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Sexta-feira, Julho 08, 2005

Causa Dele

Só hoje, alertado por alma amiga, verifico que Vital Moreira decidiu tecer uns comentários a um artigo da minha autoria publicado ontem no Diário de Notícias. É de notar, desde logo, o tom acintoso com que começa a prosa, mas enfim, é uma questão de estilo. E é de notar, depois, a tentativa de reescrita do artigo. Convém avisar que o artigo de ontem é talvez o quinto que escrevo no DN a propósito do PREC. No conjunto deles, parece-me que expliquei as coisas bem explicadinhas, tentando compreender as razões de todos os lados envolvidos.
Vital Moreira começa por me acusar de “omitir” o “Golpe Palma Carlos”. Bem, o espaço de 4500-5000 caracteres não é suficiente para pormos tudo o que queremos , e eu até podia enviar a Vital Moreira a primeira versão do artigo (que depois cortei, por razões de espaço) onde explicitamente era mencionado o dito "golpe" e era também mencionada a intenção de Spínola em antecipar as eleições presidenciais para criar uma situação de excepção até à realização das eleições legislativas, que se viriam a realizar em Abril de 75. Seja como for, só com má fé se pode dizer que não mencionei as manobras do General Spínola e que essas manobras incluíam um lado que não era muito recomendável. Passo a citar:

O que pretendia Spínola? Ninguém sabe muito bem, mas neste período os sinais que vai emitindo são, no mínimo, estranhos. O general começa a afirmar que o país se está a tornar refém de uma tentativa de tomada do poder pelo PCP, directamente e por via do MFA (através da famosa Comissão Coordenadora do Programa). Por isso propõe (apoiado por Sá Carneiro) a extinção do MFA. Segundo ele (num argumento que parece perfeitamente razoável), uma vez derrubado o Estado Novo, o movimento tinha perdido a sua razão de ser. O general apresenta-se então a si próprio como o garante único da transição ordeira para a democracia, e manobra para aumentar o seu poder.
PC, PS, esquerdistas e MFA de esquerda não gostam destes propósitos, e começam a difundir a ideia de que o general se prepara para repor uma ordem autoritária. Sendo verdade ou não, as manobras de Spínola (mesmo se benignas) não são imaginárias, e culminam na tentativa de manifestação da chamada “Maioria Silenciosa”, a 28 de Setembro.


E mais à frente:

Queria, efectivamente, Spínola adiar a instauração da democracia? Não sabemos.


Vital Moreira adere, evidentemente, à tese posta então a circular pela esquerda em geral de que o general queria reinstaurar o “fascismo”.
No meu artigo, limitei-me a admitir a possibilidade de que assim fosse efectivamente. Não lhe chamo “fascismo”, como se chamava à época, mas chamo-lhe “ordem autoritária”, uma expressão que me parece preferível.
O que faço também é tentar ver as coisas pelo lado de Spínola. E desse lado também se viam coisas muito preocupantes. Essa é a parte que Vital Moreira, convenientemente (e para usar a sua terminologia), “omite”. Spínola via um MFA tomado largamente de assalto por comunistas e esquerdistas, e que (contrariamente ao previsto) não se extinguiu, entregando os poderes à Junta de Salvação Nacional. Vital Moreira que nos explique para quê uma autoridade revolucionária, quando já estava criada a JSN e já existia um governo provisório. Spínola assistia à tomada do poder local e dos sindicatos pelo PCP e pelo MDP/CDE, sem que se criassem condições para a existência de pluralismo político nessas instâncias. Spínola assistia a um PS a tentar furiosamente ultrapassar o PCP pela esquerda, tanto por si próprio quanto excitando as imaginações esquerdistas, que não precisavam de muito para ser excitadas. Ora, ver as instituições (incluindo a militar) e a rua caírem cada vez mais nas mãos dos representantes do autoritarismo de esquerda talvez fosse preocupante e talvez justificasse algumas das ideias do general. Bem se viu, depois do 28 de Setembro, do que foram capazes os grandes democratas de esquerda da época.
Mas o essencial da minha posição sobre aquele período está na seguinte frase, que Vital Moreira também “omitiu”:

Seja como for, tudo isto é representativo de um cenário onde toda a gente duvida de toda a gente, provavelmente com razão. Onde estavam os genuínos democratas portugueses, à direita e à esquerda, que garantissem ao outro lado a sua sobrevivência? Era legítimo à esquerda acreditar nas pretensões autoritárias da direita e à direita nas da esquerda.


Como é evidente, eu não pretendo branquear o General Spínola. Já Vital Moreira parece querer branquear alguns aspectos daquele tempo que, de facto, não são exactamente dos mais louváveis.
[Luciano Amaral]

Comments on "Causa Dele"

 

Blogger Ricardo Alves said ... (5:31 PM) : 

O MFA não estava entregue a comunistas e esquerdistas, como se viu um ano mais tarde (grupo dos nove).
E querer que o MFA se extinguisse menos de três meses depois da Revolução: seria pura irresponsabilidade. Para entregar o poder à JSN? Francamente... Não era isso que previa o programa do MFA...

 

Blogger Serôdio said ... (6:59 PM) : 

Ó Luciano, desculpe lá mas acho que você tresleu o que o Vital escreveu. É que as intenções (não os motivos) do spínola eram cristalinas e o Luciano de facto maquilha isso um bocadinho no artigo. Pode nem ter sido intencional, pode ter sido de boa fé, pode até ter sido por querer manter uma mente aberta sobre o assunto, mas dizer "Queria, efectivamente, Spínola adiar a instauração da democracia? Não sabemos" é pelo menos ingénuo. E, mesmo que tenha sido sem intenção, mascara o que toda a gente sabe.
Um abraço

 

Blogger AV said ... (4:42 PM) : 

Caro serôdio,
O Luciano já tem dificuldades extremas em ler, quanto mais em tresler.
Pelo que me lembro dele, fartou-se de tresler, desde o Foucault que o iluminou quando pensou chegar à idade adulta até à obra inicial do seu ex-futuro mentor Rosas, quando pensou que talvez fosse o que não era.
E isto escreve quem o conheceu e conhece e sabe que o Luciano é incapz de (trs)ler, quanto mais de perceber.

 

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