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sexta-feira, outubro 29, 2004

Boa Tarde, América


A vidinha não me tem deixado escrever muito em blogs (bastante gente, com toda a certeza, agradecerá). Provavelmente não regressarei ao teclado antes de sabermos o resultado das eleições americanas. Espero que tudo corra bem, desde logo no sentido formal, isto é, que não estejamos três dias agarrados aos televisores à espera de saber a última decisão judicial sobre a contagem dos votos. E espero que corra bem também no sentido de o ticket Bush-Cheney ganhar. A corrida continua empatada. Está aqui um site com todas (mas todas) as sondagens que vão sendo feitas dia-a-dia (subdivididas por estados e tudo) – hoje, por exemplo, a média das sondagens nacionais dá uma margem de 2,3% de vitória para Bush (ontem eram 2,0%). Esta diferença é estatisticamente irrelevante e, portanto, persiste o empate. Para quem era o facínora, o assassino, o novo Hitler, o maior horror que tinha caído sobre a terra desde as sete pragas, Bush parece um homem muito frágil, dependente da decisão aleatória de uns quantos indivíduos para continuar a aterrorizar o mundo.
Se ganhar, Bush tem muita coisa para rever no segundo mandato. Mas, dos dois candidatos, é o único que tem algumas intuições certas: da natureza do que são uma sociedade e uma economia liberais (não do liberalismo que toda a gente reclama para si mesmo hoje em dia e que permite, por exemplo, desqualificar Buttiglione para o cargo de comissário europeu) e da natureza do desafio civilizacional que foi colocado às sociedades ocidentais pelo terrorismo islâmico. Para se compreender ambas as coisas talvez seja necessária uma consciência trágica, no sentido grego do termo, coisa que visivelmente falta aos desdramatizadores que tanto abundam por aí. Para eles, nada é propriamente muito grave (a não ser Bush). Anda-se para aqui a exagerar tudo isto só para nos enchermos de medo. John Kerry faz parte dessa categoria de pessoas e representa, desde 1971, a rendição da América perante todos os inimigos externos – o comunismo no Sudeste asiático e na América Latina (vide a sua amizade com os Sandinistas nicaraguenses) e o Iraque (votou contra a I Guerra do Golfo). E representa a europeização da economia e da política americanas no que essa europeização tem de pior. A economia europeia cuja decadência só não vê quem não quer ver e a política europeia que acaba agora de nos oferecer uma constituição que ninguém pediu ou votou. Não será Bush um candidato fantástico, mas representa melhor a tradição política em que me revejo do que o seu adversário.
É por isso que daqui envio ao texano tóxico uma expressão inglesa de que gosto muito: God Speed, W.
[Luciano Amaral]

“To boldly go where no man has gone before”

William Shatner, o Capitão Kirk de Star Trek, gravou em 1968 um disco declamatório que rapidamente ganhou fama de extraordinária foleirada. O disco transformou-se numa peça de culto. Passaram trinta e seis anos e o capitão reincide, com Has Been:


A produção foi deixada a cargo de Ben Folds, um dos mais interessantes músicos pop americanos de hoje. Deixo aqui apenas uma amostra do que se pode esperar, com uma versão punk-o-declamatória de Common People dos Pulp. Muito divertido. Agradeço ao Pedro ter-me revelado a coisa.
[Luciano Amaral]

Quando a esquerda é reaccionária

Vamos recomeçar. Acreditar que a homossexualidade é um pecado é, acima de tudo, uma concepção religiosa. Partilhada, aliás, pela esmagadora maioria das religiões e honestamente não acredito que seja incompatível com o exercício do cargo de comissário europeu, ou de qualquer outro cargo cívico.

Por essa lógica, George Bush (protestante) nunca teria sido presidente de uma das mais antigas democracias do mundo. John Kerry (católico) não seria candidato, Boutros Guali (muçulmano) seria vetado como secretário-geral das Nações Unidas e por cá António Guterres nem para o Partido Socialista servia. Pergunto-me que raio de critério é esse que afastaria a Madre Teresa de Calcutá ou o Dalai Lama do lugar de comissário? Utilizando uma expressão bem apropriada ao tema, pergunto-me se o parlamento europeu não estará a ser mais “papista que o Papa”?

Mas podemos ir mais longe. Rocco Buttiglione disse que as mulheres deviam ficar em casa? Que serviam para procriar e educar os filhos? Rocco Buttiglione disse que a homossexualidade era crime e que a sua prática devia ser ilegalizada? Quando? Onde? Nunca!

Partiu-se do princípio que sim. Porque Rocco Buttiglione era religioso e conselheiro do Papa. Porque Buttiglione escreveu e pensou a aplicação dos valores católicos na sociedade moderna. Este “partir do princípio” é preconceito. Mas o preconceito revela também ignorância. Poucos dos que falam agora conhecem a obra de Rocco Buttiglione e menos ainda aceitam discuti-la sem recorrer a lugares comuns.

Por isso mesmo digo que o caso Buttiglione é bem mais grave que a “vitória do politicamente correcto”. Com o seu gesto, os eurodeputados impuseram limites de participação para a democracia-cristã na construção europeia. Com o seu gesto os eurodeputados provaram que o fanatismo anticlerical é tão ridículo e perigoso como o fundamentalismo religioso.

Uma análise justa do caso passa obrigatoriamente pelo tema do debate ideológico, das causas e das doutrinas. A construção europeia foi durante muito tempo um sonho, uma bandeira e um exclusivo da esquerda. É aliás isso que se lê no preâmbulo da sua constituição Mas felizmente já não o é.

A direita passou por um enorme salto doutrinário a todos os níveis. Soube assimilar princípios e integrá-los. E por isso mesmo Pacheco Pereira queixa-se que nos encontramos todos ao centro. A esquerda mais pura, curiosamente, é quem tem mais dificuldades em lidar com isso. E por isso mesmo lhe pedi para dar uma olhadela ao seu discurso sobre o assunto. Já não consegue discutir valores, tem medo da doutrina e sente-se mal preparada para as discussões de um novo milénio. A esquerda mais pura está ultrapassada doutrinariamente. E como todos quantos se sentem ultrapassados, a esquerda mais pura tornou-se na guardiã do templo sagrado. Conservadora, moralista e até reaccionária.

É isso que estamos a discutir Carlos. Nada mais.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: Por lapso, publiquei inicialmente este texto sem assinatura. Aos leitores e ao PPM as minhas desculpas.

Bom dia, América



[PPM]

Espaço do Leitor

"Caro Paulo

Penso que não se pode deixar passar em claro um excerto do editorial de hoje [NR: ontem] do José Manuel Fernandes quando se refere ao eurodeputado alemão dos Verdes, Daniel Cohn-Bendit (aquele que veste uma termotebe bem visível por baixo do blazer e que há um mês que não penteia o cabelo.... e que deve ter estado com o bombista verde Joschka Fischer em devaneios anárquicos nos loucos anos 70...):
«Um dos heróis da discussão parlamentar foi o mesmo que, na década de 70, quando trabalhava num infantário, descreveu assim algumas das suas experiências: "Às vezes acontecia que algumas crianças abriam a minha braguilha e começavam a acariciar-me(...) Se insistiam, também as acariciava(...) As meninas de cinco anos tinham aprendido como excitar-me. É incrível."
Quando estas declarações antigas foram desenterrada pelos media falou-se de "caça às bruxas", pois o seu autor é, "apenas", o intocável Daniel Cohn-Bendit. Se, por acaso, fosse indicado para comissário do mesmo pelouro que Buttiglione, alguém imagina que se levantaria idêntica tempestade entre os deputados?»

Palavras para quê...

Abraço"


Bernardo Pires de Lima

"Caro Paulo,

A sua defesa do grupo do Paes do Amaral já me começa a comover. De certeza que não tem nada a ver com a sua ligação a esta coligação. Estou a perceber: o bom do Paes do Amaral estava no local do crime, tinha a arma do crime e o Prof. Marcelo obrigou-o a disparar a arma. Esse mentiroso... tudo para lixar o PSL.
Para quando o seu internamento? Publica um conjunto de insultos ao Prof. sem o mínimo fundamento. Porque não dizer que molesta a crida e apalpou o jardineiro???
E o contraditório????????????
A falta de visão política (deste governo) não é um exclusivo da direita, mas em democracia devemos saber reconhecer quando os nossos erram.
Uum leitor jovem e um pouco cansado da falta de honestidade intelectual que grassa por cá,"


Sérgio Bastos

quinta-feira, outubro 28, 2004

Festa na Rua

A Rua da Judiaria fez ontem 1 ano de vida e lamentavelmente deixámos passar a gloriosa efeméride sem uma palavra mais do que merecida de muitos parabéns ao Nuno Guerreiro por ter conseguido construir um dos melhores e mais bonitos blogues da praça. Apesar de atrasados, daqui enviamos todos um grande abraço.

[O Acidental]

Ainda as juventudes partidárias

Apesar da dureza das palavras que assinei sobre as juventudes partidárias confesso que o tom das reacções foi para mim uma enorme surpresa. Recebi várias mensagens e telefonemas mas gostaria de destacar este blogue onde o assunto se discutiu com autoridade e extraordinária franqueza.
A Beatriz recorre ao argumento da formação cívica e chama a atenção para a qualidade dos quadros. O Alcoutim responde-lhe com a possibilidade dos jovens integrarem outras organizações provavelmente mais úteis para os próprios e para a sociedade. Compreendo a Beatriz e aceito o argumento. É claro que existe gente boa, e é claro que no meio das centenas de organismos das juventudes partidárias há quem faça bom trabalho. Mas a questão que coloquei ia um pouco além disso. Limitei-me a aplicar um simples princípio de custo/benefício e a constatar que o resultado que se obtinha era francamente negativo.
Que a Beatriz me perdoe a maldade, mas não consigo resistir a pegar numa frase que diz muito sobre esta nossa conversa: “podemos ambicionar fazer política ‘à séria’”. Querida Beatriz, esse raciocínio é um vício, é o erro que tornou as jotas em organizações burocratizadas mas vazias de conteúdo. Os jovens podem e devem fazer política “à séria”. O único problema é que, nesse prisma, a existência de juventudes partidárias são um obstáculo. Porquê? Porque, por defeito, se tornam redutoras. Repito a pergunta original: serão as Jotas necessárias?
Peço que repare agora no exemplo do Bloco de Esquerda que, sem recurso a este tipo de mecanismos, consegue o pleno envolvimento dos jovens – talvez mais pleno e producente que noutros partidos – através da sua integração na estrutura principal da organização.
De resto, só posso desejar os maiores sucessos para o vosso trabalho. Julgo saber que a consciência política, ou melhor, cívica, é mais do que nunca necessária. Penso que o grande inimigo da nossa sociedade já não é esquerda mais ou menos radical, nem sequer o fundamentalismo. O grande inimigo da nossa sociedade é a indiferença. Talvez por isso tenha escrito aquele poste.

Um abraço,

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: Caro Carlos, folgo em saber que a sua memória não é curta. Claro que andei pelas juventudes partidárias, Poderia eu ter escrito um texto assim sem ter tido essa experiência? Claro que andei nas guerras, nas conspirações e digo sem modéstia que na escola dos maus vícios dificilmente terá havido melhor aluno. Curiosamente, desses tempos onde se aplicavam as velhas regras do pancrácio, a melhor coisa que ficou foram os adversários. Explico, anos mais tarde, quando os reencontrei fora da política consegui transformar os meus inimigos de ontem nos amigos de hoje. Estranho, não? Por isso mesmo lhe digo que a regra da excepção é a mais pervertida de todas. Desejo-lhe o maior dos sucessos para o seu projecto e noutra oportunidade terei todo o gosto em complementar a sua memória com as crónicas das minhas aventuras e desventuras no terceiro andar.

Espaço do Leitor III (A sopa)

Exmo Sr. Dr. Paulo Pinto Mascarenhas:

Em primeiro lugar gostava de lhe dizer que já não passo sem a companhia do seu blogue. Sou um velho, cansado, com tempo para a leitura e agora descobri as maravilhas da Internet. Tenho, por tudo isto, tido oportunidade para ler e observar o que se tem passado nas últimas semanas a propósito do “caso” levantado à volta do Sr. Prof. Marcelo Rebello de Souza.
Deixe-me dizer-lhe que conheço o senhor Professor há muitos anos. Conheço-o como as palmas da minha mão. Conheço as suas matreirices. Como estará recordado, o S.E. o Sr. Ministro de Estado, Dr. Paulo Portas, também o conhece muito bem. Quem não se lembra – eu, que estou acabado, ainda me lembro – de um determinado jantar em Belém que nunca existiu? As pessoas já esqueceram que o Sr. Prof. Até inventou o menu? A “vichysoise” que nunca foi feita… Esse é que é o verdadeiro Prof. Marcelo, o da mentira, da garotice, do insulto, da desconsideração pessoal e humana. O mesmo que diz ser muito amigo do seu amigo e que nas suas costas o insulta, como faz a algumas pessoas que eu conheço e que toda a vida o seguiram com carinho e dedicação.
Eu, que já foi vítima da sua perfídia, embora reconheça a sua inteligência, não tenho dúvidas nem receio o engano se disser que esse senhor MENTE, como mentiu toda a sua vida.

Desculpe por este desabafo, mas há limites para a indignidade.

Com o meu respeito,

António Leonardo - Cascais

NR: Reconheço que esta carta parece de origem duvidosa, mas não poderia deixar de publicar um email enviado por este tão simpático "velho, cansado" e, ainda assim, leitor do Acidental. Escreva sempre. [PPM]

Liberais, mas pouco

Eles são liberais, mesmo muito liberais, mas depois nem sequer aceitam opiniões diferentes do mainstream mediático em que se incluem. Se as temos - as tais opiniões diferentes - só pode ser porque existe uma razão qualquer mal escondida, uma teoria da conspiração por desvendar, ou, mais simplesmente, resolve-se tudo de uma penada com o insulto da praxe.
Se querem saber, eu até acho que é muito mais fácil e tem muito mais glamour estar no papel deles, ao lado do ilustre Pacheco Pereira e do camarada Francisco Louçã, escrever na espuma da onda politicamente correcta, todos os dias a bater no governo, a defender as presumíveis vítimas da censura e da opressão tentacular do Estado.
Mas, ainda assim, aceito as opiniões deles, leio-as e não as considero um frete ao José Sócrates ou ao Manuel Monteiro, nem que as estão a escrever apenas porque pertencem a uma qualquer organização partidária, às "Novas Fronteiras" ou ao "perguntemaomanel.com". Nem sequer penso que estão à espera de uma recompensa prometida. São opiniões e ponto final, posso não concordar com elas, quase nunca concordo com elas, mas são tão respeitáveis como outras quaisquer.
Sim, é verdade, neste caso estou a falar do Bruno Cardoso Reis do Cartas de Londres e do CAA do Blasfémias. Tanto moralismo apregoado, tanto liberalismo esquecido.

[PPM]

Olhar para o dedo que aponta

Nota negativa para o post do CAA, no Blasfémias, sobre Rocco Buttiglione. Primeiro porque, ao contrário do que é normal, o Carlos deixou-se ofuscar pelo “barulho das luzes” e recorreu aos lugares comuns do costume para analisar a situação, não resistindo a descrever o putativo comissário como um troglodita do tempo em que Roma era ameaçada pelos bárbaros. Segundo porque avança com uma possível cabala urdida pelas forças negras da Igreja certamente para armadilhar a construção europeia. Terceiro, e de todos o mais importante, porque objectivamente não entendeu o que estava aqui em causa. Para que não blasfeme sobre o assunto em vão, permito-me recomendar este texto do Eduardo, este texto do Daniel, este do Tchernignobyl e até este que tive a oportunidade de deixar aqui no Acidental.

[Rodrigo Moita de Deus]

Espaço do leitor II (Conversas em família)

Devemos entender a tragédia do Professor Marcelo Rebelo de Sousa. Ele aprendeu em casa e com o padrinho Marcello Caetano que, para se ser primeiro-ministro em Portugal, bastava ser muito inteligente e ter o doutoramento em Direito. Fez o percurso universitário, como estava previsto, e toda a gente lhe elogiou a inteligência desde a mais tenra idade. É óbvio que acreditou que o seu destino passaria irremediavelmente por S. Bento.
Os planos começaram a mudar com o 25 de Abril. Com o tempo e com alguns desaires políticos começou a perceber que em democracia não chega ser inteligente e Professor de Direito. É preciso mais, mas ele não sabe bem o quê. O mundo em que ele cresceu, em que sempre acreditou, desabou completamente no dia em que viu Santana Lopes tomar posse como PM. E pensou para os seus botões: “Como é possível que um cábula, um rapaz que gostava mais de gozar os prazeres da vida, que até foi meu aluno na Universidade, tivesse lá chegado e eu não”.
Marcelo entendia e entendia-se bem com o mundo do Estado Novo, quando os melhores professores de Direito iam parar a S. Bento, mas não compreende o mundo da democracia. Quem sempre acreditou que um dia seria PM, acabou afinal como um comentador de política de Domingo à noite, falando para o mesmo público que lê a “Nova Gente” e vê a “Quinta das Vaidades”. É trágico e, a partir de agora, já se tornou patético.

Cícero

"Conversas com Estaline"

Este é o título do livro de memórias do antigo dissidente comunista jugoslavo, Milovan Djilas. Numa passagem, conta uma conversa em que um colaborador de Estaline, a propósito da tomada do poder na Polónia, avisava o ditador soviético da oposição do Vaticano. “Quantas divisões militares tem o Papa?” - perguntou ironicamente Estaline. A verdade é que a URSS já acabou, mas o Papa continua a ser uma realidade insofismável. Lembrei-me disto a propósito das críticas do politicamente correcto ao candidato a comissário Buttiglione. Não defendo, obviamente, a adesão do Vaticano à União Europeia (longe de mim tal ideia), mas também julgo não ser necessário construir a “Europa” contra os fiéis da Igreja Católica.
Por vezes, ficamos com a ideia que muita gente mostra mais compreensão com o radicalismo de Bin Laden e seus aliados do que com a ortodoxia católica. Além disso, tratou-se de uma posição muito pouco inteligente. Qualquer pessoa que defende um sistema democrático liberal sabe que a pior coisa que se pode fazer é misturar política com religião. Esta fogueira começa a crescer na Europa a um ritmo preocupante. Os deputados socialistas e liberais acabaram de deitar mais lenha para a fogueira. E o sonho europeu ainda se transforma num pesadelo.

[PPM]

Espaço do Leitor (Quinze Dicas)



Com os cumprimentos e os parabéns pelo indispensável Acidental.

Júlio Sequeira

NR: O Acidental agradece o envio do livro, já o leu e recomenda (para mais informações clique na fotografia). [PPM]

Bom dia, América



[PPM]

quarta-feira, outubro 27, 2004

Direito ao contraditório




Caro Paulo,
O nome é Deus e não Carrasco. Há já algum tempo que tinha escrito aqui, no Acidental, que no fim de todo este caso seria sempre a palavra de Marcelo contra a palavra de Paes do Amaral. Se por um lado as insinuações de que o Professor montou todo este esquema sádico para se tornar candidato à presidência da república são um insulto à racionalidade, por outro não faltam motivações a Paes do Amaral para despedir José Eduardo Moniz e Marcelo Rebelo de Sousa. E a verdade é que a Media Capital sempre foi objectivamente prejudicada por todos os governos. É razoável pensar que Paes do Amaral estivesse cansado de ser penalizado, para já não dizer que Paes do Amaral precisava de ajuda. Não sou magistrado, advogado ou carrasco. Deste posto acidental vejo apenas que estes assuntos – da promiscuidade entre o Estado e a economia privada - não pode ser tratado como uma brincadeira. Este sórdido romance merece um final. Merece perguntas, respostas e responsáveis. Depois disso, a guilhotina. Seja para quem for. Não achas?

[Rodrigo Moita de Deus]

Guilhotinas à parte

Rodrigo: a diferença entre os países civilizados e os países que ainda sobrevivem na Idade Média, é precisamente que nos primeiros já não se usa a guilhotina, a não ser para aparar charutos...
Bem sei que era uma força de expressão, mas a imagem não me pareceu a mais ajustada.

[PPM]

PS: E a quem queres tu por a cabeça no cepo: ao Moniz, ao Paes do Amaral, a algum ministro caído em desgraça, ou ao próprio Marcelo?

E agora?

Depois das declarações de Marcelo, em qualquer país civilizado, já se estariam a ouvir o som das guilhotinas.

[Rodrigo Moita de Deus]

Antes a Turquia



Em Toulon, um Padre foi proibido de usar o fato com a gola em cabeção, pois era uma ostentação de simbologia religiosa; na Suécia um Pastor protestante foi considerado culpado de descriminação por ter declarado ser contra o casamento "gay"; em Baden Wuerttemberg, um tribunal regional decidiu que o véu utilizado por freiras é similar ao usado por mulheres muçulmanas e impediu ambas de os terem vestidos enquanto dão aulas.

Em Bruxelas a Comissão recuou perante os "lobbies".

Cada vez que ouço falar da identidade europeia me parece que Istambul está mais próxima de Constantinopla do que Bruxelas está de Reims.

[Diogo Belford Henriques]

Espaço do Leitor

Luciano Amaral - Democracia na América

Concordo com a análise que faz do modelo federal americano. Já quanto ao europeu, penso que está equivocado. No sistema europeu, embora haja alguma sobrerepresentação dos estados mais pequenos, os restantes mecanismos decisórios estão desenhados por forma a que, não obstante, os estados pequenos sejam totalmente irrelevantes. Actualmente os estados pequenos todos juntos não conseguem bloquear uma decisão, enquanto que a Alemanha, a França e qualquer outro estado, o conseguem. Esse é, aliás, um dos problemas da entrada da Turquia: esta passaria a ter um enorme peso na UE porque tudo está organizado, para favorecer os estados mais populosos. A Constituição não vai alterar significativamente a situação, se é que não a vai piorar.

Ana Cristina Vasconcelos

O auto de fé

O que aconteceu com Rocco Buttiglione nestes últimos dias devia fazer-nos pensar se estamos ou não preparados para a construção do projecto europeu. Alguém acredita que o candidato a comissário europeu era o selvagem, retrógrado e fundamentalista que foi retratado por alguns? De que crime foi acusado? "I may think that homosexuality is a sin, and this has no effect on politics, unless I say that homosexuality is a crime”, eis a frase proferida como resposta a um eurodeputado sobre a questão.
Não existindo dúvidas sobre uma eventual incompatibilidade jurídica, política ou mesmo ideológica do candidato a comissário no exercício do cargo, sobra a problemática religiosa. Afinal é ou não a homossexualidade um pecado? A discussão é, em última instância, teológica. A discussão é, em última instância, irrelevante para o Parlamento Europeu que se diz laico. A discussão é, em última instância, ridícula para todos os deputados que se dizem ateus. Portanto…
Buttiglione foi condenado pela frase, mas há muito que se fazia o seu auto de fé. Foi vetado pelas suas crenças religiosas. A Europa da tolerância, da liberdade e da transigência considerou que um católico seria incompatível com exercício do cargo de comissário. Fará esta decisão jurisprudência?
E o que dirão os críticos de hoje quando a Turquia entrar na União Europeia? Serão tão fundamentalistas nas suas opiniões quando o candidato a comissário turco explicar que beber álcool e comer porco são pecados mortais? Estão eles, os críticos de hoje, preparados para aceitar uma Europa das diferenças?
É preocupante para a Europa, e para todos nós, a dificuldade com que aceitamos alguém com valores e princípios que vão para além do político. Mas é mais preocupante o fanatismo militante com que o assunto foi tratado.
Que ninguém se iluda. O dualismo ideológico continua bem vivo. Depois da questão do preâmbulo da constituição ficou bem registado que a esquerda da tolerância não tolera a crença religiosa. Não tolera uma direita para além do liberalismo. Não tolera sequer a discussão doutrinária das matérias, porque a sua doutrina é tida como dogma fundador do projecto europeu. No fundo, a esquerda olha para a Europa como um filho pródigo nascido do eterno combate entre as forças do bem e as forças do mal. O resultado desta posição é uma construção europeia pobre em diversidade e pobre em valores. A União Europeia é cada vez mais um projecto económico e cada vez menos um projecto social.
Buttiglione foi infeliz nas suas declarações? Foi, acima de tudo, ingénuo. Acreditou que na Europa da tolerância existia direito à diferença. Não sabia é que também existe uma diferença nos direitos.

[Rodrigo Moita de Deus]

"Nos omnes miseri et peccatores non sumus digni nominare te"



Não sou digno. Não vou poder sequer ambicionar servir numa instituição comunitária. Eu não sirvo. Não me vale a pena trabalhar, estudar ou construir um currículo para poder, no futuro, concorrer à UE. Não, o meu pensamento, as minhas convições são perigosas para a Europa. Eu não faço falta, faço mal.

O que acredito, a minha Fé que dá sentido à minha Razão, é anti-europeia, sou anti-social como outros antes foram anti-revolucionários ou anti-arianos. Os artigos 9, 10 e 14 da Convenção Europeia não se referem afinal a mim e o Tratado, a que chamam de Constituição, que será assinado depois de amanhã também não.

Sou católico...

[Diogo Belford Henriques]

O professor está lélé da cuca

E o país mediático também está, ao ir atrás do espectáculo circence que foi a audição do Prof. Marcelo perante a Alta Autoridade para a Comunicação Social. Quando se fica a saber que o comentador em causa própria chegou a pensar em ir à TVI fazer "o espectáculo" no domingo seguinte ao dia em que terá sido pressionado por Paes do Amaral, é fácil perceber que o homem já nem lá vai com a habitual sopa fria - vulgo vichysoise. Precisa mesmo é de um duche gelado, ou talvez de voltar a banhar-se nas águas do Guincho. Agora, parece-me evidente que aquilo só serve e só pode ser aceite por quem quer atacar o Governo. Ninguém realmente acredita naquela conversa - incluindo os ilustres senhores da AACS, que se riam com ar cúmplice sempre que da reconhecida língua viperina escorria mais uma daquelas malandrices em que o Prof. Marcelo se especializou.

[PPM]

Procura-se comissário europeu

Grande empreendimento internacional procura alto quadro administrativo para o exercício tolerante de cargo em importante instituição democrática.
Requisitos: Ateu, esquerdista militante e anti-clerical. Dá-se preferência a candidatos com gosto por práticas homossexuais.
Serão liminarmente excluídas todas as restantes candidaturas.

[Rodrigo Moita de Deus]

O festim dos media

Subitamente, as questões mais importantes neste país deixaram de ser o estado da nossa administração pública (a qual, sem ser radicalmente reformada, faz que qualquer medida importante pareça a prescrição de uma aspirina a quem sofre da doença do legionário), ou da Saúde, ou da Educação - ou todos os enormes problemas que o nosso país enfrenta. As “verdadeiras questões” parecem ser se a Clara Ferreira Alves vai ou não para o "Diário de Notícias" ou se o Vasco Pulido Valente vai para o "Público" ou se o José Manuel Fernandes diz que há ou não censura ou se o Paes do Amaral diz que Cavaco e Silva o pressionou ou o que Marcelo Rebelo de Sousa vai dizer. Ninguém pretende ignorar o papel dos media na sociedade actual e a importância da sua actuação, ninguém é suficientemente inocente para ignorar que este Governo foi o mais atacado desde o 25 de Abril, mesmo antes de ter entrado em funções. Mas... que exista uma imenso festim dos jornalistas e comentadores que subitamente se acham (e se calhar são...) o centro do mundo... é lá com eles.
O que me preocupa é a estranha sensação de que o Governo vê demasiada Televisão e lê demasiados jornais.

[Pedro Marques Lopes]

Confesso: eu votava na Julia

Eu prefiro a Julia Roberts à Britney Spears, apesar da primeira apoiar o Kerry e da segunda votar no Bush. Eu prefiro, de longe, a Scarlett Johannson à Brooke Shields, apesar da primeira estar pelo Kerry e da segunda ser adepta do Bush. Eu prefiro o Jack Nicholson ao Mel Gibson, apesar do primeiro ser eleitor do Kerry e o segundo escolher o Bush. Mas será que isto tem alguma coisa a ver com o que realmente está em jogo nas eleições presidenciais dos Estados Unidos?

[PPM]

Acabar com as juventudes partidárias não era um mau princípio

Para que servem as juventudes partidárias? Alguém é capaz de explicar?
Dizem-me que estas organizações são importantes para a reflexão e para o desenvolvimento de uma consciência política dos jovens, mas não vejo reflexão que não possa ser feita numa tertúlia de café, nem desenvolvimento de uma consciência política que não surja da vontade individual, nem sequer acção cívica que não possa ser feita em milhares de outras organizações como as academias, os escuteiros ou a Abraço. Acresce que existe algo de imoral em tentar doutrinar e politizar meninos de liceu. E, no entanto, o ridículo chega-nos pelo “elixir da juventude”. Regra geral, os estatutos das várias jotas prolongam miraculosamente o estado de mocidade até aos 30 anos. Trinta anos? Tenho amigos que aos trinta são casados, têm filhos, um crédito à habitação, certificados de aforro, um emprego há mais de seis anos, que votam há mais de doze anos. Alguns apresentam mesmo sinais de avançada calvície. Para os devidos efeitos é complicado imaginar a sua afinidade com assuntos “juvenis” quando, por exemplo, a sua relação com o ensino é como professores e não como alunos. Para que serve uma super-estrutura política desta dimensão? Para dominar outras super-estruturas políticas como são as associações de estudantes? Que benefícios para a sociedade e que benefícios para os próprios jovens? No tempo da outra senhora, a juventude em plena “doutrinação”, sempre se dedicava ao desporto e aos acampamentos. Agora, o único acampamento que existe é em sedes partidárias fumando cigarros enquanto se conspira contra o vizinho porque tem um gabinete maior. A própria lógica é triturada. Um político promissor não é o que melhor pensa o país, mas o que tem duzentos votos na sua concelhia para ganhar a distrital.
Não faço distinções entre esta e aquela. As organizações juvenis dos partidos são quase todas iguais nos métodos, mecanismos e funcionamentos. Talvez a JCP tenha uma vida interna mais calma (por variadíssimas razões, nenhuma delas benigna). Mas os princípios são exactamente os mesmos. Vão-se lendo notícias de cisões, discussões e mesmo desacatos policiais relacionados com o “saudável debate democrático” dos nossos jotinhas. Fechadas sobre si próprias em disputas de poder virtual, as juventudes partidárias tornam-se inevitavelmente numa escola de maus vícios, especializando os alunos no pior que existe na política: o partidarismo.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: Tenho muitos amigos que já passaram por juventudes partidárias ou ainda lá militam. Uns podem concordar com o que escrevi. Outros podem discordar. Mas espero que nenhum deles confunda uma crítica a um sistema com um ataque pessoal.

Eis senão quando, depois de muitos anos, a ovelha vai finalmente à tosquia

Soube pelo Anacleto que os irreverentes, inconformados e insubmissos Socialistas Revolucionários acabaram por resignar-se, conformar-se e submeter-se. O PSR vai diluir-se formalmente na mais eficaz, convincente e burguesa máquina do Bloco de Esquerda. Deve ter sido uma decisão difícil mas a evolução pretendida é o BE tornar-se na grande máquina partidária que o PSR não conseguiu ou não quis ser. A diferença entre BE e PSR é mesmo essa: uns levam-se a sério, os outros não. Obviamente preferia os segundos. Eram mais genuínos.
Da minha parte, espero que a decisão seja reversível. E em nome dessa posição lembro uma velha mensagem que para os próprios devia fazer mais sentido que nunca:



[Rodrigo Moita de Deus]

Da Democracia na América


Rodrigo, tem razão. Já agora, desculpe a interferência, mas até penso que a pergunta do leitor Mário Cunha se dirigia a mim. Gostava apenas de acrescentar ao que disse que o colégio eleitoral é uma das condições essenciais para a existência dos EUA enquanto país. Se não fosse o dito colégio, muito provavelmente os EUA não teriam sido criados – certamente um sonho para muita gente. O colégio eleitoral existe para dar um peso relativo maior aos estados menos populosos por oposição aos mais populosos. O segredo da coisa está no sistema maioritário (ou, na expressão local, first-past-the-post) e no número de delegados ao colégio por cada estado: quem tiver a maioria dos votos num estado elege a totalidade dos delegados ao colégio, enquanto que todos os votos contrários (nem que sejam apenas menos um) são perdidos para o efeito; acrescendo que estados pequenos têm um número de delegados proporcionalmente muito maior do que o seu real peso demográfico. Ora, sem esta engenharia eleitoral, jamais os estados pequenos que estiveram na origem da criação da federação americana teriam aceitado essa mesma criação. Um exemplo: o Wyoming é o mais pequeno dos estados, com cerca de 500.000 habitantes, a Califórnia o maior, com cerca de 34.000.000. Sem o colégio eleitoral, os votantes do Wyoming não se sentiriam representados em nenhuma eleição nacional, já que o seu peso se diluiria no resto dos votos.
É interessante que entre nós se levante esta questão quando, na eventualidade de um dia se criar uma federação europeia, Portugal é dos países que mais teria a beneficiar com um sistema equivalente. E creio até que seria dos países que mais se bateria por ele – junto com o Luxemburgo e os seus 500.000 habitantes ou a Dinamarca, com os seus 5.000.000, ou a Suécia, com os seus 8.000.000, contra a Alemanha e os seus 80.000.000, a França e a Inglaterra, com os seus 60.000.000 cada uma, ou a Itália, com os seus 50.000.000. É ainda interessante notar que a UE tal e qual como existe hoje também só é aceitável para os países pequenos dado eles terem um peso desproporcionado ao seu real peso demográfico nas instituições comunitárias. Sem isso, Portugal nunca teria sequer aceite entrar para a CEE.
Já agora, uma curiosidade: pergunta-se o leitor Mário Cunha se se pode chamar democrático a um sistema onde com a minoria dos votos ocorre ganharem-se eleições. Pode e não é específico dos EUA nem de estados federais. Também na Grã-Bretanha já ganharam eleições partidos com menos votos que os adversários. Tudo por causa do sistema maioritário: basta que se ganhe em muitas circunscrições eleitorais pequenas, mesmo perdendo nas grandes, para que a coisa aconteça.
[Luciano Amaral]

terça-feira, outubro 26, 2004

Esta é que é a última do dia



Mas os resultados mantém-se claramente a favor de Bush.

[PPM]

Conversas bloguistas

“Será democrático que o candidato com o menor número de votos seja eleito presidente de um país?” - pergunta o Mário Cunha.

Caro Mário,

Talvez não seja a resposta que queria ouvir, mas importa não esquecer que os Estados Unidos não são um estado mas a federação de cinquenta estados. Por isso mesmo as eleições não são directas. O Presidente não é escolhido directamente pelo “povo” mas pela maioria ponderada dos cinquenta estados. A vontade “democrática” é expressa através de uma série de mecanismos cuja única função é garantir o equilíbrio da representatividade entre população e estados. Pode parecer desnecessário ou mesmo injusto, mas profundamente antidemocrático seria os eleitores da Califórnia e de Nova Iorque eleger presidentes sozinhos, sem os votos dos habitantes dos outros estados.

Cumprimentos acidentais,

[Rodrigo Moita de Deus]

Não lhe pises os calos

José António Saraiva disse hoje que o Governo ainda "não ganhou calo democrático". Terá sido por falta de "calo democrático" que Saraiva despediu João Carreira Bom do jornal "Expresso" quando este jornalista criticou Francisco Pinto Balsemão?

[PPM]

Eu não queria mas o Rodrigo merece



A propósito da entrada em cena de Bill Clinton.

[PPM]

Acidentais por Kerry



[Rodrigo Moita de Deus]

Espaço do leitor (Eleições nos EUA)

Democracia?
Sem tempo para muito, permita-me apenas que, a propósito do seu poste em que, ironicamente, se refere àqueles que questionam a democracia nos EUA, lhe ponha uma questão:
Será democrático que o candidato com o menor número de votos seja eleito presidente de um país?
Escusa de me responder com a explicação concisa do sistema eleitoral americano.
Diga-me apenas onde está o famoso "one man, one vote" (salvaguardado o sexismo da afirmação, claro).
Cumprimentos,

Mário Cunha

Bom dia, América - sondagens
Além das sondagens, na América temos também os sistemas de apostas. Os resultados costumam ser melhores que os das sondagens e há até abundante literatura sobre os chamados mercados de informação. Um dos centros de apostas mais reputados no que se refere a presidenciais americanas é o organizado pela Universidade de Iowa. Aqui fica o endereço:
www.biz.uiowa.edu/iem
Cordialmente,

Ana Cristina Vasconcelos

Aprender até morrer

Pois é, Luís Rainha, O Acidental também vai aprendendo com os erros e só não muda de opinião quem é burro. Depois de "chupar a largura de banda alheia, sem sequer pedir autorização", na expressão tão característica do estilo habitual de LR; depois de ter visto a luz incandescente em boa hora acesa pelo LR; depois de ter visto tudo isto aplaudido de forma entusiástica pelo barnabé Rui Tavares e pelos restantes camaradas do BdE; lá acabei por aprender a lição. Não percebo por isso a surpresa incontida de LR com os meus visíveis progressos na matéria, a não ser que não tenha gostado muito da partida do Anacleto aos camaradas do Barnabé - e aí terei de concluir que o tal provérbio da pimenta no recto se aplica neste caso a quem primeiro se lembrou de o citar.

[PPM]

Bom-dia, América



Para o André da Grande Loja poder ler mais algumas sondagens, fazer as contas, analisar todos os dados em jogo e reparar que são mais (10 para 4) as que dão a vitória a George W. Bush, sendo que a diferença percentual de Bush sobre John Kerry é sempre superior. Mas, é verdade, ainda faltam alguns dias para as eleições americanas, Bill Clinton acabou de entrar na corrida e a esperança dos pró-Kerry ainda pode ser recompensada.

[PPM]

segunda-feira, outubro 25, 2004

Wise Man


Nos EUA, o documentário é um género cinematográfico com muitas tradições. Este ano, por boas e más razões, o público lisboeta já teve acesso a obras de três dos mais conhecidos documentaristas americanos vivos: Michael Moore e o seu inenarrável Fahrenheit 9/11, que teve grande circulação comercial, e Errol Morris e o seu excelente The Fog of War, que passou apenas no festival Indie Lisboa 2004. Hoje de manhã, noutro festival a merecer atenção (o Doclisboa 2004), foi apresentado (em regime de clandestinidade) o último filme de Frederick Wiseman, Domestic Violence 2. Quem, do documentário americano, apenas conhece as tontices de Moore, deveria obrigatoriamente ter-se dirigido hoje à Culturgest para aprender qualquer coisa. Quem toma Fahrenheit 9/11 pela trampa que é, também lá deveria ter ido confirmar essa justíssima ideia, contemplando um filme a sério. A propósito de Domestic Violence, eis aqui uma entrevista na Salon com Wiseman. E está aqui o resto do programa do Doclisboa.
[Luciano Amaral]

sábado, outubro 23, 2004

Invejar Shakespeare

Há poucos anos a Câmara de Verona decidiu criar um gabinete de voluntários cuja única função é responder a milhares de cartas que chegam de todo o mundo dirigidas à bela Julieta e ao apaixonado Romeu. Que inveja! Que inveja de Shakespeare, por ter captado a pureza do sentimento humano. Que inveja dos voluntários que respondem a estas cartas, por terem a oportunidade de assim participar na mais bela história de amor. Mas, acima de tudo, uma enorme inveja dos milhares em todo o mundo a quem a vida não tirou a capacidade de sonhar.

[Rodrigo Moita de Deus]

Uma acção revolucionária do Anacleto



Segundo relatos revolucionários, o Barnabé utilizou uma fotografia da queda de Fidel que pertencia ao Anacleto. Vai daí, os camaradas anacletos uniram as suas forças anti-reaccionárias numa memorável acção de subversão e conseguiram invadir o blogue de Daniel Oliveira, ainda que apenas durante alguns minutos. O resultado foi o que vêem em cima. Brilhante.

[PPM]

PS. Como também "roubei" esta fotografia ao Anacleto, O Acidental poderá vir a ser sujeito às mais duras e inesperadas retaliações. Estejam à vontade, camaradas.

sexta-feira, outubro 22, 2004

As esquerdas em confronto

Antes deste vosso acidental ir de fim-de-semana e antes que alguma putativa marioneta da liderança do PS me acuse de ser mais uma marioneta do primeiro-ministro, não queria deixar de vos recomendar uma significativa e pouco edificante troca de mimos entre Paulo Gorjão e Daniel Oliveira (começou aqui e, para já, terminou ali). Significativa, porque demonstra à saciedade como será impossível alguma vez o PS de José Sócrates entender-se com o BE de Francisco Louçã, o que não deixa de ser positivo para todos os portugueses.
Pouco edificante, porque prova como algumas coerências de letra não sobrevivem ao contacto com a realidade.

[PPM]

The Stakes Are High: Why Bush Must Win


Entretanto, naquele país que parece que não é uma democracia (na voz autorizada de defensores de sempre de todas as formas de democracia) a corrida vai apertada. As sondagens dão vitórias para um ou outro candidatos no chamado "voto popular", mas quase sempre dentro das margens de erro. Bush surge à frente na maior parte delas, mas parece que as sondagens americanas têm um enviezamento favorável ao Presidente no activo, pelo que a ideia de empate não desaparece. No colégio eleitoral, também com ligeira vantagem para Bush (não signficativa, pelas razões anteriores), persiste o empate.
Aproxima-se um momento político de grande importância e a indecisão manda.
Parece-me de extrema importância que Bush ganhe. Como disse recentemente Paul Johnson, "Bush must win, the stakes are too high". Eis aqui duas razões para partilhar a minha e a sua ideia.
[Luciano Amaral]

A memória de Inês

Excelente artigo de opinião de Inês Dentinho no "Diário de Notícias" de hoje, infelizmente sem link directo*. A prova que atingiu o alvo - demonstrar que os comentadores e os jornalistas que criticam hoje o actual primeiro-ministro, quando cumpriu apenas três meses de mandato, limitam-se a repetir palavra por palavra os ataques dirigidos a Durão Barroso no início da legislatura - é a reacção expedita de Pacheco Pereira (PP), no Abrupto.
Não querendo reconhecer a evidência, PP retoma aqueles métodos especulativos em que se tornou especialista, confirmando que Inês Dentinho é uma antiga jornalista (há algum problema nisso?) e que, como assessora política do primeiro-ministro só poderia ter escrito o que escreveu a pedido do próprio (vê-se logo que não conhece a Inês Dentinho), até porque - pasme-se - um assessor político não deve "em princípio" (PP escreve "em principio", mas aqui já vai com acento) escrever artigos para os jornais (não deve "em princípio" porquê? E em última análise, pode?). Será que o assessor político perde os seus direitos de cidadania, nomeadamente a liberdade de expressão, porque é assessor político? PP devia procurar fazer também um esforço de memória e acrescentar que nunca se lembrou de escrever o mesmo sobre outros assessores políticos de outros governos mais do seu agrado que escreviam de modo regular para os jornais, nomeadamente para a imprensa de fim-de-semana.
Se eu também fosse especulativo e utilizasse os mesmos métodos, diria que o que PP e outros pretendem é calar a voz de quem governa hoje o País, "amordaçar" e "censurar" quem pretende apenas defender-se dos sucessivos ataques de que é objecto. Ataques que, como se pode ler no competente acto de memória que é o artigo de Inês Dentinho, são apressados e prematuros. Mais do mesmo, como se costuma dizer.

[PPM]

* Afinal, o artigo tem um link directo. Está aqui.

Espaço do Leitor (Madelin ao Eliseu já!)

Caro Paulo

Depois do artigo de Alain Madelin no "Público" de hoje é caso para dizer: Madelin ao Eliseu já!

Abraço,

Bernardo Pires de Lima

A democracia dos direitos e a democracia dos privilégios

Hoje de manhã, no Fórum TSF, o jornalista anunciava: “gostaríamos de saber a sua opinião sobre a energia nuclear.”. Podia ter perguntado sobre o preço dos bilhetes dos autocarros, sobre o encerramento do túnel do rossio ou sobre o resultado de ontem do Benfica. Mas não. Pediam-se juízos sobre vantagens e desvantagens da utilização da energia nuclear. A primeira intervenção foi feita por um convidado. Um professor catedrático em física nuclear. Falou sobre dogmas perversos, sobre falta de investimento na ciência, sobre a falta de estudo na matéria em Portugal. O jornalista insistiu “mas qual é a sua opinião?”. Queria saber se professor doutor era a favor ou contra a utilização de energia nuclear em Portugal, mas o professor doutor respondeu simplesmente que não existiam dados suficientes para opinar sobre o assunto.
Esta não existência de dados suficientes para “emitir opinião” não inibiu os seus participantes. O comerciante de Torres Novas, o serralheiro de Alcabideche e a doméstica de Faro, todos foram muito peremptórios nas suas opiniões. Uns muito a favor, uns muito contra. O fórum decorreu discutindo alegremente a problemática da energia nuclear, fundamentando os palpites com certos e inabaláveis conhecimentos de física e microbiologia. Todos tinham algo a dizer. Todos tinham opiniões dogmáticas. Todos tinham crenças de tal forma sustentadas que podiam fazer doutrina. Todos falavam de cátedra em matéria onde as verdadeiras cátedras não podiam falar.
Trinta anos depois de Abril e ainda tão longe de sermos uma sociedade evoluída. Tão longe de aprender que o melhor da liberdade de expressão nem é o direito de falar, mas o privilégio de ouvir o que os outros têm para dizer. Tão longe de aprender que o melhor da democracia nem é o direito de opinar. É o privilégio de aprendermos o que os outros têm para ensinar.

[Rodrigo Moita de Deus]

Deliver

Grande entrevista de António Mexia no canal 1. Mexia insistiu por várias vezes na expressão “entregar”, infelizmente, pouco conhecida no meio político português (vem de deliver – expressão chave no mundo da economia privada que funciona). Mexia está lá (no governo) para “entregar”, para cumprir com valor acrescentado aquilo que se lhe pede: melhorar, do ponto de vista do interesse público, as áreas que o seu Ministério tutela. E, para já, vai no bom caminho: medidas de bom-senso, há muito adiadas, tomadas e explicadas com profundo e interessado conhecimento (respostas detalhadas na ponta da língua sem recurso a um único papel).
Enquanto Santana Lopes der cobertura política a ministros como António Mexia, pouco me importa que durma a sesta, que a desminta, que Marcelo deixe de comentar, ou outros quaisquer aspectos circenses da governação, que existem e não são poucos – é certo -, mas cuja importância é por demasiadas vezes ampliada pela maior e mais mediática coligação negativa com que algum governo já teve que se defrontar.

[ENP]

quinta-feira, outubro 21, 2004

Isto sim, é cultura!

Amigos do acepipe, estetas do pitéu, confrades do sustento, camaradas da fome, condiscípulos do tinto: comensais de todo o mundo uni-vos! Serve a presente posta para advertir que decorre em Santarém a 21ª edição do Festival Nacional de Gastronomia. Bom apetite!

[Rodrigo Moita de Deus]

Um insulto educado

Diz o Pedro Miguel: "Temos um acidente na blogosfera. Os tipos até escrevem bem (gramatical e jornalisticamente falando), mas o conteúdo é bastante palerma."
Vês Paulo? Podia ser pior. Podiam dizer que escrevíamos mal.

[Rodrigo Moita de Deus]

A queda de Fidel




Pena que só caiu ao chão
.

[PPM]

Mártires da causa

Ontem, alguns alunos da Universidade de Coimbra tentaram invadir o Senado. A polícia não os deixou. Os alunos insistiram, tentando romper o cordão de segurança. Os polícias deram umas palmadas. Os alunos tentaram bater nos polícias. Os polícias deram umas valentes palmadas. O caso acabou, obviamente, com alguns meninos hospitalizados. O Rui Tavares escreve hoje sobre o assunto. Como tem senso evitou a expressão “brutalidade policial”. Ficou-se pelo excesso de autoritarismo, pela fraqueza e cobardia das forças da lei. Pergunto-lhe: que excesso de autoritarismo? Que cobardia? Invadir o Senado da Universidade, isso sim, é ilegal, arrogante e também um excesso de autoritarismo. Mas carregar heroicamente contra o corpo de intervenção da PSP não é um acto de extraordinária bravura e coragem. É, no mínimo, uma enorme palermice.

[Rodrigo Moita de Deus]

Na esquina da verdade

Para uma análise mais completa do artigo "Como eles se aturam", hoje na "Visão", aconselho especialmente uma leitura do poste "Coincidência", na Esquina do Rio, de Manuel Falcão. Porque, como quase sempre, nem tudo o que parece, é - e as diversas fontes que por aí pululam são tudo menos inocentes. Já agora aproveito para lembrar uma vez mais que tudo o que escrevo neste blogue é da minha exclusiva responsabilidade. Não escrevo em nome ou por delegação de ninguém, nem ninguém me dá instruções sobre o que devo, ou não, escrever. São as minhas e só as minhas opiniões.

[PPM]

Espaço do leitor (Ainda a cor do Acidental)

Dr. Mascarenhas:

Eu voto branco. Mas não voto em branco.
Abraço do leitor atento
,

Luís Cunha


Caro Paulo,

Verde. Todos os dias, verde. Sempre verde.


Aly Silva

NR: Sim, sim, Aly, mas isso é porque tu és do Sporting. [PPM]

A complexa simplicidade de Pacheco

José Pacheco Pereira continua hoje a interessante série de artigos no "Público" em que defende estar ultrapassada a dicotomia esquerda/direita. Diga-se que o político -ele bem pode assinar agora os seus artigos como historiador, como poderia assinar como comentador, mas a sua visão e a sua linguagem pertencem para todos os efeitos ao domínio da política e prosseguem objectivos políticos concretos - mantém neste, como noutros aspectos, um pensamento e uma acção absolutamente coerentes desde os tempos em que era um dos eminentes gurus do modelo cavaquista.
Pacheco Pereira foi um dos inventores do pragmatismo à portuguesa que assentou precisamente a sua estratégia na recusa da dicotomia esquerda/direita - Cavaco Silva definiu-se como um social-democrata na linha de Bernstein, lembram-se? - procurando e conquistando a maioria absoluta para o PSD através desta mesma linha argumentativa. Pacheco escreve uma vez mais ser simplista reduzir o mundo entre esquerda e direita, mas não apresenta para já uma alternativa consistente que possa suscitar o debate ideológico, essencial em democracia, para além da perspectiva redutora de um "novo centro" que terá emergido em Portugal entre 1985 e 1987 e que "vota pelos resultados e pela percepção do mérito".
Não querendo arrogar-me a comentar o comentador, longe de mim tal ambição, julgo ser fácil ler nas entrelinhas quais são os desígnios não escritos desta série abrupta: no redesenhar da "complexidade dos nossos dias", segundo Pacheco Pereira, partidos como o CDS, o PCP ou o Bloco de Esquerda são dispensáveis e os portugueses deveriam limitar-se a votar "umas vezes no PS outra no PSD".

[PPM]

Espaço do leitor (Eu voto no verde)

Caros acidentais,

Aqui dos antípodas políticos (mas estão nos meus favoritos), voto no verde, sem receios de saudosismo.

Sérgio Bastos

quarta-feira, outubro 20, 2004

Sobre o antisemitismo em França



Relembro uma discussão entre a Rua da Judiaria e o Blogue de Esquerda sobre o crescimento de um novo antisemitismo em França e na Europa. O Nuno Guerreiro tem vindo a alertar para o fenómeno e um relatório hoje tornado público em França vem corroborar a sua opinião. O documento é assinado pelo escritor Jean-Christophe Rufin, actual presidente da associação humanitária "Action contre la faim", e deveria ter sido entregue esta manhã ao ministro do Interior, Dominique de Villepin.
Como diz Rufin, "ao contrário do que alegam as teses normalmente avançadas, os actos antisemitas em França não são exclusivos da extrema-direita ou de árabo-muçulmanos", encontrando-se, entre os seus autores, franceses de origem e filhos da imigração. Fruto envenenado das mais diversas frustrações sociais, viram-se contra os judeus, avançando por vezes para uma identificação com a causa palestiniana ou com as teses neo-nazis. Jean-Christophe Rufin denuncia aquilo a que chama de "antisemitismo por procuração", consequência de um "antisionismo radical", hostil à existência do Estado de Israel. O autor propõe, por isso, a criação de uma lei que possa punir todos aqueles que comparam o Estado de Israel ao apartheid ou ao regime nazi.

[PPM]

Espaço do leitor (Metido em lixívia)

Senhores Acidentais,

Muito gosto de vos ler, nem nos Favoritos estão, é logo na barrinha do "Address", pois vou lá com mais rapidez. Daí sentir-me verdadeiramente incomodada por o meu blog preferido, aquele sítio onde vou espreitar várias vezes por dia, ter mudado de cor, ainda por cima para uma cor tão deslavada. Não digo que fizessem uma consulta, uma sondagem, um referendo, mas podiam ter feito o mais simples: estarem quietinhos. Equipa ganhadora não leva mexida. Se foi por "razões técnicas", estão perdoados. Caso contrário, "regresso ao antigamente, já!"

Cumprimentos,

Rosa Maria Medeiros

NR: Vamos reflectir seriamente depois desta mensagem tão veemente. O Luciano Amaral é que tinha razão e, como diz a Rosa Maria, o melhor seria termos ficado quietinhos. Mas se agora voltamos ao verde ainda nos chamam de saudosistas. Proponho um referendo, aberto aos leitores. [PPM]

Sensação



Sensation

Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue:
Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:
Mais l'amour infini me montera dans l'âme,
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.


Rimbaud

Nasceu a 20/10 de há muito tempo e, para mim, é eterno.

[Pedro Marques Lopes]

Cortar o mal pela raíz

A declarações de Morais Sarmento a propósito da relação de tutela entre o Governo e a RTP parecem-me lógicas e acertadas. Mas é precisamente por isso que a RTP devia ser privatizada.

[FMS]

P.S.: Mais esclarecimentos aqui.

E o cão do José Castelo Branco, não foi censurado?

Não tem limites nem vergonha a histeria generalizada que atingiu as oposições a propósito das supostas pressões sobre a TVI que teriam levado o reconhecido anjo de coro que se chama Marcelo Rebelo de Sousa a abandonar os seus comentários dominicais. Agora, toda a gente descobre uma pressãozita e todo o gato-pingado é vítima da mão malévola do actual Governo ou dos seus representantes. Depois do inacreditável Dias Ferreira, mais conhecido por chamar "bestas" aos seus adversários num programa em directo na RTP, até Manuel Monteiro já saiu a público para denunciar o que chamou de perseguição da Antena 1, a propósito de um debate para o qual não foi convidado pela simples razão de ser irrelevante. O engraçado é que alguns dos pilares da deontologia - e aqui incluo algumas vacas sagradas da blogosfera - vão atrás de todas estas mentiras e repetem-nas na ideia de que assim se tornarão verdades. Gostava imenso, por exemplo, de ver aqueles que denunciaram o caso do inacreditável Dias Ferreira como "um precedente" do actual comportamento do primeiro-ministro, darem a mão à palmatória e reconhecerem que se limitaram a escrever mentiras. Mas claro que isso jamais acontecerá, como também jamais se irão referir às palavras de Mário Crespo, hoje no Fórum TSF, a propósito do processo de saneamento de que foi alvo por um grupo de imaculados e intocáveis directores de informação da RTP nos tempos em que o sr. Arons de Carvalho mandava.
Não, isso não interessa nada. O que interessa é atacar "o Santana". Nem que, para tal, se invente uma censura qualquer ao cão do José Castelo Branco.

[PPM]

É Hoje


[Luciano Amaral]

Young Man, There's a Place You Can Go: C-U-B-A


Fidel e Gagarin o primeiro casal comunista gay? Talvez. O Anacleto tira a história do armário.
[Luciano Amaral]

terça-feira, outubro 19, 2004

A rasteira canhota

O meu amigo Luís estreia-se na blogosfera com esta entrada a pés juntos. Comparar o Vitor Cruz com o Alberto João Jardim revela maldade. Esperar que este acidental faça a apologia do presidente do Governo Regional da Madeira revela excesso de confiança. Apesar do seu inexplicável desvio de esquerda e do seu anticlericalismo militante temos muitos pontos de vista em comum. Por exemplo? Bem… eu também gosto de Pink Floyd.

[Rodrigo Moita de Deus]

PS: Seja bem-vindo e boas postas.

A perfeição de Ana

Acabo de descobrir que a perfeição existe. A Ana, do Crónicas Matinais, além de ter um blogue fantástico, é adepta ferrenha do actual melhor clube da Europa - e, para mim e para ela, o eterno melhor clube do mundo - o Futebol Clube doPorto.
Até os comemos.

[Pedro Marques Lopes]

Bush mais à frente de Kerry


LATEST SNAPSHOT

GEORGE W. BUSH 52%
JOHN KERRY 44%

RALPH NADER 1%
Oct 14 - 16, 2004
Based on Likely Voters

Esta é a última sondagem da Gallup, que regista uma vitória folgada de George W. Bush sobre John Kerry, de acordo aliás com os resultados de outros estudos das revistas "Time" e "Newsweek". Não podemos garantir que os números desta sondagem não venham a sofrer alterações depois de se ter tornado público o apoio do jornal "A Capital" ao candidato democrata.
[PPM]

O Estado e os grupos

Grande Rodrigo,

Respondendo aos teus apelos privados, vou tentar dar uma ideia do que penso sobre a articulação entre “os grandes grupos económicos” e o Estado. Entende isto como uma pequena e despretensiosa introdução ao tema.
A criação, promoção e protecção de grupos económicos não é uma descoberta dos governos socialistas e sociais-democratas, mas uma política que vem dos tempos do Estado Novo e teve um dos seus piores momentos na famosa Lei do Condicionamento Industrial. Penso aliás que esta questão dos grupos económicos é uma questão política e não económica.
O Estado Português do século XX nunca se deu bem com a existência de uma verdadeira economia de mercado. Oliveira Salazar abominava-a. Decidiu, assim, que devia existir um pequeno conjunto de pessoas (suficientemente pequeno para ele poder controlar) - que deveria dominar a nossa economia (uma espécie de nomenklatura) - e, claro está, um peso enorme do Estado na Economia. Penso, aliás, que o ditador de Santa Comba foi o grande inventor do “comunismo económico” sem Marx e Engels.
Os resultados desse “modelo económico” foram os que todos conhecemos. A transição para a Democracia, em termos económicos, não trouxe quase nada de novo. Começou-se com as nacionalizações e continuou-se com as privatizações, qual delas a mais vergonhosa. O Estado continua a não saber, ou a não querer saber, o que significa gerir a Economia de acordo com uma política liberal. E a resposta é simples: é exactamente o oposto do que o Estado hoje faz.
Gerir a Economia significa fazer tudo para que o mercado funcione: controlar os monopólios de facto através de entidades reguladoras, obstar a outras situações de monopólio e oligopólio (começando no próprio Estado), impedir situações de abuso de posição dominante, tornar os serviços públicos entidades que ajudam o tecido económico e não que o tentam bloquear e, last but not the least, existirem regras claras de relacionamento entre o Estado e os operadores económicos. No momento em que o Estado apoia a criação de “grupos” subverte completamente o seu papel na Economia.
A um Estado centralizador e visceralmente anti-liberal, como sempre foi o nosso, é fundamental a existência de “grupos económicos” pela razão já referida: controlar a Economia. Ao nosso Estado não chega o modo como interfere na Economia através das dilações dos organismos públicos e das infindáveis burocracias, não chega ter um enorme número de empresas públicas, municipais, regionais, etc. etc. Precisa também de ter os operadores económicos próximos e supostamente ou pretensamente disciplinados.
Ora desta proximidade com os “grupos” surge a promiscuidade e aí chegamos à situação em que, penso, estamos hoje (e onde há uma clara distinção em relação ao Estado-Novo): já não sabemos, exactamente, quem controla o quê, se são os “grupos” que controlam o Estado se é o Estado que controla os “grupos”. No fundo, o Estado seguiu a estratégia de Salazar mas esqueceu-se que não tinha os “meios disciplinadores” e que o mundo tinha mudado.
Existe uma grande diferença entre um antigo patrão de um Banco e um Presidente da Comissão Executiva. O patrão mandava mesmo, o Presidente mandará ou não..
Por outro lado, os “grupos” descobriram mais uma forma de controlar quem os controlava: contratando ex-governantes. Não existe ex-governante (e estamos a falar de ministros a directores) que não tenha um emprego (ou uma espécie de emprego) nestes “grupos”. Esses ex-governantes serão, num breve espaço de tempo, governantes outra vez - e aí sairão dessa meia dúzia de empresas e regressarão ao Estado...
A promiscuidade é completa, particularmente porque são sempre os mesmos “grupos”.
Perguntar-se-á: não têm essas pessoas o direito de ir trabalhar para quem lhes oferece boas contrapartidas? E se essas pessoas são competentes, não servem bem o Estado e os particulares? Haverá forma de evitar a óbvia e inultrapassável questão que será a de um ministro ter de despachar contra uma pessoa que foi seu patrão há quinze dias ou será daqui a 3 anos? Se fosse de outra forma não seria ainda pior, pois não existiriam pessoas dispostas a trabalhar para o Estado (apesar de sabermos que o movimento normal é do Estado para a actividade privada... o que no mínimo é estranho)?
As respostas são difíceis e presumem um conjunto de situações que têm de estar resolvidas à partida. Existe, porém, uma condição sine qua non: temos de garantir independência económica futura a quem vai decidir hoje e isso exige ao Estado o pagamento de uma factura maior a quem o serve. Isso impedirá este vaivém entre o Estado e os “grupos”? Claro que não, mas é minha convicção que ajudava muito.
Pergunta inocente: será certa ou errada a política de incentivo à criação de grupos empresariais, por parte do Estado? A minha convicção é que o erro está na pergunta não na possível resposta. O Estado não tem nada que apoiar ou não apoiar os “grupos”. O Estado tem, sim, de criar condições para que as empresas se possam desenvolver. E essas condições são as que todos conhecemos: desburocratizar, acelerar e clarificar processos, abandonar a actividade empresarial de forma radical, fazer os tribunais funcionar e as regras serem claras e visíveis. Sei que grandes estruturas geram grandes ineficiências e sei também que as maiores e melhores economias do mundo se baseiam em pequenas e médias empresas (vide Estados Unidos).

To be continued

[Pedro Marques Lopes]

Basta substituir Espanha por Portugal...

Grande Javier Marias (é pena seres de esquerda e do Real Madrid).

LA ZONA FANTASMA.
17 de octubre de 2004.

Eran nosotros
Si hay un contraste fuerte al pasear por Inglaterra y por España es el respeto con que en aquel país se trata a los muertos dignos de ser recordados, y en concreto a los que cayeron en los campos de batalla. En la ciudad de York, donde he pasado unas semanas, justo al lado de la catedral, en el lugar más noble y visitado, se erige un monumento a los caídos en una guerra bastante olvidada y por la cual no se siente mucho orgullo: la Guerra de los Boers, en Sudáfrica y en el Transvaal. Lo coronan ocho o diez estatuas de diferentes clases de soldados y también de una enfermera. Bajo ellas, una serie de paneles con los nombres de todas las bajas. Y al pie una placa reza: "Recordad a aquellos leales y valerosos soldados y marinos deeste Condado de York que cayeron luchando por el honor de su país en Sudáfrica, entre 1899 y 1902, y cuyos nombres están inscritos en esta cruz, erigida por sus paisanos de Yorkshire, A.D. 1905". Todo el Reino Unido está lleno de recordatorios como este; y hasta fuera de él también los hay: uno de los cementerios más conmovedores que he visitado es el llamado Inglés o Británico, trágicamente enorme, cerca de la ciudad italiana de Vasto, donde yacen enterrados y honrados cuantos ingleses, escoceses, galeses y hasta canadienses murieron junto al desconocido y vecino río Moro, durante la Segunda Guerra Mundial. Esta última sí fue una guerra obligada, y por la que cabe sentir orgullo. Pero eso es lo de menos. Estos recordatorios no honran exactamente al país, ni a sus guerras imperialistas o de supervivencia, ni a su Ejército, sino a los individuos cuyos servicios fueron requeridos o exigidos y que - asistidoso no por la razón quienes les daban las órdenes - lucharon y murieron creyendo defender y ayudar a sus compatriotas. Como ha escrito hace poco mi antiguo compañero de página Arturo Pérez-Reverte, en otro lugar, todos esos hombres y mujeres merecen respeto tan sólo por eso, independientemente de a qué causa sirvieran y a quién tuvieran que obedecer. Pero en España esto no se ve así, y los que menos lo ven son los políticos con poder, temerosos todos de que cualquier conmemoración de combatientes sea tachada de "belicista" o directamente de "fascista", quién sabe. Y, como señalaba asimismo el Capitán Alatriste, la gente se ha vuelto tan analfabetaq ue confunde conmemorar - es decir, algo neutro, que significa sólo recordaren común- con ensalzar, celebrar o glorificar: En Inglaterra los ciudadanos conocen y rememoran su historia, que, como la de cualquier otro país (salvo Suiza), está llena de batallas y guerras, nos guste o no.
Allí hay hasta programas de televisión que explican cómo se libró la batalla de Hastings,en 1066, y no digamos otras más recientes, con predilección, además, por las más clamorosas derrotas y los mayores desastres debidos al engreimiento o incompetencia de los mandos, desde la calamitosa carga de Balaclava en Crimea hasta la escabechina de Isandlwana durante las Guerras Zulúes,pasando por la pérdida de Jartum o la catástrofe de Gallipoli. No se trata, así pues, de una rememoración triunfalista; todo lo contrario, las derrotas sufridas casi son las que fascinan más. En España, en cambio, nadie sabe nada de nada (me refiero al gran público): ni siquiera hemos "contemplado"nunca el Desastre de Annual, ni la carnicería de nuestras tropas en la Guerra de Cuba, ni la ineptitud y la fatuidad de nuestros muchos generales alo largo de la historia; y pretender que alguien tenga la menor idea de cómo se desarrollaron - estratégica y tácticamente al menos- batallas antiguas, como la de Sagrajas o la de las Navas, o aun la de Bailén, en verdad es algo iluso. El anterior Gobierno, el del patriota Aznar, decidió trasladar de Madrid aToledo el Museo del Ejército, que, comparado con el Imperial War Museum deLondres, era una birria; pero como aun así tenía interés, los patrioteros peperos resolvieron quitarlo de la capital, para que visitarlo sea aún más difícil. Y hace poco Eduardo Mendoza se hizo eco del ridículo proyecto de convertir el Castillo de Montjuic en un "Museo de la Paz" - y no de la Guerra, sobre lo que de hecho versaría por fuerza para "no herir sensibilidades" y que las autoridades no sean acusadas de algo así como belicistas. El actual pacifismo español es de verbena cursi, en verdad, cuando se lo lleva a estos extremos. Una cosa es estar contra las guerras, sobre todo las presentes y futuras, y otra negar que hayan existido y que, mal que nos pese, forman parte de nuestra historia; o que en ellas ha habido sacrificio, grandeza. . . y sobre todo muertos, personas como nosotros que tuvieron la mala suerte de ser llamadas a filas y de resultar"prescindibles" para los políticos o reyes de turno. Este es un país tan olvidadizo y superficial que a la postre es sólo desagradecido. Porque todos esos muertos cuyos nombres aquí no conocemos, ni vemos inscritos en ningún lugar, eran gente como ustedes y como yo: eran nosotros.
Javier Marías, El País Semanal
(pode lê-lo também em www.javiermarias.es/blog.html)

[Pedro Marques Lopes]

Leiam os sinais!

O Benfica perdeu no domingo. Na segunda começou um temporal.

[Rodrigo Moita de Deus]

Agora a Sério: Não se pode Mandar Calá-lo?

Ministro Gomes da Silva sugere cabala do Expresso, Público e Marcelo.
[Luciano Amaral]

O Velho Autoritarismo da Direita

É o esperado, anunciado e tenebroso regresso do autoritarismo da direita. No fundo, é mais forte que tu, Paulo: mesmo que quisesses, nunca serias capaz de te integrar plenamente na civilização democrática, essa grande invenção de esquerda. Num acto do mais puro arbítrio, passas isto do belo e sóbrio verdinho de ontem para um branco shocking que nos obriga a ler o blog de óculos escuros. Já sei, a culpa é do Bush. São ordens de Washington. Foi ele que te obrigou a branquear o teu próprio passado.
[Luciano Amaral]

Pintado de fresco

Numa decisão unilateral da gerência, resolvemos pintar O Acidental de branco. Esperamos que seja do vosso agrado - dos convidados e dos leitores acidentais.

[PPM]

Métodos

O fantástico Alexandre Soares Silva escreve: "O melhor método para escolher um candidato é evitar o preferido pela maioria dos escritores do país".
Eu acrescento: "O melhor método para escolher um candidato é evitar o preferido pela maioria dos jornalistas do país".
You know what I mean?

[PPM]

Por email (de um amigo do FC.Porto)

O Baía é realmente o melhor guarda-redes do Mundo.
Até consegue defender golos.

[PPM]

A falta que ela faz

Não sei se a Inês vai ficar zangada por ser eu a dizer isto, mas também vou sentir falta de a ler no My Moleskine. Pelo sim pelo não, vou manter a ligação do Acidental. Quem sabe se ela muda de ideias e volta a morar ali.

[PPM]

A separação de águas

Registo, com especial agrado, a decisão do jornal "A Capital" de assumir uma posição editorial nas eleições dos Estados Unidos. A separação de águas é sempre positiva, ainda que pareça relativamente fácil manifestar-se contra George W. Bush e a favor de John Kerry, uma opção politicamente correcta em Portugal e na Europa. Difícil e polémico seria apoiar a reeleição do actual presidente. Acredito até que se os meios de comunicação social do nosso país fossem todos tão afirmativos como "A Capital" e assumissem as suas preferências nas eleições norte-americanas, Kerry seria esmagadoramente o candidato escolhido, do "Avante" ao "Diabo". Ainda assim, é de louvar a afirmação de princípios do diário lisboeta. Espera-se que o mesmo critério seja utilizado no que diz respeito à política interna portuguesa.
Para que tudo fique muito mais claro.

[PPM]

segunda-feira, outubro 18, 2004

Perdido e achado

Afinal já encontrei o Diogo. Está no sítio do costume.

[PPM]

Dão-se alvíssaras

Alguém viu por aí o Diogo Belford Henriques?

[PPM]

Fraqueza

Não sei o que possa acontecer a um cínico que seja ainda pior do que conhecer os seus alvos de estimação. Trate-se de um cronista de jornal, de um blogger, de um humorista ou de um parlamentar mais espirituoso, nenhum sabe muito bem como reagir perante a gélida evidência de que a personagem sobre cujo carácter, hábitos ou aparência um dia se derramou veneno leva uma vida perigosa e embaraçosamente parecida com a nossa. E então, onde outrora houve franqueza, passará a haver fraqueza. Num país minúsculo como o nosso, a coisa é particularmente má. Não só as classes vergastantes e vergastadas (com políticos à cabeça) são especialmente pequenas, como ambas habitam os mesmos ambientes. Com tempo, os resultados são qualquer coisa como o lambe-botismo do Herman e as galas do Contra-Informação. Repito: o que poderá ser pior do que isto? O que poderá ser pior do que começar a gostar do Avelino Ferreira Torres?

[FMS]

A democracia é ingrata

Vitor Cruz teria sido um excelente Presidente do Governo Regional dos Açores.

[Rodrigo Moita de Deus]

Sempre um passo à frente

Na noite eleitoral de ontem, o Bloco de Esquerda voltou a inovar em matérias de ciência política: fingiu que não foi a votos.

[Rodrigo Moita de Deus]

Nem todos ganham, mas ninguém perde…

Um dos principais fenómenos da política mediática é a ausência de derrotas eleitorais. É ver os líderes na televisão a anunciar vitórias que ninguém se lembraria de reclamar: em número de votos, percentagem, número de eleitores, número de vereadores por freguesia e até mesmo vitória com a derrota dos outros.
Eis um ofício comum a todos os partidos. Nestas eleições regionais, o PCP perdeu a sua representação nos Açores mas anunciou uma grande vitória com a derrota da direita. O PS perdeu pela trigésima sexta vez na ilha da Madeira, mas anunciou uma grande vitória com a maior subida eleitoral de sempre. Nesta coisa da política-espectáculo, quando estamos em directo para a televisão ou anunciamos uma vitória qualquer – mesmo que monumentalmente estúpida – ou então anunciamos a demissão.

[Rodrigo Moita de Deus]

Faltava o K e o R

É verdade, agradeço aos que assinalaram o erro. No poste Coisas de que estou farto (de A a Z), esqueci-me do K e do R. Mas ainda vou a tempo:
Karadas. Não marca golos e tem um tal azar que nem os árbitros marcam as grandes penalidades de que é vítima. Como foi o caso de ontem.
Roubo de golos ao Benfica. O FC. Porto até pode ter melhor equipa, como o provou na primeira parte, mas não devia valer ganhar assim com a ajuda dos árbitros.

[PPM]

Espaço do leitor (Ainda o Uganda)

Caro PPM,
Tomo a liberdade de lhe enviar o link para o relatório de 2003 sobre o Uganda da Amnistia Internacional. Confesso que me irrita um pouco, 4 meses passados do Euro 2004, ainda existirem milhares de bandeiras nacionais pelo país fora. Mas, daí até considerar insultuoso para o Uganda compararmos a nossa democracia com a de um país onde foram assassinadas 17 pessoas nos últimos actos eleitorais... Porque acredito que não é este o modelo de Estado de direito e pluralismo democrático que defende para Portugal, tenho a certeza absoluta que o desconhece: http://web.amnesty.org/report2003/uga-summary-eng

Com os melhores cumprimentos,
Débora Figueiredo

T-Shirts ou Morte


A filha do Comandante foi a grande estrela do Fórum Social Europeu, que este ano se realizou em Londres, largamente subsidiado pelo munícipio do famoso “Red Ken”. Pensávamos nós, ingénuos, que esta era a nova esquerda. Talvez seja, se dermos à palavra novo o sentido de novamente ela voltar aos heróis do antigamente.Seja lá que sentido tenha a palavra, a verdade é que Aleida Guevara não gosta da utilização industrial e capitalista que é dada à imagem do pai. Segundo o DN, ela terá mesmo “denunciado” a sua utilização “abusiva”. É compreensível. Deve custar ver o rosto de um dos maiores heróis do comunismo estampado em tantos objectos de consumo em massa. Afinal, em massa, a única coisa de que o pai gostava mesmo eram assassínios.
[Luciano Amaral]

Money for Nothing

Já quase tudo se deverá ter dito sobre o orçamento de Estado para o ano 2005. Para resumir, que é tendencialmente despesista e muito arriscado – tem de tudo correr bem para ser cumprido. E mais haveria a dizer. Nomeadamente, que (outra vez) não é um orçamento que comece a dar sinais de encarar com um mínimo de coragem o problema da despesa pública a prazo. Convenhamos que seria difícil fazê-lo, mas também estou para ver quando é que vai ser fácil.
Este quadro de mãos mais largas tem permitido aos comentadores da praça explicar-nos que haveria aqui uma ruptura com o governo Barroso, constituindo isso, de resto, mais um exemplo do horroroso governo que teríamos. A conversa é engraçada, mas escolhe mal o culpado. Alguém duvida que o governo Barroso se estava a preparar para fazer exactamente o mesmo? Afinal vinham aí eleições e é duvidoso que o aperto fosse politicamente sustentável nestes dois anos. De resto, os sinais já eram mais que muitos antes da famosa partida para Bruxelas. A verdade é que este governo ainda não teve tempo de mostrar se é horroroso ou não. Muito provavelmente vai sê-lo, mas a culpa nem sequer será exclusivamente sua. O actual governo pouco mais vai poder fazer do que gerir a herança problemática que o anterior lhe deixou (a qual se acumula à deixada pelo trágico segundo governo Guterres). Constituir um governo a meio do mandato, mais ou menos entre a recessão e a tímida “retoma”, com a solução dos mais diversos problemas deixada em suspenso e a sombra da fuga para Bruxelas a pairar sobre todo o episódio, não é tarefa invejável. No domínio orçamental, convém dizê-lo de uma vez por todas, a política de Manuela Ferreira Leite foi um fracasso. Muito claramente, não valia a pena tanto barulho em torno do défice se não era para encontrar mecanismos de controlo sustentado da despesa pública. A “obsessão” com o défice sempre foi a obsessão errada. A boa obsessão teria sido a obsessão com a despesa pública. Mas aí, nada. Usámos mais uns furos do cinto durante dois anos, mas a verdade é que o potencial de crescimento da despesa é o mesmo e a probabilidade de ocorrência de défices no futuro o mesmo é. Se era para chegarmos aonde estamos, não valia a pena ter havido orçamentos tão restritivos: fomos penalizados no nosso bem-estar durante dois anos e estamos na mesma.
Se calhar, não se podia pedir ao actual governo que se comportasse doutra maneira: no fim de contas, não se deve desejar o suicídio de ninguém. Mas se o PSD e o CDS é o que se vê, nem quero pensar no que acontecerá quando a tarefa couber ao PS.
[Luciano Amaral]

sexta-feira, outubro 15, 2004

Coisas de que eu estou farto (de A a Z)

Animais racionais da Quinta das Celebridades.
Bloguiadores, como eu, que não blogam ou blogam pouco.
Cuspidelas de lisboetas para o chão.
Dirigentes de futebol que não deixam os jogadores serem as estrelas.
Estudantes que se manifestam não se sabe bem porquê.
Futebolistas que falam em vez de jogar.
Guarda-redes nacionais que deixam entrar frangos do Liechstentein.
Hotéis de três estrelas.
Idiotas úteis que se julgam inteligentes.
Jovens que gostam de ser jovens.
Lixo deitado para o chão nas ruas de Lisboa.
Mário Soares.
Números negativos no meu saldo contabilístico.
Opiniões baseadas em notícias falsas.
Perguntas que já vêm com a resposta dentro.
Querelas intitucionais fabricadas em laboratórios políticos.
Segredos que se contam a toda a gente.
Trabalho para o fim-de-semana.
Urgências que não atendem o telefone.
Vícios que não se conseguem largar.
Whisky marado.
Xeretas que se metem na nossa vida.
Zelotas da oposição que nos chamam zelotas do regime.

[PPM]

quinta-feira, outubro 14, 2004

Sobre o racismo de Louçã

Chama-me a atenção o leitor João Barros - e eu agradeço - para um excelente poste no blogue "O BAZONGA DA KILUMBA!" Está aqui e critica o racismo subliminar do Bloco de Esquerda. Ou de Francisco Louçã, hoje no Parlamento. Definitivamente, o Bazonga tem de ir para as ligações do Acidental.

[PPM]

A culpa é do microfone

Promessas e políticas há muitas, Rodrigo, mas enfim, tu queres é jantar à minha conta. Lembro-te porém que os debates não são decisivos e mantenho a aposta de que o resultado final será outro, até porque os americanos sondados continuam a confiar mais em Bush para comandante-em-chefe na guerra do Iraque. Já o pormenor dos microfones só pode ser o resultado de uma conspiração anti-Bush. Lembra-me a história de hoje do Louçã no Parlamento a propósito da vaca, da galinha e do ovo. Não ouviste?

[PPM]

History repeated

Quase tão importante como as sondagens é a alteração do discurso e posicionamento de George Bush nos últimos dias de campanha. O Presidente começou a campanha num estilo presidencial, deixando para figuras menores o papel de criticar Kerry. Desde o primeiro debate que isso mudou. Bush arrisca-se a terminar a campanha invertendo totalmente os papéis. Enquanto o senador apresenta propostas, promessas e políticas, Bush faz-lhe oposição perdendo dessa maneira a sua grande vantagem competitiva: o estatuto presidencial. Desde o primeiro debate que Kerry tomou a liderança da campanha. Bush limita-se a reagir com crescente agressividade. Bush pai cometeu o mesmo erro em relação a Bill Clinton. Menosprezou o adversário, perdeu a liderança da campanha e, quando percebeu que podia perder as eleições, optou pelos ataques pessoais. Bush filho vai pelo mesmo caminho.

[Rodrigo Moita de Deus]

Pequenos grandes sinais



Alguém reparou que, nos debates presidenciais, usando púlpitos, o microfone de Kerry era maior que o microfone de Bush? Falha dos Republicanos? Mensagem subliminar?

[Rodrigo Moita de Deus]

O Homem a Dias

Algures para as bandas de Matosinhos, entrincheirado entre a lota e a refinaria, vive um pecador. Valerá a pena, inquire o leitor, badalar aos ventos (que o povo diz serem quatro) a identidade do incréu e respectiva queda? Perscrutadas as razões, compreenderá o leitor que sim. Corria, por curiosa coincidência, o dia 10 do mês 10 do corrente ano. Em casa de pasto de amesendação competente e serviço honesto, lá para as bandas por aonde El-Rei D. Deniz mandou plantar vasto pinhal, aprestava-se o escriba a degustar um recipiente devidamente coberto de tranchas assadas do fiel amigo. A acompanhá-lo (ao bacalhau, que não ao escriba), as inevitáveis batatinhas a murro. Combinação canónica, à qual só se pode fugir (precisamente por ela ser canónica) caindo em pecado. Pois a acompanhá-lo (ao escriba, que não ao bacalhau) encontrava-se o citado matosinhense, o qual logo se apartou da exclusiva combinação, imediatamente tombando em desgraça. Apascentava-se o matosinhense num prato em que o amigo piscícola se fazia acompanhar (valha-nos Deus, Nosso Senhor) de arroz branco - provavelmente carolino, assim chamado devido à sua origem americana. Eu sei, é terrível. É mesmo horroroso. Terá ele salvação? Por improvável que pareça ao amigo leitor, sim. Há muito tempo que o pecador se redimiu por antecipação, ao mandar o vosso dedicado escriba deixar de falar antes de ver esta obra cinematográfica. Bacalhau com arroz é pecado mortal? Em circunstâncias normais seria, mas neste caso passa a venial. Quem aconselha assim, está eternamente perdoado.
[Luciano Amaral]

Uma Mulher a Diaz


É do conhecimento comum que George W. Bush é responsável por virtualmente todos os malefícios do planeta, das salmonelas (com toda a probabilidade) ao túnel do Marquês (é pelo menos a tese do novo filme de Michael Moore), passando pelo bacalhau assado com arroz (certamente). Mas segundo Cameron Diaz ainda não vimos tudo do presidente. Eis as suas palavras ao famoso programa de Oprah Winfrey: “women have so much to lose. I mean, we could lose the right to our bodies… If you think that rape could be legal…”
Cameron, Cameron, Cameron… Parece-me contraproducente como propaganda. Não queria parecer desagradável, mas ver-te dizer essas coisas ao mesmo tempo que se imagina a violação ser legalizada pode dar as mais perversas ideias ao eleitorado americano (pelo menos a mim deu). É que talvez não baste apenas conversa para pôr essa tua bela cabecinha a funcionar.
[Luciano Amaral]

A ler

O regresso do António, da Grande Loja do Queijo Limiano, sobre o "Cravinho, as SCUTs, os Comboios e o coitado do Capataz". Porque há muita fala de memória por aí - e não só sobre pressões governamentais nos orgãos de comunicação social.

[PPM]

quarta-feira, outubro 13, 2004

Donald sem palavras

Porque é que ninguém comenta o artigo do Donald Rumsfeld no "Público" de hoje? Custa muito admitir que o homem tem razão? É assim tão cru na sua honestidade e na sua clareza?

[Pedro Marques Lopes]

O Código da Esquerda

Se há coisa que me irrita nalguma esquerda portuguesa, aliás muito presente na blogosfera, é a presunção do monopólio da moralidade. Se alguém tem opinião diferente das deles, está decidido: é porque não tem carácter. Se se discorda do que escrevem, só pode ser porque não somos decentes. Se apoiamos os que eles atacam, é por "politiquice" ou porque praticamos a "politiquinha". Cuidado: eles pensam que são os guardiões da bíblia do que é politicamente correcto, do que está certo ou do que está errado, mesmo que isso nos possa parecer profundamente anti-democrático.
Importam-se que eu discorde?

[PPM]

Era o caso

Perguntado sobre o destino que vai dar ao dinheiro do prémio Carlos V que foi receber a Espanha, o Presidente da República confessou: "Desta vez vai ser para mim, não vai haver instituições de caridade, os tempos estão maus". Pouco depois acrescentou: "Há momentos em que o Presidente deve estar calado". Era o caso.

[PPM]

Notícias blogosféricas

O Anacleto tem finalmente contraditório. A não perder.

[Rodrigo Moita de Deus]

Só lhes faltava mais esta

Toy dá música no Iraque
Os militares da GNR destacados no Iraque vão, dentro de dias, assistir a um concerto com um artista genuinamente português. Toy, o popular cantor de Setúbal autor de grandes êxitos como Sensual e Olhos de Água, parte no dia 23 para o país onde "reinou" Saddam Hussein para homenagear os soldados que estão a cumprir a sua missão em Nassiriah
Diário de Notícias de hoje

[PPM]

A Literar o Aliterar

Rui Rio ameaça demitir-se da Câmara Municipal do Porto. É pena. Não é por mais nada, mas suspeito que tão cedo não vamos ter um político com um nome tão aliterante como o dele. É como aquelas coisas que se fazem aos miúdos. Experimentem lá dizer depressa: o Rui riu do Rui do rio e riu do rio do Rui e o Rui do rio riu do rio do Rui Rio.
[Luciano Amaral]

Não, não sou o único

Estranho cada vez mais o silêncio do Partido Socialista sobre estas matérias. Nem uma palavra sobre a política de coligações, nem uma palavra sobre a importante ruptura ideológica. O Acidental já abordou o assunto aqui e acolá. Para dar seguimento à matéria vale a pena ler este recado ostensivamente esquecido nos dias agitados que correm: “Se os socialistas começam a ser aqueles que fazem a mesma política um bocadinho mais humanizada que faz a direita, vão-se criar outros partidos, necessariamente, porque as pessoas não aceitam voltar atrás”, Mário Soares dixit. Ainda acham que ao assunto não tem importância?

[Rodrigo Moita de Deus]

A República das Cebolas


O Rui menciona uma bela paródia do The Onion, na qual se diz que Dick Cheney ameaça atacar os EUA caso Kerry ganhe as eleições. Ainda bem que ele avisa que é uma paródia, porque há um certo blogue com tendência para levar o The Onion a sério, e ainda por lá se podia tomar à letra a graça.
Mas em matéria de paródias, também tenho uma boa para contar: é a daquele país onde um determinado comentador político televisivo ameaça censurar-se no caso de ser censurado. É um país engraçado, onde não há liberdade de expressão sobretudo porque as pessoas prescindem de a usar. Mas convém avisar que é tudo uma paródia, ou não fosse alguém acreditar que era a sério.
[Luciano Amaral]

terça-feira, outubro 12, 2004

O partido mordomo

Existem muitas coisas no PSD que escapam inelutavelmente à minha capacidade de compreensão. Uma é barba do Miguel Frasquilho. Outra é o nó de gravata do Carlos Encarnação. Uma outra ainda é a tendência milenar dos seus militantes para a antropofagia. Marcelo come Santana, Santana come Mendes, Mendes come Menezes, Menezes come Cavaco, Cavaco come Santana, Santana come Pacheco, Pacheco come Gomes da Silva, Gomes da Silva come Marcelo, Marcelo come Menezes, Menezes come Rio, Rio come e cala. Tudo muito bem embrulhado numa impecável aparência de debate ideológico e liberdade de expressão mas que esconde uma interminável luta tribal, potenciada por circunstanciais batalhas de poder e por questiúnculas pessoais que remontam aos tempos imemoriais da excitação universitária. É disto que temos estado todos dependentes. Do capricho e do ressentimento. Mas, claro, a culpa é sempre do PP.

[FMS]

O País da Cocanha


O Miguel também já reparou: de repente, a nossa esquerda sempre tão dada a desprezar a realidade deprimente das contas públicas, sempre tão liberal (espero não ter ofendido) no gasto público, sempre tão pronta a satisfazer estas e mais aqueloutras "reivindicações sociais", veste a farda salazarenta do equilíbrio das contas. O que vale é que, prontos, é a brincar. E a verdade (prontos) é que podemos contar com ela. Porque, prontos, quando ela lá chegar, vai continuar a chover dinheiro. Tal e qual como agora.
Eis aqui (na mais estrita graciosidade) a minha sugestão para próximo Ministro das Finanças. Prontos.
[Luciano Amaral]