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sábado, novembro 26, 2005

Multi-biologismo ou Lisboa como penico


À saída do cinema, alguém sussurra em voz alta esta pérola:

- Não há respeito pela autodeterminação dos animais!!!

Está visto! Quando o multiculturalismo sair de cena, surgirá por aí uma nova modalidade multi - o multibiologismo. Acho que sim. E faço, desde já, uma reivindicação a favor da autodeterminação dos seres de quatro patas: Lisboa deve ser o penico das bestas. Os cães têm, com certeza, o direito divino, natural e animal de usar os passeios e calçadas para efectuar as suas necessidades. E não pensem que são necessidades biológicas. Não. Os cães têm a necessidade de expressar a sua auto-determinação. Há passeios que, de facto, são genuínas instalações caninas.

E a pérola não foi lançada por uma qualquer jovem na flor da idade revolucionária. Não. A jóia sussurrada em voz em comício pertenceu a uma daquelas senhoras que permitem que a autodeterminação dos seus lulus suje a autodeterminação das minhas caminhadas. Andar por certas zonas de Lisboa é como percorrer um campo de minas. Temos de recuar dois passos, avançar um, dar uns pulinhos, fazer o pino e, com sorte, escapamos com uma cambalhota final. Quem anda por Lisboa está mais do que pronto para enfrentar a ginástica olímpica. Um lisboeta é uma Nadia Comaneci em potência.

Minhas caras senhoras, os animais não têm direitos. Nós, estas coisas imbecis, é que temos deveres com os animais. É muito diferente. Eu tenho deveres para com o meu cão. O meu cão não tem direitos. Mais: o meu cão, por muito que goste dele, não é mais importante do que os meus vizinhos.

[Henrique Raposo]