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terça-feira, novembro 22, 2005

Recusa da Politização da identidade = Respeito pela diversidade de identidades

Em Portugal, parece que é difícil as pessoas entenderem uma coisa muito simples, quase tão simples como 4+4. E é isto: quando alguém recusa a politização da identidade não está a anular a defesa da diversidade e pluralismo de identidades. Porquê? Agora é um pouco mais difícil: para haver direito à diversidade (ao nível da sociedade, ao nível do pré-político) tem de existir, a montante, a recusa da politização da identidade (nível institucional, legal, político), seja qual for essa identidade.

Num regime constitucional como o português, tudo acaba por ser político, mesmo aquilo que deveria (e é) privado e moral. Somos dez milhões a espreitar pelo buraco da fechadura, e quando alguém diz que não quer espreitar é, ainda por cima, acusado de ser pouco activo na defesa na liberdade. O que está aqui de errado? Devido a esta normalidade colectiva, é difícil manter em Portugal uma posição clássica de divisão entre o político e o pré-político, entre o privado e o público, coisa óbvia em países com constituições que não procuram salvar o mundo em cinco minutos.

Todas as pessoas têm o direito a expressar a sua opinião, mesmo quando isso vai contra os padrões aceitáveis da época. Aquilo que o politicamente correcto faz é muito simples: impedir a construção de um ambiente intelectual onde todas as vozes são ouvidas. Não se ouve o que X diz. Se X é X, então, nem sequer merece ser ouvido.

Depois de ouvido, X deve (ou não) ser criticada, desmontado e anulado intelectualmente. Mas para que isso suceda tem de existir, antes, a liberdade de expressão. Seja de quem for. A tolerância não é selectiva. A tolerância não é de ninguém. A tolerância não é da moral substantiva X. A tolerância não é da coutada privada de Y.

[Henrique Raposo]