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domingo, novembro 20, 2005

Malditos Românticos

Grande João,

1.A minha crítica aos Românticos é política.

2.O Absoluto (Unidade, Perfeição) é o maior perigo na Política, mas é a grandeza na Arte. Os românticos usaram e abusaram do Absoluto. Resultado: a cultura romântica legou à posteridade um movimento artístico único, mas também deixou um rasto de sangue único na História dos últimos dois séculos. É, por isso, um movimento marcado pela tragédia. Ser-se trágico é algo que vende sempre bem.
E parece-me que estás um pouco seduzido por essa retórica trágica dos românticos. É um tanto exagerado fundir romantismo com originalidade. Até parece que antes do romantismo não existiu um Renascimento ou um movimento Barroco, por exemplo! A originalidade não foi inventada pelos românticos. A originalidade transformou-se em formalismo chique com os românticos. É diferente. A originalidade deixou de ser algo que fluí como o acto de seduzir uma mulher e passou a ser um dogma obrigatório em conversa de pedantes que nunca seduzem ninguém (nem mesmo a minha vizinha Laurinda... E olha que ela é muito dada). Hoje, tens muita coisa original mas sem qualquer grandeza. Aliás, já começam a aparecer críticas à arte neo-romântica (pós-moderna) a partir do interior do próprio mundo das artes. A minha vizinha Laurinda vai voltar a ser seduzida.

3.Caro, o John Stuart Mill não é um liberal clássico; foi um utilitarista; já apanhou com o vírus “esquerdista” de Jeremy Bentham. É com Bentham/Mill que começa a surgir o tal conceito de indivíduo arredado da sua história e comunidade. Bentham e Mill são os “responsáveis” pelo desvio “esquerdista” do Liberalismo. É com Bentham que o Liberalismo deixa de ter uma base conservadora. Fukuyama, por exemplo, é puro Bentham.

4.Cometes um erro perigo. Os românticos não queriam autonomia individual. Queriam uma comunhão completa entre o indivíduo e o todo. A maior treta da história. Aliás, retirada do nosso primeiro amigo totalitário, Rousseau. É a treta da Vontade Geral: o "Eu" vive no Todo e vice-versa. Esta treta serviu todos os totalitarismos do século XX.

5. A autonomia Individual não é o objectivo do liberalismo clássico... (!!!) Caro amigo, a autonomia do Indivíduo é, obviamente, um dos objectivos do liberalismo clássico. A liberdade negativa de que falas não é um oposto da autonomia individual. Pelo contrário. A liberdade negativa (constitucionalismo que protege os indivíduos do Poder) é a causa da autonomia individual. A liberdade não existe em abstracto. A liberdade é um efeito de uma constituição liberal clássica, de uma constituição de liberdade negativa.

6. Ainda bem que os indivíduos reclamam a sua comunidade e tradição. Devem ter esse direito. Devem fazê-lo em plena consciência. Mas o meu ponto nunca foi esse. Parece que não queres entender que eu não traço uma dicotomia básica entre indivíduo e cultura/comunidade. Sou conservador. E, precisamente por ser conservador, o meu ponto sempre foi este: os indivíduos não devem ser obrigados a reconhecer uma Cultura definida por critérios rígidos e formalizados. Não deve haver uma consagração teórica e legal (“oficiosa” ou, nos casos terminais, "oficial") daquilo que é a cultura, comunidade ou tradição. E, como sabes, os românticos (do passado e do presente) proclamam a necessidade de um reconhecimento político e legal da comunidade em termos dependentes de uma entidade exterior à vontade do indivíduo. Quando isso sucede, X deixa de ser cultura e passa a ser ideologia. Deixa de ser copos e sedução e passa a ser rasto de sangue e murraça.

[Henrique Raposo]