Liberalismo não é Wall-Streetismo
| 1. Sábado. Manhã. Depois de acordar o galo do bairro, dirigi-me à faustosa banca de jornais. Na volta, encontrei um velho amigo, que rapidamente disparou uma farpa deliciosa: - Então agora és economista!? Não percebi. Terei feito a mesma cara que faz o galo quando o acordo ao pontapé. Perante o meu espanto, sublinhado, ainda por cima, com o ar de parvo de quem acorda galos, o meu interlocutor explicou a sua invectiva: - Pois, então agora só falas do liberalismo… 2. Um dos traços mais desesperantes do “ar do tempo” em Portugal é a sua dependência de França. Por vezes, tenho a impressão que Lisboa é uma sucursal envergonhada de Paris. Aqui, tal como na terra de Chirac e Ramonet, boa parte das pessoas continua a ligar automaticamente liberalismo e economia. É como se houvesse um cordão umbilical entre o liberal e o guito. O liberal, nestas mentes reaccionárias – à esquerda e à direita - é o tipo que sonha com cifrões, é o ser infame que rouba a esmola do ceguinho da esquina, é aquele que cobra cem paus à velhinha quando esta pede ajuda para atravessar a rua. Aqui, no campo encantado da (suposta) pureza reaccionária, o liberal é o Tio Patinhas. Não utilizo o Tio Patinhas por acaso. É que o nível de debate raramente foge a este registo caricatural, quase infantil. 3. O liberalismo não é uma doutrina económica. Ou melhor, o Liberalismo não tem como base uma doutrina económica. Os liberais desenvolveram pensamento económico, como é óbvio. Mas esses traços económicos já são um “efeito” e não a “causa”. Os fundamentos históricos do liberalismos são os seguintes: (1) limitação de Autoridade una e central em defesa da (2)liberdade individual. Tendo como referencial da liberdade natural da pessoa humana, o liberalismo enfrentou sempre dois inimigos: a (1) religião demasiado política e o (2) poder político excessivamente centralizado. Em relação à religião, os liberais desenvolveram a concepção de estado neutral. Ou seja, foi o liberalismo que remeteu a religião para a esfera privada. No Ocidente, por acção dos princípios liberais, a religião é uma simples… moral privada. Em relação ao poder político centralizado (pós-1789), o liberalismo sempre desenvolveu uma concepção de “liberdade negativa” (as nossas liberdades nascem dos constrangimentos institucionais colocados à acção do poder central – primado do indivíduo) por oposição à “liberdade positiva” (lista de direitos universais e abstractos que legitimam qualquer acção do poder que afirme defender essa lista – primado do colectivo). 4. Meus caros, é sempre bom reparar nas catacumbas originais das palavras: Liberalismo vem de Liberdade e não de Wall Street. O Liberalismo não é o wall-streetismo, essa conveniente falácia inventada por... Oliver Stone e desenvolvida por monstros sagrados do pensamento reaccionário como Ramonet ou Chirac. A liberdade económica é apenas um dos inúmeros resultados da acção do liberalismo. 5. O liberalismo é a arma de todos os indivíduos. Resta saber se alguns ainda têm resistência ao próprio conceito de indivíduo... Mas isso era outra conversa. [Henrique Raposo] |






































