Após uma ausência de alguns dias em parte incerta, comecei a leitura retrospectiva dos blogs pelo Fora do Mundo, quando, a páginas tantas, dei de caras com a (já famosa) “questão Mexia”. Embora atrasado, não quero deixar de, sobre algumas das questões que a “questão Mexia” encerra, fazer os seguintes comentários:
Pedro Mexia: É o bloguista (e aqui, por estar no domínio dos blogs, falo apenas nessa sua qualidade) que mais gosto de ler. Já uma vez escrevi, a propósito do fim do Dicionário - e agora reitero -, que o Pedro aborda com interesse quase todos os assuntos, pelo menos, quase todos aqueles que me interessam. Com um humor ao qual sou especialmente sensível, bastantes referências que são também as minhas, e com uma forma de olhar o mundo, muitas vezes de fora dele, que igualmente compartilho. São afinidades que estão muito para além da esquerda e da direita. Não nego que seja relevante o facto de o Pedro ser - como eu - um realista e um pessimista. Mas isso não se confunde com lealdade a partidos ou a direitas partidárias. Aliás, ao contrário de alguns amigos e companheiros do Acidental, eu gosto bem mais do Mexia que escreve sobre livros, música, gajas, filmes, obsessões, fetiches, as pequenas misérias e grandezas do dia a dia, do que do Mexia que comenta a agenda política (tempos da Coluna Infame incluídos).
Dito isto, passou-me totalmente ao lado (embora o tenha lido e, a espaços, com o que lá está concordado) o artigo que escreveu sobre o CDS. O Pedro não deixou de ser o que era e vai sendo por criticar o CDS, e, por essa razão, o CDS não perderia nada em escutar algumas das críticas que lhe são feitas, para assim abster-se de cometer parte dos erros que cometeu e vai cometendo.
PP (aka CDS, aka CDS/PP): Sem deixar de reconhecer muitos dos vícios e defeitos que a este são apontados, o CDS tem todavia sido o Partido com maior sucesso na difícil tarefa de evitar que eu vote em branco, "contra" ou me abstenha. Não sou especialista em CDS, nem sequer sou filiado no CDS (mas, descansem aqueles que caracterizam o Acidental como blog do CDS, não tenho qualquer problema em dizer que sou do CDS), porém, isso não me impede de, ao olhar para o percurso deste Partido desde a sua fundação até agora, constatar que foi aquele que, nos momentos importantes, esteve por mais vezes no - ou próximo do - lado certo; a começar pelo voto contra a Constituição da República e a acabar nas poucas, e tímidas, tentativas de reforma dos últimos três anos. (Convém não esquecer que estamos a falar de Portugal, e em Portugal o lado certo possível é ainda algo distante do sítio certo ideal). O CDS não é um partido ideologicamente puro, contém dentro de si várias tendências: a democracia cristã (em que também me revejo, talvez até mais do que em qualquer outra), liberalismo e conservadorismo. Tal facto é, a meu ver, mais uma qualidade do que um defeito. Eu próprio estou longe de ser puro, pois sou fruto de uma amálgama doutrinária, onde, inclusivamente, há espaço de sobra para pontuais desvios ditos de esquerda. O CDS, como é sabido, tem também a sua dose de populismo, mas isso é algo com que se tem que viver. Nesta altura do campeonato, só aos ingénuos é permitido pensar que ainda é possível existirem partidos imunes ao populismo.
Dito isto, considero fundamental que o CDS continue a existir, que não se dissolva nesse camaleão gigante que é o PSD, e, consequentemente, que esteja sempre preparado para concorrer sozinho a eleições, ainda que isso possa implicar o risco de ficar reduzido a uma bicicleta.
Os outros: Muitos foram os blogs que se pronunciaram a propósito da “questão Mexia”. Nuns, vi gente interessada a escrever textos interessantes. Noutros, porém, houve quem tivesse aproveitado a ocasião para, passando a mão pelo pêlo do Pedro, dar umas porradas nos acidentais. Qualquer coisa do género “vejam só a direita radical e selvagem a atacar a direita moderada e civilizada”. A esta espécie de abutres cibernéticos, quero apenas dizer que o Pedro Mexia não merece ser usado como mero pretexto.
A crise segue dentro de momentos
[ENP]
|