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Terça-feira, Novembro 30, 2004
E em última instância…
| Os governos ou têm legitimidade democrática ou não têm. As instituições ou funcionam ou não funcionam. O que não passa pela cabeça de ninguém é que um governo possa ser demitido só porque é “mau”. Se assim fosse nunca mais existiam governos de centro-direita com presidentes de esquerda, ou vice-versa. Se assim fosse, Guterres também não teria sobrevivido ao primeiro mandato.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Casamentos e Baptizados
| Um dia destes fui parar aqui. Ponho-me a ler umas coisas e, de repente, percebo: espera lá… este gajo é o Pita. Ora bem, o Pita é uma pessoa que costumo encontrar principalmente em casamentos e baptizados, mas com quem já apanhei também um pifo ou dois. Eu. Porque ele ficou sóbrio que nem uma couve (para quem não sabia que as couves são sóbrias). Eles não puseram link aqui para esta baiuca. Não faz mal. Não me importo. O blog não é meu. Para além disso, puseram lá links para cada barrete… O que importa é que o Pita escreve lá (sob o pseudónimo de João Pedro George) e já lá pôs umas quantas das melhores críticas literárias que por aí circulam. A propósito, quando é que é o próximo baptizado?
[Luciano Amaral] |
Todos os patinhos sabem bem nadar
| Escrevi ontem que, caso o governo do País vá parar às mãos da esquerda - eu usei a palavra "regaço" mas é melhor não voltar a empregar expressões que tenham a ver com bebés, porque o dr. Pacheco Pereira não gosta -, há muito boa gente do centro e da direita que deve ser chamado a assumir a sua quota de responsabilidade. Foi pretexto suficiente para alguns senhores da esquerda mais ou menos militante, condicionados pelos seus próprios esquemas mentais, virem a correr acusar-me de caça aos traidores sem "lealdade orgânica".
Ora, o que eu dizia não era mais do que está escrito: há muito boa gente no centro e na direita que, obcecada pelos seus umbigos e possuída por ódios paroquiais, está disposta a tudo para apear o primeiro-ministro, Santana Lopes. Mesmo que isso signifique entregar o poder a Sócrates - ou mesmo a Louçã. Por isso mesmo, essa boa gente - e os exemplos abundam - deve assumir as suas responsabilidades caso tal cenário se venha a concretizar. E ponto final. Isto não quer dizer que o CDS esteja desesperado em busca de traidores, como diz o sempre humorístico agit-prop do Bloco de Esquerda, Daniel Oliveira, nem que já tenha começado a "caça às bruxas", como calcula o pró-socrático Paulo Gorjão. Tenham calma, rapazes, mantenham a cabeça fria, não me confundam com os vossos compagnons de route. Esses são métodos típicos da esquerda, tradicionalmente especialista em purgas. Não me analisem, por isso, de acordo com os vossos pré-conceitos. A direita a que pertenço limita-se a registar. E tem memória, naturalmente. [PPM] PS: Esta história dos "orgânicos" já me está a encanitar. Só para que saibam, à esquerda mas sobretudo à direita, sempre vos digo que prefiro a condição de "orgânico" a ser incluído entre gente "inorgânica", que não é carne nem é peixe, disposta a tudo para manter-se na crista da onda. Hertziana, claro. |
Em bom rigor…
| Antes de decidir dissolver a Assembleia da República, Jorge Sampaio ouvirá sempre o Conselho de Estado.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Genealogia do Fim
| Peças como a que na 6ª feira passada saiu no jornal Público da autoria de um indivíduo que assina Vasco Pulido Valente (mas não deve certamente ser o mesmo que outrora usava nome idêntico) só podem ser levadas a sério se entendidas num sentido cómico. É como as declarações de Mário Soares – estão a ver quais são, não estão? aquelas dos golpes de estado e do fascismo e rebeubéu. Ou as do Prof. Cavaco sobre a moeda boa e má. Parece que o horror e a incompetência só agora chegaram ao governo. Não queria estar aqui a relembrar o óbvio: os autores deste governo e suas crises chamam-se José Manuel Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite. Um foi (literalmente) desta para melhor. A outra errou dramaticamente na sua política orçamental, assim desperdiçando (para décadas) o capital político futuro de quem queira reformar o Estado português e (consequentemente) a economia nacional. Ora, estas pessoas fazem parte da “velha”, “respeitável” e “competente” classe política de que toda a gente agora parece ter tantas saudades.
O governo é horrível? Sem dúvida. Mas não pelas razões que se lhe costumam apontar. O governo é horrível porque existe. Santana Lopes, para ser levado a sério, deveria desde o início ter encontrado qualquer pretexto para ir a eleições. De uma vez por todas responsabilizava o cavaquismo de gestão (do ex-José Manuel Durão Barroso) pela crise criada e das duas uma: ou ganhava as eleições e tinha o partido na mão ou as perdia, mas na verdade a responsabilidade não lhe podia ser atribuída. E os Profs. Cavacos e Marques Mendes desta terra não tinham autoridade nenhuma para (no congresso e nos jornais) lhe fazerem qualquer espécie de crítica. Aproveitava para calar de vez no PSD essas criaturas cujo único objectivo parece ser destruir o PSD e apresentava-se a eleições com cara nova. Em vez disso, o que é que temos? Um grupo de sujeitos a que alguém chama “governo”, rapando o fundo do tacho e presos pela trela do Dr. Jorge Sampaio (do Dr. Sampaio, meu Deus, pode haver maior humilhação?), o qual se atreve mesmo, como ontem de manhã, a fazer reprimendas e “sérios avisos”. Só que, como é evidente, para fazer isto, o Dr. Lopes tinha de ter uma ideia de governo na cabeça. E uma ideia de governo que, de uma vez, enfrentasse o PREC recauchutado em que infelizmente ainda vivemos. Mas já todos percebemos que naquela cabeça essa ideia (qualquer ideia?) não parece mesmo existir (se existe, está muito, mas muito, recalcada). Tudo isto que estive para aqui a dizer, na verdade, era pedir demais ao Dr. Lopes. Agora, mais vale que vá mesmo ao fundo. Vem aí o Guterrismo de gestão? Pois que venha, ao menos vamos ao fundo com camisola de gola alta. [Luciano Amaral] |
Um silêncio ruidoso
| Não consigo compreender o silêncio do primeiro-ministro sobre a demissão de Henrique Chaves nem o silêncio sobre as graves acusações por este proferidas. Tenho para mim que o senhor em causa está melhor fora do Governo e, se calhar, nunca lá devia ter estado. Mas, infelizmente, não é esse o problema. A questão é outra: um ministro demitiu-se depois de três dias no cargo e proferiu acusações violentíssimas ao primeiro-ministro. Ora, o PM responde politicamente pelos seus ministros; a demissão de um ministro (ainda para mais da forma que foi) não é propriamente igual à demissão de um qualquer funcionário do Estado; o Governo tem um mandato concedido pelo Povo através da Assembleia da República e a demissão de um governante nestas circunstâncias tem de ser explicado aos cidadãos pelo máximo representante político do Governo.
[Pedro Marques Lopes] PS: Caro Paulo, não te deixes provocar por pessoas que não querem compreender a essência do Acidental. Pior do que isso, comentam-no sem o lerem. Se o lessem, já tinham percebido que uma parte significativa dos teus convidados nem sequer são do CDS quanto mais “portistas” (apesar de, pelo menos, dois dele serem do glorioso FCP). A ignorância é muito atrevida. |
As fraldas
| O Dr. Cunhal envia uma mensagem ao congresso do PCP com o recauchutado “viva o marxismo-leninismo”. O Dr. Soares vai a Paris para enviar cá para dentro o seu último pensamento profundo: “é preciso fazer alguma coisa”. O Eng. José Sócrates, que lê os autores preferidos do Dr. Soares, afirma com ar seguro que “é preciso estabilidade”. O Eng. Guterres desapareceu outra vez, o Dr. Louçã foi apanhado desprevenido e disse umas coisas improváveis, o Dr. Bruno Dias, do PCP, entende que o bebé Santana saído da incubadora está grandinho, já gatinha, não carecendo de carinho ou ternura.
É esta esquerda, dividida entre o "sim" e o "não" à Constituição Europeia, que em trôpega avidez se oferece ao mercado para lavar as fraldas que o bebé do outro, já quase refeito, vai deixando sujas. [Rodrigo Moita de Deus] |
Para ti, Manuela
| A Manuela Moura Guedes - aliás, o Manuel da Grande Loja do Queijo Limiano - ainda não conseguiu perceber bem a natureza do Acidental e chama-nos o blogue oficioso do portismo. O pior é que o faz chamando à colação o Rodrigo Moita de Deus, insuspeito de qualquer proximidade ao portismo ou ao CDS. Bem pelo contrário. A ignorância ou a má-fé da Manuela, aliás Manuel, não tem limites - mas é compensada pela inimputabilidade do anonimato de quem tais dislates profere. Já agora, deixo aqui os meus sinceros agradecimentos por me confundir com a Margarida Rebelo Pinto, uma rapariga de vastas audiências e reconhecidas qualidades. Os meus parabéns também pela esmerada educação só agora finalmente revelada.
[PPM] |
Agradecido
| Agradecemos a correcção enviada por email pelo Paulo Gorjão: a Lei é de Gresham e não Gersham.
[PPM] |
Correio da blogosfera
| Poderia fazer chegar esta nota (disponível em
http://irreflexoes.blogspot.com/2004/11/breves-notas.html) ao seu convidado Rodrigo Moita de Deus? "A Rodrigo Moita de Deus, que as dúvidas não lhe doam. Eu responderia a tal grau de despreparo do jornalista: 1. Como sempre, com aquele que determina a LEOE, isto é, na falta de um orçamento aprovado em 31 de Dezembro de 2004, o ano de 2005 veria a execução por duodécimos do Orçamento aprovado para 2004, até aprovação de novo instrumento. Já aconteceu n vezes. Sem dramas de maior. 2. Porque os partidos da oposição não estão para dar a Santana o grau de vitimização que ele quer. Eu não sei se vocês pensam que Santana é Cavaco e podia sair disto para uma maioria absoluta, mas se pensam desenganem-se! Para mais, seria um gastar de papel inútil. 3. De momento, ao que parece, demais. De facto, a legitimidade de voto e a preponderância governativa estão desequilibrados e de que maneira. 4. Qualquer Governo custa dinheiro. Os custos de manter este Governo por mais um dia (mais uma hora, que diabo!) é que são proibitivos. Basta atentar no número de assessores, pelo lado da despesa, e no depauperamento do país, do lado dos custos. Fazê-lo cair é uma medida de higienização, nomeadamente orçamental." Eternamente grato, Irreflexões Paulo, O teu poste da Ucrânia é hilariante. Sugestão: fala do Iraque. Aquilo sim, é que é lixado... Onde está o espírito crítico? Ou é tudo medinho de o governo ir ao ar (o que julgo não ir acontecer)? Continua com o teu bom humor, Sérgio Bastos |
Segunda-feira, Novembro 29, 2004
A vida não acaba no défice, mas...
| Em Belém, nos argumentos que mais pesam contra a dissolução da Assembleia da República, conta-se certamente a questão orçamental. Não seria a primeira vez que o país era governado com duodécimos, mas isso foi antes da União Europeia, do Euro e do pacto de estabilidade e crescimento.
A dissolução da Assembleia da República, antes da aprovação do orçamento, implicaria três meses até novas eleições. Somam-se mais três até que novo orçamento fosse feito e aprovado. Ou seja, estamos a falar de meados do próximo ano. Mais. A execução do orçamento de estado para 2005, nomeadamente o controlo do défice, depende prioritariamente da execução de medidas extraordinárias (passagem do fundo da CGA, venda de imóveis…) e também do sucesso ao combate à evasão fiscal. Na prática, políticas que estão “vedadas” a um governo de gestão. Na prática, dissolver a Assembleia da República antes da aprovação do orçamento, seria um convite para o descontrolo das finanças públicas e muito especialmente do défice. Não sou um especialista na matéria – e era bom que um economista falasse sobre esta questão – mas acredito que um cenário destes é o suficiente para deixar um presidente (e os técnicos do Eurostat) à beira de um ataque de nervos. [Rodrigo Moita de Deus] |
Estranho país o nosso…
| Quando são os próprios santanistas que arranjam problemas. Quando o governo treme, a oposição prova que não quer eleições antecipadas. Onde Paulo Portas, com o seu silêncio, é o único que dá estabilidade.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Perguntar não ofende
A caução do Maestro Miguel Graça Moura terá sido paga com o cartão de crédito da orquestra? [Rodrigo Moita de Deus] |
A estabilidade da malta
| DN – Nas legislativas, se o PS precisar do BE para formar governo, estariam dispostos a passar a essa fase?
Francisco Louçã - Esse tema vai ser discutido na próxima convenção do Bloco, em Março. Sr. Presidente, é melhor não convocar eleições para já. Há que esperar pela convenção do Bloco de Esquerda, que a malta tem de discutir se vai ou não para o governo com o PS. E depois ainda há que esperar mais um bocadinho pelas Novas Fronteiras. Afinal de contas, é a estabilidade do País que está em jogo. E com estes senhores, pelos vistos, estará mais do que assegurada. [PPM] |
É chato mas é verdade
| O comunicado de Henrique Chaves está muito mal escrito.
[Inês Teotónio Pereira] |
Solidariedade institucional
Quando Jorge Sampaio nomeou Pedro Santana Lopes foi obrigado a fazer o que menos gosta: decidir. Quando Jorge Sampaio nomeou Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro, tornou-se solidário no sucesso e insucesso do actual governo. Por isso tem feito questão de tanto intervir, tornando-se numa inédita espécie de primeiro-ministro sombra ou conselheiro preferencial. Por isso não acredito que Jorge Sampaio tenha coragem para dissolver a Assembleia da República. Procurará sempre argumentos para não o fazer. E tem. O Orçamento de Estado que está pendente, a inexistência de moções de censura, a maioria parlamentar obediente e a estabilidade da coligação que perdura (por enquanto). Enquanto Paulo Portas quiser o governo continua. E, depois de nove anos neste registo, não será difícil adivinhar que o Presidente deve estar a rezar para que o tempo passe depressa até ao dia em que se possa desculpar com a Constituição para não demitir o governo. Ironicamente, no final, o seu legado político vai estar acorrentado ao destino de Santana Lopes. [Rodrigo Moita de Deus] |
Cavaco, amigo
| Cavaco Silva tem toda a razão quanto à lei de Gersham. Só não se percebe quem são os "políticos competentes" que têm de substituir os "incompetentes". Será que se está a referir a José Sócrates e a João Soares ou aos ex-membros do seus governos como Álvaro Barreto, Bagão Félix ou Luís Filipe Pereira?
[Inês Teotónio Pereira] |
Em bom rigor…
| Se Jorge Sampaio quisesse dissolver a Assembleia da República já tinha começado o corrupio de audiências e consultas no Palácio de Belém.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Explicações
| O primeiro-ministro deve uma explicação ao país e quanto mais depressa a der, melhor. Não se pode dar uma pasta a uma pessoa na quarta e ela demitir-se no domingo.
[Pedro Marques Lopes] |
A propósito da Lei de Gersham
| Já tinha saudades de ouvir políticos competentes como o ilustre Couto dos Santos.
[PPM] |
Afinal é possível
| Já passou uma semana e este blog ainda não falou sobre a Casa Pia.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Estamos nisto
| 28.11.04
[2234] SEJAMOS CLAROS (I) O Presidente da República não vai demitir o Governo antes de 2005, nomeadamente porque, em condições ideais, o PS não quer eleições antecipadas antes das Novas Fronteiras em Janeiro/Fevereiro de 2005. Ficamos assim a saber que, para alguns dos seguidores de José Sócrates, o timming político do Presidente Jorge Sampaio está dependente do calendário das Novas Fronteiras. Só não se esqueçam que, a serem antecipadas as eleições, os portugueses também serão informados destas estranhas coincidências. [PPM] |
Depois não se queixem
| Se o poder vier a cair no regaço da esquerda, há muito boa gente no centro e na direita que pode e deve ser chamada a assumir a sua quota de responsabilidade.
[PPM] |
Se eu fosse jornalista perguntava:
| 1. Se Jorge Sampaio dissolver agora a Assembleia da República com que orçamento é que o país é governado?
2. Sendo a demissão de Henrique Chaves um facto gravíssimo sobre a condução política do governo, porque será que nenhum partido com assento parlamentar apresenta uma moção de censura? 3. O que terá Paulo Portas a dizer sobre a condução política do governo? 4. Se Jorge Sampaio dissolver a Assembleia da República, como pode ele explicar seis meses de tempo e dinheiro perdidos num governo que nunca chegou a ser? [Rodrigo Moita de Deus] |
Domingo, Novembro 28, 2004
O filho da puta não se lembra de mim
| Não te lembras de mim, mas eu sei bem quem tu és. É a pena que te denuncia. Leio as palavras e a tua imagem ganha vida.
E como podia eu esquecer? Que te sirva de elogio, estás igual! Estás na mesma. O mesmo alcoviteiro, escondido entre saias da professora. O mesmo manhoso, com fama e proveito de delator. O mesmo cábula com mais talento para a citação que para a escrita. A ti, há muito que não te encontro, mas tenho visto os teus irmãos. O canalha, o infame e o embusteiro. Estão todos bem e de boa saúde. Pululam alegremente por aí. E agora? Ainda não te lembras de mim? Não me recordarás nas tuas aventuras no parque ou no jardim, nem sequer dos cafés ou das livrarias. Podes até queixar-te da falta que te fez a minha companhia. Mas depois de tantos anos nem te percebo o desprezo. É da mesma escola! Já te lembras agora? O filho da puta e o fascista andaram juntos na mesma aula e até partilharam a carteira. É desses tempos de garoto que me vêm as certezas quanto à tua maternidade e as tuas quanto à minha ideologia. Manda saudades e desculpas à rameira. Um filho da puta assim, só pode ser filho de si próprio. [O Acidental] |
Sexta-feira, Novembro 26, 2004
Real politik
| Eis um pequeno exemplo de como os socialistas sabem ultrapassar as dificuldades:
«Os princípios da Constituição Europeia vão ser divulgados aos cidadãos espanhóis através do programa televisivo "Big Brother", anunciou hoje o diário El Mundo. A ideia partiu da directora do 'reality-show' em Espanha, Mercedes Milá, e conta com o visto positivo da vice-presidente do Governo, Maria Teresa Fernández de la Vega. "Qualquer programa de televisão que se dedique a explicar a Constituição Europeia parece-me muito bem", afirmou a vice-presidente em conferência de imprensa. Como parte de uma das provas do concurso, os participantes do "Big Brother" espanhol dispõem então de uma semana para aprender os princípios básicos da Constituição, para depois explicá-los a uma cidadã polaca que não sabe falar espanhol. "Qualquer coisa que sirva para fazer chegar aos espanhóis os princípios da Constituição Europeia nos dias que correm é positiva", reiteraram fontes da vice-presidência.» Pergunta: Porquê uma polaca? Desafio: Pôr o José Castelo Branco a explicar as perguntas do referendo à porca da Quinta das Celebridades. [Inês Teotónio Pereira] |
Novos provérbios populares
| Para onde o país mediático se inclina, o oportunista opina
Se alguém é de outra opinião, desanca-o na televisão Escreve e terás, acusa e verás Se queres que digam bem de ti, diz mal dos outros Quem assiste ao congresso do PCP, é porque não tem DVD [PPM] |
O PCP está para a Igreja Católica como o Bloco de Esquerda está para a IURD
| Não percebo quando se anuncia a morte do PCP por causa dos seus desaires eleitorais, do envelhecimento dos seus militantes e do decréscimo do número de filiados.
Da mesma maneira que não percebo quando se diz que a Igreja Católica está pela hora da morte porque há cada vez menos padres e militantes católicos e porque não adapta o seu discurso aos "tempos modernos". O PCP copiou o modo de funcionamento da Igreja e adoptou um modelo estrutural idêntico, com um cariz fundamentalmente doutrinário. Não há campanhas eleitorais internas, há nomeações e sucessões naturais. Os dirigentes são escolhidos conforme a conveniência do "colectivo" que se dilui numa rede bem organizada e não porque consegue mais votos ou arrecadar mais simpatias. O secretário-geral do PCP é a representação física, na verdade, daquelas dezenas de pessoas que estão sentadas no estrado do Pavilhão Municipal de Almada. Da mesma forma que os dirigentes da Igreja Católica portuguesa são as dezenas de bispos que constituem a Conferência Episcopal. Carvalhas ou Jerónimo de Sousa, tal como José Policarpo, são apenas um entre iguais. Podia ser outro. Por isso é que, democraticamente, o PCP nunca chegará ao poder. Já o Bloco de Esquerda é fundamentalmente comercial, uma espécie de IURD – neste caso, os padres casam e as mulheres podem ser padres. [Inês Teotónio Pereira] |
Meu caro Luciano Amaral,
| Escrevo-lhe atrasado por só hoje ter lido o seu (longo) poste em que elogiava O Acidental, enquanto espaço de pluralismo, demonstrando ainda assim alguma compreensão pelo que o Pedro Mexia está a passar.
Aceitando como argumento a deslealdade orgânica de que acusei o Mexia, o Luciano acrescenta que os partidos de direita têm, eles próprios, sido desleais organicamente a quem lhes tem sugerido políticas públicas. Nesse rol de pessoas (em que agora o incluo a si) inclui também o Pedro Mexia. Gostava de esclarecer, para que não restem quaisquer dúvidas, o sentido das minhas palavras. Li com atenção e paciência o que alguns escreveram a esse propósito. Uns com mais paciência que atenção, confesso. A título de exemplo refiro aqui o Paulo Gorjão (acho que é este o seu nome), que, para não variar, disse um conjunto de disparates típicos de quem raciocina de forma pidesca e desmiolada. Mas adiante. Quando falo em lealdades orgânicas falo, obviamente, em termos de espaço político. Não acho relevante que o Pedro Mexia critique ou elogie o Paulo Portas e o CDS: antes pelo contrário, quem recebe e fica inchado com piropos do Eduardo Prado Coelho não pode nem deve elogiar o Paulo Portas, sob pena de tudo isto se transformar em algo ilegível e confuso. Como gosto das coisas claras, e como sou dos que acredita que “não há almoços grátis”, penso que um elogio proveniente de tal senhor traz sempre “água no bico”. Pelo respeito que lhe tenho a si, pelo que escreve e como escreve (não tenho a sorte do Paulo Pinto Mascarenhas e de outros amigos comuns de o conhecer pessoalmente), deixe que identifique aquilo que penso serem duas incorrecções no seu texto. Em primeiro lugar, o Luciano fala em “partidos de direita”. Confesso que fiz um esforço para tentar perceber o plural. “Partidos” de “direita”? As confusões que à “direita” se fazem com o “centro” político são graves e preocupantes. Em segundo lugar, o que quis dizer com o post sobre o Pedro Mexia é mais ou menos o que a Inês Teotónio Pereira escreve ali em baixo sobre a “direita”. O Pedro Mexia tem todo o direito de escrever o que escreve. E eu, tal como o Francisco Mendes da Silva, identifico milhões de fínfias na sua análise. O problema não está aí... a “deslealdade orgânica” não é, como está bom de ver, o “delito de opinião” ou o “desvio de esquerda”. O que penso é que não se pode dizer, por dizer, que a direita vai mal porque não se gosta dos fatos de quem a dirige ou por razões meramente pessoais. São argumentos demagógicos, típicos da esquerda, a quem o Pedro Mexia concede autoridade numa postura totalmente autofágica. Ou seja: o Pedro Mexia preferiu o acessório ao essencial. E isto, meu caro Luciano Amaral, não é aceitável. Com os meus melhores cumprimentos, [José Bourbon Ribeiro] |
Elogio fraternal
| Fernando Vale foi completamente diferente de Mário Soares: ele acreditava mesmo naquilo.
[Inês Teotónio Pereira] |
O Manuel Alegre da Direita
| Porque discordo da “agenda social” conservadora do partido, não sou militante do CDS/PP. Estou, é certo, próximo da visão de Política Externa e de Defesa defendida pelo CDS, assim como das suas posições económicas mais liberais, que coexistem com uma perspectiva social cristã que pouco me agrada. Quanto a Paulo Portas, reconheço os seus méritos políticos (que são consideráveis), mas também não ignoro as suas limitações (que prefiro não discutir publicamente). Não me sinto “desiludido” nem “traído” por Portas porque nunca acreditei que ele – nem ninguém - fosse o “salvador” da direita portuguesa.
Vem isto a propósito da “questão Pedro Mexia”, suscitada pelo artigo que publicou no Diário de Notícias. Pedro Mexia (PM) tem todo o direito de escrever o que entende, sobre aquilo que entende. No entanto, PM não é um “dissidente” nem um “heterodoxo” porque, no espaço da direita democrática, não há dogma nem ortodoxia. Contrariamente ao Zé, eu não espero, nem nunca esperei, lealdade (orgânica ou outra) do Pedro Mexia. Tenho apreço intelectual pelo Pedro, e estima pessoal. Mais nada. Todavia, incomoda-me verificar que as críticas de Mexia ao CDS são pessoais, resultantes de uma certa amargura e, eventualmente, de algum ressentimento. O problema é que o artigo do Pedro não é político; o problema de PM é com Paulo Portas – e, portanto, do foro pessoal. Sobre as suas razões, só PM pode saber. Mas vamos aos argumentos de Mexia. Diz que a “oscilação ideológica” do CDS foi negativa porque “a função do CDS, que consistia em apresentar um claro caderno doutrinário, foi sendo corroída pela constante mudança”. PM não parece entender que essas mudanças doutrinárias evitaram o colapso do CDS. São, por outras palavras, fonte da sua força porque corresponderam às mutações na direita portuguesa. Para sobreviver, o CDS adaptou-se às transformações sociológicas na direita. Que queria Mexia? Que o CDS se fechasse – tipo MRPP – num gueto doutrinário enquanto o mundo se transfigurava? Contrariamente a Pedro Mexia, que prefere um partido ideologicamente puro (mas politicamente irrelevante porque ideologicamente estático), eu julgo que o CDS ainda não mudou o suficiente. Que, ao manter um conjunto de “posições de princípio” (por exemplo, no aborto), o partido está afastado da realidade sociológica. Que o CDS/PP deveria ser mais liberal e mais aberto. Mexia dirá que os princípios sobrepõem-se às considerações de poder (é justamente isto que quer dizer quando afirma que a “função” do CDS seria “apresentar um claro caderno doutrinário”). Mas, se assim é, recomendo que o CDS deixe de ser um partido político – que visa conquistar o poder – e passe a ser um mero grupo de reflexão. Ou que se transforme num lobbi de uma causa, como foi o caso do Partido da Solidariedade Nacional. Partidos que deixam de estar enraízados na realidade sociológica e cultural do país morrem. Por isso mesmo, nunca elogiei a coerência ideológica de Álvaro Cunhal e do PCP. Mas se Mexia tivesse razão ao dizer que a “crise” do CDS resulta destas alterações doutrinárias, então a “culpa” da crise não pode ser atribuída a Paulo Portas, como faz Mexia. É, obviamente, muito anterior a ele. Então por que razão é que PM diz que a liderança de Portas tem sido “largamente fracassada”? Afinal, o CDS fez aquilo que os partidos ambicionam: chegou ao poder e está a contribuir para mudar Portugal. Mexia responde: “do ponto de vista partidário, o consulado Portas tem sido nocivo”. Não critica as políticas do CDS, nem a actuação de Portas na Defesa ou de Bagão nas Finanças. Com efeito, Mexia não critica o trabalho político do ministro Portas, critica a actuação partidária do “chefe” Portas. Diz que Portas “acentuou muitíssimo o grande problema que é a personalização do partido (lembremos a tão glosada semelhança de iniciais)”. E acrescenta que “Portas mudou de personalidade pública. Não abrandou a demagogia. Fez versos. Usa gravata. E fato às riscas”. Pedro Mexia pode não gostar das gravatas de Portas, ou dos seus tiques de personalidade. Mas não deveria confundir isso com a substância da actuação política de Portas. Ou seja, Mexia confunde o mensageiro com a mensagem. Simplesmente não gosta do packaging da mensagem – leia-se, não aprecia Portas. Apenas, mostra a sua preocupação com as gravatas e os fatos de Portas. Como crítica política, é curto. Quanto à tão glosada semelhança de iniciais, talvez Portas possa alterar o seu apelido para evitar essa coincidência. Depois de escrever que o CDS está condenado ao fracasso, Pedro Mexia acrescenta que “em certos meios de direita, as pessoas votam indistintamente, conforme os casos, num partido ou noutro. Esses dois factores, que funcionam como uma tenaz, ditarão o fim do CDS como partido autónomo ou viável”. O problema é que a conclusão não resulta da observação. PM deveria saber que este mesmo fenómeno – a flutuação eleitoral à direita – tem, ao longo dos últimos 30 anos, garantido a sobrevivência do CDS. Dito de forma mais simples, o CDS cresce quando o PSD perde a sua capacidade de atracção eleitoral. Ou seja, o CDS conquista votos à custa do PSD. Sendo assim, como é que o CDS pode crescer estando numa coligação com o PSD? Este é o verdadeiro dilema do CDS. Não é Paulo Portas, nem os seus fatos e as suas gravatas. Pedro Mexia tem uma perspectiva excessivamente fulanizada da política. Por isso, está desiludido com Portas e julga que o partido não tem futuro sem o seu líder (ironicamente, na óptica de PM, o CDS também não tem futuro com o seu actual líder). Eis uma perspectiva simplista, uma visão pessoalizada, uma leitura poética da política. Salvaguardando as diferenças, Mexia olha para a direita como Manuel Alegre olha para a esquerda: com os olhos de um romântico que não entende a praxis. É, no fundo, politicamente naive. A verdade é que Pedro Mexia não cometeu delito de opinião contra a direita. Limitou-se a escrever um mau artigo. Compreendo, pois, que queira deixar de escrever sobre a porca da política portuguesa. [Vasco Rato] |
Um elogio único ao PCP
| Dizem os comentadores que o PCP tem de “mudar”, “adaptar-se”, “modernizar-se” concluindo que a escolha de Jerónimo de Sousa não é suficientemente eleitoralista para assegurar a sobrevivência do partido.
A política é uma actividade cínica. Se o PCP mudasse de linha, seria acusado de ter feito “concessões ao populismo”. Se o PCP tivesse escolhido um secretário-geral mais actual seria acusado de ter “abandonado os seus valores tornando-se num vazio ideológico”. Tenho para mim que os partidos não são apenas máquinas eleitorais ou instrumentos de exercício de poder. Os partidos são, na sua essência, as ideias e os valores que representam. Nesse sentido para quê mudar? Para quê adaptarem-se? Para ganhar eleições? E depois de ganhas? O que fariam no poder? Governariam sem rumo ou ambição de mudança? Governariam sem ideologia, tornando-se iguais aos outros? Talvez o PCP tenha percebido que ganhar eleições com um partido descaracterizado é substituir o Zé pelo Manel. Talvez os outros partidos é que tenham a aprender com isso. [Rodrigo Moita de Deus] PS: Prefiro a clareza, a honestidade e a ortodoxia doutrinária do PCP, ao embuste eleitoralista do Bloco de Esquerda. Prefiro um PCP estalinista, ao marxismo subterrâneo do Bloco de Esquerda. Prefiro a franqueza do PCP ao ardil eleitoralista e ideológico do Bloco de Esquerda. Ao menos sabemos que são contra a economia de mercado, contra a aliança atlântica, contra a livre iniciativa. Ao menos, sabemos com quem estamos a falar. |
O meu herói
Hoje faria anos um dos meus heróis. Com a vossa autorização, fica um extracto de que eu especialmente gosto: "I thought that it was strange to assume that it was abnormal for anyone to be forever asking questions about the nature of the universe, about what the human condition really was, my condition, what I was doing here, if there was really something to do. It seemed to me on the contrary that it was abnormal for people not to think about it, for them to allow themselves to live, as it were, unconsciously. Perhaps it's because everyone, all the others, are convinced in some unformulated, irrational way that one day everything will be made clear. Perhaps there will be a morning of grace for humanity. Perhaps there will be a morning of grace for me." (extraído do "The Hermit", 1973) Este meu herói chama-se Eugène Ionesco. [Pedro Marques Lopes] |
E ninguém o processa?
Depois do Supremo Tribunal Administrativo ter dado razão à Câmara Municipal de Lisboa no caso do túnel do Marquês, Carmona Rodrigues anunciou que pode processar o Estado pelos prejuízos decorrentes dos sete meses de suspensão das obras, avaliados em cerca de 2,5 milhões de euros. E eu pergunto: será que ninguém vai processar o advogado José Sá Fernandes pela mesmíssima razão, mas sobretudo pelos enormes incómodos provocados aos habitantes de Lisboa? [PPM] |
Quinta-feira, Novembro 25, 2004
Fecho da edição
| Ainda sobre a inocente “Evocação de Yasser Arafat” pelo Movimento dos Generais, resta dizer que se espera um amplo debate sobre o paradeiro dos mil milhões de dólares em ajuda humanitária surripiados à “luta pela independência da palestina”. Quanto à lista de participantes na iniciativa, até à hora de fecho desta edição, não foi possível confirmar a presença de Manuel Monteiro e Freitas do Amaral.
[Rodrigo Moita de Deus] |
A Direita e Portugal
| A Direita em Portugal comporta-se da mesma forma que Portugal no Mundo: parece estar constantemente a pedir desculpa por existir. Vive em constante auto-crítica, quando não cai em auto-flagelação. Vive com medo de parecer de Direita, como se ainda estivéssemos em 1975, com pânico de que alguém se lembre de lhe chamar fascista ou beata. Isso vê-se nos comentadores de Direita: em cada três artigos ou intervenções que se fazem em defesa da causa, dois são a dizer mal da causa. "Desculpem lá, eu sou de Direita mas não gosto do fato do gajo e até acho que ele não vai durar muito…"
A Direita é parecida com Portugal. O nosso país é mais ou menos assim: gosta muito pouco dele próprio. Tem medo de parecer português. "Sim, sim, temos sol quase todo o ano, as nossas praias são as mais bonitas da Europa, temos duas casas, dois carros, jantamos fora três vezes por semana, mas este País não vai a lado nenhum…" [Inês Teotónio Pereira] |
Ó tempo, volta para trás…
| No próximo dia 29 de Novembro vai ser celebrado o dia internacional de solidariedade com o povo da palestina. Em Portugal a data vai ser celebrada com uma “Evocação de Yasser Arafat e da sua luta pela independência da palestina”. Reparem agora em alguns dos magníficos pormenores desta cerimónia:
·A evocação vai ter lugar na Casa do Alentejo em Lisboa; ·Preside o General Pezarat Correia; ·Segue-se uma sessão de poesia com José Fanha; ·Promovem a iniciativa distintas figuras da nação como o Gen. Vasco Gonçalves, Vasco Lourenço, os Coronéis Vítor Alves e Vítor Pinto e o arquitecto Nuno Teotónio Pereira. O problema é só meu ou há qualquer coisa de suspeito em tudo isto? Esta evocação cheira-me a sequela do “Congresso da Democracia”. [Rodrigo Moita de Deus] |
O Acidental à escuta d’O Acidental e a culpa da “direita” (e ainda uma pequena confissão de fracasso)
| (Aviso: texto grande)
Há muito tempo que ando para escrever um post chamado “O Elogio d’O Acidental”. Hoje ele foi mais ou menos escrito, embora não por mim e sim pelo Rodrigo (aqui e aqui). São obviamente idiotas todas as descrições d’O Acidental como o “blog do PP”, o “blog do governo”, o “blog da extrema-direita” e mais mimos quejandos. Toda a gente conhece a tendência humana para ler só o que se quer. Ou para ler o que não se quer e imediatamente esquecer. No caso d’O Acidental, o leitor comum vem para aqui com o bordão na cabeça (“aquilo é o blog do governo do Santana e do Portas”) e mesmo que leia os meus posts a dizer mal do governo ou do Rodrigo a dizer mal do PP ou outra coisa qualquer, lê e esquece. Entendamo-nos de uma vez por todas: isto é o blog do Paulo Pinto Mascarenhas, que é filiado no PP e adjunto do Ministro Paulo Portas. O Paulo (Mascarenhas) criou o blog e depois foi convidando as mais diversas pessoas que lhe passaram na cabeça para aqui debitarem (literalmente) o que quisessem. Por mim falo: as minhas primeiras intervenções n’O Acidental foram para dizer mal do governo Barroso e mal da maneira como o governo Santana se instalou. Fi-lo a medo e dizendo ao Paulo que se não quisesse que não publicasse: luta política é luta política e eu poderia estar a fazer o jogo daqueles que se opunham à solução que prevaleceu. Em cinco minutos aquilo que eu tinha escrito estava publicado, com o Paulo a pedir: manda mais. Eu estava numa fase em que não queria escrever em blogs (à qual regressei em grande medida), mas o genuíno espírito liberal do Paulo levou a entusiasmar-me outra vez e sempre fui escrevendo o que me apeteceu. Enfim, confesso que faço um pouco, não muito, de auto-censura, por simples cortesia - para com o Paulo e o partido e o governo de que ele faz parte – mas se alguma acção do governo me chocasse mesmo muito não hesitaria em criticá-la aqui e sei que o Paulo nada diria (e em privado talvez até dissesse que eu tinha razão – ou então não). Tenho a sensação de que a experiência de todos os outros que para aqui escrevem é parecida com a minha. Desta forma, o Paulo foi conseguindo reunir aqui um conjunto de vozes puramente individuais das mais interessantes que existem na nossa opinião pública (peço desculpa por, imodestamente, me incluir nelas) e não apenas na blogosfera. Só que isto é um blog e é o blog do Paulo. Lá fora (digamos assim) não há nenhum Acidental (nem sequer há os inúmeros outros excelentes blogs de “direita” que por aí abundam). É neste ponto que faço uma pequena revelação estratégica: sempre fui desde o início contra a estratégia primeira d’ O Acidental, que era assumir-se como o anti-Barnabé e o anti-BE. Na minha opinião (que expressei ao Paulo várias vezes) não valia a pena. O Barnabé e o BE não têm nada de interessante para dizer. Como eu disse há uns dias atrás, o Barnabé é, hoje, o mainstream político nacional: mesmo se muita gente não vai a correr votar no BE é naquelas conversetas que acredita. É respeitável estar de acordo com o Barnabé e até participar nele. Não é respeitável estar de acordo com O Acidental e até participar nele. A minha estratégia sempre foi a de sermos nós a marcar a agenda e não andar atrás da deles. Somos nós e outros parecidos connosco quem tem coisas interessantes para dizer e deveríamos estar conscientes disso, em vez do eterno e estafado complexo de que a direita é estúpida. Só que, se calhar, é mesmo estúpida. Outro dia, numa perigosa reunião de direitistas tentei vender outra vez este peixe. De “utópico” a “ingénuo”, passando mesmo por (usando meias-palavras, evidentemente) “palerma”, chamaram-me de (quase) tudo. Não quero defender o Pedro Mexia, cujo percurso recente me entristece e chega mesmo a deprimir (mas enfim, é lá a vida e as escolhas dele). Só que talvez se compreenda a facilidade com que ele se foi aninhando na mundivisão da esquerda (mesmo correndo o risco, segundo me parece, de cair na irrelevância intelectual). O José Bourbon Ribeiro acusou-o aqui de falta de “lealdade orgânica”. Talvez seja verdade. Mas a falta de lealdade sistemática que os partidos de direita devotam àqueles que lhes podiam dar as ideias de governo é um dos mais extraordinários (e também ele deprimente) espectáculos a que se pode assistir. Talvez, muito legitimamente, o Pedro Mexia se tenha cansado de falar para o boneco. Talvez, no fundo, ele tenha razão: o que não vale a pena é tentar oferecer uma agenda política à direita, porque ela não a quer. E assim confesso o meu fracasso: quem estava enganado era eu. O Pedro Mexia muito provavelmente fartou-se da completa falta de solidariedade que a maior parte da direita política lhe oferece e, vai daí, reorganizou a sua cabeça. E fez, se calhar, muito bem. O que estamos nós a fazer todos aqui n’O Acidental? Estamos aqui por causa do Paulo, não estamos aqui por causa da direita “orgânica” ou “organizada”, que se está nas tintas para nós. Basta olhar para a vitória de Bush nos EUA para se perceber que ela ocorreu graças à afirmação de um programa claro, tanto na esfera das relações internacionais como na da organização da sociedade. Em Portugal (na Europa, mesmo) a “direita” vive numa espécie de nihilismo gestionário, com um pendor tecnocrático, que a faz desprezar a afirmação das suas próprias ideias. Isto tem um lado algo burkeano do entendimento da política. Burke preocupava-se sobretudo com o “bom governo” mais do que com grandes manifestações de princípios. O problema está quando o “bom governo” se confunde com os princípios. Burke percebia isso, mas os nossos pequenos burkeanos domésticos não percebem. E enquanto não percebem, o nosso simpático país lá vai caindo mais um bocadinho no buraco em que se meteu há muito tempo. [Luciano Amaral] |
Pensamento do dia
| Não há coisa que a esquerda mais goste do que um tribunal. Se for administrativo, ainda melhor. Desde que decida a seu favor, é claro.
[PPM] |
Uma pequena teimosia
| Preparei uma longa lista de “católicos profissionais” para agradar ao Carlos Abreu Amorim, mas entendo agora que refutará com veemência cada um deles. Seja porque não são bem “católicos”, porque não são bem “profissionais”, seja porque foram à missa num domingo a meio do mandato.
Recorreu o Carlos às críticas pessoais. Não precisava de o fazer. Sabe Deus que estou distante ideologicamente dos nomes que lhe apontei. O facto é que Sousa Franco foi plenipotenciário do Vaticano, quando já não tinha cargos públicos. Também foi ministro e não lhe conheço caso algum onde possa ser acusado de não ter distinguido a religião do Estado. Guterres é uma alforreca? Com certeza. No entanto, é católico profissional. No entanto, permitiu que o seu próprio partido apresentasse uma proposta de lei sobre o aborto. E Guilherme Oliveira Martins? Obrigou os alunos do secundário a rezarem o terço no princípio de cada aula? E Mota Amaral? Obriga os deputados a penitenciarem-se com ele? O argumento que nos apresentou é demasiado débil para que insista em defendê-lo. Para além do mais, penso que percebo muito bem onde queria chegar. Na realidade, o ilustre Blasfemo queria queixar-se da nefasta influência da Igreja na política portuguesa. A mesma influência que mandou Guterres para o PS e Marcelo para o PSD. A mesma que vai sabotando a educação sexual nas escolas ou a aprovação da lei do aborto na Assembleia da República. Um verdadeiro grupo de pressão e de interferência. Mas as ideias são um mercado livre e quase sempre auto regulável. A inspiração cristã tem tanto direito a existir como o marxismo, o esoterismo ou mesmo o seu anticlericalismo. Posto isto, voltamos ao princípio de toda esta discussão: proibir a difusão política de ideais cristãos e excluir do exercício de cargos públicos todos quantos os professem, é no mínimo antidemocrático, no máximo um exercício de fanatismo. [Rodrigo Moita de Deus] PS: Depois de tanto poste sobre o assunto, arrisco-me a ser beato. |
Novos provérbios populares
| Quando o túnel é embargado, grande manchete, muito obrigado.
Quanto o túnel pode ser feito, esconde a notícia, não dá jeito. [PPM] |
Sabiam, não sabiam?
| Aquela perguntazinha abstrusa para o referendo europeu foi pensada e escrita pelo PS de José Sócrates. Sim, pelo mesmo Partido Socialista que impediu uma revisão da Constituição que iria permitir a pergunta mais simples que eu conheço para o caso em questão. E que seria: "Concorda com o Tratado para a Constituição Europeia?"
Mas o PS não deixou e foi o PS quem impôs aquela linda pergunta. [PPM] |
Ortodoxias e outros erros que dão jeito (II)
| A mesma lógica e a mesma maldade são aplicadas para descrever O Acidental. Sou um convidado acidental e não me cabe a mim definir as políticas editoriais da casa ou sequer servir de advogado para quem não precisa. Mas, pessoalmente, incomodam-me alguns dos rótulos que sub-repticiamente vão sendo colados.
Recuso que um determinado cargo retire o nosso espírito crítico ou a nossa capacidade de análise. A utilização do cerebelo não é inibida em função do ofício, muito embora seja fácil dizer que sim. Recuso que se confunda o termo colectivo com colectivização. Generalizar sobre os convidados do Acidental sem o ler é preconceito; lendo é um exercício de má fé. O Paulo discorda dos comentários económicos do Luciano, o Luciano discorda dos meus comentários sobre política externa, o Rodrigo discorda das posições do Vasco Rato que pode ou não concordar com o Diogo. Recuso também a tentativa de colagem do Acidental a um determinado partido e sobre isso só posso fazer de meu próprio porta-voz. Repito: não sou militante do CDS, não sou simpatizante do CDS, nem sequer do seu líder. E também não tenho grandes problemas em admitir que não foi neste governo que votei. Existe um outro rótulo que alguma blogosfera insiste em colar ao Acidental: o de “extrema-direita”. Sobre este tema não perco mais de duas linhas. É um disparate ideológico de quem padece de falta de leitura. [Rodrigo Moita de Deus] |
Ortodoxias e outros erros que dão jeito (I)
| Falar de ortodoxia no espaço “não socialista” da política portuguesa é uma tentação fácil para os fracos de espírito. E o termo “não socialista” aplica-se com exactidão doutrinária, pois esse é o único ponto em comum entre tanta gente, tão diferente, a que normalmente se chama de “direita”.
Mas esta "direita" é uma mescla riquíssima de liberais, sociais-democratas, conservadores, neo-conservadores, democratas cristãos e outros que vai de Manuel Monteiro a Marcelo Rebelo de Sousa, passando por Paulo Portas. O “não socialismo” está cada vez mais abundante, mas seria um erro tentar catalogá-lo simplesmente como “direita” e outro erro ainda maior falar de ortodoxia. Discordamos sobre a intervenção no Iraque, sobre o alargamento da União Europeia, sobre a política orçamental e mesmo sobre este governo. Em linguagem blogosférica esta pérfida matriz até implica colocar no mesmo saco o Paulo Mascarenhas e o Pacheco Pereira na companhia do Carlos Abreu Amorim. Quem, dentro do espaço centro-direita, se queixa da ortodoxia também é fraco de argumentos. Mais ainda quando recorre à triste comparação com o Partido Comunista Português. É não querer entender que a distinção entre o PCP e todos os outros partidos é ausência de uma vida interna plural e democrática. É não querer entender que o debate “interno” já existe. Mas nem o Partido Comunista, nos seus piores dias, deixou que os fatos às riscas de João Amaral se tornassem em crítica ideológica. Estas generalizações foram um daqueles precedentes que o discurso do Bloco de Esquerda criou e que a “direita” aceitou com candura. E, pasme-se, acabou por assimilar. Foi ingénua a “direita”. [Rodrigo Moita de Deus] |
A liberdade também devia ser nossa
| No final dos anos 80 e no princípio dos anos 90, Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso convidaram para escrever no seu jornal, que se afirmava descomplexadamente de Direita, vários "independentes" - uns mais próximos da Direita e outros mais próximos da Esquerda. Nenhum era "filiado".
Vasco Pulido Valente, José Bénard da Costa, Leonardo Ferraz de Carvalho, Augusto Cid, Maria Filomena Mónica, Constança Cunha e Sá e muitos outros. Escreveram, sempre com inteira liberdade, o que lhes apeteceu, quando lhes apeteceu e sobre quem lhes apeteceu. Por aquele jornal passaram todos (consta que até Francisco Louçã) e quase todos eram legíveis. Na altura, o país era governado pelas maiorias absolutas de Cavaco Silva e as principais críticas dos editoriais que encantavam as actuais gerações de comentadores da blogosfera - e não só - dirigiam-se contra o pensamento único da esquerda politicamente correcta, o controlo da imprensa, os tecnocratas e burocratas europeus, o limite das liberdades, o cinzentismo latente, o intervencionismo excessivo do Estado, a cultura tacanha, o despesismo e o compadrio. Aclamava-se o arrojo, a independência, o atrevimento, a inteligência, a crítica e, acima de tudo, a liberdade, que até à data era um termo de que a Esquerda se tinha ilegitimamente apropriado. Paulo Portas, mais do que todos os outros, revolucionou a imprensa e deu palco a quem merecia ser lido. Hoje, Paulo Portas é ministro e líder do CDS. Hoje, quase não há palco para ouvir, ler ou discutir quem realmente apetece ler, ouvir ou contestar. Os comentadores "independentes" notabilizados – uns mais próximos da Direita, outros mais próximos da Esquerda – são escassos e não trazem nada de novo. O panorama nacional é dramático: António José Teixeira, Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares, José Manuel Fernandes, ocuparam o lugar dos vascos, dos leonardos e dos bénards dos dias hoje. E o pior não é isso. O pior é que aqueles que têm um propósito, que são inteligentes e cultos, que podiam marcar a diferença, sem desonestidade intelectual, não o fazem ou não o podem fazer. Paulo Portas e outros já demonstraram como isso pode e deve ser feito. Agora só falta fazer, antes que seja tarde. Antes que o arrojo, a independência, o atrevimento, a inteligência, a crítica fundamentada e, acima de tudo, a liberdade, passem de novo a ser um património exclusivo da Esquerda cínica e intelectualmente desonesta. [Inês Teotónio Pereira] |
O verdadeiro filho da puta
| Ora aqui está uma boa oportunidade para ficarem todos a perceber o que é realmente para mim um filho da puta. Encontrei um caso exemplar: é este almocreve da peta, quando se mete onde não é chamado e logo salta para o insulto fácil, chamando-nos de extrema-direita.
Um anónimo filho da puta. [PPM] |
Quarta-feira, Novembro 24, 2004
Greve!
"14 jornalistas do noticiário do primeiro canal da televisão estatal da Ucrânia declararam-se, esta quarta-feira, em greve por recusarem continuar a emitir «informação falsa», noticiou a agência russa Interfax. «Recusamos dar informações que não sejam verídicas. Não queremos trabalhar na ignorância e assumir a responsabilidade pelas mentiras», segundo um comunicado dos jornalistas citado pela agência russa. O texto informa que, nas últimas semanas, os jornalistas tentaram negociar com a direcção da televisão pública as formas de garantir uma informação «equilibrada e objectiva», mas fracassaram.
«Vencemos o medo porque há um sentimento que ainda é mais forte: a vergonha», dizem no comunicado. Dezenas de jornalistas demitiram-se nas últimas semanas dos seus postos de trabalho em vários canais da televisão ucraniana, em protesto pela censura imposta pelo actual governo, dirigido pelo presidente cessante Leonid Kutchma e pelo primeiro-ministro e candidato do poder, Viktor Ianukovitch." (fonte TSF) Nada como ver realmente censura governamental, para pôr as coisas em perspectiva. [DBH] |
And nobody saw it coming?
| O PM fez um reajuste no elenco governamental e as obras do túnel do Marquês vão continuar.
... E ninguém avisou? Não houve fugas para a Imprensa? Para o BE? O dirigente do Bloco de Esquerda Francisco Louçã acusou o primeiro-ministro, Pedro Santana Lopes, de ser o principal "foco de confusão". Louçã ficou confuso, portanto, não estava à espera disto. Uma mudança à Cavaco Silva sem três dias de aviso? Afinal a Presidência da República não estava contra o Governo? Coitado. Não o avisaram. [DBH] |
Inverta-se o argumento
| Caro José Teixeira,
É tão difícil avaliar um católico que soube separar o Estado da religião, como outro que não o soube fazer. E, no entanto, apesar destas dificuldades, Buttiglione ficou fora da comissão europeia. E proponho também que se inverta a lógica do argumento em relação a António Guterres. Se o primeiro-ministro da nossa república se tivesse realmente subalternizado em relação à Igreja, nunca teria autorizado que o seu próprio partido apresentasse uma proposta de lei sobre o Aborto. Fala o meu amigo de Guterres se ter ajoelhado. Nessa matéria, confesso as minhas culpas. Mesmo não sendo católico “profissional”, nem sequer muito praticante, também eu me teria ajoelhado. [Rodrigo Moita de Deus] PS: Que inveja tenho dessa escrita! Mais do que o Brasil, foi África que mudou – e muda ainda – a minha estafada língua. E que coisa bonita fizeram dela. Abaixo os puristas! Abaixo os ortodoxos! Que se envergonhem eles todos ao ver palavras dançar assim. |
Conversas cruzadas
| Defender o comportamento francês na Costa do Marfim criticando a intervenção americana no Iraque é contraproducente. Fica a defesa de Paris mal servida e a crítica à política americana mal fundamentada. Em última instância, e para além de todas as restantes considerações, as interferências francesas na costa ocidental de África são objectiva e directamente prejudiciais para os interesses portugueses.
Por isso mesmo não compreendo que um português lhes possa fazer a apologia, especialmente para efeitos de um debate que ambos já concordámos estar cheio de vícios. Era só isso que queria dizer. [Rodrigo Moita de Deus] |
O medo é o melhor amigo da intolerância
| Ontem finalmente aprendi porque existem pessoas que não gostam de ouvir os outros. Medo. Medo de serem comparadas. Medo de perder as suas convicções. Medo que aprender seja uma forma de subalternização.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Road map to life
| Todas as fases da vida de um Homem podem-se resumir em oito perguntas:
·Quando é que arranjas uma namorada? ·Quando é que acabas o curso? ·Quando é que arranjas um emprego? ·Quando é que te casas? ·Quando é que tens um filho? ·Quando é que tens outro filho? ·Quando é que tens netos? ·Quando é que te reformas? É no mínimo irónico que nenhuma destas perguntas se refira directamente à palavra felicidade. [Rodrigo Moita de Deus] |
O Acidental à escuta
| Marretada poética de primeiríssima água. O Acidental recomenda vivamente o livro “Como ficar estupidamente culto em apenas dez minutos”, congratulando vivamente os autores por mais este contributo para a Humanidade.
[Rodrigo Moita de Deus] PS: É complicado assegurar o sucesso comercial da obra quando o mercado potencial parece já ter adquirido um livro concorrente de nome muito semelhante: “Como parecer estupidamente culto em apenas dez minutos”. |
Sinceramente (II)
| No meu limitado vocabulário, comparar o trajecto político de alguém ao de Freitas do Amaral não é chamar-lhe "filho da puta", como parecem pensar o Pedro Mexia ou o Fernando Albino. É, muito prosaicamente, comparar o trajecto político de alguém ao de Freitas do Amaral. Quando eu quero chamar a alguém filho da puta chamo-lhe filho da puta. O que, no caso em apreço, não faria qualquer sentido nem teria qualquer correspondência com a realidade.
Ao contrário do que poderá pensar o Pedro Mexia, ou o Francisco Mendes da Silva, na minha crítica ao artigo do "DN" não se incluíam quaisquer sentimentos pessoais, fossem de desilusão ou de traição. O Pedro Mexia sabe e eu faço questão de repetir que tenho por ele grande estima pessoal e intelectual (eu sei que esta última é uma palavra de merda, como diz o Francisco lá em baixo, mas também é a que está mais à mão). Não fui movido ainda por qualquer tentação ortodoxa de atacar um "desvio de esquerda", como lhe chama o Pedro. Bem pelo contrário, considero até que falta discussão ideológica no CDS. Só que a responsabilidade não é, a meu ver, de Paulo Portas. Bem pelo contrário. Também ao contrário do que escreve Pedro Mexia, abomino ortodoxias e O Acidental é a melhor prova disso mesmo: bastaria ler as opiniões mais diversas dos colaboradores acidentais sobre este episódio para o provar à saciedade. O problema do artigo do Pedro no "DN" é que constrói a sua tese a partir de mitos comuns da esquerda sobre o CDS e só muito raramente tem alguma coisa a ver com a realidade, passada ou presente (sobre este assunto, basta-me recomendar a leitura do que escreveu o Diogo Belford Henriques). Se há sentimentos de desilusão ou de traição em toda esta história eles saíram directamente do teclado onde se escreveu "O fantasma do táxi". O que me parece é que - e não leiam isto como uma crítica - o Pedro Mexia está cada vez mais "Fora do Mundo", tanto no que diz respeito ao CDS, como também no que tem escrito mais recentemente sobre a guerra no Iraque, tanto ainda sobre o que estava em jogo nas eleições americanas. Se isso é bom ou mau, positivo ou negativo, já não me compete a mim avaliar. Limito-me a exercer o direito à crítica que me é concedido pela blogosfera. E não posso deixar de acrescentar que tenho saudades de ler o "outro" Pedro Mexia, o combativo blogger que destroçava com argumentos fulminantes as hostes da esquerda gritante. [PPM] |
O engano
| Noto que mesmo entre os mais avisados existe a ideia que o Bloco de Esquerda não é perigoso porque não é importante. Porque não tem peso político suficiente para tomar decisões.
É uma ingenuidade pensar assim. O discurso radical do Bloco de Esquerda condiciona as decisões, as tácticas do Bloco de Esquerda desacreditam o sistema democrático e a irresponsabilidade demagógica cria padrões. Mas este monstro cresce muito por nossa culpa. Porque quando aceitamos pacificamente que a vida política decorra sem grande conteúdo doutrinário, criamos um vazio que o radicalismo – de direita ou de esquerda – trata imediatamente de preencher. [Rodrigo Moita de Deus] |
Pragmatismo e segurança
| Sou o único que acredita que nem a União Europeia nem os Estados Unidos devem intervir no que se está a passar na Ucrânia? Especialmente se isso significar a “entrega” do país à Rússia de Putin?
[Rodrigo Moita de Deus] |
Atalho de esquerda
| Tenho a infeliz impressão que esta "questão Mexia" não é a primeira nem será a última.
Pessoalmente gosto muito de o ler e, politicamente, considero importante que exista um "colunista-intelectual-opinion-maker-what-ever" de direita. E é importante que diga mal do que não concorda, e todos defendemos a liberdade estrutural com que o faz. Mas não quero deixar de explicar o que é que não gostei, no artigo que ontem PM publicou: A síntese da história política do CDS está mal feita. Considerar que Adriano Moreira é um sóbrio conservador indica apenas que PM nunca leu o que de mais importante o Professor escreveu, o que é uma pena. Para o Pedro. Quanto ao restante, PM desfila os figurinos de direita com que o CDS se apresentou ao eleitorado. Mas associa tal transformismo às personalidades dos líderes (o que o leva a colocar Adriano como conservador, para a teoria dar certo) e não à evolução política do nosso País. O CDS lutou pelo centro, democrático e europeu, durante um PREC radicalizado entre a esquerda e a estrema-esquerda. Mostrou-se liberal e europeu num Portugal estatizado e paralisado. Quando a europeização se tornou moda, com um desenvolvimento economicista, à custa das pessoas, o CDS personalista e democrata-cristão lembrou valores essenciais. Quando o europeísmo se tornou obrigatório o CDS puxou a discussão para o lado de cá (e foi longe de mais, na minha opinião). Desde 98, o PM descreve bem a história, porque já a conhece melhor. O erro de PM não é achar que o CDS devia apresentar um "claro caderno doutrinário", é pressupor que este caderno seria dogmático. Nunca foi. Mas a parte menos importante do artigo é a que alguns poderiam julgar como ofensiva para o actual CDS - a profecia do fim após o Governo. É a profecia habitual, já proclamada tantas vezes e tantas mesmas vezes provada errada. PM, na sua passagem breve pelo CDS não percebeu que este partido tem no seu seio várias sensibilidades de direita, que nascem e renascem dependendo do que está em jogo - o direito à vida, a liberdade económica, etc. - e até hoje, nem que seja de táxi, nunca deixaram de se expressar. Curiosamente, para os que viram nesse texto um ataque ao CDS, PM avalia como boa a acção do CDS no governo. E, pergunto-te eu Pedro, não é exactamente isso que é suposto ser mais importante para um partido? O que vem depois? Depois veremos. Mas mau seria se um partido no poder estivesse preocupado com o que será depois do actual líder ser ministro, em vez de tentar governar o melhor que pode. E, pelos vistos, sabe. Também não gostei de alguns comentários superficiais, porque já me habituei a ouvi-los dos comentadores de esquerda. Isto não quer dizer que o Pedro tenha feito um desvio para a esquerda. Apenas que não foi original. O que é uma pena pois Mexia é melhor do que isso, é mais profundo do que isso. E, caro Pedro, se a direita gosta de cavalos vencedores, também é verdade que procura ver-lhes os dentes, e essa saúde é a confiança que se ganha com as responsabilidades assumidas e a promessas cumpridas. A dita "accountability" que correctamente valorizas. E ainda bem. [Diogo Belforf Henriques] |
Rus Kiev
Há um assunto que é demasiado importante para nos darmos ao luxo de passar ao lado. A Ucrânia é um país dividido. Não é uma constatação pós-eleitoral, é uma verificação óbvia quando se viaja através desse enorme país europeu. No oeste há quem fale inglês e os letreiros e os reclames das lojas estão escritos em alfabeto latino, no leste não há uma palavra que não esteja em cirílico. No lado ocidental desconfia-se do oriental, "infestado de russos e tchetchenos" como me disseram uma vez. No Leste, menos desenvolvido, há minas abandonadas, indústrias fechadas e muita imigração cladestina (sim, há quem emigre PARA a Ucrânia). Há dois meses foi pedido, pela campanha de Yushchenko, que pudesse ter observadores nas mesas de voto em Portugal. A Juventude Popular (a mesma que tu, Rodrigo, achas que serve apenas para disputar concelhias) foi indicada para este efeito por um dos partidos. O MNE ucraniano recusou observadores nas suas embaixadas europeias. Putin tem alguma razão quando afirma que não se pode colorir os candidatos apenas como pró-ocidente ou pró-russia. Mas posso dividir entre passado e futuro. Entre uma presidência que aprisiona e expulsa jornalistas, que controla a polícia secreta, com sonhos imperiais... e uma democracia liberal europeia, aproximando-se da UE e da NATO. Neste momento estamos a assistir à disputa pela fronteira da Europa. A Russia apressou-se a congratular um dos candidatos, mesmo contra os resultados da primeira volta e das sondagens, antes da publicação final dos votos. Hoje mesmo ameaçaram terminar com a viabilidade da OSCE, que tem observadores no campo. Hoje, no frio, na Ucrânia, joga-se o tabuleiro geopolítico do sudeste europeu. Por uma UE que pode ter neste país a sua fronteira última, pelos EUA na luta contínua pelo controlo da zona entre o Mar Negro e o Mar Cáspio. E pela Federação Russa, que teme assim ser emparedada entre a UE a oeste e estados-pipeline controlados pela América a Sul. Esta UE que continua por se definir, e por isso mesmo, não sabe como se relacionar com a Russia. Hoje já não há "buffer-states", apenas direitos humanos e democracias... são os povos que escolhem, dizem. Pois, estamos a ver... [DBH] |
Terça-feira, Novembro 23, 2004
El Desdichado
| Je suis le Ténébreux, - le Veuf, - l'Inconsolé,
Le Prince d'Aquitaine à la Tour abolie : Ma seule Etoile est morte, - et mon luth constellé Porte le Soleil noir de la Mélancolie. Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m'as consolé, Rends-moi le Pausilippe et la mer d'Italie, La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé, Et la treille où le Pampre à la Rose s'allie. Suis-je Amour ou Phébus ?... Lusignan ou Biron ? Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ; J'ai rêvé dans la Grotte où nage la sirène... Et j'ai deux fois vainqueur traversé l'Achéron : Modulant tour à tour sur la lyre d'Orphée Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée. Gérard de Nerval (Para o Pedro Mexia) [DBH] |
Ficheiros secretos na blogosfera
| Eu sei, por experiência própria, que se escrevem os maiores disparates na blogosfera. Eu sei, repito, por experiência própria - e quem nunca escreveu um disparate na blogosfera ou noutro sítio qualquer, pode atirar a primeira pedra a si mesmo, porque é sinal de falta de juízo ou simples presunção de infalibilidade. Mas - lá vem o mas que calha sempre bem nestas alturas - este disparate escrito pelo Paulo Gorjão entra definitivamente para o primeiro lugar do livro de recordes dos maiores absurdos alguma vez escritos na blogosfera e noutros meios de comunicação social e parassocial, incluindo redacções da quarta classe e exames do secundário. Eu, se não o conhecesse - será que conheço mesmo, não terá sido por acaso uma alma danada ou um vírus pós-socrático que tomou conta do cérebro dele? - diria que o homem ensandeceu e já confunde alhos com bugalhos, jornais privados com departamentos governamentais e opiniões com ameaças.
Diz-me que és mesmo tu, Gorjão, mas eu não sei se acredito. [PPM] |
Finalmente!
| O Carlos Abreu Amorim assumiu que para ele o exercício de cargos públicos em estados laicos, não é compatível com o catolicismo “profissional”. O Carlos limitou-se a escrever o que muitos tomam por verdade e certeza, mas poucos têm a coragem de afirmar. Só lhe posso agradecer. Levou tempo, mas finalmente, sabemos o que estamos a discutir. Em jeito de prova, acrescenta: "gostaria que me apontassem o caso em que um católico "profissional", no exercício de um cargo de poder fez essa higiénica, mas buttiglionamente idílica, separação Kanteana entre a religião e o Estado”.
Em Portugal, só à minha esquerda, lembro-me logo de três: Ramalho Eanes, Sousa Franco e António Guterres. E agora? Prefere o meu amigo mudar de ideias? De argumentos? Ou de conversa? [Rodrigo Moita de Deus] |
A angústia de um monárquico
| Na semana passada SAR D. Duarte de Bragança dava (mais) uma entrevista à revista Flash. Depois da Caras, Lux, Nova Gente e Vip, desta feita foi a Flash a ter direito a um “exclusivo” com a família real. Não se conhecendo uma única ideia de D. Duarte para o país, pergunto-me se o Senhor é pretendente ao trono ou a um lugar na Quinta das Celebridades.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Sinceramente, ainda mexe
| Se algumas vantagens retiro desta minha fraqueza anglo-saxónica, uma delas é o gosto pela discussão pública da vida interna dos partidos, das suas opções ideológicas, das suas estratégias pontuais, das suas referências pessoais. É coisa pouco vista em Portugal, pelo menos a um nível substancialmente acima do rasteiro, mas que em outros países mais civilizados é tema normal em jornais, revistas e programas de rádio e televisão, países onde a militância partidária não é vista por jornalistas como a pertença a uma qualquer seita maligna e onde o exercício livre da opinião, mesmo por gente assumidamente engagée não é tido como uma excrecência ligeiramente incomodativa. É uma lição que me é dada de cada vez que leio, por exemplo, a Spectator, o Telegraph, a New Statesman ou o Guardian e que não tenho a mínima intenção de recusar, por muito que me chamem de "novo-rico" ou, como algures aqui, de "pequeno lorde".
Daí não concordar minimamente com o tom com que o PPM e o JBR se atiraram ali em baixo ao Pedro Mexia, por causa do artigo de hoje no DN. O post do PPM ainda percebo, precisamente na lógica da discussão (o Pedro foi evidentemente simplista em muito do que disse), mas existe nele um certo tom de desilusão e traição, que no do JBR é a única coisa visível, e que não tem razão de ser. Porque não só o Pedro Mexia pensa como bem entender, como não é militante do PP, como, mesmo que o fosse, poderia pensar como bem entendesse e exprimir o que bem entendesse (se, sendo militante do PP, teria os espaços que tem para escrever e falar, enfim, essa é outra história). O artigo do Pedro coloca algumas questões pertinentes, com cujas respostas não concordo. Aliás, como também já disse noutras paragens (nas quais, reparo agora, o Fernando Albino acaba de me tirar grande parte dos argumentos, o estúpido!), acho que há um afastamento algo programado e forçado dos partidos, assim uma espécie de independência chique que lhe vem mais do medo do que da razão. Para além de que considero estar o Pedro enganado na maior parte do artigo. Existe, desde logo, uma deficiente verificação dos factos, não quanto à alegada dependência do PP relativamente a Paulo Portas, mas quanto ao papel do próprio nessa dependência. Não me parece, de todo, que Paulo Portas tenha como objectivo o culto do chefe e a criação de um partido centrado em si e na sua força salvífica. É verdade que isso é, em grande medida, o que acontece. Mas isso é algo de inelutável, quer nos partidos pequenos, quer até nos grandes, quando têm à frente líderes fortes e carismáticos (a palavra é uma palavra de merda, eu sei, mas serve o propósito). Lembremos Freitas, Lucas Pires, Adriano Moreira, Monteiro, Sá Carneiro, Soares ou Cunhal. A mim, confesso, é coisa que pouco incómodo me provoca. Eu só sou do PP por causa de Paulo Portas e do Miguel Esteves Cardoso. Este nunca esteve sequer próximo do partido e o primeiro aderiu depois de mim. Mas foi pelo que deles lia no início da adolescência (da minha, bem entendido) que me iniciei nesta coisa da política. Pelo que, para mim, bem vistas as coisas, o PP sempre foi um partido unipessoal. Como não tenho aspirações a ser um "intelectual" (pronto, outra palavra de merda), dou mais importância às pessoas do que às ideias. Se um dia o Pedro Mexia formar um partido, farei tudo para poder acumular militâncias. Repito: discordo do artigo do Pedro em quase tudo (desde o que já referi até ao facto de haver realmente uma indefinição ideológica, passando pela aversão aos fatos às riscas - a propósito, se alguém souber onde é que posso comprar um daqueles de traçar, agradecia o contacto). O que me distingue é que eu não me desiludo. Porque a mesma razão pela qual ele sentiu que devia escrevê-lo é precisamente a mesma que o fez escrever isto: A família Kirkby é uma simpatia (não ironizo). São uns bifes impecáveis, com bons modos e gravata a condizer, mas dá-lhes para a esquerdalhada. Ninguém é perfeito. Quanto ao PP, não creio francamente que sejam de extrema-direita, como disse o Carvalho da Silva. Repara que eu conheço bastante bem a extrema-direita, e poucas pessoas dessa área são do PP (os que eram desfiliaram-se recentemente). Acredita que há mais gente extremista no PSD do que no PP, até pelo perfil salazarista do Cavaco e por causa de o PSD ser um partido de poder, ao contrário do PP, que só o é de vez em quando. Há no PP uns tantos tipos da direita desbocada, como Rosado Fernandes, e existem vários cinzentões e gente irrelevante, mas só raramente detecto afirmações destas. O PP não tem nada a ver com o partido do senhor Haider, sejamos sérios, que é um partido filo-nazi. O PP é composto por conservadores, um ou outro democrata-cristão e um ou outro liberal. Residualmente existe gente mais extremada, mas confesso que as pessoas que até hoje ouvi dizerem coisas como «pretos para África» ou «morte aos maricas» são todas da área do PSD e da ND, e um ou outro nem votam. O populismo, um dos problemas sérios do PP, não é necessariamente de extrema-direita, cada partido tem o seu populismo, para o seu eleitorado. É sobretudo uma forma pouco exigente de fazer política, e lamento sempre que isso acontece, e escreverei todos os posts que sejam necessários a denunciar essa tendência. Agora o que existe é uma tendência da esquerda para considerar «extremistas» certos assuntos, como os da imigração ou da segurança; quem os traga á baila é sempre um perigoso fascistóide. E isso não aceito. A imigração e a segurança (por exemplo) são temas determinantes, e é preciso que sejam discutidos e resolvidos precisamente para evitar tentações extremistas. Não se pode é criar temas tabu. Não há temas extremistas, apenas respostas extremistas. E não tenho visto muitas respostas extremistas da parte do PP, mas sobretudo tiros no pé e navegação à vista. A criação de um partido à direita do PP pode aliás contribuir para evitar qualquer radicalismo do partido, que talvez caminhe, aliás, para uma fusão com o PSD, formando uma tendência claramente à direita num partido com pendor centrista. Os partidos do centro direita e da direita são para nós instrumentos para defender as ideias nas quais convictamente acreditamos. Mas não temos espírito de seita, e daí não contes com os Infames para fazer política partidária. [FMS] |
Com amigos destes…
| Para além do teor das suas declarações, era bom constatar que sempre que Mário Soares fala, Sócrates perde tempo de antena, protagonismo e credibilidade como líder da esquerda. Alguém pensa que isso é por acaso?
[Rodrigo Moita de Deus] |
Chamem o Ferro
| Porque é que ninguém de jeito quer ser candidato pelo PS à Câmara Municipal de Lisboa? António Costa recusou. Jorge Coelho, nem pensar. Mega Ferreira, idem aspas. A coisa chegou a tal ponto de rebuçado que o Partido Socialista até já admite Ferro Rodrigues como possibilidade. Não se arranja melhor?
[PPM] |
Lembrete
| Consta que Manuel Monteiro vai encontrar-se com o líder do Partido Socialista. Certamente para apresentar cumprimentos. Certamente para informar que existe.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Sinceramente
| Não queria escrever o que se segue, porque aborrece-me discutir assuntos “internos” em público. Refiro-me, é claro, ao texto de Pedro Mexia no "DN" de hoje. Aborrece-me, porque prezo a pessoa e o intelectual em causa - e estou completamente à vontade para o dizer porque julgo ter sido um dos primeiros a promover o seu talento na imprensa escrita em Portugal quando ele se dedicava a combater a esquerda dominante na saudosa Coluna Infame.
Parece-me, porém, depois de ler a opinião de hoje, que Pedro Mexia conseguiu a suprema façanha de alcançar, em apenas dois anos, um trajecto político semelhante ao do Prof. Freitas do Amaral nos últimos 30. O facto é que, no essencial, este artigo de Pedro Mexia poderia ter sido assinado pelo antigo presidente do CDS. O que lá se lê não é novo nem muito diferente do que foi repetido por Freitas do Amaral no Congresso da Democracia. O problema é precisamente a superficialidade e a falta de substância política. Reduz-se a discussão sobre o CDS a um problema estético, de gravatas, versos e fatos às risquinhas. Eu esperava um bocadinho mais. Sinceramente. [PPM] |
Mexiam mas já não mexem
| Afinal, a Geração de 70 é igual à de 30: velhos rabugentos sem identidade nem lealdade orgânica. Em comum, têm um grande e promissor passado pela frente. Um verdadeiro erro de casting.
[José Bourbon Ribeiro] |
Um palavrão explicado
| Caro Pirata,
Bons olhos o leiam. O “ilustre escriba, dono de pena refinada e arguta”, agradece o louvor e retribui a saudade. Percebo a razão de tanto assombro. Este copista raramente deixa mancha nas suas missivas. Mas reconheço que não sendo estético, harmónico ou sequer muito recomendável, a obscenidade tem um forte poder de interacção com os destinatários. Quanto à escolha do léxico, sabe o meu amigo que tenho outras preferências. Dependesse da vontade e a Pátria talvez levasse uma “arrieirada entrefolhos”, talvez uma “destroncadela” ou para ser sublime, uma “destroncadela na cloaca” – injúrias que tenho como predilectas. Mas os tempos são outros. Sacrifica-se o requinte em nome da inteligibilidade e estas coisinhas boas guardam-se para os amigos. [Rodrigo Moita de Deus] |
Segunda-feira, Novembro 22, 2004
Estrofe única sobre o Bloco de Esquerda
| Morre Marx, sobrevive o manifesto.
Vive Estaline, ergue-se um império. Cai o muro em final funesto. Terá sido um mistério? Findou-se a comuna e o fundamento Sobram estes que aqui vemos O bloco é um bom exemplo da esquerda que ainda temos. [Rodrigo Moita de Deus] |
O Acidental à escuta
| Dois postes a não perder no Mar Salgado. Aqui e aqui. Só é pena que o Vasco Lobo Xavier não escreva mais e o Nuno Mota Pinto esteja em banho-maria.
[PPM] |
Estes americanos são uns facínoras
| Os Estados Unidos vão fornecer 22 milhões de dólares (16,8 milhões de euros) de ajuda a Timor-Leste no próximo ano e continuar a restringir a ajuda militar à Indonésia. A decisão foi tomada pelo Congresso norte-americano e está contida no orçamento para o próximo ano aprovado no sábado.
Em teoria, a ajuda a Timor-Leste poderá ser ainda maior porque a legislação afirma que "não menos do que 22 milhões de dólares serão disponibilizados para ajuda à República Democrática de Timor-Leste". Contudo, analistas afirmam que é pouco provável que o governo norte-americano decida fornecer mais do que essa quantia, pois ela é já em si superior ao que tinha sido pedido pelas autoridades timorenses. Agência Lusa [PPM] |
Mensagens criptadas da semana com destinatários incluídos
| Há muitos críticos de hoje que amanhã exclamarão hossanas.
Ser do contra é uma profissão muito lucrativa nos dias que correm. Fazer parte das Novas Fronteiras vai ser muito prestigiante, pelo menos até 2006. Depois se verá como o prestígio é efémero. Mais vale só, do que mal acompanhado. Um grande poste às vezes esconde um homem pequeno. Se queres ser um bom esquerdista, põe sempre a culpa na sociedade e no Ocidente. [PPM] |
O preço certo
| Parece que o primeiro-ministro terá dito que estava chegada a hora de o Estado ceder definitivamente a posição que detém na PT. Se todas as confusões recentes com a PT conduzirem a este fim, ainda bem que elas aconteceram. Já agora, arranjem-se também umas confusões com a RTP, a CP, a TAP, a Carris, a EPAL, etc. etc.
Se esse for o preço a pagar para que o Estado saia de actividades onde não deve estar, pague-se. [Pedro Marques Lopes] |
Sexta-feira, Novembro 19, 2004
E a mim? O que me fariam a mim?
| A propósito das últimas declarações de Mário Soares: se houvesse um golpe militar para restaurar a democracia, o que aconteceria aos suspeitos de colaboracionismo? Seriam deportados? Presos? Reeducados? Seria eu um desses suspeitos?
[Rodrigo Moita de Deus] |
O Acidental à escuta
| Flexibilidade e polivalência no emprego. A ler no Quinto dos Impérios.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Back to the starting line
| Depois de chegarmos a acordo em tanta coisa, leio o que o Bruno Cardoso Reis escreve sobre a Costa do Marfim. E, uma vez mais, é incapaz de escrever sobre a política externa francesa sem recorrer àquelas ideias preconcebidas de "Bushistas vs Europeístas". Deixe lá isso, Bruno. A França não é a Europa e a ideia de convidar os franceses para guardarem a paz é tão brilhante como convidar uma raposa para tomar conta das galinhas.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Centro de mensagens
| Caro Diogo, o Aly Silva escreveu sobre este teu poste e diz que te esqueceste desta fotografia. Parece-me que foi mais um ataque da OLP de Arafat, desta vez num aeroporto da Jordânia.
[PPM] |
Perigosamente consensual
| Toda a blogosfera está de acordo. Todo o país está de acordo. A pergunta do referendo é um disparate completo. Resta acrescentar que é preciso estar muito “longe da realidade” para redigir e apresentar uma pergunta assim.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Saúde mental com os 7ª Legião
Concerto de Solidariedade pela Saúde Mental Gaiteiros de Lisboa + Rodrigo Leão + 7ª Legião Fórum Lisboa 26 de Novembro às 22h Bilhetes na FNAC, Ticket Line e no Fórum Lisboa [PPM] |
Correio da blogosfera
| A propósito do poste do Luciano Amaral com o título "Le Coq Soviétique", gostava de lembrar que, a meio de Outubro, antes da famosa queda de Castro, aconteceu o tal episódio de um deputado do PP espanhol ser expulso de Havana (após ter anunciado o seu apoio aos dissidentes). Na mesma altura, decorreu uma reunião de responsáveis sobre política europeia para a América Latina, onde o novo governo do PSOE advogou o descongelamento das relações bilaterais UE/Cuba e o reforço do diálogo com o regime de Castro. Parece-me que, se juntarmos os interesses espanhóis aos interesses da diplomacia francesa, se consegue uma espécie de multilateralismo de interesses próprios. Se Chirac e Zapatero unirem esforços, não será difícil colocar a diplomacia europeia do lado de Castro. Para mais, depois deste dificultar a circulação de dólares, promovendo o uso alternativo de euros (amiguinho que ele é). Se o novo cargo de Min. dos Negócios Estrangeiros Europeu fôr espanhol, mais fácil isto será. Curiosamente, os interlocutores que se pretendem privilegiar são ferrenhos do unilateralismo partidário e praticam-no desde há muito, colocando na prisão quem discorda.
Um abraço de um leitor assíduo, Luís Silva (http://officelounging.blogspot.com/) Pode ver estes links: http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/americas/3750186.stm http://www.elmundo.es/elmundo/2004/10/19/internacional/1098196303.html ou o post que na altura afixei: http://officelounging.blogspot.com/2004/10/h-que-ser-compreensivo-com-castro.html |
Digam-me que foi engano!
| Estou envergonhado enquanto português pela aprovação da "pergunta" no referendo europeu. Se quem a aprovou é português, eu quero ser espanhol.
[Pedro Marques Lopes] |
That Joke Isn't Funny Anymore
| Vá lá, decidam-se: aquilo é uma constituição ou não é? É um tratado ou não é? De uma coisa temos a certeza: aquilo é um real aborto (e não quero aqui ofender ninguém para quem o aborto é um valor sagrado). O que me dá uma ideia. Que tal esquecer aquela pergunta abortiva sobre o citado aborto e fazermos um só referendo. Seria um referendo sobre o aborto nas duas acepções da palavra: o constitucional e o literal. A pergunta seria: "Está de acordo com o aborto?" e não se especificava mais nada. Era fácil. Votávamos "não" das duas vezes e estava o caso resolvido.
[Luciano Amaral] |
Presunção e Água Benta
| Celso, estás enganado, eu (se era também a mim que te estavas a referir) não me meti convosco. Estava realmente a reproduzir de forma aproximada um diálogo que tive com uma amiga há uns dias atrás. Como é vosso timbre aliás, não percebeste o que quis dizer. Era com a esquerda em geral que me estava a meter. Vocês (verdade seja dita) estão mais ou menos onde sempre estiveram. O resto da esquerda é que não.
[Luciano Amaral] |
A propósito do poste do Luciano sobre Cuba
| Este texto do Mário Vargas Llosa é dedicado às nossas putas tristes.
Las "putas tristes" de Fidel EL PAÍS Entre los defectos de Fidel Castro no figura la disimulación. En los 45 años que lleva en el poder -la dictadura más larga en la historia de América Latina- nunca ha pretendido engañar a nadie sobre la naturaleza de su régimen ni sobre los principios en que se funda su manera de gobernar. Cuba vive bajo un sistema "comunista" (son sus palabras), que, según él, es más justo, más igualitario y más libre que las putrefactas democracias capitalistas, a las que en todos sus cacofónicos discursos el "comandante" manifiesta siempre el soberano desprecio que le merecen, y a las que les pronostica que más pronto que tarde se desmoronarán bajo el peso de su corrupción y sus contradicciones internas. Es posible que Castro sea la única persona en Cuba que todavía crea esas sandeces, pero, sin duda, se las cree, y como en la isla reina un totalitarismo vertical donde el Jefe Máximo tiene poderes omnímodos y es la única fuente de la verdad, el sistema funciona en razón de semejantes convicciones, machacadas por la propaganda unidimensional ante los cubanos como si fueran axiomas revelados. (Es por esta razón que Reporteros Sin Fronteras acaba de situar a Cuba en el lugar 166, entre 167 países examinados, en lo que concierne a la libertad de prensa, es decir, en el penúltimo lugar: el último le corresponde a Corea del Norte). (continua) Mário Vargas Llosa [Pedro Marques Lopes] |
Oh seu mija na agulha
| O Barnabé escreveu sobre o mar. Podia ter escrito sobre quântica ou sobre o mau momento do Penafiel, mas escreveu sobre o mar. Advertência: O post que se segue contém linguagem que pode ferir a sensibilidade de alguns leitores.
Manifesto marinho anti Barnabé de finíssimo recorte literário* Temo que dos meus tempos aqui, fiquem para a história as palavras do Barnabé. Se o Barnabé é ícone para um milhão. Abaixo os tempos! Abaixo o milhão! Abaixo o flautista que os ridiculariza! Abaixo os ratos que o seguem! O Barnabé tem a memória de um peixinho de aquário! O Barnabé só pesca o que lhe interessa. O Barnabé é uma tainha! O Barnabé é a refutação viva da evolução das espécies. O Barnabé está para o mundo como as Berlengas estão para os portugueses. Ecossistema selvagem só notado quando há asneira. O Barnabé não discute, disparata. O Barnabé não argumenta, difama. O Barnabé tem é postas e ideias congeladas em mar alto. O Barnabé é reaccionário! Confunde o interesse da nação com o interesse que tem na nação. O Barnabé não gosta das ideias dos outros. O Barnabé não gosta de nada que não compreenda. O Barnabé não compreende nada! O Barnabé é o velho do Restelo de uma geração next. Com ambições a um misto de Monstrengo com Capitão Iglo. Se o Barnabé é democrata, eu sou marxista. O Barnabé não gosta do país! O Barnabé desenha o mundo num rabisco. O Barnabé escreve a golpes de pilo. “Hoje somos por isto, amanhã por aquilo, a culpa é do sistema e também do fisco”. O Barnabé é heterónimo do Louçã O Barnabé tem personalidade de calda. O Daniel é a mão do Francisco. O Rui é a mascara do Tomé. O Barnabé é mãe medusa e suas crias, em mistério para a psiquiatria. O Barnabé gasta palavras como se fosse milionário. Tanta palavra escrita e ainda hoje não sei em que acredita. O Barnabé agoira-me o intestino. Antes as galés que lá voltar. O Barnabé é burguês! O Barnabé é beirão! O Barnabé é burguês da beira! O Barnabé é complexado. O Barnabé é recalcado! O Barnabé é falso farol! É falso profeta! É lobo em pele de cordeiro. É bardo, artista e curandeiro. É tonto, é doido, é um estorvo. É bicho danado de mau agoiro. O Barnabé é filho de si próprio! O Barnabé pensa que é culto. O Barnabé pensa que sabe escrever. O Barnabé pensa que é importante. O Barnabé vive sob o efeito de drogas duras! Se o Barnabé é o contributo da minha geração para o Portugal deste século. Então que se foda o Barnabé. Que se foda a geração. Porque o país, esse, já está fodido. Abaixo o Barnabé! Abaixo! Desliguem-no! * Para ser lido com a devida entoação [Rodrigo Moita de Deus] |
Correio do leitor
| Dr. Paulo de Pinto Mascarenhas,
Peço-lhe desculpa pelo incómodo, mas não posso calar a minha indignação: li hoje [ontem] no periódico “Público” um artigo de José Pacheco Pereira (assina como historiador, embora seja um mero agitador) muito interessante. Confessa-se como um velho, impotente para perceber a geração nova que governa Portugal. Mas revela outras fraquezas. Gosto da parte, por muito significativa, em que ele diz “que sabem do país [ele põe País em letra pequena… significativo] pessoas que só conhecem os escritórios de advogados de Lisboa, e o ciclo de vida que vai da Bica do Sapato, do Lux, das férias no Algarve, Brasil e Cuba, da “neve”, do sushi na moda e dos health clubs, e que estão todos no concerto da Madonna?” Gostava eu também de saber o que percebe o dr. Pacheco Pereira dessas matérias para falar com ar tão sábio e conhecedor. Pelo que é público, o professor de filosofia só conhece os hotéis de folheto de Moscovo, as ruas do Porto, as melancolias da Marmeleira e o silêncio sepulcral do seu armazém de papel a que chama biblioteca. Nunca ouvi dizer que esse senhor tenha posto um pé no Lux (bem lhe fazia…), e muito menos num health club (também lhe fazia muito bem às adiposidades); mas fala de cátedra como se conhecesse o que não conhece. Mais ainda, ele acha que ir à ginástica é sintoma de um mal qualquer que transforma o cérebro e perturba as leituras; como também entende que o Lux e a Bica do Sapato estão relacionados com a senhora Madonna, quando estrão muito mais próximo do Malkovich. O senhor Pacheco, está bom de ver, é um ignorante (que média terá tido na Faculdade? Vou investigar…) encartado e convencido. Fala sem conhecer e sentencia sem saber. Eu, por mim, vou continuar a ir à Bica do Sapato só pelo gosto de saber que não vou lá encontrar ser tão superficial. António Leonardo Cascais |
Quinta-feira, Novembro 18, 2004
Coisas boas da blogosfera
| Cartas Portuguesas. Um belíssimo trabalho sobre a primeira república. Parabéns e obrigado ao autor.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Podia ser o comentário de um monárquico sobre a actual constituição
| “A consolidação da República dos 300 000 num país de 5 milhões de habitantes, só se poderia dar recorrendo a subterfúgios pouco democráticos (...)”
Poder político e Caciquismo na 1ª República Portuguesa Fernando Farelo Lopes - Editorial Estampa 1994 Via Cartas Portuguesas [Rodrigo Moita de Deus] |
The Right Stuff
| A propósito das eleições americanas, o escritor Tom Wolfe disse: “I think support for Bush is about not wanting to be led by East Coast pretensions. It is about not wanting to be led by people who are forever trying to force their twisted sense of morality onto us, which is a non-morality. That is constantly done, and there is real resentement”. É verdade, só é pena que (como eles dizem) a gente aqui não possa votar no Bush. Até podíamos perder, mas ao menos ninguém nos tirava a alegria de votar contra eles.
[Luciano Amaral] |
Forecasting
| Economistas do Bloco de Esquerda (do Professor Rosas ao Professor Louçã, passando pelo Dr. Portas) garantem que o Euro atingirá brevemente os 80 dólares por barril.
[Luciano Amaral] |
Le Coq Soviétique
| Parece que a União Europeia (c’est-à-dire, a França) quer rever a sua relação com a oposição democrática cubana, em favor do reforço dos laços com o regime comunista tropical. Enfim, trata-se de mais um passo na apropriação dos despojos da geopolítica da guerra fria pelo resplandecente gaullismo tardio, em nome de um pólo alternativo ao unilateralismo ianque. Sob a sua asa protectora estiveram ou estão o Iraque saddamita, a Síria, o Irão, a Autoridade Palestiniana e agora até Cuba (quem sabe a Coreia do Norte, um dia). O sonho é ter sob a asa a Europa de Leste. Tivemos mesmo direito a um episódio de saudosa kremlinologia, com a interminável agonia de Arafat. Tivemos até direito a um candidato da Manchúria, na pessoa do malogrado senador Kerry. Quando a URSS existia muita gente não percebia o ridículo de tudo aquilo, porque há-de perceber agora o ridículo de tudo isto?
[Luciano Amaral] |
Assédio Sexual
| A Alta Autoridade para a Comunicação Social considera terem existido, no “caso Marcelo”, “pressões inaceitáveis” do ministro Gomes da Silva sobre a TVI e “promiscuidade entre o poder político e o poder económico”. “Pressões inaceitáveis”? “Promiscuidade”? Seus marotos… Não conseguem pensar mesmo noutra coisa.
[Luciano Amaral] |
Adaptação de um diálogo entre mim e uma amiga
| Amiga: Tu és mesmo de direita, não és?
Eu: Eu não sei o que é que direita e esquerda querem dizer. Mas talvez seja. Define lá esquerda e direita. Amiga: Não sei muito bem, mas se tomarmos o Barnabé pela esquerda mainstream... Eu: O Barnabé? Amiga: Sim, o Barnabé hoje em dia é a esquerda mainstream. Eu: Não digas mais nada. Então sou de direita. [Luciano Amaral] |
Quarta-feira, Novembro 17, 2004
Apoiado
| Ao contrário do que se tem dito, o camarada Jerónimo de Sousa é um grande candidato a líder do PCP. E concordo com o Paulo Gorjão quando escreve que o companheiro Mega Ferreira é uma boa escolha para candidato à Câmara de Lisboa. Mas eu sou de direita, é um facto.
[PPM] |
A minha democracia é maior que a tua
| A lista dos organizadores, oradores e participantes do "Congresso da Democracia" é algo de fundamental para quem quiser compreender que entendimento têm todos eles da Democracia e quem entendem os mesmos serem os seus legítimos donos. Já vi serem dados à Democracia muitos e variados usos. Mas confesso que é a primeira vez que a vejo utilizada para estimular uma sessão de masturbação em grupo.
[FMS] |
Homem ao mar!
| O Rui Tavares voltou a meter água. Fiquei convencido que não sabe reconhecer uma “ideia” nem que esta lhe acerte no meio da testa.
[Rodrigo Moita de Deus] |
The other side of the question
| Powell e Rice, um post muito inteligente sobre a nova secretária de estado americana.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Miragens e mirages não são propriamente a mesma coisa
| Recebi de Londres uma carta inflamada. Queixa-se o remetente de fantochadas, preconceitos e preguiça intelectual na forma como se descreve o papel da França no mundo. A reacção e o tom são injustificados, as caricaturas são mal-interpretadas, mas não lhe levo a mal as desconsiderações.
O Bruno pede que fundamente a francofobia. É o que farei. Em primeiro lugar é necessário separar os planos. De um lado, a França enquanto “global player”. De outro, a França que nos cativa do ponto de vista cultural, filosófico e mesmo sentimental. A França não terá a exuberância intelectual dos tempos em que conquistou o mundo com os feitos de Voltaire, Montesquieu, Balzac ou Dumas. Mas seria um erro ignorar Sartre, Bernard-Henri Levy ou mesmo Glucksmann. Se o rato Mickey é mais famoso que Asterix, as ideias de qualquer um dos novos filósofos franceses são mais profundas enquanto doutrinas, mais importantes para o mundo e para o homem, e certamente mais intemporais que os neoconservadorismos que nascem e morrem na América. Se relativamente ao segundo ponto estamos conversados, falemos do primeiro: a França enquanto “global player”. Esteja descansado o Bruno Cardoso Reis que não pretendo fazer juízos morais. A moralidade e a política externa são incompatíveis. Mas antes de tudo mais sou um cidadão português. E é na lógica dos interesses do meu país que avalio e julgo – dentro do possível - a diplomacia dos outros países. Nessa perspectiva, os interesses franceses são quase sempre contrários aos portugueses e mesmo do ocidente. Porquê? Porque os interesses tácticos franceses são sempre prioritários em relação a estratégias globais ou às solidariedades institucionais. A França não é um aliado de confiança, porque a França só está consigo própria. Foi assim quando trataram de armar Israel com uma bomba atómica, vendendo ao mesmo tempo material militar a líbios, iraquianos e egípcios. Não há, aliás, estado-pária no mundo que não tenha uns mirage. Quando tratou de negociar com a Sérvia enquanto a NATO bombardeava Belgrado. Quando participou activamente no bloqueio do Conselho de Segurança à intervenção no Iraque, procurando assim salvaguardar a enorme dívida de Saddam e o acesso directo ao seu petróleo. Ou terá sido uma súbita fúria de altruísmo que os levou a tomar tal posição? Repare-se agora no comportamento francês nas principais organizações mundiais. Depois de tudo o que De Gaulle disse sobre o assunto, quando lhe interessou, Paris entrou para a NATO. Voltou a sair e, quando lhe interessou, pediu novamente a entrada para a estrutura operacional. Na União Europeia vendeu-nos a política agrícola comum, dogma único de todas as reformas institucionais e moeda de troca para aceitar os sucessivos alargamentos. E até na ONU. Se a França não fosse tão activa na “reforma das Nações Unidas”, podia ser que alguém se lembrasse que Paris não tem dimensão, representatividade, nem sequer legitimidade histórica para pertencer ao Conselho de Segurança. Se a França não fosse tão activa, até podia ser que a discussão não durasse há dez anos e a reforma efectivamente se fizesse. A França não soube envelhecer, porque não aceita que a política externa é hoje continental. Não aceita que já não tem dimensão para impor os seus interesses e que tem de partilhar responsabilidades e acima de tudo solidariedades. A esse propósito, podia agora falar da costa ocidental de África. Dos golpes de estado no Congo, do controlo do Senegal, do intervencionismo em Bissau, de Angola, da Costa do Marfim, da diplomacia paralela da ELF. A França tem direito a uma política externa própria? Claro que sim. Não podemos é ser ingénuos ao ponto de acreditar que Portugal e o Mundo ganham alguma coisa com isso. [Rodrigo Moita de Deus] |
Um milhão é obra
Um milhão de leitores é obra, uma grande obra, temos de reconhecer. Apesar de ser um número capitalista, eles estão em festa, como podem ver na fotografia em anexo. O grande timoneiro tem razões para sorrir com a marcha triunfante dos barnabés. [PPM] |
Verdade ou consequência
| “É uma aventura perigosa reduzir os impostos sobre o rendimento. Insistir em baixar ainda mais os impostos põe em causa os serviços do Estado”
José Sócrates, hoje no Parlamento a propósito da descida do IRS em 2005 Quem é que afinal faltou à verdade: o secretário-geral do PS quando disse na semana passada que os impostos não iriam descer com o Orçamento de Estado para 2005, ou o mesmo secretário-geral do PS quando reconhece agora que vão descer? O que falava do ataque à classe média ou o que agora não quer reduzir o IRS sobre a classe média? Um deles terá sido. O Eng.º José Sócrates, certamente. [PPM] |
Os suspeitos do costume
| Pomposamente apresentado como o “Primeiro Congresso da Democracia”, o evento nasceu na sexta e no domingo já estava morto. Durou menos que o Carnaval.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Terça-feira, Novembro 16, 2004
Última homenagem
"Presto emocionada homenagem a Arafat."
-A 5 de Setembro de 1972, terroristas ligados à Fatah raptam e assassinam 9 atletas olímpicos israelitas- "O herói, o lutador, o combatente infatigável,"
-A 11 de Março de 1978, terroristas matam 38 reféns num autocarro Egged bus- "o político astuto, o líder caloroso e profundamente humano, até nos erros."
-27 January 2002, 131 mortos em Jerusalem, bombista-suicida da Fatah- "O homem que deu esse passo gigante, decisivo, que só um forte e corajoso líder podia dar, de reconhecer a existência do Estado de Israel, para trazer um dia a paz aos dois povos e à regiao".
"Porque a Palestina existe no mapa, resiste na Cisjordânia, em Gaza, em Jerusalém, no coração de cada palestiniano na diáspora e na consciência de cada cidadão do Mundo."
-Arafat apoiou a invasão do Kuwait, por Saddam Hussein- "Porque a nação Palestina há-de ter um Estado e viver em paz com Israel. Porque Arafat, um homem pequenino de grande visão e força anímica, nunca desistiu de lutar."
-Mísseis anti-tanque PG-7, encontrados na Muqata, em violação com as disposições internacionais- Os itálicos, factos e imagens são da minha responsabilidade. A ficção é obra de Ana Gomes, do Causa Nossa. [DBH] PS. Os documentos que fazem estas ligações, capturados por Israel, podem ser encontrados aqui |
francophobe, moi?
Escreveu o Bruno nas suas Cartas de Londres: Francofobia primária. Já aqui nos referimos a este fenómeno em expansão em Portugal (ainda mais, diria, do que nos States). Mas ele continua a prosperar numa blogosfera e comentariado nacional que não primam exactamente pelo interesse pela realidade internacional, e tendem a usar a realidade internacional como arma de arremesso nas guerrilhas políticas internas. (...) Claro que há conspirações e interesses em política interna e externa. Mas confesso que tenho dificuldade em perceber duas coisas: 1. Se só os interesses nacionais é que contam em Paris, no que é que nisso a França é diferente ou pior do que os EUA de George W. Bush? 2. Se só os interesses nacionais, sobretudo do tipo mais rasteiramente comercial, é que contam em Paris, porque é que a França insiste em criar problemas com um dos seus parceiros comerciais mais importantes: os EUA? Caro Bruno, a França (Chirac) tem, neste momento, refém o processo de paz do Médio Oriente ao não divulgar o relatório clínico da morte de Arafat. Ao actuar no seu próprio interesse, a França não difere dos EUA, mas ao permitir a violência para alcançar um lugar na mesa de negociações está perigosamente a parecer-se com um estado pária... Os interesses nacionais, nomeadamente comerciais, da França com os EUA não se pautam pela cooperação, mas antes pela competição. O Japão é igualmente parceiro e competidor dos EUA, e então? A actuação militar na Costa do Marfim e no caso do comatoso Arafat mostra que a posição francesa contra a guerra (Iraque) não se deveu a uma posição pacifista, como a da Alemanha, mas a uma questão de interesses. Nisto não é diferente dos EUA, mas finge que o é... Não tenho nada contra a cultura, povo ou mesmo cinema francês, apenas contra este estertor gaulista, que agita o mundo só para mostrar que ainda não morreu. [DBH] |
Vitriolica mudou de casa
A nossa estimada amiga Vitriolica mudou de casa e tornou-se vizinha do Acidental aqui no blogspot. Se a quiser visitar, está agora em http://unkemptwomen.blogspot.com. Como podem ver, a casa mantém-se limpa e linda, mas também não seria de esperar outra coisa. [PPM] |
Fora do mundo
| Normalmente os políticos gostam de dizer que se distanciaram da política, mas quem tem ouvido Manuel Monteiro nas últimas semanas fica com a impressão que foi a política que se afastou dele. A falta de informação que revela é quase embaraçosa.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Jornal do incrível
| "Pressões do Governo levam à demissão de toda a direcção de informação da RTP". Quem o escreve em título é... "A Capital". Há finalmente razões de sobra para ficarmos todos descansados no que diz respeito à liberdade de imprensa em Portugal. Afinal de contas, esta é mais uma manchete como aquelas que antecederam a posse do actual Governo pelo Presidente Jorge Sampaio. Lembram-se? Decididamente, "A Capital" é cada vez mais o jornal do incrível. Eu propunha um novo slogan: Se "A Capital" o diz, não acredite.
[PPM] |
Para efeitos de memória futura
| Quem julga que Paulo Portas tem medo de ficar sem coligação ou sem amigos no PSD, não tem estado atento aos últimos dez anos de política portuguesa.
[Rodrigo Moita de Deus] |
A desilusão da calúnia
| Quando cheguei à blogosfera gostava de ler o Barnabé porque, mesmo não concordando com nada do que lá vinha escrito, tinha uma esperteza irritante. Mas aquilo já nem esperto é - e por isso também já não irrita. A coisa desceu ao ponto mais baixo da difamação, sempre insinuada nas entrelinhas, sem rasgo nem coragem, deixando o resto do insulto e da mentira para os comentadores anónimos - mesmo com alcunhas variadas vê-se que são quase sempre os mesmos. Compreende-se porque é que o Pedro Oliveira lá não tem escrito. Há quem faça questão de manter o nível.
[PPM] |
Primário, não. Fundamentado!
| O Bruno Cardoso Reis indigna-se perante a francofobia primária. Eis uma carapuça que não me importo de enfiar, registando desde já que a minha posição pouco ou nada se relaciona com os Estados Unidos. É claro que a política externa deve ser feita tendo em conta os interesses nacionais. É claro que todas as nações devem pensar primeiro em si. A razão de tanta francofobia é que a França pensa primeiro em si e depois pensa em si novamente. Sendo que raramente os interesses franceses são compatíveis com os interesses do mundo. Eis um bom exemplo de uma nação que não soube envelhecer.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Segunda-feira, Novembro 15, 2004
Traduzido para inglês
| "Here in Portugal we have thriving, very active blogosphere... a large part of it, as in the states, is very political, left, right, left centre, right centre, centre, you get the picture. Well, recently things have been getting pretty heated between blogs some pretty nasty and strong insinuations being made between people, commenters in peoples' blogs threatening people with stuff just because they have different views...sucky.
(…) this climate of hate also puts some writers/journalists/academics off writing about difficult subjects that need to be expressed because they risk being defamed or threatened in the blogosphere, which in Portugal has become a very strong part of the media. (…) go and read some of the extremely nasty things people write in the comments of one very well know left wing blog for example... and you and I know at least one writer who will think more than twice about writing about difficult or unpopular subjects again." Vitriolica Webb, na caixa de comentários, respondendo a uma pergunta sobre a quem é que se dirigia no desenho "Quem perceber, percebeu", publicado aqui e ali. [PPM] |
E as directas?
| A ideia de disputar a liderança do PSD em eleições directas é das poucas propostas políticas de Santana Lopes que sempre aplaudi. Espero que agora, como Presidente do Partido, ele não se esqueça da sua promessa.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Congresso pouco importante?
| Independentemente de se gostar ou não de Santana Lopes, quem leu as três ratoeiras estendidas pelo primeiro-ministro (coligações, presidenciais e autárquicas), certamente terá de concordar que pela primeira vez na sua carreira política Santana Lopes pensou com um ano de antecedência. Disse e fez a pensar no que dirá e no que fará no próximo ano. A campanha para as próximas legislativas começou este fim-de-semana.
[Rodrigo Moita de Deus] |
O rato estende a ratoeira ao gato
| Santana Lopes defendeu que o candidato preferencial era Cavaco e apresentou o assunto como grande novidade. Foi hábil porque a novidade seria o PSD não apoiar Cavaco. Comete três incoerências pouco notadas. A primeira é que Cavaco há um ano não servia por causa da coligação. A segunda, porque as sondagens não contam, mas são elas que exigem Cavaco. A terceira quando descreve um presidente que “seja capaz de motivar os portugueses” e que “reúna apoio para as políticas do governo”. A descrição do “sonho” de Santana não é a imagem de Cavaco. Nem tão pouco se imagina um Cavaco presidente a dar palmadinhas nas costas à política orçamental de Santana Lopes. Mas ao apresentar o nome do ex-primeiro ministro Santana estende-lhe a ratoeira. Se Cavaco avançar e ganhar, a escolha foi dele. Uma escolha pessoal como o próprio fez questão de referir. Se Cavaco avançar e perder, a culpa não foi dele porque fez o que o partido queria. No entanto Santana já sabe que Cavaco dificilmente avançará enquanto ele for líder do partido e primeiro-ministro. Muito menos agora que lhe fizeram uma espécie de ultimato. Santana lavou as mãos do assunto Cavaco. Fez o que lhe competia como Durão já o tinha feito há muito tempo atrás quando foi eleito pela primeira vez presidente do PSD.
[Rodrigo Moita de Deus] PS: Este post foi escrito na madrugada de sexta-feira. No sábado, Cavaco Silva veio dizer que a política activa estava desinteressante. Talvez agora o CAA entenda onde eu queria chegar. |
Entre a espada e a parede
| Politicamente, o problema das coligações é o mais difícil para Santana Lopes resolver. Por um lado o PSD dificilmente lhe admite uma coligação pré-eleitoral. Por outro, tem medo da afirmação do PP e acima de tudo tem medo que Portas vá negociar com Sócrates. Na madrugada de sábado tentou explicar isso aos congressistas dizendo qualquer coisa do género “ou eles vão connosco ou vão com os outros”. Ficou a ideia que Santana Lopes reconhece que o PSD não consegue ganhar as eleições sozinho.
Entre o sim e o não optou pelo nim. Inventou uma nova coligação com “associações e movimentos cívicos”. Insinuou a entrada da Nova Democracia, convencido que desta maneira o PSD não tem que dizer se gosta e que Portas não podia dizer que não. Mas o ministro da defesa nem foi ao encerramento do congresso. Há muito tempo que não precisa. [Rodrigo Moita de Deus] |
Quem ler o seu nome, dê um passo em frente
| Foi a mais discreta mas a melhor de todas as ratoeiras. Santana Lopes lembrou a sua experiência na Figueira da Foz para dizer que não admitia que os notáveis militantes recusassem prestar o serviço ao partido. E para que Marcelo não tivesse dúvidas, explicou melhor: “e não é como presidentes das mesas da assembleia, é como presidentes de câmaras”. Em que circunstâncias? Santana clarificou “quando convidados ou instigados”. “Instigados” é como quem diz “notícias nos jornais”, até porque a Santana não vai fazer convites formais que possam ser recusados publicamente. Não se admirem por isso que nos próximos tempos, como já aconteceu, se possa ler que Marques Mendes é candidato a Trancoso, Pacheco Pereira a Évora, Leonor Beleza a Lisboa e Ferreira Leite a Terras de Basto. Ficam os notáveis à espera das manchetes para saber onde se devem candidatar, com o paradoxo de que as principais câmaras já serem do PSD.
[Rodrigo Moita de Deus] |
A iconografia também conta
| Aquele globo, aquele palco, as risquinhas de fundo, agora percebo porque há tantos notáveis que dizem não se identificar com este PSD. De facto, a identificação é complicada quando nem o logótipo do partido sobreviveu.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Mea culpa
| O bom do Daniel Oliveira irritou-se porque escrevi que ele era licenciado. Dado a autoridade com que se pronuncia sobre todos os males do mundo, julguei que o senhor Oliveira (espero que não se ofenda com o trato formal) possuía alguma formação especializada. Não me passou pela cabeça que fosse um autodidacta. Mas, vendo bem, deveria ter desconfiado.
[Vasco Rato] |
Correio do leitor (These boots are made for walking)
| Senhores Acidentais,
Este par de botas, que alguém vai calçar, mas todo o mundo precisa descalçar, fez-me lembrar de imediato o refrão da canção da Nancy Sinatra. "These boots are made for walking, and that's just what they'll do one of these days these boots are gonna walk all over you." Com tanta carpideira ainda a fungar, com tanto elogio fúnebre, com tanto recolhimento na tal "Muqata", com tantos correligionários de cifrões nos olhos à procura dos códigos secretos das contas bancárias, com tantos candidatos ao bastão de comando, com tantos avisos/ ameaças a esses mesmos candidatos, por muito importantes que sejam, para não pensarem sequer em parar a Intifada e muito menos em trair o "legado" de Arafat - quem vai "descalçar a bota"? É que, como diz a cantiga, a qualquer momento se pode ser descartado e cilindrado por um bom par de botas. Cumprimentos, RMR (Leitora identificada) |
A difícil sucessão...
Não é fácil suceder a Arafat. E não deve ser fácil sobreviver a uma tentativa de assassinato, como Mahmoud Abbas (Abu Mazen), para depois explicar que foram apenas "tiros para o ar"... que acabaram por matar dois seguranças. (o resto da história aqui)
Pois. [DBH] |
Sexta-feira, Novembro 12, 2004
Quem perceber, percebeu
If we're not careful with our blogosphere, we risk losing it. [Vitriolica Webb] |
Partículas Elementares
| Vai, muito provavelmente, começar um período feio na Europa, em que os tradicionais valores da liberdade, da tolerância e da democracia podem ser postos em causa. Os acontecimentos da Holanda parecem apontar para aí. Numa altura em que os Barnabés do mundo começam a aglomerar toda a gente que não é de esquerda na categoria de racistas, pensando que assim resolvem o problema (quando na realidade o que fazem é agravá-lo), apetece-me publicar um texto meu (bastante grande) que me foi encomendado por uma determinada publicação, mas não chegou a sair. Para que não se diga que ninguém quis avisar, o texto tem 10 meses de existência, escrito muito antes dos mais recentes sinais de crise e da provável crise real que se avizinha. Mais uma vez informo: é para pensar e não para disparatar, como é tão frequente na blogosfera e fora dela.
Chama-se "Partículas Elementares". Paira sobre o tema da imigração uma perspectiva genericamente beata, que é difícil de desmontar sem receber alcunhas desagradáveis. Os elementos principais dessa visão subdividem-se no entendimento da imigração, por um lado, como o equivalente da liberdade de circulação internacional e, por outro, como um contributo único para o enriquecimento cultural das sociedades que aceitam imigrantes. Mas estamos aqui no domínio da mais tosca confusão intelectual. Se a liberdade de circulação pode ser vista como um bem absoluto, o mesmo não acontece com a imigração. Muito pelo contrário, ela é um sinal de desequilíbrios profundos, tanto em termos de prosperidade como de direitos cívicos, entre as sociedades que exportam pessoas e as que as importam. Da imigração não resulta também necessariamente um enriquecimento cultural: a imigração pode, em vez disso, corresponder a um empobrecimento. É o que acontece hoje em dia quando, por exemplo, em muitos países europeus são introduzidos hábitos de discriminação sexual deles desconhecidos mesmo nos mais distantes e tenebrosos dias da Idade Média. (Continua) [Luciano Amaral] |
O Acidental à escuta
| A política na África Ocidental é um assunto pantanoso onde tenho dificuldade em firmar pé. Terra rica onde o sofrimento das populações é quase tão inexplicável como o papel das “potências” estrangeiras. É aqui que enquadro a situação na Costa do Marfim. O António Aly Silva, em “Os Cães da Guerra”, dá um enorme contributo para a discussão do assunto. Por todas as razões, sou eu que agradeço, António.
[Rodrigo Moita de Deus] |
O Acidental LONG PLAY
| Abrimos a partir de agora um espaço blogosférico para textos mais compridos. Chama-se O Acidental LONG PLAY e começa com um lençol do Rodrigo Moita de Deus (escrito antes das eleições americanas mas que só agora foi possível publicar). Mas já, já vem aí outro do Luciano Amaral.
[O Acidental] |
Cisão ideológica
| Desculpa Paulo. Bem sei que temos o dever de solidariedade institucional para com todos os nossos camaradas. Mas subscrevo as palavras do Rui Tavares e também eu estou completamente farto do Diogo Belford Henriques, do Vasco Rato, do João Miranda e de outros pseudo-democratas que insistem em diabolizar a imagem do Arafat.
Prontos. Ele até pode ter sido um ditador, pá. Até pode ter sido corrupto, pá. Até pode ter sido homicida, pá. Mas bolas. Dentro do género “ditador corrupto homicida” o gajo era porreiro. Até parece que alguém alguma vez simpatizou com ele. Até parece que alguém alguma vez defendeu que Arafat foi ou é um símbolo. Até parece que alguém alguma vez em algum partido democrático encontrou jovens trajando orgulhosamente o Kefieh. Até parece... [Rodrigo Moita de Deus] |
La Grande France
Cinquenta anos depois, a França acaba de conquistar:
Uma nova colónia (Costa do Marfim)
Um novo protectorado (Palestina) [DBH, em Madrid] |
O sigilo bancário e a inveja lusitana
| O MacGuffin deixa aqui perguntas importantes. A perspectiva de ter centenas de justiceiros da luta contra a corrupção a coscuvilhar nas contas bancárias do vizinho do terceiro esquerdo é assustadora. Alguém que me tranquilize, por favor.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Quem semeia ódios, quem é?
| Sinceramente, não me apetecia nada voltar ao assunto e por isso nem links vou fazer. Mas o mais espantoso no Barnabé - ou melhor, para não generalizar como eles fazem, o mais surpreendente no Daniel Oliveira e no Celso Martins - é que são capazes de chamar os maiores insultos aos outros - desde instigadores de xenofobia e racismo a provocadores de actos assassinos e atentados terroristas - e depois ficam chocados quando são classificados de imbecis ou de licenciados.
Quanto a sementes de ódio, basta ler alguns dos comentários do blogue deles para deparar com os monstros que estão a criar e, objectivamente, a arregimentar. Diga-se que, neste caso, não há lugar a qualquer distinção entre direita e esquerda. Dou um exemplo típico de comentário dos fiéis leitores do Barnabé, desta vez assinado por um tal de Saladino, que escreveu isto, entre outras enormidades, sobre os colaboradores do Acidental: "São meros traidores à Europa e colaboracionistas com o fundamentalismo bushista. De Gaulle é que sabia lidar com "direitistas" destes. Mandou-os fuzilar às mãos cheias." Acrescento que esta não é a primeira vez que os comentadores anónimos da caixa do Barnabé escrevem coisas deste teor: ainda há muito pouco tempo, fizeram o mesmo género de ameaças ao historiador Rui Ramos a propósito de um artigo de opinião no jornal "Público". Os responsáveis pelo Barnabé podem sempre dizer que não têm nada a ver com estes comentários, ou que não os subscrevem, mas a partir do momento em que os permitem - e utilizando a mesma lógica tortuosa do licenciado Daniel Oliveira - podemos sempre acusá-los de cumplicidade objectiva. [Paulo Pinto Mascarenhas] PS. Esclareço que é esta constatação do nível a que descem alguns dos anónimos que pululam na blogosfera que me levou a não abrir caixas de comentários. Bem sei que estas caixas aumentam o número de visitas nos blogues, mas jamais poderia dar cobertura aos ódios ressabiados de gente desqualificada e cobarde, que aproveita o conforto do anonimato para proferir ameaças de morte e outros disparates semelhantes. Os leitores ou os críticos - que estejam na posse de todas as suas faculdades e que desejem ver publicadas as suas opiniões no Acidental - sabem bem que podem ver publicados os seus comentários, bastando para isso escrevê-los para o meu email pessoal (pmascarenhas@portugalmail.pt). |
Correio da blogosfera
| Caro PPMascarenhas,
É natural que quando se escreve publicamente se encontre acordo e desacordo nos outros: La Palisse não estaria melhor. Longe de mim acorrer cada vez que discordo. Discordância ainda para mais natural face a textos num blog que, ainda que algo plural, não está exactamente nas minhas águas ideológicas. Mas não resisto a escrever-lhe em total desacordo com um recentíssimo post da autoria de Luciano Amaral, [Verdadeiras] Sementes de Ódio. Dizer que Daniel Oliveira se está a tornar num imbecil é absolutamente incorrecto. Jocosamente poder-lhe-ia contrapor que é cegueira dizer "que se está a tornar", ele é-o. Mas correctamente não é disso que se trata, é o tipo de argumento igual ao "Bush é idiota". O radicalismo totalitário de Daniel Oliveira e quejandos é tudo menos imbecil - é mero radicalismo totalitário. E brincarmos com o "imbecil" é atenuar o perigo - algo constante numa esvaziada vida política portuguesa, essa eleição do interlocutor be "giro" e quanto muito por vezes "idiota/imbecil". Um país e um bloguismo a chocarem a serpente, é o que se anda por aí a fazer. Essa gente não é imbecil, repito. É perigosa. Cumprimentos, JPT [Ma-Schamba] |
All dressed up and nowhere to go
| Depois deste meu poste sobre as relações dos nacionais-socialistas com a Igreja Católica, preparei-me para discussão histórica, filosófica e quiçá teológica sobre o assunto. Limpei o pó aos livros, anotei páginas importantes, recolhi alguns números que me pudessem valer para a tréplica e, obcecado com o rigor factual, dei-me ao trabalho de ir confirmar as fontes.
Com um entusiasmo quase infantil, logo pela manhã li a esperada resposta. E afinal... Afinal o Luís Rodrigues nunca falou de cumplicidade entre o Vaticano e os Nazis e, no fundo, no fundo, esse pensamento nem existe entre os anticlericais. “De onde é que me terá vindo esta ideia?” Certamente do meu fervor religioso. Do meu fanatismo clerical. Ora bolas! Vou ali penitenciar-me com uma chibata e já volto. Fico com a impressão que caso tivesse eu paciência para escrever outras 1292 palavras, provavelmente conseguiria reduzir a sentença deste juiz da Igreja de “subserviência” para “mudez”. [Rodrigo Moita de Deus] |
Quinta-feira, Novembro 11, 2004
Os nervos da direita
| A propósito da falta de pachorra revelada pelo Luciano e pelo Pedro (que eu partilho), o Barnabé afirma que a direita “anda nervosa”. Pois, claro. Anda nervosa porque a extrema-esquerda – o BE/Barnabé - conquistou o poder em Portugal. Andamos nervosos porque, para a direita “mentirosa” dos cartazes do BE, as eleições correram mal nos Estados Unidos e na Austrália. Andamos nervosíssimos porque Israel encontra-se gravemente ameaçado pela heróica resistência palestiniana, impulsionada pela morte desse grande estadista que foi Arafat. Estamos nervosíssimos porque Trotsky volta a estar nos bestsellers na FNAC, substituindo Michael Moore. E, finalmente, andamos agitados porque o licenciado Daniel Oliveira, essa estrela mediática emergente, se transformou na principal referência intelectual da mocidade portuguesa. Pois é, a direita anda nervosíssima.
[Vasco Rato] |
Política para a terceira idade (cont.)
| Convidar o Dr. Monteiro e o Dr. Louçã para falarem sobre democracia só pode ser uma maneira simpática de baixar a média de idades dos participantes para os sessenta e cinco anos.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Eles perdoam tudo
Durante décadas, Arafat foi o rosto do terrorismo internacional. Em Setembro de 1970, provocou uma guerra civil na Jordânia. Derrotado, parte para o Líbano, onde, cinco anos mais tarde, enceta outra guerra civil. Como líder da Autoridade Palestiniana, apoia a violência terrorista da Intifada. Foi o obstáculo principal a uma solução de paz, e, em consequência, nada obteve para os palestinianos. Para preservar o seu poder pessoal, amordaçou a imprensa e ordenou execuções sumárias dos seus opositores. Ao mesmo tempo que acumulava uma vastíssima fortuna pessoal, incentivou a corrupção generalizada na Autoridade Palestiniana. Confrontado com as carências do seu povo, enriqueceu ilicitamente. Apesar de tudo isto, a esquerda já começou a beatificar Arafat. Aos ditadores de esquerda, anti-americanos, a esquerda portuguesa perdoa tudo. [Vasco Rato] |
Política para a Terceira Idade
| A Associação 25 de Abril promove hoje o primeiro congresso da democracia. Louvável iniciativa que peca apenas por tardia. É que a democracia já existe há trinta anos. Temo que o lapso cronológico não seja totalmente inocente. Infelizmente há quem ainda acredite que a democracia é um valor exclusivo da esquerda e que tudo o que está à direita de Freitas do Amaral é obrigatoriamente anti-democrático.
Com o regime ameaçado pelas forças obscuras do centro-direita reúne-se a brigada do costume, agradecida por ter palco e microfone onde falar. É certo que falta a jovialidade de outros tempos e que faltam pensamentos para o futuro, mas este congresso é uma espécie de encontro de velhos amigos que têm a oportunidade de trocar as suas experiências nos tempos em que estavam no poder. [Rodrigo Moita de Deus] PS: Há qualquer coisa de profundamente assustador em ouvir Guterres, Freitas, Cavaco, Eanes e os outros, falarem sobre os projectos e as ideias que têm para Portugal. É que todos eles passaram pelo governo da nação, que é como quem diz que todos eles já tiveram a oportunidade de concretizar os seus sonhos. |
A propósito de uma qualificação
| Como eu não sou, nem nunca fui, nem quero ser amigo do Daniel Oliveira, julgo que não vale a pena perder muito tempo com as suas velhas tácticas. A estratégia é sempre a mesma: generalizações insultuosas que depois disfarça apressadamente com tentativas de divisão. Primeiro, acusa indiscriminadamente "a direita" das mais absurdas enormidades. Depois, quando é apanhado em falso e sempre com a subtileza de um mamute, apressa-se a fazer a distinção entre a direita que lhe serve os seus interesses e a outra direita, a que diz ser imprestável, sem "maturidade intelectual", mas que está em voga.
Sinceramente, não me interessa nada que o Daniel Oliveira tenha sido do PCP, que seja assessor do BE, que se afirme como social-democrata, ou que depois apareça como "colunista" de um programa "sem partido", ainda que tudo isto só dificilmente seja conciliável ou coerente. Mas só o queria avisar que as tácticas que usou em tempos com a Coluna Infame não resultam com O Acidental. Nós até podemos ser más companhias para o Luciano Amaral, mas não abrimos mão da amizade, do respeito e da admiração que temos por ele. E não é a esquerda do "acho extraordinário" que vai conseguir mudar estes simples factos da vida. [Paulo Pinto Mascarenhas] |
Mitologia anticlerical – Episódio II
| O meu amigo Luís Rodrigues sabe bem como me provocar e segue a cartilha anticlerical à letra. Primeiro, responsabilizar a Igreja pela propagação da SIDA em África. Depois, acusar a Igreja de cumplicidade com os nazis. Repito-lhe o preâmbulo do costume. Não sou fanático católico, nem sequer muito praticante, sei reconhecer à Igreja muitos dos seus erros e outros que nem ela própria admite. Mas o anticlericalismo praticante, como qualquer outra prática fundamentalista, desperta em mim um misto de Loyola com Ghandi. Azar dos Távoras, porque a matéria em causa tem merecido grande parte do meu estudo.
Poderia lembrar que os crimes nacionais-socialistas contra a Igreja Católica fazem parte do libelo acusatório de Nuremberga, redigido também pela delegação soviética. Poderia lembrar que na alta hierarquia nacional-socialista não existe um único católico praticante. Poderia lembrar que este Papa foi um dos milhares de católicos perseguidos pelos Nazis. Poderia lembrar que João XXIII foi um dos mais activos defensores do povo judeu durante a ocupação alemã. Poderia lembrar milhares de outros pormenores e partir do princípio que o Luís saberia retratar-se. Mas, desconfiando da sua tolerância, aqui deixo um texto mais fundamentado, mais explicado e mais factual. É que, depois do trabalho todo que tive para lhe preparar esta “papinha”, nem admito réplica. Acusar a Igreja Católica de cumplicidade com o regime nacional-socialista é um absurdo histórico. É um mito. É uma ideia criada para fins de propaganda. É não compreender que o nacional-socialismo – como pensada por Rosenberg e outros - é muito mais que uma ideologia, é uma doutrina completa que, em última instância, tinha a ambição de substituir-se às religiões. Só assim se pode ler a história, o fanatismo e a dimensão dos crimes praticados pelo III Reich. Prova disso é o entusiasmo com que os nazis criaram substitutos para os principais símbolos religiosos: a festa germânica pelo natal, a nomeação pelo baptismo, e Bormann até redigiu um novo catecismo nacional-socialista para lentamente fazer esquecer a “moral cristã”. Todas as Igrejas eram “naturais inimigas” do Reich. Seja porque representavam estruturas de obediência paralelas ao Estado, seja porque, como diria Nietzsche, a sua “moral dos fracos” tinha infectado o superior povo alemão. Rosenberg é mais concludente a este respeito quando escreve no seu Mythus, que a nova filosofia nacional-socialista “não admite nenhum outro centro de forças a seu lado, nem o amor cristão (...)”. Tudo isto não era estranho à Igreja. O nacional-socialismo representa a “negação de Cristo, a negação dos Seus sentimentos, o culto da violência, o culto e a adoração das raças...” - escreve Pio XII na sua encíclica “Com viva preocupação”, em 1937, quando o mundo ainda pensava que se podia negociar com Hitler. Se todas as Igrejas eram “naturais inimigas” do Reich, o Reich era um inimigo natural de qualquer Igreja. A Igreja temia o Reich, mas o Reich também temia a Igreja. Pode agora o mais céptico argumentar com a “luta contra o bolchevismo” enquanto factor de união entre a Santa Sé e Berlim (e aqui obrigo a leitor a fazer uma clara distinção entre Nacional-Socialismo, Fascismo e as ditaduras ibéricas). Mas, na prática, aos olhos da política evangélica do Vaticano, Hitler era tão prejudicial à Igreja como Estaline. Afinal os ingredientes filosóficos são muito semelhantes: Marx terá escrito que a “religião é o ópio do povo”, e Nietzsche que “Deus morreu”. Alguém conseguirá julgar qual dos dois é o pior? Mas estas anotações mais doutrinárias servem para melhor fundamentar que não existiu cumplicidade alguma entre a Igreja e o Reich. Mais. Que a perseguição dos Nazis a protestantes e católicos é um facto histórico inegável – longe de mim comparar a perseguição de católicos e protestantes com o martírio do povo hebraico. A partir de 1938, as diversas organizações do NSPD concentraram-se em organizar “levantamentos populares” contra protestantes e católicos. Na sequência destes movimentos a grande maioria das casas dos sacerdotes, igrejas e outros locais de culto foram vandalizados. Na sequência desses mesmos “levantamentos” foram fechadas ou destruídas várias organizações católicas, colégios e editoras de inspiração cristã. É nesta altura que a vigilância de todos os locais de culto passa a estar entregue à Gestapo e que os “Comissários para os assuntos eclesiásticos” passam também a estar agregados à polícia política. Já depois do final da guerra é descoberto um relatório de 1941 deste órgão de comissários que dava conta da política do Reich em relação aos católicos: “O objectivo é acusar a Igreja de alta traição na luta que o povo alemão está a realizar para sobreviver”. O documento que agora cito foi uma das provas apresentadas no Tribunal de Nuremberga pelo acusador norte-americano. Tanto ódio tinha boa razão de ser. A Igreja Católica foi a única organização que se opôs formalmente ao programa de eutanásia que previa a eliminação sistemática de todos os deficientes e que seria o predecessor da infame solução final. O relatório do Comando Nacional-Socialista de Erlangen sobre a eficácia deste programa na sua região dizia a páginas tantas: “A população está muito intranquila e inquieta sobre esta migração de doentes... Todos estes incidentes são motivos que a Igreja e outros círculos religiosos aproveitam para arremeter novamente os seus nefandos ataques contra o nacional-socialismo”. Sobre este assunto está também registado o sermão que o bispo Bornewasser de Treveris pregou a 14 de Setembro de 1941: “nenhum Estado nem governo tem direito de levar à morte os improdutivos (...) Pobre Alemanha!”. Mais disse o Cardeal Faulhaber: “O vosso arcebispo nunca deixará de protestar pela morte destes inocentes”. Podem parecer palavras de circunstância sem grande impacto, mas naquele momento da história valeu a ambos os sacerdotes a deportação para campos de concentração. Como este exemplo há outras centenas, talvez milhares. O padre Bernhard Lichtenberg da paróquia de Santa Eudvigis em Berlim costumava dizer no final de cada missa: “agora rezemos pelos judeus”. Lichtenberg nem chegou a Dachau. Morreu no comboio vítima dos espancamentos das noites anteriores. Não foi o único a morrer por causa da sua fé. Só em Dachau, de 1940 a 45, foi internado um total de 2800 sacerdotes, na sua maioria católicos, vindos da Polónia e de algumas regiões da Alemanha. Estes são números encontrados no Reichleitter de Varsóvia. Como o Reich tinha tratados assinados quer com a hierarquia católica (a controversa concordata), quer com a protestante, nunca foi registada a verdadeira dimensão desta tragédia. Ficam de fora todas as outras zonas ocupadas: República Checa, Boémia, Rússia, Holanda, Dinamarca... ou outros notáveis casos de coragem como o Bispo francês Clermont. São estes os exemplos de cumplicidade com o nacional-socialismo? É verdade que a Igreja Católica assinou uma concordata com Hitler. Talvez tenha acreditado que um acordo assinado seria suficiente para protegê-la. Mas todas as igrejas negociaram com Hitler, precisavam de o fazer. Procuraram compromissos, fizeram concessões, foram diplomatas num tempo em que Hitler fazia diplomacia com Stukas. Historicamente nunca se discutiu a “cumplicidade” da Igreja com o III Reich, o que se discute é a opção da Igreja em proteger-se a si própria e aos seus quando os valores que defende exigiriam uma posição mais firme na defesa de todas as vidas humanas. É isso, aliás, que se lê nas palavras de João Paulo II quando pediu desculpa ao povo judeu. Mesmo os mais fanáticos anti-clericais não terão problemas em admitir que, quase três décadas de cautela oficial da Igreja na questão timorense, se deveram à necessidade de proteger a minoria católica da Indonésia. E mesmo que seja “culpada” de um silêncio demasiado longo, ninguém de bom senso a acusaria de “cumplicidade”. Porque não aplicam o mesmo princípio para o que se passou na Europa na década de quarenta? Ou os meus amigos de esquerda não aprenderam nada depois de terem andado tanto tempo a pregar a tolerância? [Rodrigo Moita de Deus] |
Uma qualificação
| Daniel, está para vir o dia em que perceberás uma linha que seja daquilo que eu escrevo. Já noutras ocasiões o demonstraste e agora não percebeste que o teu post só merece comentário porque te considero meu amigo. Só em nome de um determinado Daniel Oliveira que conheci em tempos vale a pena sequer comentar o que escreveste. Fosse outra a pessoa e o teu post faria de ti, a meus olhos, um pária da discussão aceitável, a seres colocado a par com os múltiplos filo-nazis e filo-estalinistas que pululam pela blogosfera.
É extraordinário que uma pessoa como tu, cuja única coisa que sabes fazer aqui na blogosfera é acusar este, aquele e aqueloutro de serem mentirosos, fascistas, estúpidos, racistas, para-mentirosos, para-fascistas, para-estúpidos, para-racistas, te atrevas (a propósito do teu post) a exigir de quem quer que seja mais do que aquilo que eu e o Pedro Marques Lopes te demos: o mais simples desprezo. Podias ter percebido e teres-te, muito justamente, mantido caladinho. Mas não, lá vieste vociferar mais um ror de parvoeiras. Só que, no fundo, talvez tenhas razão: uma pessoa como tu pode fazer acusações e gritaria não fundamentada e não qualificada. Já a uma pessoa como eu exige-se que qualifique os seus argumentos. É por isso que imediatamente corrijo o meu post e, precisamente, qualifico o adjectivo: tu não te estás a tornar num imbecil, estás a tornar-te num imbecil perigoso. [Luciano Amaral] |
Espelho meu: há alguém mais talentoso do que eu?
| Guterres foi convidado para ir falar sobre o futuro da democracia. Acabou por falar do seu futuro. Acabou por não dizer nada. Para um conservador é sempre bom saber que há coisas que nunca mudam.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Obituário
| Arafat morreu. A palestina ficou mais pobre. Mil milhões de dólares mais pobre.
[Rodrigo Moita de Deus] |
O Reality Show
A Política portuguesa está cada vez mais parecida com um "reality show"... diz quem preferiu sair da Quinta das Celebridades antes que os portugueses o expulsassem! [DBH] |
Uma nova definição de terrorista
| Líder político que, perante certas circunstâncias, considera que os fins justificam os meios. *
* In Dicionário de Televisionês (edição conjunta RTP/SIC N) [ENP] |
Sem lamentos
O médico-general Christian Estripeau, responsável pela comunicação do serviço de saúde das Forças Armadas francesas, anunciou que o presidente da Autoridade Palestiniana morreu às 02h30, hora de Lisboa. Yasser Arafat estava hospitalizado no Hospital Percy de Clamart desde 29 de Outubro. Desculpem lá qualquer coisa, mas eu não alinho no coro das lamentações. [PPM] |
Quarta-feira, Novembro 10, 2004
Últimas de Arafat
| Médio Oriente
Órgãos vitais de Arafat estão a falhar - MNE palestiniano 2004-11-10, 19h40 Ramallah, 11 Nov (Lusa) -O ministro dos Negócios Estrangeiros palestiniano afirmou hoje que o cérebro de Yasser Arafat só está a funcionar parcialmente e que os restantes órgãos vitais estão a falhar, à excepção do coração e pulmões. Em declarações à imprensa após um encontro em Ramallah com Mahmud Abbas, que dirige interinamente a Organização de Libertação da Palestina (OLP), Nabil Chaath precisou: "o seu fígado não está a funcionar bem, nem os rins". "Apenas o coração e os pulmões de Arafat estão ainda a funcionar normalmente", acrescentou o ministro depois de ter indicado que o cérebro do líder palestiniano só está a funcionar parcialmente devido a uma hemorragia. Nabil Shaat indicou ainda que se deslocará ao Cairo ao final do dia, onde deverão decorrer as cerimónias fúnebres de Yasser Arafat. Fontes diplomáticas ocidentais contactadas pela agência EFE afirmaram que Nabil Chaat comunicou às embaixadas estrangeiras em Jerusalém que a morte de Arafat será anunciada entre as 23h00 (21h00 em Lisboa) de hoje e as 16h00 (14h00) de quinta-feira. Agência LUSA [PPM] |
Imbecil é pouco
| Peço desculpa ao Luciano, mas o poste do Daniel Oliveira a que se referiu não é imbecil, é infame.
[Pedro Marques de Lopes] |
Verdadeiras Sementes do Ódio
| Daniel, sem mais comentários: estás a transformar-te num imbecil.
[Luciano Amaral] |
A culpa foi dele
| Independentemente do indiscutível mérito literário, permitam-me uma pequena nota histórica sobre a atribuição esta semana a título póstumo do prémio literário Renaudot a Irène Némirovsky. Irène era judia e morreu em Auschwitz depois de ter sido denunciada e deportada pelos seus compatriotas franceses. O problema do anti-semitismo em França foi tão grave como no III Reich, mas, ao contrário do que aconteceu na Alemanha, o problema não foi reconhecido nem sequer combatido. Foi simplesmente imputado à “maldade” de um velho Marechal. Um pequeno mas importante pormenor que pode explicar muito.
[Rodrigo Moita de Deus] |
"Nas mãos de Deus"
| É onde está o futuro precário de Yasser Arafat, segundo altos responsáveis palestinianos. Se isto fosse dito por algum comissário europeu, este já teria sido vetado pelo Parlamento da União, acusado de promover a prosmicuidade entre Estado e religião. Mas, de facto, Deus não é para aqui chamado.
[PPM] PS. Reconheço o erro: não acertei ontem na hora da declaração oficial da morte de Arafat. Às cinco da tarde apenas se soube de nova hemorragia cerebral. A verdade é que só falta passar o atestado de óbito e a direcção palestiniana já luta pelos despojos do defunto. A putativa viúva Suha prejudica o negócio mas não o vai conseguir impedir. As primeiras cerimónias fúnebres terão lugar no Cairo e o enterro será em Ramallah. |
Acidentalmente à escuta
| Sobre a situação na Costa do Marfim, aqui ficam algumas opiniões recomendadas e para quase todos os gostos: O AAA no Blasfémias, o JMF no Terras do Nunca, o António Aly Silva do Ditadura do Consenso, o Bruno Cardoso Reis nas Cartas de Londres, o Luís Silva no Office Lounging e o Filipe Alves no Respublica.
[Rodrigo Moita de Deus] |
Enquanto o milionário não morre e eu vou almoçar...
Segundo o barnabaico Daniel, este senhor "não é herói nenhum, mas é a melhor opção para a Palestina." Eu não queria inundar O Acidental de citações jornalísticas mas, como o outro milionário ainda não morreu, vejamos o que escreve a BBC sobre Barghouti: "Barghouti is the leader of Mr Arafat's Fatah movement in the West Bank, and has been closely identified with one of its militant offshoots, the al-Aqsa Martyrs Brigade. Before his arrest in April 2002 he was a major figure in the current intifada, or uprising, spurring on Palestinians in speeches at funerals and demonstrations. He first appeared in court the following August - charged with the killing of 26 Israelis and belonging to a terrorist organisation. Throughout his case, he has denied the legitimacy of the Israeli court, insisting he is not a criminal but an elected politician as a member of the Palestinian Legislative Council. His lawyers have tried to turn his trial into a trial of Israel and its occupation of the Palestinian territories. The al-Aqsa Martyrs Brigade possibly sealed his fate when it issued a statement in 2002 claiming him as their leader. The group has carried out numerous operations against Israeli soldiers and settlers in the West Bank and Gaza, and suicide attacks on civilians inside Israel." Muito bem. Então a melhor opção para a Palestina é o líder dos terroristas das brigadas os mártires de al-Aqsa. Não me parece que seja o melhor para a Palestina, Daniel, pelo menos para os que a querem ver a Paz. [DBH] |
Ainda a morte de um milionário
Continuando a ler o artigo do Washington Times, questiono-me se o eurodeputado do BE, Miguel Portas, irá pedir uma investigação sobre o envio de dinheiro da UE (mais alemão que nosso, mas enfim...) para paraísos fiscais nas Caraíbas: An International Monetary Fund report, "Economic Performance and Reforms under Conflict Conditions," released in September 2003, concluded that $900 million in Palestinian Authority revenues from 69 commercial enterprises had "disappeared" between 1995 and 2000. The report also found that $34 million out of the $74 million 2003 budget for Mr. Arafat's own office was missing after having been transferred to pay unidentified organizations and individuals. The IMF report traced some $1.1 billion diverted by Mr. Arafat to a "special account" at Bank Leumi in Tel Aviv. It is not clear what happened to that money but, according to some Palestinian reports, during the past year Mr. Arafat and his close aides have switched banks and have diversified the portfolio. Shortly before Mr. Arafat was flown from Ramallah for treatment in France, his wife received $60 million in her Paris bank account. According to French press reports, authorities in France are investigating the transfer. Banking sources in Geneva say some accounts, either numbered or in the name of the Palestinian leader's wife, have been moved from Switzerland to Caribbean financial havens. These apparently include about $300 million previously held by Mr. Arafat at the Odier Bank in Geneva. The New York-based American Center for Democracy said in a report in July that Mr. Arafat also personally controlled 60 percent of the security-apparatus budget, which left him with an additional $360 million per year to spend as he chose. The center said that from July 2002 to September 2003, Mr. Arafat transferred $11.4 million to bank accounts controlled by Mrs. Arafat, who is living luxuriously in Paris and is known for her extravagant shopping habits. As of August 2002, the center reported, Mr. Arafat's personal holdings included $500 million that rightfully belonged to the Palestine Liberation Organization. In all, his holdings were estimated to total $1.3 billion at that time. The money "is enough to feed 3 million Palestinians for one year, and also buy 1,000 mobile intensive care units, as well as to fund 10 hospitals for a decade," the center said. At least 60 percent of the Palestinian Authority's budget comes from international aid contributions, of which the European Union is the largest donor. [DBH] |
Uma viúva alegre
Parece que o Senhor Arafat tem uns milhões de dólares na sua conta bancária. Partindo do princípio que o cargo de líder da OLP não era assim tão bem pago, convinha saber de onde vem o dinheiro. Será uma parte da “ajuda humanitária” da União Europeia? Ou será conveniente perguntar quanto custou sentar Arafat à mesma mesa que Rabin? Talvez a história um dia possa fazer justiça explicando que a causa palestiniana afinal poderia ser quantificada, para além de ter custado um Nobel. O Diogo Belford Henriques lançou aqui uma interessante farpa, entre outras. Acrescento eu: estará a viúva de Arafat a discutir com os líderes palestinianos a partilha do poder ou a partilha dos dólares? Mas o presente também serve para lembrar que em 1989 quando Ferdinand Marcos (na fotografia) morreu, os bancos foram obrigados a devolver às Filipinas parte da fortuna que o presidente acumulou. Esperemos que o critério continue a ser válido [Rodrigo Moita de Deus] PS: Curiosidade estatística. Marcos está no segundo lugar da lista de Chefes de Estado mais corruptos de sempre da autoria da Organização Internacional para a Transparência, com três biliões de dólares roubados. À sua frente está o antigo presidente indonésio, Suharto. Arafat entra no top ten. Mas em que lugar? |
A morte de um milionário
Li muito divertido o poste da Joana que termina assim: "Estava a escrever isto e a ver na TV o Miguel Portas dizer que o facto de contas bancárias, onde se descobriu estarem depositadas muitas centenas de milhões de euros, estarem no nome de Arafat, não significava que o dinheiro era dele. O azar do Isaltino foi não ter enfiado um turbante, deixado crescer a barba, passar a chamar-se Al-Satino. Então Portas passaria também a ter fundadas dúvidas. Pelos vistos a morte atrasada de Arafat, ao contrário do que alguns querem fazer crer, não se deve à procura de local para o enterrar. Deve-se antes à procura dos milhões que ele leva para o túmulo: "LONDON — Palestinian officials who gathered around Yasser Arafat in recent weeks have been anxious to extract from their ailing leader the secret codes and locations of bank accounts they believe contain more than $1 billion diverted from official Palestinian funds. "A huge scramble has been going on to get the codes he holds in his head for various bank accounts he holds in secret," says a senior Palestinian banker. "It's an uphill struggle, and we may never get the bulk of it," says the official, who declined to be identified out of fear for his safety." (Paul Martin THE WASHINGTON TIMES) - O quê? Perigo para a sua segurança? Mas não são só os israelistas que fazem mal aos palestinianos?... continuando... - "It's been his key to holding on to power and influence, and some of it may go to the grave with him. If the numbers die with him, then the Swiss bankers and other bankers worldwide will be rubbing their hands in glee," the Palestinian banker says. Pois. [DBH] |
Terça-feira, Novembro 09, 2004
Quem é que pressiona a imprensa?
| Escreve hoje o jornalista JOSÉ ANTÓNIO CEREJO do Público:
"É a esse expoente de manipulação, a esse enjeitamento de responsabilidades, e a essa tentativa de pressão desavergonhada sobre o exercício livre do jornalismo" Estará a referir-se ao Governo? À PT? Aos assessores? Não. Continua assim:" tão a gosto de certos dirigentes do PS, que aqui entendo dever responder." E continua a resposta ao porta-voz de Sócrates: "Insurge-se o deputado contra a afirmação de que foi ele quem "viabilizou" e deu "luz verde" à construção de um hotel sobre as dunas, propriedade, entre outros, de um filho de Almeida Santos. Tudo se passou, segundo a sua cândida versão, antes de ele entrar para a equipa do então ministro do Ambiente, José Sócrates, e sem que lhe fosse possível fazer outra coisa senão tentar - em vão, como era de esperar - encontrar uma nova localização para o empreendimento. Nada mais falso, como se mostra nas notícias publicadas nesta página e comprovadas por documentos oficiais. Pedro Silva Pereira podia e devia ter inviabilizado a construção daquilo a que ele próprio chama uma obra "gravosa para o ambiente e a paisagem". Mas, dando como boa - sem qualquer parecer ou informação interna ou externa a apoiá-lo -, a muito discutível tese de que depois da sentença que mandou emitir o alvará o empreendimento ficou "juridicamente consolidado", Silva Pereira limitou-se a assobiar para o lado. Melhor: às avessas do que ele próprio e José Sócrates entenderam, na mesma altura, com o célebre caso do Meco, que lhes serviu de frutuosa bandeira, deu de barato a existência de direitos adquiridos à empresa de Almeida Santos (filho) e atirou todas as responsabilidades do licenciamento para cima da CCRA. A verdade, porém, é que a CCRA, ao longo de mais de uma década, manteve sempre, neste caso, uma posição coerente e corajosa em defesa dos valores do ambiente e do ordenamento do território. E em resposta à sua sugestão de "embargo" da obra, Silva Pereira considerou a iniciativa "absolutamente extemporânea" e qualificou a situação do empreendimento como "juridicamente consolidada". Que outra coisa isto é senão "a entrega do ouro ao bandido"? Que outra coisa isto é senão a "viabilização" efectiva e a "luz verde" definitiva do empreendimento? Que outra coisa isto é senão "um exercício repugnante" de desordenamento do território da autoria de Pedro Silva Pereira? P.S. Não tinha nada que ouvir Silva Pereira porque transcrevi o essencial da lamentável posição por ele assumida em todo o processo" Está aqui. [DBH] |
Ordem no blogue
| Não quero meter-me nessa discussão dos preservativos em África, antes pelo contrário, mas não posso deixar de concordar parcialmente com o Rodrigo - apesar de ele se afirmar como antipatizante do CDS - e lembrar ao Pedro que a Igreja Católica obedece a uma doutrina - certa ou errada, isso já daria uma longa discussão teológica. Parece-me óbvio, porém, que essa doutrina da Igreja não pode variar consoante a latitude geográfica, sob o risco de não ser levada a sério. Que eu saiba, a ordem divina que vem escrita nos livros de quem professa a religião católica não foi "ide e põe um preservativo", mas "ide e procriai". Ainda assim, reconheço que deveria existir alguma cautela com as possíveis interpretações da mensagem que se transmite, até porque a ordem divina também não foi "ide e apanhai a SIDA". Desculpem a piada de mau-gosto, mas este não é um blogue anti-concepcional e, por outro lado, ainda não temos o alto patrocínio da Control.
[PPM] |
Preservativos
| Antes de entrar no comentário ao poste do Rodrigo e como acredito que nos devemos identificar antes de abordarmos certos temas quero desde já esclarecer: não sou cristão e muito menos católico. Dito isto, passemos à matéria de facto.
Em primeiro lugar, não é verdade que a Igreja não recomende o uso do preservativo... a Igreja apela à sua não utilização. Aliás, o Papa, em mais uma das suas “cruzadas”, fez um discurso no Cairo, por volta de 1994, num encontro ecuménico sobre demografia em que proferiu um pungente apelo às populações africanas para que não utilizassem esse instrumento diabólico que é o preservativo. Em segundo lugar, defender que apelar à não utilização do preservativo em África é igual e tem o mesmo efeito do que na Europa, é ridículo. A doutrina, qualquer que ela seja, não pode ser cega à influência que possuiu junto das pessoas - e não me parece (graças a Deus) que a Igreja tenha a mesma influência junto das populações na Europa ou em África. Estamos a falar de pessoas que vivem no mais desesperante estado de pobreza, cujo único acesso à cultura vem na maior parte das vezes do missionário que vive próximo. A Igreja não inventou, concerteza, o vírus da SIDA, mas não tem feito nada para o combater. Pior, tem sido um bom aliado. E terá sempre aliados nos cidadãos que “recomendam” relações monogâmicas exclusivas e santidade no matrimónio (não sei a que propósito vem isto quando falamos do tema do preservativo, mas enfim). Claro que podemos sempre fingir que vivemos noutro mundo. “A única organização que tem sido capaz de ajudar o continente africano sem pedir nada em troca, é a Igreja...” eu até posso ajudar, e enfatizar : “ É uma organização que só tem ajudado todos os continentes sem pedir nada em troca...” Nada como um pouco de humor. Haja Deus... [Pedro Marques Lopes] |
Crónica de uma morte realmente anunciada (III)
| Médio Oriente
Arafat em estado muito grave, Israel diz que morreu 2004-11-09, 14h21 Paris, 09 Nov (Lusa)- O presidente da Autoridade Palestiniana, Yasser Arafat, encontra-se em "estado grave e difícil", declarou hoje o ministro dos Negócios Estrangeiros palestiniano, Nabil Chaath, enquanto a rádio israelita citando fontes palestinianas anunciava a morte do líder da OLP. Segundo a rádio israelita, a fonte da Autoridade Nacional Palestiniana que avançou a morte de Arafat, disse ainda que o funeral será em Ramallah e que o exército israelita não se oporá à sua realização. Entretanto, um responsável palestiniano, citado pela agência AP e falando sob anonimato, esclareceu que Arafat ainda não morreu, mas só lhe restam algumas horas de vida. No final de uma visita de quatro dirigentes palestinianos -o primeiro-ministro Ahmad Qorei, o "número dois" da Organização de Libertação da Palestina (OLP) Mahmud Abbas, o presidente do Conselho Legislativo Palestiniano, Rawhi Fattuh, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Nabil Chaath -e em resposta às perguntas dos jornalistas sobre se Arafat estava perto da morte, Chaath comentou: "Só Deus sabe a resposta a essa pergunta". "A sua situação é muito difícil e crítica", disse aos jornalistas, sem acrescentar qual era o diagnóstico ou se a delegação palestiniana tinha visto Arafat. Também Abbas afirmou hoje ter visto Arafat no hospital e que a sua situação é "muito grave". "Falámos com todos os médicos", assegurou. Fonte: Agência Lusa Palestinians senior sources in Paris report Yasser Arafat is dead. Palestinian leader is said to have expired minutes after Palestinian PM Qureia visited him at Percy hospital in Paris. Fonte: Agência Reuters PS: Depois não digam que não avisámos (para ser lido com música de fundo da Twilight Zone). [PPM] |
Uma imbecilidade explicada
| Caro Sérgio Bastos,
Folgo em saber que considera o Hugo Chávez um ditador, mas a sua opinião sobre o assunto (por muito respeitável que seja) não chega para refutar o que aqui escrevi. O caso é um pouco mais grave do que deu a entender. Três cidadãos portugueses foram detidos em condições que violam os direitos humanos. “Suficientemente relevante” para noutras circunstâncias cair o “Carmo e a Trindade”. Quanto a Hugo Chávez e a iconografia de esquerda, quero sinceramente acreditar que tem razão, por isso lanço daqui um desafio: quem considerar o presidente da Venezuela um ditador ponha as duas mãos ao ar. [Rodrigo Moita de Deus] PS: Para efeitos de memória futura deixo registado que, para além de não ter qualquer fotografia do Pinochet, não sou do PP... nem sequer simpatizante. |
Subitamente no Canal Parlamento
| O canal da Assembleia da República (AR.TV) pode e deve prestar serviço público. É o caso: estava muito bem aqui a trabalhar com a televisão em ruído de fundo e, de repente, comecei a assistir a um belíssimo programa sobre a História do Parlamento português, com locução de Fernando Alves e várias intervenções do historiador Rui Ramos. Não vi a ficha técnica nem quem o produziu e realizou, mas faço questão de dar os parabéns a quem imaginou e concretizou este projecto, exigindo desde já a sua repetição. De preferência com anúncio prévio.
[PPM] |
África, Igreja e SIDA (reloaded)
| Leio as réplicas ao meu poste sobre a propagação do vírus da SIDA em África e na ânsia de procurar explicações para tanta intolerância descubro um extraordinário ponto em comum. Pergunto-lhes directamente: porque razão a Igreja se opõe ao uso do preservativo?
Talvez quando conhecerem (não é preciso aceitar) a mensagem doutrinária da Igreja entendam que seria impossível, e mesmo estapafúrdio, que sacerdotes e missionários recomendassem o uso do preservativo. Que entendam também que apelar à “sexualidade responsável” é um pouco diferente que “proibir o uso do preservativo”. Mas, ciente que tão cedo, não conseguirei convencer estes meus antagonistas a procurar resposta para pergunta tão simples, deixo aqui argumentos para todos os gostos: · O argumento tolerante. Qual é a solução? Expulsar todos os católicos de África? · O argumento inverso. Alguém acredita que se todos os sacerdotes e missionários católicos saíssem de África amanhã, a doença ficaria controlada? · O argumento geográfico. Relaciona-se a propagação do vírus da sida ao papel da Igreja em África, mas não se aplica essa lógica à Europa. Porquê? · O argumento absurdo. A Igreja é uma organização de homicidas com comportamentos psicóticos. · O argumento da responsabilização. Os missionários jesuítas deviam ser julgados do Tribunal Penal Internacional por genocídio. · O argumento da responsabilidade. Não cabe à Igreja promover políticas continentais de saúde. ·O argumento ridículo. O acto da comunhão é um incentivo ao alcoolismo. Lembrar o trabalho da Igreja em África é mais do que tentar justificar as suas acções. É uma maneira simpática de tentar explicar que os sacerdotes e missionários não estão lá para “combater o preservativo”, estão lá para prestar auxílio espiritual e humanitário. É esse o seu trabalho. É também uma maneira simpática de explicar que a Igreja hoje dedica grande parte dos seus recursos (que são muitos) no campo da saúde ao auxílio aos doentes de SIDA em todo o mundo…especialmente em África. Deixo para o fim o melhor dos argumentos, mesmo que repetido: se a humanidade em geral, e os africanos em particular, fossem a turba influenciável pela palavra da Igreja que tão bem retratam, estaríamos todos a caminho da santidade. [Rodrigo Moita de Deus] |
Crónica de uma morte realmente anunciada (II)
Os médicos do hospital em que Yasser Arafat está internado já anunciaram a entrada em coma profundo do líder palestiniano. Segundo a previsão do Acidental (ver aqui) o anúncio formal da morte do antigo terrorista e recente prémio Nobel da Paz segue dentro de algumas horas. Não somos bruxos, mas temos boas fontes. A pergunta que colocamos aos nossos leitores é a mesma do jornal israelita Haaretz: "Depois de Arafat, um novo Médio Oriente?" Aguardamos as respostas. [PPM] |
Ainda sobre o Mar
| Ainda sobre a absurda manchete do "Expresso", vale a pena ler "Portugal Rouba Mar à França" de Teresa de Sousa no "Público".
[PPM] |
Espaço do Leitor (Rodrigo sob fogo)
| Caro Rodrigo Moita de Deus:
Discordo profundamente do seu ponto de vista em relação à questão da Igreja e da SIDA. A argumentação vai já de seguida. Cumprimentos, Hugo (http://fordmustang.blogspot.com) Para o Rodrigo Deus: O seu artigo é uma imbecilidade pegada que desonra o vosso blogue. Por essa ordem de ideias cada vez que um português é expatriado dos EUA os blogues de esquerda deveriam berrar. Rodrigo, uma coisa é queremos que os outros se comportem como nós julgamos outra é a realidade senão ainda ficas um "cabral" (anacleto de direita). Mais: para uma série de pessoas de esquerda, entre as quais eu me incluo, o Chávez é um ditador de meia-tigela (ainda que eleito). É o mesmo que dizer: como és do PP e de direita, tens uma fotografia do Pinochet no teu quarto. Topas? Sérgio Bastos |
Segunda-feira, Novembro 08, 2004
SIDA, África e a Igreja
| Há qualquer coisa de maldoso nesta insistente mania de relacionar a Igreja com a propagação do vírus da SIDA em África. Para princípio de conversa talvez seja bom lembrar que a Igreja não tem o direito, nem a autoridade de proibir seja o que for, seja a quem for. A Igreja tem uma doutrina que transmite aos seus crentes, que são livres de a respeitar ou simplesmente ignorar. Este ponto é importante, porque alguns, no seu fervor anti-clerical, são incapazes de distinguir ordens de recomendações, influência de autoritarismo e doutrina de legislação.
Sim. É verdade que a Igreja em África não recomenda o uso do preservativo. Aliás, o que a Igreja diz em África é exactamente o mesmo que diz na Europa, na América ou em qualquer outro local do mundo. A doutrina não está sujeita a nuances geográficas. Que raio de doutrina religiosa seria esta se a Igreja defendesse no Congo algo que não era aplicável em França ou em Itália? Relacionar a Igreja com a propagação do vírus da SIDA cai ainda noutro vício de raciocínio. Os anti-clericais não sabem, mas o zelo que a Igreja aplica para recomendar que o preservativo não seja utilizado é exactamente o mesmo – ou menor – com que defende as relações monogâmicas exclusivas e a santidade do matrimónio. Se os africanos fossem os pobres ingénuos influenciados pelas forças maldosas do Vaticano, que alguma esquerda gosta de retratar, o problema da SIDA em África dificilmente teria estas proporções. Uma última nota para a memória selectiva. Os milhares de sacerdotes, missionários, freiras e voluntários que andam em África a “lutar contra o preservativo” são os mesmos que constroem casas, que constroem escolas, que ensinam as crianças a ler, que desenvolvem esforços humanitários e que arbitram conflitos. O seu trabalho diário também prova que mais do que as Nações Unidas e os próprios Estados, a única organização que tem sido capaz de ajudar o continente africano sem pedir nada em troca, é a Igreja. Mas isso já não interessa, pois não? [Rodrigo Moita de Deus] Nota do Autor: Ao contrário do que possa parecer não sou remunerado por qualquer fundo secreto do núncio apostólico. Não pertenço a qualquer organização da Igreja. Não sou fundamentalista católico nem sequer praticante frequente do culto. E sabe Deus que a minha alma está tão condenada que posso escrever mil textos a elogiar e a defender o Papa que mesmo assim tenho encontro marcado com Marylin Monroe, Maquiavel e Maria Antonieta. Mas há qualquer coisa nestas maldades e desonestidades intelectuais que me causam alergia. |
Variante ao desenvolvimento
| Aqui há uns tempos o presidente da Câmara Municipal de Borba, inaugurou com pompa e circunstância uma variante à cidade. Mas aquela não é uma variante qualquer. É uma obra-prima do asfalto, digna das mais importantes circulares do mundo, com ligação directa entre a auto-estrada e o parque industrial. “Isto sim é desenvolvimento”, dirá o edil.
Menos satisfeitos ficaram os comerciantes e os hoteleiros da zona. Os famosos antiquários ameaçam fechar e os deliciosos restaurantes estão vazios. Porquê? Porque desde que foi inaugurada a variante que o trânsito deixou de passar no centro de Borba. Com tão imponente estrutura rodoviária, com tantas ligações directas, as pessoas simplesmente deixaram de parar em Borba. Que importa o comércio quando Borba – com a sua variante – pode agora competir com Praga ou com Dublin para atrair vultuosos investimentos industriais? Borba é só um bom exemplo para o nosso interior. Milhões de euros em variantes, rotundas, palácios de justiça, estátuas aos bombeiros, parques industriais e cidades cada vez mais desertas. [Rodrigo Moita de Deus] |
Momento religioso da semana
| O anticlericalismo tem tanto de fundamentação, tanto de dogma, tanto de sentimento, que quase se arrisca a ser uma espécie de culto.
[Rodrigo Moita de Deus] PS: O que vale ao CAA é que Deus é certamente mais tolerante que os nossos anticlericais. |
O exercício do contraditório
| Haverá matéria em Portugal tão sujeita a contraditório como é o elogio? Qualquer palavra simpática, qualquer louvor está sempre sujeita a uma ou mais ressalvas. Se alguém diz que fulano “é muito inteligente” logo alguém explica que “é mas dorme com cicrano”, “é mas faz lavagem de dinheiro”, “é mas roubou aos pais quando era pequeno”. Ou qualquer outra coisa que até pode nem interessar para o facto em discussão. Não fosse a expressão “mas” uma das mais utilizadas no vocabulário do português. Como se o sucesso e o talento precisassem de explicação lógica para ir abonar outros em vez de nos abençoar a nós.
Estes são hábitos quase milenares ainda mais típicos quando falamos dos nossos iguais. Pianista não gosta de pianistas reconhecidos. Engenheiro não gosta de engenheiros famosos. Trolha não gosta de trolhas bem sucedidos. É como se a nossa própria afirmação dependesse disso. É como se a nossa ausência de mérito nos levasse a concluir que o mérito não é mais que a utopia. Neste país de invejosos, inveja-se o engenho mais que a prosperidade, a arte mais mais do que a riqueza, o reconhecimento mais do que qualquer bem material. É como quem diz que o talento é de todos o bem mais invejado. Vem tudo isto a propósito de Marcelo Rebelo de Sousa. É que em todo aquele caso sórdido só houve uma verdade que ninguém quis dizer: É bom lembrar que Marcelo tinha mais influência, mais poder, mais minutos de antena que todos os outros comentadores porque é de todos o mais talentoso. No fim, suspeito que tudo se resumia a isso. [Rodrigo Moita de Deus] |
São mais as ondas que os marinheiros
| Não me quero substituir ao Paulo Gorjão, mas tenho sentido a falta do seu famoso detector de spin, nomeadamente em relação a duas notícias que tanto excitaram o burgo nos últimos dias. Curiosamente, ambas foram referidas no "Expresso" de sábado passado e dizem muito sobre a linha editorial, as influências externas e o pensamento político do inefável José António Saraiva.
A primeira - e talvez a mais absurda - vem nos "baixos" dos chamados "Altos&Baixos", rezando que "em círculos socialistas e da diplomacia norte-americana dava-se quase como certo que, com a eventual eleição de John Kerry, [António Guterres] iria ocupar o cargo de secretário-geral da ONU". É fácil de compreender que "círculos socialistas" andassem a vender tal peixe. Agora que esta hipótese tivesse sido discutida na "diplomacia norte-americana" só o vi mesmo escrito na imprensa portuguesa - o que não deixa de ser sintomático. Aliás, este é um daqueles casos explícitos em que alguém é colocado a descer para sair como estando em alta. Acreditar que Guterres poderia ser secretário-geral da ONU se Kerry ganhasse é colocá-lo como um dos grandes derrotados das eleições norte-americanas, o que não deixa obviamente de ser uma promoção internacional para o antigo primeiro-ministro português, provando a quem duvidasse que a "en |




