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quarta-feira, setembro 28, 2005

O país do asterisco

Portugal é o país do asterisco. É questão de folhear os jornais - as páginas de opinião da jornalada. Digamos que o asterisco não está lá expressamente. Está implícito, tácito, subentendido. A gente imagina-o sempre bem juntinho ao nome dos colunistas – a remeter para a informação sobre a profissão dos mesmos, que vem no fim. Porque, segundo parece, é importante para o leitor saber em que categoria profissional se insere o tipo que está a mandar umas bojardas sobre Fátima Felgueiras.
Peguemos no Público de hoje. Eduardo Prado Coelho é, segundo a derradeira informação da sua poética croniqueta sobre os gambozinos, «professor universitário». Paulo Tunhas, que alinha algumas ideias sobre o simplismo adolescente das opiniões de Soares, é mais alguma coisa. É «professor universitário, co-autor, com Fernando Gil, de Impasses». Joaquim Fidalgo, que faz a pergunta «e eu e tu?, que é que havemos de fazer?», é «jornalista».
Mas atentemos no exemplo de Manuel Queiró, autor do texto «O que vem a seguir às eleições». Fiquei a saber hoje, através de uma nota final, que o político Manuel Queiró é «engenheiro civil». Aliás, li o artigo de Queiró – sobre o Orçamento e as presidenciais – à luz dessa relevantíssima informação. Olhei, aliás, a reflexão queiróiana como se olhasse um edifício - como se vislumbrasse as vigas de cada pensamento e parágrafo. Agradeço, daqui d´O Acidental, aos editores do Público a informação (é importante estabelecer boas relações entre órgãos de referência).
Não é o caso, mas há situações que roçam o hilário. Colunas sobre os U2 e o Clemente escritos por economistas. Textinhos sobre o fim da História escritos por basquetebolistas. Artigalhadas sobre psicanálise marteladas por camionistas da Brandoa. Pois, pois: em Portugal, não há cronistas. Há «pessoas com uma determinada profissão que exprimem o seu ponto de vista sobre o país e o mundo». Daqui a nada, nós, leitores, também teremos de vir com asterisco. Antes de lermos uma peça, seremos obrigados a dizer em voz alta o que é que fazemos na vida. Para detalhada informação da clientela do café.

[Nuno Costa Santos]*

*indivíduo extremamente diletante

Comments on "O país do asterisco"

 

Blogger Henrique Raposo said ... (1:56 da tarde) : 

Grande, pá. grande.

já encontrei as k7...

 

Blogger Hoka Hei said ... (6:17 da tarde) : 

Mas os meus favoritos continua a ser os textos do João César das Neves no DN. O professor de economia que sofre de josémanuelfernandite. Que é como quem diz: fala de tudo, menos daquilo para que está habilitado. E, regra-geral, mal.

 

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