Deve ser da quadra
| Como nos aproximamos de mais uma ritual celebração do 25 de Abril, parece que toda a gente decidiu regressar ao espírito “tudo é possível” de há 31 anos atrás. Não sei se alguém reparou, mas foi-nos garantido ontem pelo Ministro das Finanças que o nosso défice orçamental deve andar à volta dos 6% a 7% do PIB. Entendamo-nos: isto é já uma situação catastrófica. Um défice desta magnitude só autoriza duas coisas: uma, cortar, cortar, cortar despesas públicas ou, na impossibilidade disso, pelo menos congelá-las; a outra, aumentar impostos. A segunda hipótese foi excluída pelo Primeiro-Ministro. Só resta, portanto, a primeira. Mas alguém ouviu, da parte do governo, qualquer coisa sobre cortar, cortar, cortar ou, pelo menos, congelar despesas? Muito pelo contrário: vão-se dar pensões aos velhos pobres e ameaça-se com a possibilidade de parcerias público-privado para um vasto projecto (um pouco indefinido, por enquanto) de investimento público. Se há coisa que eu acho bem é o Estado dar pensões de reforma aos velhos pobres. E também não sou categoricamente hostil às tais parcerias. Mas o que importa é que estas duas ideias louváveis apenas serão realizáveis se o governo cortar nalguns dos milhares de itens inúteis da despesa pública. Juntá-las ao que já se gasta é compor a catástrofe existente. A política sugerida, na ausência das sempre propaladas reformas que ninguém faz, é não só uma impossibilidade como um verdadeiro perigo. A menos que intervenha a solução miraculosa descrita no Antigo Testamento: quando, durante o Êxodo, Moisés e os hebreus em fuga (e sem alimentos) atravessavam o deserto do Sinai, Deus passou, a partir de certa altura, a depositar nas suas tigelas uma substância alimentícia de nome maná, o famoso “maná do céu”. Deve ser disso mesmo que se está à espera. [Luciano Amaral] |


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