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quinta-feira, abril 21, 2005

Confissão e penitência

Desculpa, Pedro, eu sei que para ti este é um assunto íntimo, mas não vejo em que medida o sinal dado pela eleição de Ratzinger seja diferente daquele que foi apresentado com a eleição de Karol Wojtyla, salvaguardadas as circunstâncias históricas e as diferentes personalidades. É verdade que eu não sou propriamente um católico praticante como julgo que és, ou eras, mas basta ter fontes idóneas para saber que os dois não são assim tão diferentes no que diz respeito ao papel da Igreja Católica no mundo.
Ratzinger, ou Bento XVI, está contra a "ditadura do relativismo", "maior mal da modernidade", tal como o Cardeal polaco estava. Bento XVI, ou Joseph Ratzinger, critica o "materialismo" e o "marxismo" tal e qual como João Paulo II, ou Karol Wojtyla, o criticava. Não há surpresas nesta nomeação, é a mesma linha que se vê caucionada. Ratzinger era o teólogo de Wojtyla, o braço-direito de João Paulo II, como tu bem sabes. Simplificando, João Paulo II era tão "conservador" como Bento XVI.
Não compreendo, por isso, esta tua reacção, porque a diferença entre a percepção que existe entre um e o outro Papa reside sobretudo numa questão de imagem e do modo como ela é transmitida pelos meios de comunicação social: é certo que um é alemão e o outro era polaco, os dois tiveram percursos diversos, mas não existe de facto um corte epistemológico entre palavras, actos ou pensamentos.
Sei que te limitas a afirmar aquilo em que acreditas sem ligar às interpretações alheias - e fazes muito bem, é obviamente um direito inalienável e eu não tenho nada a ver com isso. Mas a verdade é que o que escreves pode ser depois propositadamente confundido com os enormes disparates que se têm dito sobre o assunto e até ser chamado à colação para justificar puras imbecilidades.
Disparates e imbecilidades que se lêem hoje em alguma imprensa e são repetidas como se fossem verdade: estou só a lembrar-me de um diário que dizia, sinal tenebroso, ter Bento XVI servido às ordens do "exército nazi", quando bastariam dois dedos de testa para perceber que Ratzinger, como qualquer alemão, limitou-se a cumprir o serviço militar na altura em que foi obrigado a fazê-lo - mais precisamente no final da II Guerra Mundial.
Quando eu leio o Rui Tavares a misturar o teu nome com argumentos como os de que "até já voltaram as missas em latim" - demonstrando assim pouco mais do que ignorância sobre o assunto - fico seriamente preocupado. É que são os mesmos que dizem não conhecer maior "anti-relativista" do que Bin Laden - precisamente aquele que tão pouco relativista no que ao valor da vida humana diz respeito enviou uns aviõezinhos pejados de inocentes contra edifícios comerciais pejados de inocentes, liquidando centenas de milhares de pessoas. Relativismo maior, não conheço.
E isto, há que convir, já é muito grave.

[PPM]

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