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segunda-feira, janeiro 17, 2005

Guia para ler uma notícia

Aula prática: Manchete do jornal Expresso “Borges foi enganado”

1. Quando. Os factos noticiados têm alguns meses. Esta janela de tempo reduz a possibilidade de terem sido divulgados devido a uma excitação juvenil de quem não consegue conter a informação que tem em mãos. Ou seja, podemos presumir, com grau de certeza de 70 ou 80 por cento, que a “fonte” largou a notícia escolhendo o momento de acordo com as suas próprias intenções;
2. Quem. Concluindo que havia interesse em divulgar a notícia, podemos agora tratar de localizar a fonte. Os factos eram do conhecimento de duas partes: da parte do Professor António Borges e da parte do Governo. O Professor comentou a notícia. Se tivesse sido ele a divulgá-la não haveria necessidade da redacção do Expresso procurar junto do próprio a confirmação. Eventualmente terá sido alguém próximo do Professor, mas é de senso comum que a notícia não lhe interessa. E se alguém próximo se descaiu fazendo a maldade, aplica-se o ponto primeiro: porquê agora? Sobra agora a parte de quem fez o convite;
3. O quê. É necessário alguma atenção aos pormenores. Repare-se na minúcia da explicação sobre as razões que levaram o governo a retirar o convite: “Não existiam condições para cumprir as exigências salariais de António Borges”. Este inside lê-se como qualquer coisa do género: o patriótico Professor anunciado como Messias do partido, só estava disposto a servir a pátria se ganhasse mais que a Celeste Cardona e o Mira Amaral juntos". É uma maldade interessante e inteligente.

Adivinhando os termos certos em que a fonte fez a divulgação da notícia, é fácil concluir que o Expresso teve o cuidado de não se deixar utilizar – completamente. A fonte, apesar do estardalhaço, terá ficado desiludida com os termos. Bem mais útil seria uma manchete com: “Borges pede fortuna para voltar a Portugal”, ficou-se com “Borges enganado”.

Falta um mês para o dia seguinte das eleições.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: No mesmo fim-de-semana, num outro jornal, o nome de António Borges era discretamente referenciado.

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