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quarta-feira, janeiro 26, 2005

Parece que foi ontem

Admiro o arrojo de António Guterres. Se estivesse no seu lugar, teria algum receio dos eleitores com mais memória. Teria pudor em sair à rua e tento com o que diria em público. António Guterres é, acima de tudo, um grande patriota. Foi por patriotismo que durante seis longos anos se ofereceu como refém aos caprichos do seu partido. Foi por patriotismo que comprou com nacos de queijo um deputado da república para lhe garantir uma maioria que as urnas lhe recusaram. E só por patriotismo, num acto de sublime generosidade, cometeu hari kiri numa tentativa desesperada de matar o monstro em que os socialistas se tinham tornado.

António Guterres não teve pavor, não desertou quando confrontado com o fim do oásis e também não fugiu dos seus próprios camaradas. O engenheiro foi magnânimo e teve medo do que ele próprio e os seus pântanos podiam fazer ao país.

Em boa hora regressa! O país estava necessitado de pessoas com esta fibra. Em feito de indulgência cristã, pede agora outra maioria absoluta para o mesmo partido, para as mesmas pessoas que um dia o arrastaram para o atoleiro onde se enfiou. Mesmo que os seus desejos não se cumpram, pode sempre recomendar ao outro Engenheiro comprar uns quantos deputados ou demitir-se recorrendo a parábolas sobre a instabilidade dos solos.

Parece que foi ontem e foi mesmo. António Guterres voltou oficialmente. Deixou cair a expressão “diálogo” mas a oração é quase a mesmo. Está um pouco mais anafado, mas o andar ainda lembra o Danny De Vito no papel de pinguim. As sondagens já o levam para Belém onde o terreno é certamente mais firme.

Os períodos de nojo estão como as estações, cada vez mais curtas, cada vez mais inconstantes. Guterres não fez a travessia no deserto que prometeu. Foi ali à praia de Cacilhas e voltou. Suspeito que o país vai tendo os políticos que merece.

[Rodrigo Moita de Deus]

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