poder, onde não existe liberdade de escolha para o indivíduo. Aqui, o Futuro também não é individual. A solução progressista, desde a 1789, tem sido substituir a velha ordem fechada por uma nova ordem fechada, onde o futuro se encontra fechado, onde todos, de A a Z, têm de trabalhar para esse Futuro semi-divino. Um dos maiores do XX, Michael Oakeshott, chamou a isto UNIVERSITAS. Mais: os ditos progressistas, sobretudo Marx, imitaram Maistre noutra coisa: elaboração de um conceito total de Homem. Os progressistas tendem para um Homem bom, enquanto os Maistreanos tendem para um Homem mau. Mas debate entre optimismo e o pessimismo em relação ao Homem esquece sempre o essencial: não há HOMEM, apenas homens.

5. Resta Constant. E para definir Constant, o liberal clássico (em “On Human Conduct”, de Oakeshott, um livro sem muitas citações, a maior delas foi retirada de uma obra de Constant. O conservador anglo-saxónico Oakeshott é… um liberal clássico), convém recuperar o outro conceito de Oakeshott: SOCIETAS. A Societas é, grosso modo, a sociedade liberal. Algo que começou a ser desenhada na história inglesa desde a Magna Carta, que foi consubstanciada na constituição americana de 1787, e que é a matriz actual da civilização ocidental, do Chile ao Japão (sim, do Chile ao Japão; se ainda não repararam, o Ocidente já não é apenas o Atlântico).
Constant, ao invés de tradicionalistas e progressistas, não quis uma sociedade fechada às ordens de um Poder que detinha a chama sagrada. Não. Constant fez algo fabuloso: abriu o Futuro. O Futuro, com o liberalismo clássico, deixa de ser uma condição política. O Futuro passa a ser uma condição individual. Há “apenas” uma base jurídica a montante, mas a jusante (o Bem, o futuro colectivo) não há nada. Essa base a montante é um valor absoluto? É. Mas um valor absoluto não é sinónimo de ideologia. É isto que marca a diferença entre uma ideologia (Comte, Maistre) e uma “predisposição” (Constant). Uma ideologia fecha-nos dentro de um quadrado sem saída, onde o futuro já foi escrito por deus ou por um gajo com vergonha de ser rico. Há montante e, acima de tudo, há uma overdose de jusante: o Bem e o Futuro copulam por todo o lado, numa orgia de prazer ideológico. E o que sucede quando alguém não acha graça a esse Futuro? Mata-se esse alguém, esse ímpio que não sonha (já repararam como os tatalitários até os nossos sonhos querem resgatar e controlar?). Ao invés, uma predisposição não tem um futuro glorioso a jusante, apenas um forte base a montante, a tal Constituição, a tal Lei que os Marcuses deste mundo - como Negri - consideram como algo tirânico.

6. O futuro não pertence a deus, nem a história pertence a um livro. O futuro é meu e a história nunca foi de ninguém.

[Henrique Raposo]

A Rua








Só para lembrar ao HR que, não só a Rua não foi sempre "o local de sempre da Esquerda Radical" como, muita da esquerda, radical ou não, nunca foi à Rua.

Quando ao resto, inclino-me perante a sapiência.


[DBH]

domingo, novembro 27, 2005

Quando se fecha uma porta, abrem-se duas janelas

Tal como o Leonardo Ralha , também lamentei que o Blogue de Esquerda fechasse as portas. Não tanto por ser uma instituição, que não convém levar tudo isto muito a sério. Lamentei porque a blogosfera só tem piada se existir pluralismo e confronto de ideias. Tareia virtual, quando necessário. Eu levei muita pancada do Blogue de Esquerda, mas também lhes dei alguma. Quase fiquei a temer, com o seu fim, que não sobrasse mais ninguém de jeito em quem bater. Mas, afinal, estava enganado. Segundo fiquei a saber por aí, era tudo um grande truque e o BdE multiplicou-se, para já, em dois blogues de esquerda: A Invenção de Morel e Aspirina B. Podemos, por isso, regressar às hostilidades.

[PPM]

Negri: um revolucionário vitalista e romântico


1. Negri não é marxista. Quando Zizek diz que "Empire" é o «Manifesto Comunista do nosso tempo», só pode estar a fazer ficção. O que não é surpreendente. Zizek gosta de fazer análise Política a partir do ângulo Cinematográfico (Baudrillard vê o mundo a partir da TV. Zizek vê o mundo pelo celulóide. Mal por mal, prefiro o cinema). Mais fácil: Zizek usa filmes como argumentos políticos de grande alcance. Vou ali fazer um curso de cinema. Para quê? Ora, para ser o próximo líder das Nações Unidas. Não, já sei: temos de colocar um cineasta no Poder. Que tal Godard, Sr. Zizek? Bem me parecia.

2. A ligação da dita Nova Esquerda à escola romântica (o romantismo, vale a pena recordar, não é de Esquerda) é um dos factos mais fascinantes de observar hoje em dia.

3. O ódio à Lei (“doutrina burguesa”) é a matriz-chave do Revolucionário. Com a queda do Marxismo algo teve de ser feito para manter esse ódio. A Esquerda (radical, entenda-se) simplesmente não consegue pensar sem uma teoria total e fechada, algo que diga assim ao ouvido do revolucionário: " 'tás a ver X, o Amanhã chega daqui a uns aninhos e até lá tens de fazer umas maldades a uns quantos burgueses chatos, gordos e corruptos". Sem Marx, tinha de haver um substituto. E a Esquerda pós-Guerra-Fria oficializou uma substituição que já tinha precedentes (Marcuse, Sorel): saiu o Marxismo, entrou a escola romântica alemã (vá lá, não saiu da Alemanha...) Algo que vai, grosso modo, desde Herder/Fichte até Schmitt/Jünger.

4. Carl Schmitt. O novo radicalismo esquerdista deve muito às teorias ultra-românticas e revolucionárias de Schmitt (Schmitt é normalmente descrito como um “conservador revolucionário”; não concordo - um conservador não pode ser revolucionário. Mas isto fica para outra altura). Para Schmitt, tal como para Negri, a Lei, a Constituição de uma Democracia Representativa (Negri: “estou farto desta democracia”) não tem valor perante as demonstrações de vitalidade de poder de uma massa gigantesca de gente. Mais: o poder soberano nasce destas demonstrações de poder. Os radicais de hoje julgam que, por cada manif ou distúrbio que fazem, estão a construir uma nova legitimidade, uma nova legitimidade que destruirá o estado e acima de tudo a lei constitucional. É por isso que se fala de uma tal opinião pública mundial. Parece que já não interessa o resultado das eleições locais, que, curiosamente, negam sempre essa tal opinião pública mundial. Esta é muito boa: hoje em dia, a Rua, o local de sempre da Esquerda Radical, é descrita como Opinião Pública Mundial. O que virá a seguir? O Cocktail Molotov como a Chama da Paz? Bové como Noé dos tempos modernos?

5. Negri é uma mistura explosiva do anti-racionalismo de Foucault e do espírito revolucionário dos românticos totalitários. Tem muito pouco de Esquerda. Leia-se também Jünger, outro “conservador revolucionário”. Leia-se e compare-se com o discurso do radicalismo de esquerda actual: Negri, tal como o vitalista Jünger, acha que a violência... purifica.

[Henrique Raposo]

SOSoares

"Sem o PS, Soares, provavelmente, afunda-se", escreveu [Paulo Pedroso] no seu blogue (ocanhoto.blogspot.com).

[PPM]

A regulação liberal

A Autoridade da Concorrência chumbou o negócio de concentração entre o grupo Barraqueiro e a Arriva. O argumento de que se criaria uma quota de 96% no mercado rodo-ferroviário do eixo Lisboa-Setúbal faz todo o sentido. Lembre-se que este foi o primeiro grande chumbo de uma operação de concentração pela Autoridade da Concorrência desde que foi criada.
Na base de um estado liberal estão as entidades reguladoras. Estas devem ser o garante da livre concorrência e o primeiro passo para a competitividade de um país. Infelizmente, em Portugal, os organismos reguladores têm sido de uma forma geral passivos, lentos, pouco interventivos e raramente frontais. Em muitos casos são utilizados pelo Governo como instrumento da política económica. Assim sendo, é de louvar esta atitude corajosa. Esperemos que crie jurisprudência e ajude a criar a cultura liberal fundamental para sairmos deste poço profundo onde caímos.

[Manuel Castelo-Branco]

sábado, novembro 26, 2005

"The Real Glory of War is Surviving"



[Henrique Raposo]

Uma tese tirânica que voltou a estar na moda

Este senhor com ar de quem não faz mal a uma mosca é H. Marcuse, um dos "filósofos" mais totalitários do XX, o patrono do Maio de 68 (gostava de queimar livros nos campus americanos) e actual guru (quase nunca citado) de Negri.

A ideia de tolerância deste senhor era a seguinte: «Uma tolerância libertadora [...] deve significar intolerância contra movimentos de direita e tolerância para com movimentos de esquerda».

[Henrique Raposo]

Multi-biologismo ou Lisboa como penico


À saída do cinema, alguém sussurra em voz alta esta pérola:

- Não há respeito pela autodeterminação dos animais!!!

Está visto! Quando o multiculturalismo sair de cena, surgirá por aí uma nova modalidade multi - o multibiologismo. Acho que sim. E faço, desde já, uma reivindicação a favor da autodeterminação dos seres de quatro patas: Lisboa deve ser o penico das bestas. Os cães têm, com certeza, o direito divino, natural e animal de usar os passeios e calçadas para efectuar as suas necessidades. E não pensem que são necessidades biológicas. Não. Os cães têm a necessidade de expressar a sua auto-determinação. Há passeios que, de facto, são genuínas instalações caninas.

E a pérola não foi lançada por uma qualquer jovem na flor da idade revolucionária. Não. A jóia sussurrada em voz em comício pertenceu a uma daquelas senhoras que permitem que a autodeterminação dos seus lulus suje a autodeterminação das minhas caminhadas. Andar por certas zonas de Lisboa é como percorrer um campo de minas. Temos de recuar dois passos, avançar um, dar uns pulinhos, fazer o pino e, com sorte, escapamos com uma cambalhota final. Quem anda por Lisboa está mais do que pronto para enfrentar a ginástica olímpica. Um lisboeta é uma Nadia Comaneci em potência.

Minhas caras senhoras, os animais não têm direitos. Nós, estas coisas imbecis, é que temos deveres com os animais. É muito diferente. Eu tenho deveres para com o meu cão. O meu cão não tem direitos. Mais: o meu cão, por muito que goste dele, não é mais importante do que os meus vizinhos.

[Henrique Raposo]

sexta-feira, novembro 25, 2005

A minha boina


[Henrique Raposo]

Apitos e Schmitt

Caro João Galamba,

V., quando era novo, deveria ser árbitro. Gosta muito de andar de apito na boca, apitando falta a cada momento. Sabe, eu era ponta de lança e por isso não gostava muito de apitos. Gosto mais da bola. Não se leve tão a sério. Isto, meu caro, é um blog. Se faço caricaturas?!! Obrigado por ter reparado. Isto é um blog. É suposto haver humor e desprendimento num blog.

Se não percebe a ligação entre Negri e Foucault é porque não leu Negri.


Eduardo,

1.Gosto sempre de provocar reacções. Como sou ponta de lança, gosto de ter centrais duros por perto. Dá mais gosto. Dá pimenta.

2.Quando o soco vem de camaradas, não me importo de ser saco de boxe.

3.Também gosto de perceber que tens a necessidade de reconduzir a minha suposta idade intelectual para a minha idade cronológica. Sim, é verdade, como dizia Nelson Rodrigues, tenho todos os defeitos e mais um: o da juventude. Mas, este tipo de atitude faz-me sempre lembrar a relação de Creonte com o seu filho.

4. Em relação ao Schmitt. Já estudei Schmitt. Academicamente. Já usei Schmitt como grelha conceptual várias vezes. Academicamente. Felizmente leio tudo. Aqui em casa não há santos nem malditos. Mas aqui, num blog, não tenho que mostrar galões a ninguém. Acho que concordarás comigo que isto – um blog – não é um sítio de responsabilidade institucional. Ou é? Felizmente, aqui, não tenho que expressar tudo aquilo que sei. Posso ser curto, redutor e, mais, posso até estar errado. Se achavas que eu estava errado, poderias, então, expor a tua visão sobre Schmitt.

5.Schmitt é um dos pensadores mais interessantes do XX. Toda a gente que estuda, sem má-fé, estas coisas pensa o mesmo. Mas Foucault e Marx também são interessantes. Uma coisa é considerar interessante a grelha epistemológica de Schmitt. De acordo. Uma coisa é achar genial algumas análises (o inimigo vs. amigo de Schmitt é, por exemplo, a grelha que melhor explica a forma como Bin Laden vê o Ocidente; tem outro texto fabuloso sobre a democracia e o parlamentarismo). De acordo. Mas outra coisa, bem diferente, é concordar com o seu nível epistémico (por oposição ao epistemológico), com aquilo que sai, com as soluções normativas. Solução e Análise são coisas diferentes. E aí, Schmitt, foi, no mínimo, um autoritário, um defensor da violência contra a ordem liberal, um crítico da legalidade demo-liberal. Não é por acaso que a estrema esquerda (a chamada nova esquerda) de hoje começa (ou já começou há muito tempo) a relegitimar as críticas violentas de Schmitt à suposta fria e desumanizada ordem liberal. A ideia de que o “político” – a vontade política - está antes do Estado e da lei dá muito jeito ao radicalismo de hoje. Aliás, ao radicalismo de sempre. Mais: a ideia – típica das escolas germânicas - de que qualquer ordem legítima exige uma unidade em redor de X dá, então, um jeitão ao esquerdismo viúvo.

Obrigado pela atenção, Camarada

[Henrique Raposo]

Só uma palavrinha, ó sôtôr...

O Dr. Sampaio não poderia dizer umas palavrinhas ao país sobre o que se comemora hoje, 25 de Novembro? Pelo menos ficava para a posteridade, num dos seus inúmeros livros de angústias, que também o Presidente da República preferia a Democracia à "democracia"; o primado da Lei à subversão de uns quantos cabeludos; a iniciativa e propriedade privadas à arruaça de outros tantos "ocupas".
Vá lá, não custa nada...

[Bernardo Pires de Lima]

Se o comntário não vai ao post, vai por post o comentário

Amigo Henrique,

Reduzir Carl Schmitt a "um totalitário defensor de Hitler" é coisa de quem está ainda a dar os primeiros passos na percepção das ideias políticas (ou de que as percepciona via wikipidia). Por outro lado, é bom. É sinal de pubescência. De que ainda há muito para aprender. [ENP]

Porque hoje é um bom dia para boas notícias

Rui Ramos e António Costa Pinto, todas as segundas-feiras à noite no programa Choque Ideológico, na RTP/N.

[PPM]

Viva a liberdade!

Agora só falta democratizar a Constituição.

[PPM]

Viva a liberdade!

O fim da tutela

Pedro Lomba , no "DN" de hoje

[ PPM]

Viva a liberdade!

otesacar

Porque hoje faz 30 anos que Otelo caiu da cadeira do poder.

[PPM]

Viva a liberdade!

Hoje é dia de recordar o 25 de Novembro de 1975.

[PPM]

Revolucionários da Velha Direita




Para se perceber a ligação entre os Negri’s (os ditos pós-marxistas) deste mundo e o radicalismo anti-liberal do velho romantismo totalitário, corporizado em Carl Schmitt, ver Neil McInnes “The Strange Journey of a Bad Idea”, n.º2 da excelente American Interest.

Há mesmo esquerdistas que não escondem a adoração pelo totalitário e defensor de Hitler. Vejam este livro de um dos editores da New Left Review. Gopal Balakrishnan defende a vitalidade da violência schmittiana contra o estado e lei demo-liberais.

Claro que ainda há Esquerdas. Há Habermas. Há Blair (sim, meus caros, Blair é progressista; o resto da esquerda, viciada no relativismo romântico, é que já não sabe o que é o Progresso). Mas, meus amigos, o movimento anti-globalização não é de Esquerda. Negri é uma mistura explosiva das duas grandes reacções aos iluminismos: (1) a velha escola romântica que começa em Rousseau e que vem desembocar em totalitários como Schmitt e vitalistas como Jünger; (2) a reacção pós-moderna, em tudo semelhante à reacção romântica do XIX. Quem pensa como Foucault não pode ser marxista.

[Henrique Raposo]

Com um abraço

Parece que está na moda criticar João Miranda. Como não gosto de modas, digo o seguinte: a inveja cura-se com uns copos, com uma companhia amorosa ou, mais difícil, com a leitura. Ler, nestes casos, faz bem. Porque há por aí pessoas a falar de liberalismo, mas, parece-me evidente, essas pessoas nunca leram uma página liberal. A sua versão de liberalismo é a da novela das 5: "Pô, cara, V. tem de ser chapa legau, 'tá vendo, liberal".

E quando um liberal clássico é acusado de intolerância ou coisa assim, então, estamos perante o seguinte: a intolerância, aquilo que vem sempre agarrado à carapaça daqueles que julgam ter o BEM, está aí em força. E, como sempre, a intolerância (esta, sim, tem substância directa; a tolerância só existe enquanto causa de outra coisa – lei) aparece com um sorriso na cara e em defesa de causas avançadas. Tão avançadas que são completamente reaccionárias. Mas isso é outra conversa.

João Miranda não é intolerante. Intolerantes são aqueles que estão sempre a gritar intolerância a casa segundo. Intolerante é aquele que quer ditar a vida de tudo e de todos, inclusive do formigueiro do bairro. Intolerante é aquele que não respeita visões contrárias. Intolerante é aquele que diz “certo” ou “errado”, “existe” ou “não existe” a cada segundo. Intolerante é aquele que, por exemplo, não aceita o humor em relação à sua causa.

A tolerância resulta de outra coisa (além da lei): capacidade para discordar, criticar e, mesmo assim, dizer que aquele com quem se discorda não está errado. Dentro de um quadro democrático e constitucional, quando X afirma que uma dada posição política ou moral está errada, então, X está a um pequeno passo do desejo de destruir essa mesma posição moral através da lei. É que política, ética ou, se quisermos, moral, não é química ou física. No quadro das relações humanas, o certo vs. errado é mais difuso. E o certo vs. errado só deve ser usado em casos extremos, em casos basilares, em casos, digamos, civilizacionais. E não deixa de ser surpreendente que seja um homem ligado às ciências duras aquele que está mais consciente do que é ser-se tolerante, aquele que está mais consciente desta distinção entre moral e assuntos que implicam uma certeza matemática.

Aqueles que têm a necessidade constante de dizer "eu sou tolerante" são, precisamente, aqueles que não pensam de forma tolerante. Uma coisa é dizer. Fácil. Outra coisa é pensar. Um pouco mais difícil. E estes megafones ambulantes serão aqueles que, no futuro, gritarão “eu sou intolerante”. E, nessa altura, o João Miranda estará lá para, novamente, os criticar e, não surpreendentemente, quase pelas mesmas razões.
Uma sociedade que anda sempre com os cartões “certo” ou “errado” debaixo do braço, mostrando-os até aos periquitos, é uma sociedade intolerante.

Com um abraço,
HR

[Henrique Raposo]

Ao ódio que me deixa feliz



Tiros, amigo, só de Vodka. Já agora, aquilo não é um leão mas uma leoa.

[Henrique Raposo]

quinta-feira, novembro 24, 2005

Miau!!!



Aqui fica representada a disposição deste blogger quando sente que desperta ódio em excelsos monistas. Isaiah Berlin e uma leoa!!! E no mesmo post!!! O meu grande obrigado aos distribuidores de ódio ideológico por esta oportunidade única.

[Henrique Raposo]

Brilhante

A caixa de comentários de “O Acidental” deve ser vista como reserva antropológica para observação de nativos em estado puro de esquerdismo.

Estas vossas caixas de comentários são porreiras para observarmos as raivas primitivas que Atlântico provoca nalgumas mentes mentecaptas de esquerda e da extrema-direita. Eles andam por aqui!

Eduardo Meneres


Caro Eduardo, para usar uma expressão em voga, V. “está muito à frente”.

[Henrique Raposo]

Ainda sobre as sondagens

Não deixa de me divertir particularmente o eclipse quase total de Louçã nesta corrida presidencial. Agora, já está atrás do valente Jerónimo nas sondagens do "DN" e do "Público". Como aqui há uns tempos tinha escrito, as próximas eleições podem significar o fim de dois mitos políticos portugueses: um grande, chamado Mário Soares; e outro cada vez mais pequenino, de seu nome Francisco Anacleto. Para lá caminhamos.

[PPM]

Portugal Contemporâneo

O novo blogue de Rui de Albuquerque, ex-Blasfémias. Aqui.

[PPM]

O Acidental à escuta

A "deriva presidencialista" de Cavaco é uma graçola espertalhona. Que agora se começa a voltar contra quem a criou.

Luciano Amaral, no "Diário de Notícias"


[PPM]

A equipa de basebol da CIA

O Gulfstream IV que aterrou a 15 de Maio no aeródromo de Tires (Cascais) não estava ao serviço da CIA, pois transportava membros de uma equipa americana de basebol que estiveram, no dia 16, na cerimónia dos Óscares do Desporto (Laureus).

[PPM]

Presidenciais acidentais

Ponto de situação sobre os estudos de opinião, no Margens de Erro. Pedro Magalhães, até como especialista na matéria, sabe do que escreve. A única conclusão que eu retiro da sondagem e do barómetro de hoje, para além das palavras do próprio Magalhães, é que, faça o que fizer Mário Soares, ou escrevam o que escreverem os seus desesperados apoiantes do Super-Mário, Manuel Alegre é hoje, a par de possíveis triunfalismos antes da hora, o adversário principal de Cavaco Silva nas próximas eleições presidenciais. Desde logo numa putativa segunda volta. Mário Soares, ao que tudo indica, já passou à história.
E pela porta pequena.

[PPM]

Mais um mergulho na Atlântico

atlantico

O novo número da "Atlântico" já está nas bancas e tem leitura obrigatória não só por causa das entrevistas a Cavaco Silva e Manuel Alegre, sobretudo a primeira pela densidade de quem pergunta - julgo que Maria de Fátima Bonifácio, Luciano Amaral e Rui Ramos têm a sua estreia absoluta neste género jornalístico.

Não me parece grande novidade que Cavaco repita ser um "social-democrata", mas fico pelo menos satisfeito quando afirma ser "necessário aceitar a discussão das funções do Estado neste princípio do século XXI". Isto "porque" - acrescenta - "foi a partir dos anos sessenta que se começou a desenvolver em toda a Europa um crescendo de Estado e que chega a Portugal mais tarde". Mais curioso é ficarmos a saber, através de Helena Matos, que Mário Soares recusou ser entrevistado pela revista, ao contrário de Manuel Alegre. Como símbolo do que já é e do que pode representar no futuro a "Atlântico", não está nada mal: esta é a revista a quem Mário Soares recusou uma entrevista. Será porque teve medo das perguntas?

Mas, como disse no início, a "Atlântico" tem muito mais para oferecer: tem um texto de opinião de João Marques de Almeida altamente provocatório onde se defende que "a resposta é mais capitalismo"; tem as novidades e as manias da UE trazidas por Henrique Burnay; e tem dois acidentais em grande estilo, Bernardo Pires de Lima e Henrique Raposo - o primeiro com "Sílvio Berlusconi, um produto de Itália"; o segundo, o grande Henrique, com "O multiculturalismo ou 'o remorso do homem branco'". Mas tem também Marcello Mathias, Joaquim Aguiar e Enrique Pinto-Coelho, entre muitos outros pontos de paragem prolongada num sofá perto de si.

Definitivamente, a não perder.

[Paulo Pinto Mascarenhas]

[Acrescento] Ainda não tinha chegado ao fim da revista e por isso quero apenas acrescentar que há ainda mais dois motivos de peso para comprar a "Atlântico": um conto do Nuno Costa Santos (muito mais do que um acidental) e a crónica habitual da divertida Alice Mendes.

Sharon

Sharon é, neste momento, o homem em destaque da política internacional. Aquilo que fez no último ano (retirada de gaza, novo partido, etc.) é histórico. Realmente histórico. Mas, claro, ninguém abre a boca. O tipo é o mau da fita na narrativa dos media.
Sobre isto, o meu camarada sinédrio, Francisco Proença de Carvalho, já disse tudo: “Não há falcões, nem pombas… apenas líderes”.

[Henrique Raposo]

30 anos de Juan Carlos

















Que sorte a deles!

[José Bourbon Ribeiro]

Esclarecimento aos liberais de facto

Quando falei ali em baixo dos liberais “de mão no teclado”, referia-me apenas a todos aqueles que se afirmam muito liberais – bacteriologicamente puros – mas depois dedicam os seus dias a escrever textos altamente moralistas em que se permitem avaliar e julgar a vida privada de outros. Não digo os nomes deles porque, repito outra vez, não o merecem.

[PPM]

quarta-feira, novembro 23, 2005

"Avião da CIA"?!

Tenho uma dúvida: que forma tem um avião da CIA? Eu dou três hipóteses:





[Henrique Raposo]

Amanhã ficamos mais pobres

É triste que o 30.º aniversário do 25 de Novembro fique marcado pelo final de uma instituição da blogosfera portuguesa como o Blog de Esquerda. Até porque a existência de liberdade de expressão necessária para a existência desse blogue - ou d' O Acidental - é uma das maiores conquistas da nossa gloriosa contra-revolução.

[Leonardo Ralha]

(Não) só para contrariar

Normalmente tenho pouco ou nada a dizer sobre o funcionamento interno da organização que serve de intermediária entre Deus e os papistas, mas ainda assim não resisto: em que é que um padre homossexual - desde que não tenha instintos pedófilos dirigidos aos jovens acólitos - é menos do que um heterossexual no que à interpretação das Sagradas Escrituras e à condução de um rebanho de fiéis diz respeito?

[Leonardo Ralha]

Um triste sinal dos tempos...

fraque

A multinacional Cobrador do Fraque viu-se na necessidade de publicar anúncios na imprensa a avisar que outras empresas de cobranças difíceis estão a usurpar a sua designação comercial. Pelos vistos ainda há sectores da actividade económica cheios de fulgor (além, claro está, das agências de comunicação que nos próximos anos vão defender a construção do aeroporto da Ota).

[Leonardo Ralha]

PCP e BE exigem que aviões da CIA sejam substituídos por aviões da Al Qaeda

Não percebo a excitação que por aí anda com o sobrevoo ou a aterragem de aviões da CIA em Portugal. O PCP e o BE até já exigem explicações. Eu cá ficaria preocupado era se os aviões fossem da Al Qaeda.

[PPM]

O Acidental à escuta

Bom. Muito bom. Com pés e cabeça.
Mas sobra-me uma pergunta: afinal que direitos ainda faltam conquistar?

[Rodrigo Moita de Deus]

Atlântico Sul

Os alter-globalistas estão sempre a falar do Sul, uma estrutura composta pela Multitude (Negri dixit; não me perguntem o que é a Multitude porque o próprio Negri não sabe muito bem; mas quando se navega em Deleuze, isto é, quando se navega num caldo sagrado que une arte, filosofia e ciência, isso também não importa) que, supostamente, vencerá o Império do “norte branco” (isto não parece um pouco “Guerra das Estrelas”? As teorias neomarxistas têm ou não a mesma profundidade de um melodrama venezuelano?). Ora, se estes alter ou anti-globalistas estudassem um pouco esses países e povos desse anónimo Sul, descobririam que esses países estão a aderir à dita bruxa malvada global. Já não é preciso falar da Ásia a este respeito. Ou é? Sobre o Atlântico Sul, ver este post do André A. Amaral. Aqui fica uma parte que deveria entrar nos ouvidos dos nossos políticos:

Os EUA estão atentos ao Atlântico Sul, o que explica a citação do artigo do Coronel Ralph Peters, na revista militar Parameters. De acordo com Peters, Portugal (tal como a Espanha e o Reino Unido), também por estar na União Europeia, serão os grandes aliados da América neste desafio. Portugal corre o risco de perder importância estratégica, mas tem uma oportunidade de ouro que não pode desaproveitar. Basta mudar o disco. Alterar a política e afastar fantasmas. Apostar na Europa, como europeus que somos, mas não esquecer laços e oportunidades que existem no Atlântico.

[Henrique Raposo]

PS: O Ocidente já não é um conceito geográfico. A Comunidade Atlântica já não é uma coisa geográfica. É mais do que isso. Significa unidade de valores e interesses estratégicos entre várias potências do mundo inteiro, desde o Chile ao Japão. É tempo de acordar. Devemos ler Negri. Mas Negri deve ser lido da mesma forma que lemos um romance. Para fazer política, um olhar artístico não serve.

Ilga Portugal disponível para ajudar Igreja Católica a evitar erro histórico

Já Paulo Corte-Real, da Associação ILGA Portugal, considerou que esta posição é «mais um erro histórico numa longa história com muitos erros da Igreja Católica Apostólica Romana». «Num momento em que outras igrejas perfilham uma filosofia de inclusão, nomeadamente a Igreja Anglicana e a Igreja Sueca, que põem a hipótese de abençoar as uniões entre pessoas do mesmo sexo, o actual Papa opta por enfatizar a exclusão dos homossexuais», disse à TSF. Corte-Real assinalou ainda que é «preocupante a influência que esta igreja pode ter a nível dos estados democráticos e é isso que é preciso impedir. Sobretudo no reconhecimento das uniões entre pessoas do mesmo sexo».

Parece impossível! A Igreja Anglicana já tem gays, a Igreja Sueca também! Lá estão os Católicos com a mania que são diferentes! É sempre a mesma coisa! Ò Corte-Real, tens aí o teu telemóvel? É que o senhor Cardeal Patriarca precisa de te pedir uns conselhos.

[Rodrigo Moita de Deus]

Agradecimento acidental

Ao Tiago Alves, que num texto bastante irónico publicado n' O Telescópio relembra previsões antigas sobre possíveis desagregações d' O Acidental que falharam redondamente. É verdade que isto de ser liberal de facto - e não só de mão no teclado - nem sempre é fácil. Por vezes, para usar um lugar-comum, o feitiço pode virar-se contra o feiticeiro. Sem qualquer desprimor para o Rodrigo Adão da Fonseca ou para o Blasfémias.

[PPM]

O Acidental à escuta

Hoje em dia, ninguém pode aspirar a parecer inteligente sem dizer mal do “centrão”. Os mais eruditos conseguem até nomear o seu antepassado monárquico, o “rotativismo”. Não vale a pena ir tão longe. Para o que nos interessa, tudo começou há trinta anos, a 25 de Novembro de 1975. Foi quando a revolução, em vez de acabar numa guerra civil, fechou a loja com um acordo negociado em Belém, sob o patrocínio do Presidente da República. Já faz parte das rotinas intelectuais do país dizer que saímos da ditadura por uma ruptura revolucionária, enquanto os espanhóis o fizeram através de um pacto de transição. Sendo verdade, não é totalmente verdade. Aqui também houve pacto de transição, não para saír da ditadura, mas da revolução.
No Outono de 1975, já era claro que a revolução só poderia prosseguir se os revolucionários estivessem dispostos a correr o risco de uma guerra civil. Geralmente, quando se lembra o PREC, fala-se apenas das “massas” de Lisboa e do Alentejo. Esquece-se as outras “massas”, que no norte, em Julho e Agosto de 1975, se levantaram ao toque dos sinos para ir desalojar a esquerda marxista. Veja-se, a propósito, o livro de Diego Palacios “O Poder Caiu à Rua”, publicado pelo ICS. Em Novembro de 1975, o país estava dividido em dois. De um lado e do outro, havia muita gente zangada e muita gente em armas.


O pacto de Novembro. Rui Ramos, no "Diário Económico" de hoje

Poesia política

Alegre desmente Sócrates que desmente Alegre que desmente Sócrates.

[PPM]

V. é uma besta ou epistemologia pós-moderna

Reflectindo sobre o 9/11, um guru pós-moderno americano, Fredric Jameson (defensor agressivo do marxista-barra/travessão– pósmoderno António Negri), afirma o seguinte:

«But something needs to be said about the public’s reaction; and I think it is instructive to step away for a moment and to deny that it is natural and self-explanatory for masses of people to be devastated by catastrophe in which they have lost no one they know, in a place with which they have no particular connections». Ver aqui.

Já percebo por que razão os pós-modernos não se inquietam com as atrocidades cometidas, por exemplo, às mulheres de culturas não-ocidentais. Nunca as conheceram. Óbvio. Pá, estou a ver pela janela um anónimo vizinho a matar a mulher. Pá, nem pensar em telefonar para a polícia. Não os conheço. Pá, terroristas palestinianos matam israelitas. Que me importa, não os conheço. Num ataque militar, soldados israelitas matam civis palestinianos. Que me importa... e assim ad eternum.

E Jameson tem a coragem de apelidar de “obscenos” aqueles que revelam tristeza e indignação pelo 9/11. Estamos perante um marciano? Não. Estamos perante um Zé do bigode que foi retirado de um tasco para escrever um artigo em cinco minutos? Não. Estamos perante um Ser pós-moderno (uso Ser porque os pós-modernos dizem que o Indivíduo não existe).

O pós-modernismo é o romantismo reencarnado. E quando um romântico escreve sobre o seu exterior, não analisa, não argumenta. Não. Os românticos, os do passado e os de hoje, projectam na realidade aquilo que bem entendem. A moral e a epistemologia pós-moderna só obedecem a critérios estéticos. Jameson escreve para chocar. Escreve respeitando apenas a dinâmica estética do seu texto. Se o texto sair bem esteticamente, então, publica, mesmo que seja uma coisa sem qualquer conexão com a realidade, mesmo que falte ao respeito aos outros (respeito e outros... lá estou eu a falar de coisas que não existem. Sou mesmo um moderno ou um pré-moderno de uma figa.. uhh, figa também não existe). O pós-moderno, tal como o romântico, só respeita o seu Ego. É por isso que o totalitário/pós-moderno Zizek analisa o 9/11 a partir do “Matrix” (o filme). Não estou a brincar.

Não se pode ter compaixão pelo outro?! Peço desculpa pelo vernáculo, mas PORRA! Irei analisar isto academicamente, epistemologicamente, com a possível neutralidade axiológica. Mas o que eu gostava mesmo é de ter este tipo à minha frente, para lhe dizer duas coisas: (1) “Sua Eminência, V. é uma besta - uhhh... Sua Eminência posso usar o conceito eminência ou eminência também é uma abstracção inventada por uma estrutura que controla a minha língua em todos os actos, mesmo os não oratórios?"; (2) “E agora vou explicar que V. é parecido epistemologicamente com qualquer tirano da história”. Compare-se aquilo que os piores tiranos da primeira metade do XX afirmaram com aquilo que é dito pelos pós-modernos desde, grosso modo, o final dos anos 60. Compare-se.

O mundo projectado por pós-moderno, pós-estruturalistas, pós-marxista (Pá, vou inventar uma escola de pensamento, o pós-liberalismo azul às bolinhas ou, para os amigos, o raposismo) faz-me lembrar o mundo dos piores tiranos. É um mundo sem homens. É um mundo sem qualquer ligação afectiva, moral ou mesmo intelectual entre indivíduos, entre gente. Um mundo onde há policiamento do vocabulário (uhhh... posso usar vocabulário? Posso articular na mesma frase policiamento e vocabulário? Aliás, posso falar? Posso perguntar? Ou perguntar também é uma estrutura, ò eminência? É oh ou ò?). É um mundo de cinzas, no qual a morte de uma criança é equivalente à queda de uma folha. O mundo de Foucault é um mundo de mortos. É um mundo sem homens, sem carne, sem vontade, onde todos somos grãos de areia à espera da maré. Um mundo de estruturas e processos anónimos.

Mas, claro, nem todos estão mortos. Quem afirma estas coisas, os Jamesons os Baudrillards, claro, nunca são controlados pelas ditas estruturas. No mundo pós-moderno, os únicos que têm individualidade são aqueles que dizem que os outros não a têm. Brilhante, não? Afinal, o Indivíduo ainda existe. Mas é privilégio de alguns. Os outros são gado. Podem morrer como gado.

[Henrique Raposo]

Aquecimento especial



Dedicado ao maradona.

[PPM]

O drama, a tragédia e o horror

A notícia de que os homosexuais não podem ser ordenados padres caiu como uma bomba junto de alguns círculos. A ILGA, Bloco de Esquerda e companhia não param de reclamar. A nossa imprensa activista também não. De facto este Papa é louco! Os padres não podem ser homosexuais? Qualquer dia ainda os obrigam a serem católicos.

[Rodrigo Moita de Deus]

Grande exclusivo: uma notícia com dois mil anos

Homossexuais não vão poder ser ordenados padres

[Rodrigo Moita de Deus]

O país do sr. Lello

A TSF tem diariamente um programa em que um conjunto de pessoas faz uns comentários sobre o que lhes vem à cabeça - não, não estou a falar do fórum. Ontem dei por mim a ouvir um senhor a elogiar o brilhante papel das autarquias no desenvolvimento do país no pós-25 de Abril. Confesso que pensei que era um humorista que também por lá passa, mas não, era o inefável José Lello. Das duas, uma, ou o cavalheiro não conhece o país ou tem um problema gravíssimo de visão. Se existe alguma coisa que correu francamente mal nestes 30 anos de democracia, foi a autêntica destruição da nossa paisagem urbana e rural do nosso país e essa responsabilidade foi em larga medida das autarquias.
Presumo que o sr. Lello não passe férias no Algarve, nunca tenha ido a Braga, não tenha visitado a linha de Sintra ou os principais subúrbios do Porto (Maia e Gaia), não tenha constatado o homicídio qualificado da baixa do Porto, do lindo espectáculo que são as populações entre Braga e Porto, da magnífica obra feita em Leiria ou Aveiro, etc. etc. etc.
Não se pretendem aqui aprofundar as razões que levaram a tal selvajaria mas parece ser quase unânime que a profunda ignorância e a corrupção tiveram um papel não desprezível. Também não cabe aqui discutir (ficará para um próximo episódio) se isto se deve a uma desresponsabilização do poder central ou a uma falta de percepção do poder constituído na altura para entender que a esmagadora maioria dos autarcas não estava minimamente preparada para as funções. Agora o que ninguém, de boa fé, pode dizer é que o poder local teve um bom desempenho em 30 anos de democracia.

[Pedro Marques Lopes]