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domingo, novembro 27, 2005

Negri: um revolucionário vitalista e romântico


1. Negri não é marxista. Quando Zizek diz que "Empire" é o «Manifesto Comunista do nosso tempo», só pode estar a fazer ficção. O que não é surpreendente. Zizek gosta de fazer análise Política a partir do ângulo Cinematográfico (Baudrillard vê o mundo a partir da TV. Zizek vê o mundo pelo celulóide. Mal por mal, prefiro o cinema). Mais fácil: Zizek usa filmes como argumentos políticos de grande alcance. Vou ali fazer um curso de cinema. Para quê? Ora, para ser o próximo líder das Nações Unidas. Não, já sei: temos de colocar um cineasta no Poder. Que tal Godard, Sr. Zizek? Bem me parecia.

2. A ligação da dita Nova Esquerda à escola romântica (o romantismo, vale a pena recordar, não é de Esquerda) é um dos factos mais fascinantes de observar hoje em dia.

3. O ódio à Lei (“doutrina burguesa”) é a matriz-chave do Revolucionário. Com a queda do Marxismo algo teve de ser feito para manter esse ódio. A Esquerda (radical, entenda-se) simplesmente não consegue pensar sem uma teoria total e fechada, algo que diga assim ao ouvido do revolucionário: " 'tás a ver X, o Amanhã chega daqui a uns aninhos e até lá tens de fazer umas maldades a uns quantos burgueses chatos, gordos e corruptos". Sem Marx, tinha de haver um substituto. E a Esquerda pós-Guerra-Fria oficializou uma substituição que já tinha precedentes (Marcuse, Sorel): saiu o Marxismo, entrou a escola romântica alemã (vá lá, não saiu da Alemanha...) Algo que vai, grosso modo, desde Herder/Fichte até Schmitt/Jünger.

4. Carl Schmitt. O novo radicalismo esquerdista deve muito às teorias ultra-românticas e revolucionárias de Schmitt (Schmitt é normalmente descrito como um “conservador revolucionário”; não concordo - um conservador não pode ser revolucionário. Mas isto fica para outra altura). Para Schmitt, tal como para Negri, a Lei, a Constituição de uma Democracia Representativa (Negri: “estou farto desta democracia”) não tem valor perante as demonstrações de vitalidade de poder de uma massa gigantesca de gente. Mais: o poder soberano nasce destas demonstrações de poder. Os radicais de hoje julgam que, por cada manif ou distúrbio que fazem, estão a construir uma nova legitimidade, uma nova legitimidade que destruirá o estado e acima de tudo a lei constitucional. É por isso que se fala de uma tal opinião pública mundial. Parece que já não interessa o resultado das eleições locais, que, curiosamente, negam sempre essa tal opinião pública mundial. Esta é muito boa: hoje em dia, a Rua, o local de sempre da Esquerda Radical, é descrita como Opinião Pública Mundial. O que virá a seguir? O Cocktail Molotov como a Chama da Paz? Bové como Noé dos tempos modernos?

5. Negri é uma mistura explosiva do anti-racionalismo de Foucault e do espírito revolucionário dos românticos totalitários. Tem muito pouco de Esquerda. Leia-se também Jünger, outro “conservador revolucionário”. Leia-se e compare-se com o discurso do radicalismo de esquerda actual: Negri, tal como o vitalista Jünger, acha que a violência... purifica.

[Henrique Raposo]