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terça-feira, setembro 20, 2005

Não me obriguem a isso

Uma das coisas que me mais me afastam das esquerdas moralistas (passe o pleonasmo) é o facto de as esquerdas moralistas em geral quererem à força que eu seja solidário com as suas causas. Que eu chore com elas todas as tragédias do mundo. De mãos dadas, de preferência.
Pensam que exagero? Não exagero, não. Tenho até uma experiência que ajuda a provar a tese. Bastou ter escrito um texto em que defendia o direito a desligar a televisão quando estão a ser transmitidas imagens de um massacre, o direito a caminhar para os lugares onde fui feliz e onde quero ser feliz, para ser apelidado, por um grupinho revolucionário, de «fácil», «umbiguista», «direitista». (Vim a saber que houve gente ilustre que inclusivamente ficou chocada com a «mensagem»).
E, reparem, eu nem estava a tentar fazer doutrina ideológica. E, notem, julgava eu que estava a ser apenas humano. Pateticamente humano. Tragicamente humano. Era um desabafo urgente que se pretendia ali. Um jorro verbal, embalado pela poesia (que andava a consumir em doses imoderadas) de um tal de Fernando Assis Pacheco, por sinal uma alma progressista e um dos meus poetas preferidos.
Aos poucos, fui percebendo melhor toda esta história. As esquerdas, no fundo, não querem que sejamos humanos. Que sejamos «umbiguistas» (sim, reconheço lucidez na análise). Que tenhamos humores e que nem sempre nos apeteça comentar a catástrofe de Nova Orleães à mesa do café. Isso chateia-as. Aborrece os espíritos formatados para os «bons sentimentos». Querem-nos máquinas solidárias, debitando lugares comuns sobre os «frágeis» e «desprotegidos» deste mundo. Ora, é exactamente isso que quero fazer. De uma forma autobiográfica, se me permitem.

[Nuno Costa Santos]

Comments on "Não me obriguem a isso"

 

Blogger Henrique Raposo said ... (2:06 da tarde) : 

Grande.

 

Blogger Puto Paradoxo said ... (6:25 da tarde) : 

Nuno, pá, sempre pensei que eras de esquerda. Mas devo admitir que fico feliz por escreveres aqui. Pode ser que motive textos de réplica fraterna.

 

Anonymous Visitante ocasional said ... (9:52 da tarde) : 

Diga isso aos Cristãos cá da casa. Porque, para mim, Esquerda e Cristianismo estão bem juntinhos nessa mania do paleio salvífico. Mas os Cristãos acham que não. Não sei porquê. Gostava de ouvi-los, mas já que não vou conseguir. Enfim, nem Socialismo, nem Paraiso!

 

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