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quinta-feira, janeiro 20, 2005

Estes são os tempos

Perdidas no meio da notícia que ontem recomendei, estavam estas linhas que quase me passavam despercebidas:

O BES é considerado um banco influente dentro do PSD, onde "está representado" ao mais alto nível, nomeadamente, através de Miguel Frasquilho, o porta voz para a Economia, e de António Mexia, ministro das Obras Públicas e um "homem de confiança" de Pedro Santana Lopes(…)

Nem sei o que mais me impressiona: se a certeza com que a jornalista dá a informação, se a importância relativa que dá ao facto de existirem ministros da República ao serviço de banqueiros. Sem pudor em revelar nomes, sem “supostamentes”, “consta que”, nem sequer uma “fonte próxima”.

Entre um texto sobre outro assunto, fica o público mais atento a saber que o ministro Mexia e o deputado Frasquilho não estão na maioria pela honra de servir o país, mas em representação do Dr. Ricardo Salgado. Ou seja - explica a jornalista com relevante grau de convicção - que o senhor Ministro Mexia e o Senhor Deputado Frasquilho estão nas respectivas cadeiras para fazer/tratar de negócios do BES. Confesso que não sabia. Mas como leio jornais passei a saber.

Piores que os tempos das insinuações, das metáforas e das cabalas, são os tempos em que já nem o “regime” se importa muito com o que dele possam dizer. Em que um senhor que já foi supremo magistrado pode vir à televisão explicar que há muita corrupção nas câmaras municipais, ou que a menina do jornal explique que os ministros são ministros para continuar a trabalhar para privados. Nem a notícia é desmentida, nem o banqueiro é investigado, nem o Procurador chama Mário Soares, nem sequer os autarcas se chateiam muito que os chamem de ladrões. Estes são os tempos do tá-se bem.

[Rodrigo Moita de Deus]

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