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segunda-feira, novembro 14, 2005

Culturas

Grande João, Cara Alaíde,

1.Nunca escrevi que há um abismo entre “Tradição” e “Indivíduo”. Aliás, tendo uma predisposição conservadora, creio que a ordem espontânea (Hayek), isto é, o conhecimento tradicional, deve ser respeitada e nunca atacada.

2. Ataco, com todos os meus dentes, a “Tradição” ou “Cultura” dos românticos. Ataco os românticos de outrora e os românticos de hoje (que vivem sob o disfarce - “multiculturalistas”). Os românticos (Fichte), ao invés dos conservadores (Burke), concebem a Cultura como algo estanque, como se tivesse uma substância que fosse exterior às próprias populações. Sendo conservador (no único sentido da palavra, no sentido de Burke), sei que a cultura, a comunidade, a tradição, etc., são ordens espontâneas, isto é, não precisam de intervenção política; não devem ser atacadas (esquerda), nem devem ser defendidas por decreto (reaccionários românticos). Devem fluir entre nós, na esfera do pré-político. A Cultura deve ter a fluidez de uma noite de copos e não a secura de um decreto de lei.

3. Quando esta ordem espontânea é definida à maneira romântica, deixa de ser cultura/tradição e passa a ser ideologia, passa a ser uma ordem de design político. O conceito de Cultura/Comunidade/Tradição entendida por românticos e neo-românticos (multiculturalistas) não é, em meu entender, Cultura. Quando a cultura é consignada em lei, passa a ser nacionalismo. Passa a ser multiculturalismo de soma zero. Passa a ser uma elaboração de iluminados. Deixa de ser uma noite de copos. Uma cultura definida por critérios românticos pretende ser carne viva, mas não passa de metal frio. Tão frio como o marxismo.

4. A ordem espontânea conservadora não prende as pessoas. Pelo contrário: a ordem espontânea, ao invés da cultura romântica, não fecha o futuro ao indivíduo. Aliás, é a melhor base, o melhor ponto de partida para a demanda universal do indivíduo (a tal cultura sem bengala). Não é por acaso que Burke dizia qualquer coisa como isto: qualquer ordem que não é capaz de se adaptar aos tempos, está destinada a desaparecer. A ordem espontânea não é doutrina romântica. Vai mudando. Vai mudando ao sabor das decisões conscientes dos indivíduos.

5. Nunca colocaria em directo confronto o “indivíduo cosmopolita” e a “ordem espontânea”. Nunca. Sabes porquê? Porque só há cosmopolitismo onde existe ordem espontânea. Isto é algo que os burocratas de Bruxelas não entendem: o cosmopolitismo não pode ser elaborado por decreto. Só há cosmopolitismo num Estado que aplique uma lei cosmopolita numa dada fronteira legal. E, nessa fronteira legal, tem de viver uma comunidade gerida, de alguma forma, por uma ordem espontânea. O Cosmopolitismo gera-se na articulação de Estado, Lei Cosmopolita e Ordem espontânea. É por isso que é tão difícil de obter.

[Henrique Raposo]