O que ninguém pode esquecer
| As Nações Unidas, em sessão extraordinária da sua Assembleia Geral, homenagearam esta semana as vítimas do Holocausto, em especial aquelas que Auschwitz deu a conhecer ao mundo há 60 anos atrás. Pode parecer uma eternidade mas o que é facto é que muitos dos nossos pais e avós estavam vivos quando tudo se passou. Para hoje ainda está prevista uma cerimónia em Auschwitz II - Birkenau, com cerca de 50 Chefes de Estado e mais de 10 mil convidados.
Tive a oportunidade de lá ter estado há cerca de quatro anos. Escuso-me a tecer grandes considerações acerca do que vi, do que senti ou do silêncio que me perseguiu. Estando lá, tudo o que se leu ou aprendeu nos bancos da escola é insignificante. As coroas de flores não paravam de chegar à parede de fuzilamento. O choro de descendentes das vítimas ouvia-se por entre o arame farpado. Os retratos, escovas de dentes, sapatos ou simples pares de óculos ajudam-nos a perceber aquilo que ali, como em dezenas de outros campos da morte, aconteceu. Facto curioso, no meio disto tudo, é que foi o Exército soviético que descobriu Auschwitz. Precisamente há 60 anos. A solução final era dada a conhecer ao mundo por um dos regimes mais sanguinários da História. Com isto apenas pretendo colocar uma verdade em cima da mesa: os totalitarismos de esquerda e direita devem ser colocados no mesmo saco. Sem desculpas. As vítimas do nazismo e do comunismo merecem que não se branqueie a História. Ontem como hoje, os regimes democráticos têm de saber vencer os totalitarismos. Também eles precisam de dar provas que são os melhores. Que nos garantem a liberdade, o bem estar e o desenvolvimento. Numa era marcada por um totalitarismo sem rosto, que faz da surpresa assassina a sua arma, as democracias precisam de se regenerar. De acompanhar as necessidades das sociedades modernas. Não podem parar no tempo. Sob pena de novos totalitarismos surgirem e repetirem aquilo que não queremos ver repetido na História. Talvez porque nunca é demais lembrar os horrores dos totalitarismos não ficava mal uma qualquer declaração pública sobre Auschwitz de alguém com responsabilidades de Estado neste país. [Bernardo Pires de Lima] |


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