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segunda-feira, janeiro 17, 2005

Importa-se de guardar o clamor só para si?

É uma certeza estatística. É o pior de todos os hábitos. O espectáculo pode ter sido mediano, fraco ou mesmo mau, no final ouve-se o clamor do público. Em todos! Sempre!

Só há uma coisa mais incomodativa que ouvir senhora ou senhor a esfolar um gato vivo. É ouvir a turba pedir que o faça outra vez. Um ou mais encores. Certamente para ter retorno do investimento no bilhete. Mesmo assim é falta de senso! Se a gaja não acertou na nota à primeira, alguém acha que vai mesmo fazer melhor à segunda? E à terceira? Até pode ser de vez...naquela nota. Mas aposto o meu tímpano direito em como falha a seguinte.
Por muito que nos custe admitir há mais do que noites infelizes, há escolhas infelizes, há carreiras infelizes e, há espectadores que não ficam muito melhores.

Tenho para mim que o público é mal-educado. Não basta ser recital para ser bom. Não basta ser violino para que o som seja diferente da sanfona do meu filho. Não basta pagar cinquenta euros para a senhora saber aterrar depois da pirueta. E se todos aqueles que não cortassem as unhas tocassem guitarra, faziam-se noites de fado nas praças de táxi.

E ele há gente que aplaude tudo. Tudo! O poeta de boina à Vitorino que, inspirado pela erva marada, consegue fazer estrofes com a palavra útero. O revolucionário experimentalista que, chamando-lhe arte, arranjou boa maneira de se deitar em cima das vizinhas. A menina de sapatilhas que, em vez de estar no D. Carlos, devia estar na lista de espera do S. José para uma fita gástrica. Tudo tem direito ao clamor. Tudo porque a multidão facilmente se deixa extasiar por fenómenos paranormais. Com jeito ainda se prova que são sempre os mesmos quinze. É vê-los e decorar-lhes a fuça. É vê-los nestes sítios e depois ir tirar dúvidas para os comícios do Bloco.

Louve-se o Senhor. Ele há espectáculos onde, pela sua natureza, o encore é logisticamente impossível. Louve-se o Senhor porque ninguém se ter lembrado de recomeçar a peça por causa do entusiasmo da maralha. A esses podia assistir com relativa segurança se não lhes tivesse ocorrido que podiam vir várias vezes ao palco: o grupo todo, um de cada vez, o grupo todo, um de cada vez, o grupo todo, um de cada vez e assim em adiante até que os calos na mão do povão os impeça de se agarrarem no autocarro. Assim que começam as palminhas, já estou eu a caminho, confiante nas capacidades da nicotina para me anestesiar os sentidos em carne viva.

E os artistas exigem-no como contrapartida. Desfazem-se em centos de vénias, mesmo que ninguém lhes encomende nada. Confundindo o auditório municipal de Loures com o Scala, as hostes emocionadas, preenchidas de tamanha importância, correspondem com clamor. No palco, o acto de receber os aplausos é por vezes a melhor parte da actuação.

Nem a tourada foge ao triste hábito de lamber botas mal cardadas. Mesmo o cavaleiro a quem o destino se esqueceu de bafejar com sorte e talento, enche o peito de galhardia e põe-se a recolher chapéus de senhoras impressionadas com o material. Muito embora tenha sempre vontade de o brindar com as mesmas agonias a que submeteu o próprio touro, lá me resigno ao que faz parte da festa. Armado ao inteligente, com o sol a fustigar-me a mona, tolero bravos e, pasme-se, olés de quem nunca antes tinha visto um cornudo fora do apartamento.

Nem me considero um tipo especialmente irritante ou irritável. Afinal o apupo é também uma importante forma de pedagogia. Há, em cima do palco, tanta gente que perde tanto tempo com as artes, quando os seus talentos e virtudes seriam melhor aproveitados noutra coisa qualquer. O que é uma maneira simpática de dizer que há muito boas e notáveis carreiras de funcionário público que se perdem à conta dos aplausos excitados do cardume. Com apupos, os teimosos e os moucos até podiam tentar segunda e quarta vez. Mas se a gente fosse solidária para o vizinho que todos os dias lhe atura o ensaio, estou certo que em pouco tempo conseguíamos fascinar o inadaptado com as maravilhas do requerimento em triplicado.

Mas isto sou eu. Convencido que tenho o direito, para grande indignação dos conformados do terceiro anel, continuo a apupar o meu Benfica sempre que a bola é tratada com os pés. Por me armar ao pingarelho, qualquer dia, à porta do estádio, levo uma solha bem dada de uma prima da bailarina.

[Rodrigo Moita de Deus]

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