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quinta-feira, janeiro 27, 2005

O Acidental à escuta

A propósito do aumento da idade da reforma, responde-me o Carlos Guedes argumentando com o direito ao repouso.

Ao invés de repetir razões proponho-te um outro prisma para o problema: experimenta ver o trabalho como um direito e não como uma obrigação. Afinal, analisar o trabalho à luz de letras antigas como a “exploração do capital” ou o “proletariado fabril” é hoje redutor. Sabes que não sofro de excesso de fé na ética protestante, mas o trabalho pode ser também uma forma de realização pessoal. Se o aumento da idade de reforma for opcional, então teremos criado um consenso entre estas duas realidades, ou não?

Mas entre linhas desta discussão existe uma outra matéria que merece debate. Numa sociedade que mede as pessoas pela sua utilidade – futura ou presente – os velhos não são mais que um peso nas contas da segurança social. São senhores empurrados para os jogos de bisca nos jardins. Ou pior, para camaratas onde podem esperar tranquilamente o fim do seu tempo biológico. Os velhos não são velhos aos oitenta ou aos noventa. São velhos assim que se reformam. Aos cinquenta e cinco aos sessenta, ou mesmo aos quarenta se a reforma for antecipada. A velhice, hoje, aqui, não é biológica é funcional. A inutilidade é lhes fatal.

Reintegrar a terceira idade na sociedade. É quase ridícula esta frase, não é? Mas recordo-te que há poucos anos, durante a vaga de calor em Paris, as morgues ficaram cheias de velhos porque as famílias não interromperam as férias para reclamar os corpos. Utilizando uma expressão bem querida à canhota, a terceira idade sofre de exclusão.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: Já agora, obrigado. É sempre bom discutir umas ideias de sentido contrário sem deixar que as vaidades pessoais e os ódios ideológicos manchem as palavras.

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