Com um abraço
| Parece que está na moda criticar João Miranda. Como não gosto de modas, digo o seguinte: a inveja cura-se com uns copos, com uma companhia amorosa ou, mais difícil, com a leitura. Ler, nestes casos, faz bem. Porque há por aí pessoas a falar de liberalismo, mas, parece-me evidente, essas pessoas nunca leram uma página liberal. A sua versão de liberalismo é a da novela das 5: "Pô, cara, V. tem de ser chapa legau, 'tá vendo, liberal". E quando um liberal clássico é acusado de intolerância ou coisa assim, então, estamos perante o seguinte: a intolerância, aquilo que vem sempre agarrado à carapaça daqueles que julgam ter o BEM, está aí em força. E, como sempre, a intolerância (esta, sim, tem substância directa; a tolerância só existe enquanto causa de outra coisa – lei) aparece com um sorriso na cara e em defesa de causas avançadas. Tão avançadas que são completamente reaccionárias. Mas isso é outra conversa. João Miranda não é intolerante. Intolerantes são aqueles que estão sempre a gritar intolerância a casa segundo. Intolerante é aquele que quer ditar a vida de tudo e de todos, inclusive do formigueiro do bairro. Intolerante é aquele que não respeita visões contrárias. Intolerante é aquele que diz “certo” ou “errado”, “existe” ou “não existe” a cada segundo. Intolerante é aquele que, por exemplo, não aceita o humor em relação à sua causa. A tolerância resulta de outra coisa (além da lei): capacidade para discordar, criticar e, mesmo assim, dizer que aquele com quem se discorda não está errado. Dentro de um quadro democrático e constitucional, quando X afirma que uma dada posição política ou moral está errada, então, X está a um pequeno passo do desejo de destruir essa mesma posição moral através da lei. É que política, ética ou, se quisermos, moral, não é química ou física. No quadro das relações humanas, o certo vs. errado é mais difuso. E o certo vs. errado só deve ser usado em casos extremos, em casos basilares, em casos, digamos, civilizacionais. E não deixa de ser surpreendente que seja um homem ligado às ciências duras aquele que está mais consciente do que é ser-se tolerante, aquele que está mais consciente desta distinção entre moral e assuntos que implicam uma certeza matemática. Aqueles que têm a necessidade constante de dizer "eu sou tolerante" são, precisamente, aqueles que não pensam de forma tolerante. Uma coisa é dizer. Fácil. Outra coisa é pensar. Um pouco mais difícil. E estes megafones ambulantes serão aqueles que, no futuro, gritarão “eu sou intolerante”. E, nessa altura, o João Miranda estará lá para, novamente, os criticar e, não surpreendentemente, quase pelas mesmas razões. Uma sociedade que anda sempre com os cartões “certo” ou “errado” debaixo do braço, mostrando-os até aos periquitos, é uma sociedade intolerante. Com um abraço, HR [Henrique Raposo] |

