Pinto contra Pinto: subsídios para uma terceira via
| Devo dizer, a propósito da conversa entre o Eduardo e o Paulo, que o meu espírito se encontra mais próximo do primeiro. Mas concedo-me também um pequeno desvio esquerdista, algo que, se alegado pelo Paulo, lhe traria mais razão. É um facto indesmentível que a direita (conservadora, liberal, democrata-cristã), talvez por reconhecer mais facilmente a importância do risco e da responsabilidade individual, assim como a natureza perversa do Ser Humano e a inevitabilidade do lado trágico da existência, percebe com maior naturalidade a necessidade daquilo a que o jornalismo começou a chamar "medidas difíceis". Percebe a necessidade mas, por vezes, faz dessa necessidade uma apologia tal que a mesma acaba por resultar numa espécie de fétiche iconográfico e no populismo do "vai trabalhar, malandro!". Existe uma demagogia da facilidade, mas também uma demagogia da dificuldade. Da minha parte, confesso a fraqueza. Também eu tendo a considerar, à partida, qualquer medida política impopular como intrinsecamente boa. Enfim, em abono da verdade, diga-se que eu tendo a considerar qualquer coisa impopular como intrinsecamente boa. É verdade que a investida do governo contra os "direitos adquiridos" do funcionalismo público e a resistência que tem oferecido aos representantes dos sindicatos onde estão inscritos alguns membros das corporações envolvidas (reparem: não se trata, como costuma dizer a imprensa, de "os professores", "os militares", os juízes", mas sim dos representantes dos sindicatos onde estão inscritos alguns - muitas vezes pouquíssimos - membros das corporações envolvidas), cala fundo numa alma amante da ordem e da autoridade. Mas nem todas as medidas são verdadeiramente justas. O aumento da idade de reforma, por exemplo, não só não o é, como é uma manifestação do mais rasteiro populismo. O que é que se ganha, na realidade, com o facto de os funcionários públicos passarem a trabalhar até aos 65? Qual o contributo concreto para a salvação do estado social? Assim à primeira vista, nada e nenhum. Mas o pior é que a medida não é meramente inócua. É socialmente contraproducente, uma vez que esquece a necessidade de rejuvenescimento da Administração Pública, povoada que está por pessoas em cuja idade ninguém se inscreve em cursos de aperfeiçoamento, ao mesmo tempo que milhares de recém-licenciados tecnicamente mais aptos se amontoam nos Centros de Emprego. Poupa-se nas aposentações, gasta-se nos subsídios de desemprego e de apoio a estágios profissionais. O estado social continua obeso, a administração ineficiciente. E é, moralmente, uma traição, porque não distingue o que deveria distinguir. Uma coisa é uma pessoa nos trintas a quem dizem que apenas se poderá reformar aos sessenta e cinco. Outra, bem diferente, é uma pessoa nos cinquentas, com planos consolidados para a sua aposentação, com expectativas criadas para o seu descanso; uma pessoa que, porventura, se privou de muitos confortos para, antes da reforma prevista para daí a cinco, seis, sete anos, preparar a sua subsistência e um maior desafogo dos seus filhos; uma pessoa a quem, de repente, dizem que, para que todo esse esforço tenha consequência, terá de esperar cerca de quinze anos. Paulo e Eduardo, que vos parece? [Francisco Mendes da Silva] |


Comments on "Pinto contra Pinto: subsídios para uma terceira via"
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The Studio said ... (10:28 da manhã) :
post a commentE' espantoso que num blog de pessoas tao inteligentes, com uma arrogancia que faz lembrar o proprio BE, nao se tenha compreendido porque ha' quem defenda a necessidade de subir a reforma para os 65 anos. Quando nao se compreende sequer o ponto de partida de que adianta discutir o assunto?