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terça-feira, novembro 22, 2005

Político vs. Pré-Político

Infatigável João,

(em relação ao comment no Sinédio, no qual não consigo entrar) Eu só levo a mal a Má-criação. Gosto de andar à murraça contigo. Gosto de andar à murraça. Ponto.

Ainda bem que notas que eu ignoro muita coisa pós-Hegel. Ou melhor: não se trata de ignorar. Ainda hoje enchi os bolsos da FNAC ao comprar uns livros de Foucault, Jünger, Deleuze e Guattari. Leio com o fascínio de descobrir, de tentar entender mentes que funcionam de forma diferente da minha. Se fosse militar, seria certamente dos serviços secretos. Seria o melhor KGB. Tenho um fascínio pelo neurónio do inimigo (há coisas piores). Não se trata de ignorar, portanto. Trata-se de uma coisa simples: quanto mais leio, mais fico convicto das minhas bases clássicas.

Quantas vezes terei de escrever? Não sou essencialista. Nem purista da tradição, nem purista de uma concepção de indivíduo flutuante. Parto sempre de premissas conservadoras e cépticas. A tradição, a cultura e as ditas comunidades são partes integrantes da vida do indivíduo. Mas, precisamente pelo facto de ser um céptico, não aceito que as tradições ou comunidades sejam transformadas em substância ou essências sagradas e intocáveis. Não posso ser mais claro do que isto. Mas tu insistes em agarrar apenas uma das partes deste raciocínio. Isolas a parte do direito à liberdade do indivíduo em relação à comunidade, como se estivesses num laboratório a isolar um componente químico.

Em relação a "E para terminar: Henrique part IV":
Pois é, tens razão. E quando é que eu alguma vez escrevi o contrário? No texto das culturas, referi exactamente isso. A nossa individualidade, a nossa identidade é um diálogo entre o livre-arbítrio, o meio envolvente e ideias abstractas. Mas isto é um nível substantivo, ético, pré-político. Quando escrevo que “não há gays”, estou a escrever de um ponto de vista político e não pessoal. Aquilo que escrevo, por virtude ou defeito de profissão, tem sempre um alcance político. Até porque tenho a consciência de que existe um défice de pensamento político ou público. Vivemos um tempo demasiado marcado por emoções privadas a invadir a esfera pública.

O Poder não deve reconhecer comunidades exclusivas. Quando isso suceder, a nossa sociedade será um jogo de soma zero entre blocos fechados. Perante o Poder, somos todos iguais. Mas, ao nível pré-político, podemos ser todos diferentes. E podemos ser todos diferentes precisamente porque o Poder é neutral. Brincar com isto é brincar com o pílar que sustenta a nossa forma de vida. Não é por acaso que os velhos revolucionários marxistas estão sempre a atacar a "Constituição".

A minha posição é glacialmente fria aos teus olhos? Pois é. É essa a posição de alguém que pensa a partir dos óculos escuros do Poder. O Poder não é maternal. Ora, mas isto tudo não anula aquilo que escreves, com o qual, aliás, concordo. Então porquê tanto barulho? Estamos em planos diferentes. Estou no Político. Tu estás no pré-Político. Estás a falar de moral substantiva e eu de moral processual. Já sei o que vais responder: “a moral processual é um valor absoluto”. Pois é. Também nunca disse o contrário. Chegar à consciência de que é preciso uma moral processual é um caminho substantivo. Afirmar a necessidade de moral processual é o acto substantivo máximo de quem acredita na tradição liberal. Mas é, provavelmente, o único valor absoluto que não anula outros valores absolutos. Porque está apenas a montante. Porque é apenas uma base. Porque não fecha o futuro a jusante.

E tu? Tens a coragem de deixar as tuas certezas substantivas e engolir a frieza da moral processual?

um grande abraço,

[Henrique Raposo]