Uma coisa eu sei: o Meireles não é comuna
| Ricardo, dirijo-me pessoalmente e trato-te por tu porque até já fomos apresentados e foi assim que nos tratámos então (embora talvez não te lembres, o que terá provavelmente que ver com a nossa diferente estatura). É o seguinte: emite as opiniões que quiseres, embora aquela coisa do comunismo e do Bloco e não-sei-quê seja um bocadinho tosca. Hás-de desculpar-me, é aquilo que tu pensas, bem sei, mas é tosco. Dizes que uso argumentos da acusação clássica anti-comunista. É verdade, mas olha que aquilo aconteceu mesmo. Dizer que Hitler matou seis milhões de judeus também é um clássico do anti-nazismo, mas não deixa de ser verdade. E ninguém imagina um nazi a explicar-nos candidamente: “lá porque o gajo matou seis milhões não quer dizer que não tivesse umas ideias fixes”. Deixa-me que te diga, porém, que a tua resposta também é uma defesa bastante convencional e não toca naquilo que eu quis dizer. Não gostas do capitalismo? À vontade. Quem sou eu para te obrigar a gostar? Mas eu também não gosto do comunismo e nunca me inscrevi em qualquer partido anti-comunista. Há um certo padrão no comportamento dos partidos e dos regimes comunistas que não deveria ser novidade nos dias que correm para qualquer pessoa alfabetizada. Os partidos e os regimes comunistas são autoritários. A história do comunismo não passa de uma galeria de horrores, “a mais bem sucedida forma de fascismo”, nas justas palavras de Susan Sontag. Francamente, não me venhas com a história da Inquisição. Quem olha para a história do comunismo e não tira certas ilações tem uma grave incapacidade para aprender. De resto, o meu ponto é que as tuas justificações para abandonares o PCP me soaram fraquinhas. Na sua história, o PCP fez muito pior do que aquilo que aconteceu ao Carlos Brito ou ao Edgar Correia. Mas muito pior, mesmo, em episódios onde nem sequer faltou a morte violenta. E como te podem surpreender as dúvidas de Bernardino sobre a Coreia, quando a história do comunismo é a sua sistemática ligação a regimes autoritários, “fascistas de esquerda”, nas palavras do ministro Bagão (que Susan Sontag não desdenharia assinar)? Reconheces aos cristãos o direito de serem cristãos apesar da Inquisição. Tu entras e permaneces no PCP apesar de (imagino) saberes da história horrível do comunismo, e agora sais por causa do Carlos Brito e das larachas do Bernardino? Ricardo… Duh!
Não gostar do capitalismo não te obriga ser comunista. A partir do instante em que te assumes como comunista (não te esqueças, o Bloco continua a ser um partido comunista) sou obrigado a perguntar: não gostas do capitalismo. E do comunismo, gostas? Da miséria e opressão que são a sua marca? Olha para o PS, por exemplo: eles também não gostam muito do capitalismo, mas lá aceitam que é capaz de gerar riqueza e depois tentam corrigir aquilo a que chamam injustiças sociais com umas medidas aqui e acolá. Mas, sabes?, nisto tudo há uma coisa que me chateia. Se desses uma entrevista a explicar que tinhas sido do PSD e depois te tinhas desiludido e te tinhas passado para o PP, não eras aí o herói da pequenada. Não sei exactamente porquê, mas isso não seria visto como uma coisa “gira”. Já o Bloco, não sei, tem sempre muita graça. Mas, enfim, já chega: diz o que quiseres e apoia quem quiseres, desde que continues a fazer o melhor humor que esta terrinha conheceu em décadas. Se deixasses de o fazer e continuasses só com as tuas opiniões políticas, aí é que não tinhas salvação possível. [Luciano Amaral] |


Comments on "Uma coisa eu sei: o Meireles não é comuna"
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Pedro Santos said ... (6:27 da tarde) :
post a commentPara pessoas como tu devia haver só um partido, o CDS e este país seria um paraíso, sem miséria, sem fome, sem pobres, sem violência, cofres do estado cheios ... , eis que também alguém com essas mesmas ideias tentou fazer o mesmo por este país um tal Oliveira Salazar e o resultado foi = Ditadura !
Não a ditaduras de esquerda mas também não a ditaduras de direita !
Suponho eu que deves ter percebido a mensagem ... acorda e abre bem os olhos que ainda vais a tempo para ver a realidade da vida !