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terça-feira, abril 26, 2005

O desafio de Ribeiro e Castro

Apesar de o meu voto no congresso ter sido fundamentalmente ideológico, admito que o debate doutrinário no CDS é relativamente inconsequente e circular.

Não acho (nunca achei) que existam grandes diferenças essenciais entre um democracia-cristão e um conservador de feição liberal. Na sua acção política, ambos partem do mesmo princípio, a irredutível dignidade e liberdade do indivíduo, que uns encontraram nos textos da doutrina social da Igreja e outros nas páginas de Burke, Hume, Tocqueville, Oakeshott, Aron e restante gente que por aí amplamente se recomenda.

A única diferença assinalável é, portanto, a das fontes. Não são só os pensadores conservadores, nomeadamente os pós-1789, que alertam para os perigos do estado centralizador e interventivo. Também a doutrina social da Igreja o faz, formados que foram os seus contornos vigentes, durante todo o Séc. XX, no combate à ameaça da experiência totalitária soviética e na contraposíção de uma proposta assente no personalismo cristão.

Eu, se me digo conservador, é precisamente por ter chegado a tais ideias pela via, vá lá, mais laica.

O problema do CDS não são, portanto, os democratas-cristãos (como Ribeiro e Castro, com quem tenho grande afinidade intelectual e simpatia pessoal), mas sim aqueles que acham que o ser é tranportar para a política o assistencialismo caritativo da Igreja e ignorando, como os socialistas, que a riqueza só pode ser distribuída depois de ser criada. Coisa de que o estado percebe tanto como, sei lá, eu de pôr música nos blogs.

Há no CDS quem goste muito de falar nos pobrezinhos sem que por um momento se lembre de que o que os pobrezinhos precisam é de trabalhar, de ter um emprego que lhes proporcione o sustento e o livre desenvolvimento da sua personalidade.

Quando, no Sábado, Nobre Guedes falou ao congresso, comunicando-lhe a sua aversão epidérmica a empresários, o seu desprezo pela classe média e o seu sonho guterrista (legítimo, mas guterrista) de fazer do CDS um partido "social-cristão", decidi imediatamente o meu voto em Telmo Correia.

Ele talvez não o perceba já. Mas um dos grandes desafios de Ribeiro e Castro será o de contrariar esta tendência que o apoia, que se diz "democrata-cristã", mas que é, essencialmente, avessa e até acintosamente jocosa para com o liberalismo e os liberais, preconceituosa do preciso modo que o é a esquerda quando se refere aos empresários como inimigos.

Percebo que o CDS necessite de uma via pragmática de distinção do PSD (e Deus sabe do que eu sou capaz para me distinguir do PSD). Mas, no rescaldo do fim-de-semana, também se pode perguntar: para que serve este clone do PS?

[FMS]

Comments on "O desafio de Ribeiro e Castro"

 

Anonymous Inês TP said ... (12:53 da tarde) : 

Chama-se a isto um post unificador.

 

Anonymous Anónimo said ... (11:35 da tarde) : 

Meu Caro

Veja lá se põe isto na cabeça.
O CDS precisa de um antidoto para o discurso liberal tipo "Compromisso Portugal". Daqui a dois anos o Borges toma conta do PSD e vai ser um discurso liberal sempre a abrir. Ora se fôr esse o discurso do CDS está o partido condenado. Ou seja para liberal o António Borges dá 10-0 ao Pires de Lima e o CDS não tem hipotese. O CDS tem de encontrar já um antidoto para o discurso do Borges.

Será que é dificil entender. Espero que a rapaziada da nova Direcção do CDS (com expceção de 2 ou 3 ninguém conhecem os restantes) perceba isto.

Pedro
Pedro

 

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