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terça-feira, setembro 27, 2005

Vir às boas

Confesso que durante muito tempo Teresa de Sousa representou para mim o pior, na opinião jornalística, da visão portuguesa sobre a Europa: o seguidismo face a todos os passos do processo de integração europeia, o fascínio pelo newspeak da União, o deleite com o pontilhismo absurdo das medidas tomadas, tudo contribuía para me irritar. Ultimamente, porém, devo admitir que lhe tenho descoberto um saudável espírito crítico, sem, evidentemente, uma total perda de simpatia pelo projecto europeu (a qual também eu mantenho, dentro dos moldes que defendo). Teresa de Sousa parece, portanto, começar lentamente a vir às boas.
Exemplo disto é o artigo de hoje no Público, que tem passagens que não desdenharia assinar. Como não tem link, limito-me a transcrever a parte que me parece mais relevante:

Às vezes [...] o debate europeu é quase patético. [...]
[Perante o cenário de estagnação da economia europeia, face ao saudável crescimento americano e asiático,] o que é que fazia a Europa? Entretinha-se alegremente a discutir se as eleições alemãs tinham sido ou não o toque de finados do "neoliberalismo" e a "salvação" do modelo social europeu. Como se a realidade não existisse para além da oposição cada vez mais artificial entre um "modelo neoliberal" ou anglo-saxão (descrito como uma espécie de capitalismo selvagem) e o "modelo social europeu", apresentado como justo e igualitário (mesmo que exclua cada vez mais gente). Tanto mais que a própria realidade de há muito ultrapassou este debate. O social-democrata Schroeder operou mudanças muito mais profundas, por exemplo no subsídio de desemprego, do que o liberal Berlusconi. O socialista Zapatero não tocou em nenhuma das reformas "neoliberais" de José-Maria Aznar. O governo de Sócrates já pôs em causa mais "direitos adquiridos" do que, se calhar, todos os governos do PSD. O governo do "neoliberal" líder do New Labour é responsável pelo maior crescimento do investimento público em benefícios sociais da Europa e partilha com a França um dos mais elevados salários mínimos por hora de trabalho.
Esta realidade [...] podia servir de ponto de partida para um novo consenso europeu sobre os desafios da globalização [...], salvando o que há de melhor (e de sustentável) no seu "modelo social". [...] Infelizmente o que prevalece são as ideias feitas, as desconfianças mútuas, rivalidades antigas ou recentes e uma ausência quase total de sentimento comunitário.


[Luciano Amaral]

Comments on "Vir às boas"

 

Anonymous Anónimo said ... (12:02 da tarde) : 

raposo,
Respondi ao teu mail, mas veio devolvido. Tenta outra forma de me contactares.

Luciano Amaral

 

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