Sim, sim, e também porque sim
| Já que a discussão do Eduardo começou comigo e o Zé alinhou mais tarde, permitam-me que meta a minha foice sem martelo na discussão sobre o tratado constitucional e contraponha alguns rápidos argumentos. Começando com o interesse nacional, não vejo porque é que ele pode ser utilizado como "um dos mais fortes motivos" para rejeitar o que o Eduardo agora entreaspa como "Constituição" - pelo menos, já é uma evolução assinalável, uma vez que tenho lido os partidários do "Não" a chamarem-lhe repetidamente o mesmo nome sem aspas, mas o que está em causa no referendo europeu sempre foi um tratado constitucional. Para além do mais, trata-se de um tratado que não entrará em vigor caso um - e basta que um - dos estados-membros vote contra o seu articulado. O que já aconteceu com a França e, tudo indica, se repetirá na Holanda e, pelo menos, na Grã-Bretanha. Lamento muito, caro Eduardo, mas queiram ou não queiram os partidários do "Não", pouca gente em Portugal - para além do dr. Soares, da drª. Ana Gomes e de outros tantos federalistas -, morre reamente de amores por este tratado. Mais: queiram ou não queiram os partidários do "Não" ou os ultra-federalistas do "Sim", este tratado não dará jamais lugar a qualquer waterloo nem será jamais uma álcacer quibir para Portugal ou para a Europa. Aqui, meus amigos, não há lugar para grandes romances nem para tragédias gregas. Hélas... A haver referendo, votarei sempre no "Sim", como já escrevi, por uma pura razão prática - e não me envergonho dela, mesmo que compreenda algum do entusiasmo juvenil das partes mais entusiasmadas. De facto, para mim, e tal como diz o Zé, o "Sim" é um voto no interesse nacional português. Parece-me muito claro, como também já o escrevi, que um país atrasado e periférico como Portugal - é verdade, é isso que somos -, continua profundamente dependente de fundos europeus e de apoios comunitários da mais diversa e urgente espécie, não se podendo dar ao luxo de devaneios irrealistas - francesices, neste caso, é uma boa expressão - à volta de uma "constituição" que nunca existiu - e, pelos vistos, nunca existirá. Mas o que me parece mais surrealista em toda esta discussão é que tudo indica que a grande maioria dos partidários portugueses do "Não" ficou ligeiramente desiludida com a decisão francesa - na verdade, ela põe em causa a própria relevância do referendo português - e havia muito boa gente que já montava o cavalo do referendo como forma de ajustar algumas contas políticas internas. E essa é que é essa. (Voltarei ao assunto com mais tempo para, entre outras coisas, contestar a ideia, para mim peregrina, de que um putativo representante externo comum na Europa possa pôr em causa uma "política externa autónoma" portuguesa. Para já, deixo só uma pergunta ao Eduardo: será que realmente existe uma qualquer política externa nacional completamente autónoma numa Europa e num Mundo cada vez mais interdependentes? Ou ainda mais uma: será que as nossas relações com a África que fala português e com o Brasil têm obtido grandes progressos nas últimas décadas com o que chamas de "política externa autónoma"?) [PPM] |


Comments on "Sim, sim, e também porque sim"
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Anónimo said ... (12:43 da tarde) :
post a commentEssa argumentação é falaciosa , a soberania ou capacidade de decisão não é uma equação binária que apenas se pode ter em absoluto ou então não se tem, podemos fazer o paralelismo: Vamos dar todo a nossa soberania pessoal ao estado porque não podemos ser verdadeiramente independentes?
No fundo essa argumentção explica muito bem o nosso atraso: é comodista, desistente, é anti-iniciativa é darmos a outrém o que devia ser nossa responsabilidade.
O PSD foi descaracterizado quando alguém PSD disse "Somos o bom aluno da Europa" que é a injecção de que somos incapazes de uma ideia própria e consequentemente de inovar, pensar pela própria cabeça. Estamos mentalmente dependentes e isso deu o lindo resultado que temos agora. Acreditámos que bastava pertencer a um clube de ricos e seguirmos as suas instruções para o sermos também.
No PSD self-made man e os que tinham confiança e vontade de mudar décadas de dependência do estado deram lugar a meros gestores dos fundos europeus...
lucklucky