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terça-feira, agosto 31, 2004

Full Metal Jack-Ass

Bem, Pedro, de facto não estou com muito tempo para te responder. Lanço, por isso, apenas umas breves notas:
1. Gostei muito da tua insistência nos resultados das acções militares americanas. Não vi nem uma palavra relativamente aos campos de concentração vietnamitas, às execuções sumárias e aos massacres dos Vietcongs e do exército norte-vietnamita. A presença militar dos americanos terá custado (não sabemos exactamente, são números apenas sugeridos) umas dezenas de milhares de vidas, a maior parte de soldados no cumprimento do seu serviço. A sua saída custou à volta de dois milhões de vidas, a maior parte de civis inocentes às mãos dos regimes comunistas do Vietname, do Laos e do Cambodja. Valeu a pena a guerra? Talvez. Sobretudo teria valido a pena ganhá-la. Podiam ter-se usado outros métodos? Talvez. Mas também não fomos nós que estivemos lá a tomar as decisões, perante um inimigo verdadeiramente bárbaro (como os seus actos provam) e que não respeitava acordos e tratados diplomáticos, nem sequer tréguas (e.g. a ofensiva de Tet).
2. Nunca te ocorreu que o dominó não ocorreu precisamente por causa da guerra do Vietname. Para sermos precisos, o dominó ocorreu, embora limitado ao Laos e ao Cambodja. Só não se espalhou ao resto da Ásia. Só que tu esqueces-te (como te esqueces agora na guerra do Iraque) de que a guerra é apenas uma parte de um conjunto de acções. No caso do Vietname, a guerra foi acompanhada de diversas outras acções que lhe foram contemporâneas: a criação da ASEAN, o reforço dos regimes políticos anti-comunistas, o impedimento de um golpe comunista na Indonésia. A guerra acabou por ser uma peça crucial dessas acções, ao limitar o confronto militar directo ao Vietname, obrigando a um gasto logístico chinês e soviético concentrado naquela área.
3. Tão preocupado com questões de carácter, não te preocupa que Kerry tenha, numa só acção, mentido ao Senado e traído os seus colegas de armas, ao chamá-los de assassinos sistemáticos. Quanto ao seu heroísmo, parece que já teve que reconhecer que, afinal, alguns dos ferimentos foram auto-infligidos e que nunca esteve no Cambodja em 1968. Isto é, voltou a mentir. Não és tu apreciador da frase “eles mentem, eles perdem”. Pois é capaz de ser isso mesmo que lhe vai acontecer.
[Luciano Amaral]

Sobre as culpas do CDS

“Extrema-direita” é um termo que o Bloco de Esquerda usa e abusa para se referir ao CDS sem que ninguém tenha a consciência do peso da afirmação. O rótulo entrou facilmente no discurso político e, depois do BE, foram os comunistas, depois dos comunistas os socialistas. Em pouco mais de dois anos passou a ser corrente entre a esquerda referirem-se aos populares como “o partido de extrema-direita da coligação”. Pior. A designação foi tão banalizada que entrou mesmo na linguagem parlamentar sem que se ouvissem relevantes protestos.
Vamos por partes. Os partidos de extrema-direita são associações anti-democráticas que se aproveitam das fragilidades do sistema para chegar ao poder. Se a acusação corresponde à verdade, então o CDS é uma organização ilegal e os seus membros culpados do crime de conspiração. Talvez por ser um disparate, nem o dr. Louçã chega tão longe. O termo “extrema-direita” serve-lhe apenas os objectivos do discurso político como uma espécie de metáfora. Como se eu o pudesse chamar de “assassino” para melhor ilustrar a sua posição sobre o aborto. E no entanto o Bloco de Esquerda repete a fórmula com admirável impunidade e sucesso. Tanto sucesso que a moda pegou.
Porém, a culpa não é do Dr. Louçã nem dos seus acólitos. Esperar que o Bloco de Esquerda respeite as regras de comportamento do sistema democrático é o mesmo que esperar que por uma questão de caridade a ovelha ferida seja poupado pelo lobo. A responsabilidade da consequência dos actos vai inteira para o próprio CDS. Para os seus dirigentes que, apesar de saberem o significado da acusação, preferem desvalorizá-la. E para os outros que, ignorando o seu significado e as consequências, sorriem como se “extrema-direita” fosse uma espécie de elogio. Para mal do discurso político e do próprio regime democrático, temo que quando o CDS perceber que o rótulo colou, talvez seja tarde demais para se indignar.

[Rodrigo Moita de Deus]

Os holandeses são uns fascistas, homofóbicos, de extrema-direita e tenho de perguntar ao Barnabé e ao BE o que é eles são mais esses malvados

"A Holanda, que assegura a presidência da União Europeia até ao fim do ano e é o país de origem do chamado "barco do aborto", afastou hoje, em Bruxelas, a possibilidade de tomar qualquer medida contra a decisão de Portugal de impedir a entrada da embarcação "Borndiep" nas suas águas territoriais. "A presidência não pretende levantar esta questão junto do governo português", disse Aart-Jan de Geus, ministro dos Assuntos Sociais e do Emprego da Holanda, interrogado sobre o assunto na Comissão dos Direitos das Mulheres do Parlamento Europeu."
Agência Lusa

[PPM]

Da insinuação ao insulto à injúria

Rui Tavares, do Barnabé, não entendeu o meu post. A culpa é minha. Passo, então, a tentar explicar:

No seu blog Barnabé, o Secretário de Estado Nuno Fernandes Thomaz foi insultado. Não li nenhuma argumentação - para lá do simples comício, a chamar de pequeno ditador a Paulo Portas - não vi citados tratados, convenções, jurisprudências ou pareceres doutorais. Vi, apenas, o insulto gratuito.

Pode Rui Tavares discordar, pode acreditar que não houve insulto. Pode. Não sei, não conheço Rui Tavares. Nunca vi a sua cara, nunca diria que a mesma seria imbecil. Nunca ouvi a sua voz, não sei se domina a língua pátria.

O que eu lhe diria, Rui Tavares, se o conhecer, é que prefiro discutir consigo as suas posições, mesmo se as considerar ridículas.

Quanto à fotografia do Américo Thomaz... Como bem escreveu Rui Tavares, é uma escolha "insólita". Tem razão. Não faz qualquer sentido, não é sequer uma graçola. Serve-me apenas para me relembrar que as insinuações fáceis sempre foram um método totalitarista de propaganda.

Isto a mim mete-me medo. Sim, um dia destes ainda sou apanhado numa entrevista de rua e sei lá o que dirão que eu tenho estampado na cara, além da barba.

A fotografia, do defunto almirante, foi, de facto, um erro meu. Uma perigosa iconaclastia que não foi por Rui Tavares entendida. Não se preocupe, os blogs de extrema-direita também não perceberam.

Claro que o Barnabé podia ter-me respondido de outra forma. Podia querer discutir as terríveis consequências, humanas e ambientais, que a "pré-moderna" legislação marítima permite. Podia falar sobre tráfico humano, em barcos com bandeiras de países sem acesso ao mar. Podia...

... Mas claro, então não seria o nosso conhecido Barnabé.

[Diogo Belford Henriques]
PS. Volto a afirmar que mais baixo ainda, nesta linha de insulto, desceu Vital Moreira neste post.

segunda-feira, agosto 30, 2004

Tema do traidor e do herói

Pedro, lá arranjei algum tempo, entre terminar compromissos profissionais e partir de férias, para uma réplica. É bastante longa. Como aqui o patrão do estabelecimento não providencia um Acidental Rebelo de Sousa, escrevo mesmo no corpo do blog. Entretanto, despeço-me para férias. Vai por pontos, que é mais rápido:
1. Existe, desde logo, na posição de Kerry um problema pessoal. Kerry foi um activista radical contra a guerra do Vietname. Construiu inicialmente (e manteve) a sua carreira política com base nessa posição. Nas declarações ao Senado e nas várias posições que tomou à época não se limitou a registar os crimes de guerra esporádicos que os soldados americanos cometeram. Atribuiu a esses soldados um padrão sistemático de barbárie, afirmando que ele se inseria numa política genérica, em última instância definida pelo próprio governo americano. Por essa via (e por outras) renegou inteiramente qualquer valor (político, estratégico ou outro) à guerra do Vietname. Para ele, essa guerra passou a ser a partir de determinada altura inteiramente injustificada. Explica-me com que cara pode ele vir agora construir uma figura presidenciável na base de um passado que renegou inteiramente. A isso chama-se oportunismo. E muitos eleitores americanos terão percebido isto mesmo. Haverá veteranos do Vietname a reagir a esta postura por más razões. Mas quantos veteranos não estão a reagir por orgulho perante uma pessoa que no passado os acusou de serem quase carniceiros de Auschwitz. Imagina-te como veterano de uma guerra onde desempenhaste o teu serviço dentro do mais estrito cumprimento das leis da guerra. E imagina-te a ver uma pessoa que contruiu uma carreira política bem sucedida na base de te considerar um facínora e que vem agora reclamar-se de um heroísmo que te negou a ti. Ainda por cima tendo apresentado factos que entretanto se provou serem falsos.
2. Depois há o problema da guerra propriamente dita. Muita gente considerou a guerra do Vietname um erro estratégico, inclusivé dentro das administrações Kennedy, Johnson e Nixon (McNamara, por exemplo), pelo menos a partir de certa altura. Fizeram-no considerando que a guerra prestava um mau serviço à estratégia de contenção do comunismo. Kerry não fez parte dessa categoria de pessoas. Kerry criticou a guerra do Vietname na base de uma crítica civilizacional mais alargada ao Ocidente, tal como ele se materializava nos EUA. Para Kerry a existência do comunismo não era um problema – no Vietname, na URSS, na China ou até, talvez, nos próprios EUA. Muito francamente, toda a gente sabia que largar o Vietname correspondia a entregá-lo à violência comunista, a mesma violência que acompanhou o comunismo institucionalizado desde 1917. Se Kerry não o sabia, então é porque era burro. Se sabia, então era porque não se importava.
3. Mas para muita gente não era assim. Talvez o primeiro episódio que mereça ser recordado aqui é o da guerra da Coreia. Uma situação idêntica à do Vietname, com um país dividido entre uma metade apoiada por regimes comunistas e outra por regimes ocidentais. Na Coreia, ao contrário do Vietname, prevaleceu a divisão. Infelizmente para os coreanos, mas felizmente para a política comparativa, a península coreana ainda hoje está dividida nesses dois campos. De um lado temos um regime assassino e louco. Do outro uma próspera democracia que (tendo sido uma ditadura moderada durante bastante tempo) até tem um presidente de esquerda (mais ou menos social-democrata). Quem sabe no Vietname as coisas não se poderiam ter passado assim? Dir-me-ás: sim, Luciano, mas os amigos dos americanos no Vietname do Sul não se recomendavam. Numa guerra tão cheia de lendas, eis outra que foi impressa em detrimento da verdade. Diem não era flor que se cheirasse, não senhor. Mas depois do seu assassinato em 1965, entrou-se, sob patrocínio americano, num processo constitucional (com eleições e uma assembleia constitutinte e uma eleição presidencial limpa). Estava-se, portanto, a entrar, numa espécie de “cenário coreano”. O que teria acontecido ao Vietname do Sul se não tivesse sido entregue ao comunismo do Norte? Nunca saberemos, mas talvez fosse melhor do que a barbárie (essa sim, verdadeira) que se seguiu.
4. Ah, mas os B 52s e o napalm. Existiram e foram horríveis. Mas outra das coisas que se esquece na guerra do Vietname é que só em parte ela foi uma guerra de guerrilha. A guerra do Vietname foi em larga medida uma guerra convencional. O Norte tinha apoio soviético e chinês, que o fornecia do armamento mais sofisticado. Em 1973, no final da guerra, o Vietname do Norte tinha o terceiro maior exército do mundo. Os EUA limitaram a sua ajuda sobretudo a apoio aéreo e certas missões especializadas. Essas acções miltares (por horríveis que possam ter sido) devem entender-se dentro deste contexto. E as acusações de barbárie ao exército americano deviam ser inteiramente devolvidas ao Vietname do Norte. Não só no Vietname do Norte, muito antes da queda de Saigão, já havia notícia de campos de concentração e exceuções sumárias, como o próprio exército do Vietname do Norte perpetrava chacinas sistemáticas nas suas incursões no sul. O massacre de My Lai empalidece perante a colecção de horrores praticados pelos soldados norte-vietnamitas relativamente à população do sul.
5. Já agora, um exercício. Foi horrível o napalm e o carpet bombing. Mas olhemos então para a única guerra na qual todos parecemos estar de acordo: a II Guerra Mundial. Será que Dresden (200.00 mortos numa só noite, sob bombardeamento aliado) e o restante bombardeamento estratégico, as notícias de crimes de guerra perpetrados por soldados aliados perante soldados alemães em Itália, em França, na Alemanha, a coligação com Estaline (um horrível ditador), foram ou não um preço trágico mas justificável a pagar para derrotar o nazismo? Podemos considerar o bombardeamento estratégico um dos maiores horrores militares do século XX. Podemos achar que foi um erro trágico, que custou muitas vidas inocentes. Mas isso muda o sentido essencialmente justo da guerra? Também se poderia criticar o naplam e o carpet bombing sem pôr em causa a justiça última da guerra do Vietname. Não foi isso que Kerry fez, nem é isso que tu fazes.
6. A guerra do Vietname não é uma guerra qualquer. É um símbolo. E a derrota americana simboliza o início de um período de incapacidade americana e ocidental para projectar força no mundo. A derrota americana abriu a porta ao último grande fôlego do comunismo (e respectivos horrores) no mundo. Para além da Ásia, seguiram-se até ao fim da década de 70 todas as antigas colónias portuguesas africanas, a guerra do Afeganistão, a revolução iraniana e uma nova vaga (extremamente violenta) de terrorismo islâmico. Eu sei que existe uma certa tradição de irresponsabilidade perante o passado da esquerda. Cuba? Lá se diz timidamente que, sim senhor, é uma ditadura. Que importa que, no passado, Cuba tenha sido um lugar utópico para a esquerda ocidental? A URSS? Pois, foi “uma experiência” que “correu mal”, que efectivamente trouxe “muita violência”. Que importa que, durante quase todo o século XX, a URSS tenha sempre sido uma referência, mesmo para aquela esquerda que a criticava mais ou menos timidamente? Também Kerry deveria ser confrontado com o seu passado anti-ocidental e promotor do comunismo na Ásia. Por uma questão de coerência política, certamente. Mas sobretudo para que se saiba qual a determinação que pode mostrar, hoje e agora, na preservação dessa mesma sociedade ocidental que já tanto odiou.
7. No fundo, Kerry meteu-se num buraco do qual terá dificuldade em sair. Estivesse ele calado sobre as suas proezas militares (como John McCain o faz, mesmo que tenha estado preso sete anos às mãos do Vietname do Norte) e provavelmente ninguém viria pedir contas. Se calhar, levar-se-ia à conta de devaneios de juventude os seus assomos radicais. Mas decidiu explorar um passado nebuloso e assim fez a cama de pregos, abriu-a e agora nela se terá de deitar. Quis agradar a dois eleitorados: o velho povo de esquerda, que preza o seu passado radical dos anos 60, e o povo de direita que exige uma postura sólida na defesa dos EUA. Por enquanto, a gracinha está-lhe a sair mal.
[Luciano Amaral]

Os milhares de portuguesas não foram à manif

Eu até acho graça a esta mania que alguma esquerda blogueira tem de encher a boca com os "milhares de portuguesas" que fazem aborto, que atravessam a fronteira e vão a Badajoz fazer aborto, que defendem a liberalização do aborto - e por aí adiante - numa espiral de milhares de mulheres que só eles é que conhecem e contabilizam. Só não percebo onde é que foram parar os "milhares de portuguesas" que deveriam ter participado em mais uma daquelas manifs convocadas por SMS em que a mesma esquerda blogueira se especializou. Vejam na página 23 do "Público" ou aqui (infelizmente sem fotografia). As milhares estavam representadas por uma ilustre desconhecida, devidamente acompanhada pelo respectivo canídeo e, claro, pelo sempre útil telemóvel de serviço.

[PPM]

Thomaz



O Daniel insulta o Secretário de Estado Fernandes Thomaz afirmando que "podia dominar melhor a língua pátria". Vital Moreira, mais baixo, insulta a "sua super-afectada dicção lisboeta".

São, enfim, os argumentos de quem queria discutir o aborto. Foi para isto que o barco cá veio. Para os insultos.

[Diogo Belford Henriques]

"Daniel on waves"

Fontes fidedignas garantiram ao Acidental que Daniel Oliveira do blogue Barnabé regressou de férias no chamado "barco do aborto". Ao chegar a terra firme, Daniel terá confirmado que aproveitou a viagem para experimentar a pílula RU-486. "É uma pedra", garantiu a camaradas do Bloco de Esquerda. "Vou recomendar ao Louçã e ao Rosas", acrescentou. As mesmas fontes não confirmam porém que a organização "Women on waves" vá mudar o seu nome para "Daniel on waves", ainda que já existam contactos nesse sentido.

[PPM]

Esta senhora sabe do que fala (over and out)

"Não se pode deixar de questionar: porque vem um barco para Portugal e não para a Argélia, ou para a Arábia Saudita? Ou para vastas zonas do globo onde as mulheres são casadas à força com quem nunca viram, como acontece ainda em muitos países islâmicos? Porque não navegam até ao Irão onde bater na mulher é um direito do seu dono? Uma coisa é certa, encheriam o barco! Mas falta-lhes a coragem..."

Zita Seabra, Público de ontem

Esta senhora sabe do que fala

"Alguma esquerda, na falta de melhores bandeiras (proletariado já quase não há e a realidade laboral nas empresas ou na agricultura é radicalmente diferente da anterior) serve-se do aborto como de uma importante trincheira que resiste. Assistimos ciclicamente a lutas internas, a declarações e promessas de candidatos a secretários-gerais, de dirigentes partidários falando do aborto como se fosse a principal questão para avaliar da fidelidade à esquerda de um dirigente. E aqui está o aborto transformado em potencial direito cívico. Ou até em manobra de diversão como é o caso da vinda do barco holandês. Passa pela cabeça de alguém imaginar que alguma mulher, mais ou menos jovem, com mais ou menos dificuldades económicas, se dirige a um barco que é exibido de forma ostensiva e degradante nas televisões e lá entra para fazer um aborto em alto mar? Evidentemente que não.
Tanto mais que Portugal tem desde 1985 uma lei aprovada que foi, podemos dizê-lo sem medo, referendada há três anos pelos portugueses."


Zita Seabra, Público de ontem

Esta senhora sabe do que fala

"A política de um Estado democrático deve ter como objectivo impedir que alguém recorra ao aborto por absoluto desconhecimento de alternativas, por desinformação, ou por uma tradição rural radicada nos desmanchos que as avós faziam.
Eis, porém, que alguns, na ausência de bandeiras de luta, de reivindicações mobilizadoras tiram da cartola o aborto como se tratasse de um pilar demarcador entre direita e esquerda, gerando dois tipos de reacção."


Zita Seabra, Público de ontem

Esta senhora sabe do que fala

"Na URSS, a inexistência de contraceptivos chegou a gerar situações tão dramáticas que o PCP enviava clandestinamente embalagens de contraceptivos para as suas funcionárias que trabalhavam nos "países do socialismo real". Na China a situação era ainda pior (melhorou muito pouco infelizmente) pois as mulheres eram e são, forçadas pelo Estado a abortar."

Zita Seabra, Público de ontem

Esta senhora sabe do que fala

"É pois, uma evidência, que o aborto não pode, nem deve, numa sociedade desenvolvida e democrática, ser considerado um direito e ainda menos uma forma de contracepção. Conheço apenas dois países onde este cenário existiu ou existe ainda: a União Soviética, onde o aborto era a única forma de planeamento familiar legal e a China, onde era obrigatório para todas as mulheres e casais que já tivessem um filho. Como escrevi, em 1989, uma das principais reivindicações das mulheres na URSS e nos restantes países socialistas, durante a Perestroika, foi justamente o acesso a métodos de planeamento familiar que acabassem com a brutalidade dos abortos sucessivos. Tive mesmo oportunidade de visitar uma clínica, acompanhada pelo jornalista José Milhazes onde vi o que nunca imaginei poder ver. Felizmente hoje tal já não acontece, existem contraceptivos (de toda a espécie) à venda por todos esses países ex-socialistas.".

Zita Seabra, Público de ontem

domingo, agosto 29, 2004

A vergonha da Europa...

Os náuticos pró-escolha insistem em nos dizer que a reacção do governo português é, não só ilegal como, a vergonha da Europa. Como se pode ler, neste editorial, há quem não concorde.

Pior do que o argumento provinciano, tipo "temos-vergonha-do-país-que-temos-quando-falamos-aos-nossos-amigos-estrangeiros", é querer esconder que há quem concorde com o governo português:

"EL Gobierno portugués ha denegado el permiso para atracar en el puerto de Figueira da Foz al conocido como «barco del aborto». El buque, una especie de clínica ginecológica flotante, se dedica a practicar abortos en aguas jurisdiccionales internacionales, especialmente a mujeres cuyos países de origen proscriben o ponen trabas legales a la práctica del aborto voluntario.

Al hacerlo, el Ejecutivo luso, al que le asiste toda la razón jurídica, cumple con su obligación de aplicar el Derecho. Se trata de una cuestión de estricta legalidad y de defensa del respeto debido a su propio marco jurídico.

El barco iba a incitar a la comisión de actos contrarios a la legalidad portuguesa, además por parte de ciudadanas de su propio país, y el Gobierno no puede aceptar que terceros entren en su territorio para violar sus leyes.

Los argumentos aducidos por las organizaciones fletantes del buque carecen de toda validez jurídica. No es suficiente la posesión de la documentación en orden en el país de origen, Holanda, ni la existencia de precedentes, ni es pertinente la invocación de las normas de la Unión Europea e internacionales sobre la libertad del comercio.

En todo lo que no dependa del Derecho europeo, como es el caso de la legislación penal, rigen las normas de los Estados miembros. Si el objeto de la empresa, como es notorio en este caso, atenta contra la legislación portuguesa, a las autoridades no les cabe otra opción que la adoptada: impedir el atraque del buque.

Es la misma solución que habría que tomar ante cualquier otra forma de tráfico ilegal. La libertad de comercio no puede servir de amparo a la transgresión de las leyes nacionales"


In ABC

[Diogo Belford Henriques]

sexta-feira, agosto 27, 2004

Mr. McNamara Goes to Saigon

Enquanto prossegue por aí o entusiasmo com o junkumentary do Michael Moore, anuncia-se a passagem no novo festival de cinema independente Indie Lisboa 2004 do documentário de Errol Morris, The Fog of War. The Fog of War ganhou o óscar de melhor documentário este ano (o ano passado foi Moore quem o ganhou, com Bowling for Columbine) e não se percebe porque não teve distribuição comercial em Portugal. Estamos tão longe aqui das tolices moorianas. The Fog of War baseia-se numa extensa entrevista com Robert McNamara, Secretário da Defesa americano durante alguns dos momentos mais críticos da guerra do Vietname. É um grande filme. Não vale a pena dizerem-me que gostei porque Morris é de direita e rebeubéu, porque não é. Morris é de esquerda e não procura transmitir uma ideia favorável nem a McNamara nem à guerra do Vietname. É simplesmente um excelente filme, que (ao contrário de Farenheit 9/11) honra a boa tradição documentarista americana. Eu próprio saí da sala bastante mal impressionado com McNamara, sem que Morris tivesse que invocar qualquer imbecil teoria conspirativa.
Para além disso, o festival promete e não é por ser organizado por uma associação (Zero em Comportamento) de que faz parte um amigo meu (com quem aliás vi o filme de Morris em Londres). Simplesmente, pretende divulgar dois géneros muito interessantes, e por regra ignorados, de cinema, o documentário e o filme independente. Mistura filmes de maior circulação, como Before Sunset, de Richard Linklater (a sequela de Before Sunrise) ou Super Size Me, de Morgan Spurlock (mais um documentário, tanto quanto me pareceu ao estilo de Moore, sobre os malefícios da fast-food) com filmes desconhecidos portugueses, australianos, da América Latina e do Médio Oriente. Parece-me um evento a visitar.
[Luciano Amaral]

quinta-feira, agosto 26, 2004

Kerry and Vietnam: the true record

A organização Swift Boat Veterans for Truth (reunindo veteranos da Guerra do Vietname, muitos dos quais combateram ao lado de John Kerry) lançou dois polémicos anúncios televisivos. No primeiro afirmava ser falso o heroísmo de Kerry durante os seus quatro meses de comissão no Vietname, nomeadamente nos episódios que lhe mereceram diversas medalhas. Trata-se, evidentemente, de algo passível de ser confundido com lavagem de roupa suja ou campanha eleitoral negativa, para além de constituir uma afirmação difícil de comprovar. Diz quem leu que os elementos apresentados nos livros Unfit for Command e Tour of Duty não são concludentes nem para comprovar o heroísmo de Kerry nem para o refutar. De qualquer modo, trata-se de uma linha acusatória pouco interessante, em última instância provavelmente inconclusiva e que pode até favorecer a imagem de Kerry contra a dos próprios veteranos – facilmente acusáveis de remexer na lama. Claro que a única justificação para o lançamento dos anúncios resulta do facto de Kerry ter eleito a sua participação na guerra do Vietname como o grande tema de campanha (basta lembrar a famosa continência no início do discurso de aceitação na Convenção Democrata e a agora célebre frase, “I’m John Kerry and I’m reporting for duty”). Essa escolha tornou-o um tema legítimo de discussão política e abriu a porta ao escrutínio público.
O segundo anúncio é mais interessante. Nele se mostram as declarações de Kerry a uma comissão do Senado americano em 1971, depois do seu regresso do Vietname. Nessas declarações, Kerry acusa o conjunto do exército americano de praticar no Vietname múltiplos crimes de guerra: violações, decepamentos, mortes gratuitas, massacres generalizados, envolvendo toda a hierarquia militar e civil. Não se trataria apenas do justamente famoso massacre de Mai Lai, mas de práticas recorrentes e, o que é mais, sistemáticas. Nas mesmas declarações, Kerry considerava ainda válidos os resultados da Winter Soldier Investigation, um projecto destinado a recensear os efeitos trágicos da guerra sobre a vida pessoal de vários antigos combatentes. Kerry transformar-se-ia ainda, durante esse tempo, numa importante voz nos movimentos contra a guerra. Em certa manifestação ter-se-ia mesmo destacado por, de forma teatral, arrancar as medalhas que trazia ao peito, lançando-as ao chão. Ora, hoje praticamente ninguém acredita na veracidade dessas declarações (que continuam sem fundamento documental e teriam sido sobretudo uma peça de propaganda do movimento contra a guerra) e a Winter Soldier Investigation foi desacreditada, dados os depoimentos falsos entretanto descobertos.
Mais importante é o facto de Kerry basear a sua campanha em feitos que ele próprio considera repugnantes. E mais importante ainda é a sua campanha basear-se na participação numa guerra que Kerry considerou, pelo menos nos anos 60 e 70, injustificada. Não se trata apenas de um problema de consistência inter-temporal. É importante saber se Kerry se orgulha dessa participação ou ainda tem vergonha. Se voltaria a lançar ao chão as medalhas que agora gostaria de ostentar. A importância disto resulta de a guerra do Vietname não ter sido uma guerra qualquer. Foi uma guerra que, à época, dividiu profundamente a América e o mundo. Eu, pessoalmente, acho que Kerry se deveria orgulhar dessa participação. Só que, aos quatro meses de comissão no Vietname seguiram-se na vida de Kerry anos de oposição a ela. E foi em grande medida graças aos esforços de pessoas como Kerry que os EUA efectivamente largaram o Vietname. Quando de lá saíram em 1975, logo o regime comunista que por lá se instalou tratou de liquidar centenas de milhar de pessoas, encerrando outras tantas em campos de concentração. Da instalação desse regime resultou a fuga de cerca de dois milhões de pessoas (os famosos “boat people”), bem como a queda para o comunismo (em dominó) do Laos e do Cambodja. Neste último caso terão sido massacradas um milhão de pessoas. E ainda hoje é este o estado dos direitos políticos no Vietname. Eis o verdadeiro currículo político no Vietname pelo qual Kerry deveria responder. Seria importante saber se ele ainda pensa que valeu a pena a oposição à guerra. Invocar o estatuto de herói nela não pode ser um exercício barato de promoção pessoal, quando depois se renegou essa mesma guerra e, nesse exercício, se contribuiu para trazer uma das maiores tragédias políticas e humanitárias de sempre. A resposta é importante, até porque estamos no meio de outra guerra que divide a América e o mundo.
[Luciano Amaral]

Mama Cash!

O dito "barco do aborto" ancorará em portos portugueses, financiado por uma organização chamada "Mama Cash". Exactamente, "Mama Cash".

Entre outras acções, esta organização multinacional abriu um café multi-étnico para mulheres nos estados bálticos...

Hummm... Esta é uma daquelas alturas em que se torna muito difícil ter uma discussão séria sobre a questão do aborto.

[DBH]

PS. Podemos, apesar de tudo, entender que nem sabem distinguir o báltico dos balcãs?

Se são eles que o dizem... (II)

"No segundo Governo de Guterres faltou orientação, faltou estratégia, faltou capacidade de decisão: por isso mesmo ele demitiu-se, para não ficar numa situação que ele próprio classificou de pantanosa."
Manuel Alegre, "DN" de hoje

Se são eles que o dizem...

"Aqueles que só querem o poder pelo poder, que querem o poder a todo o custo [...] votem no engenheiro José Sócrates"
Manuel Alegre, "DN" de hoje

Espaço do leitor

Boa tarde,

Sou um leitor sistemático do vosso blog e queria começar por lhe (vos) agradecer a sua existência. É um prazer encontrar, finalmente, sítios e pessoas com quem comungo a esmagadora maioria dos pontos de vista, e que pensam de forma diferente da "irritante e tendenciosa opinião publicada" que se encontra na nossa comunicação social.
Referindo mais especificamente ao excelente "post" assinado por ENP, acho que falta um ponto normalmente ausente na quase totalidade das discussões sobre o aborto : a posição do homem. Um feto não existe por geração espontânea, sendo sempre fruto de uma relação a dois e, por consequência, responsabilidade (que não pertença) de duas pessoas. Sendo esta uma verdade tão óbvia, como é possível que a decisão sobre a morte desse feto possa ser deixada apenas à mulher, excluíndo por completo o homem dessa decisão? como é possível que os "pró-aborto" em geral, sempre com a boca tão cheia de direitos humanos, possam excluir por completo o homem e os seus óbvios direitos nesta decisão ?
Gostava de ver este ponto presente nas discussões sobre o assunto, já que a sua ausência representa uma menorização (diria mesmo uma objectificação) do homem que me parece intolerável e indefensável.

Cumprimentos,


Paulo Xardoné

quarta-feira, agosto 25, 2004

"Sim" mas...

Apesar de não concordar com o ENP (como exponho no meu poste anterior, em termos resumidos), quero dizer que é uma honra poder escrever ao lado dele. É, sem sombra de dúvida, o melhor artigo que li sobre este tema do lado dos que defendem o "não". Mostra sobretudo que se pode discutir o tema sem algazarra e com dignidade.
Um grande abraço.

[Pedro Marques Lopes]

E as mulheres, senhores?

Escrevi, alguns postes abaixo, que não reconhecia legitimidade ao "Clube Safo" para convidar a "Women on waves". Isto não quer dizer, como interpretou o Paulo Gorjão, que entenda que "as lésbicas não podem (não devem?) ter opinião e posição sobre o aborto". Claro que podem e devem, como qualquer cidadão. O problema é, repito, de legitimidade formal: o "Clube Safo", de facto e de direito, não representa as mulheres que são atingidas pelo flagelo do aborto. Tal como a "Não te prives", como tão bem escreveu o João Miranda, no Blasfémias. E isto nada tem a ver com homofobia, como ficou a pensar o Nuno do Resistente Existencial. Tem a ver, isso sim, com a finalidade para que as referidas associações foram criadas: num caso para defender os direitos das lésbicas, no outro para defender os direitos dos homossexuais. É verdade que uma coisa em comum têm todos os quatro grupos que convidaram o sinistro "barco do aborto": são aparentadas com a famosa Rede Lilás, com o Bloco de Esquerda e com o Fórum Social Português.
Até a data escolhida para o barco chegar a Portugal, o dia 29, coincidente com o fim dos Jogos Olímpicos, diz tudo sobre os propósitos desta iniciativa: servir a agenda panfletária e demagógica de alguma extrema-esquerda. As mulheres que realmente sofrem o drama do aborto não são para aqui chamadas.

[PPM]

A propósito do barco e do aborto

A questão do aborto é recorrente em Portugal, como recorrentes são os argumentos que se esgrimem em volta deste tema. Assim, o que foi dito há uns meses, pode continuar a ser dito agora. Como não gosto de ficar de fora quando a discussão é sobre o aborto (ou a IVG), tomo a liberdade de deixar aqui uma lista não exaustiva dos argumentos usados pelos defensores do “sim”, comentados por quem votará “não”, no dia em que sobre isto se voltar a votar:

1. Diferença entre vida humana e pessoa humana. A pessoa humana merece uma tutela absoluta e, como tal, o seu direito à vida sobrepõe-se a todos os outros. Até aqui, estamos todos de acordo. Já a vida humana, conceito mais lato que abrange a vida intra-uterina, não merece, nesse estado e pelo menos até às 12 semanas, a mesma protecção. Porquê? Porque há outros direitos de pessoas humanas que se lhe sobrepõem. A saber: a liberdade e dignidade das mulheres. Não estamos, pois, a falar da opção entre a vida de um ser vivo humano (o feto ou embrião) e de uma pessoa humana (a mulher), uma vez que numa gravidez onde haja risco de vida para a mãe o aborto é legalmente permitido. Estamos a falar na opção entre o direito à vida de um ser humano, ainda que em fase pré pessoa (e aqui estou a conceder apenas para efeito argumentativos, porque para mim não há diferença significativa), e outros direitos que, embora existindo e sendo de humanos já pessoas, são objectiva e hierarquicamente (tendo em conta a nossa hierarquia civilizacional) inferiores ao direito à vida. Todos nós, pessoas humanas, temos direito à integridade física e ao nosso bom-nome, entre outros, mas, que eu saiba, em circunstância alguma o nosso ordenamento jurídico permite que matemos alguém para evitar que aqueles direitos sejam violados. É uma questão de proporção.
2. Ninguém defende o aborto. É mentira. Quem defende a liberdade de uma mulher fazer um aborto e defende que essa liberdade é ilimitável, pelo menos até uma determinada fase da gravidez, está a defender o aborto. Está a defender o aborto das mulheres que tendo uma gravidez indesejada, independentemente dos motivos que a tornam indesejada (e, no limite, apenas porque não querem ter um filho), querem abortar. O que ninguém defende é que as mulheres que não querem ter filhos engravidem e se vejam confrontadas com a hipótese de abortar. Mas, se isso acontecer - e não há nada, nem lei, nem politica, nem meio, que possa prevenir a 100% que isso aconteça - as águas dividem-se entre aqueles que consideram que ela, mulher, pessoa humana, deve ter o direito de escolher ter ou não ter o filho, defendendo, consequentemente e neste contexto de gravidez indesejada, o aborto, e os que consideram que ela não tem esse direito, excepto (e digo excepto porque vou falar em excepções) nos casos em que o motivo que leva a mulher a não querer ter o filho é de tal maneira essencial que passa a ser atendível, como seja o de não querer correr o sério risco de vida para ter um filho (vida de um ser humano vs. vida de uma pessoa humana). Sejamos claros, há quem defenda o aborto (quando uma mulher quer) e há quem não o defenda.
3. São concepções e/ou preconceitos religiosos e políticos que movem os defensores do não. Não é verdade, pelo menos no que respeita aos defensores do não que conheço. O que leva a defender o não é acima de tudo uma noção de responsabilidade humana, essencial ao próprio conceito de humanidade. A vida humana é inviolável; a vida humana começa com a concepção (é um facto cientifico); então, a menos que estejamos perante direitos de igual ou superior (haverá?) importância, a vida humana, a partir do momento em que existe, é inviolável, e nós, que proclamamos esse direito à vida e o consideramos inviolável somos responsáveis por preservá-lo. É, pois, uma concepção científica, jurídica e acima de tudo civilizacional (e logo Política, com P grande), que só fica bem às religiões e políticas (agora com p pequeno) que a seguem.
4. É inadmissível que as mulheres sejam postas na cadeia. É verdade. Em muitos casos é verdade. Para esses existem já instrumentos legais que salvaguardam as mulheres: a falta de culpa, o estado de necessidade desculpante, a inexistência de dolo. Mas, atenção, nem sempre tal sucede. Só os ingénuos acham que não há abortos feitos de forma leviana, perfeitamente consciente, voluntária e reiterada, para além, mais grave que tudo, daqueles que, em qualquer contexto, usurariamente se aproveitam das mulheres que querem abortar para com isso ganhar dinheiro. E, se é inadmissível que as mulheres sejam condenadas a prisão por fazerem um aborto até às 12 semanas, será já admissível que sejam presas se o aborto for feito às 12 semanas e 1 dia? Como condenar (judicialmente) uma mulher que, coagida pelo marido ou família e com medo físico destes, faça um aborto às 13 semanas, e não uma outra que sem qualquer coacção ou pressão, com as tais “condições objectivas” para ter um filho e em perfeita consciência, faça um aborto às 5 semanas? Quem defende o sim, por uma questão de coerência, não deveria estabelecer o limite das 12 semanas - não tem qualquer justificação cientifica e apenas serve como táctica politica para amenizar as consciências e permitir uma maior aceitação social das suas propostas.
5. A lei actual é hipócrita e não evita os abortos. É hipócrita porque condena sem condenar. Não é verdade, a lei é aplicada, tanto quando condena, como quando não condena. Qualquer julgamento de um alegado crime pode terminar com a absolvição - e nisto não há qualquer hipocrisia mas tão só justiça -, e mesmo que todas as pessoas julgadas por um determinado crime sejam absolvidas, continua a haver justiça. Num estado de direito, há justiça quando um tribunal absolve ou condena, quando anula ou confirma uma sentença, quando se provam ou não se provam os factos ou a culpa de quem os pratica, há justiça porque é nos tribunais que se faz justiça. A lei não evita o aborto, como não evita os homicídios, a fuga aos impostos, a pedofilia ou o roubo. A lei não evita mas procura evitar, e é para isso que ela existe, pois se só pudesse existir quando fosse integralmente cumprida nunca existiria e, como tal, nunca seria lei.
6. Quem nasce deve nascer com dignidade. Este tipo de argumento, que pressupõe sempre por parte de quem o invoca que a dignidade está ligada ao conforto físico e material, é, quanto a mim, o mais perigoso de todos. Se se considerar que apenas se deve tutelar a vida ou expectativa de vida daqueles que podem e vão nascer saudáveis, prósperos, com quarto, cama, tecto, mesada, limpos, bonitos, fortes, novos, a rir, com perspectivas de carreira, com perspectivas de ter o que comer, daqueles que não vão dar trabalho, ou mais trabalho, ou muito mais trabalho, daqueles que não vão pesar no orçamento, na lista do supermercado, que não correm riscos de ir parar à casa pia ou a uma qualquer sarjeta, ou ser vendidos, ou ser mortos à pancada, que não vão sofrer, ter dor, ou medo, daqueles que obrigatoriamente vão ter que ser felizes, então está bem - defenda-se a liberdade de quem os carrega na barriga em definir quem vai ser feliz e a liberdade de, prevendo a sua infelicidade, abortar. Se não, se se considerar que a dignidade é algo que se tem pelo simples facto de existir, esse argumento já não vale.

[ENP]

Um grande português (II)


(RUI SILVA)

...e, por favor, não me falem de futebol.

[PPM]

Ainda sobre o "barco do aborto"

Estou de acordo com o PPM quando afirma que a questão do aborto é demasiado séria para ser tratada com palhaçadas do tipo "barco do aborto". Acrescento, agora de minha lavra, que manifestações “pró-vida” ou autos de fé realizados por um conhecido padre no canal Canção Nova, me arrepiam de igual modo. Todo o ruído em torno disto, serve apenas para perturbar. Esta questão tem, na minha opinião, a ver com a titularidade de direitos e com a sua graduação, algo perfeitamente normal nos direitos e deveres, mesmo ou sobretudo nos mais importantes: direito à vida, ao bem estar, à dignidade, etc. etc. Percebo que, na graduação ou hierarquização destes direitos, sejam chamadas à colação convicções religiosas (é por isso que sempre achei perfeitamente normal, e desejável, que a Igreja Católica participe activamente nesta discussão de forma a orientar os seus fiéis e sempre fiquei doente com a forma como se pretende tirar a Igreja desta questão, argumentando que não se deve meter em assuntos terrenos) e a influência que estas têm na visão político-ideológica da questão, ou seja, a fé de cada um “obriga” a hierarquizar os direitos de uma dada forma. Assim sendo, não faz sentido certa esquerda arvorar-se em bastião de convicções que não são nem deixam de ser dela. São, quando muito, de muitos homens de esquerda e de muitos homens de direita.
Assina um homem de direita, conservador, agnóstico e defensor da liberalização do aborto.

[Pedro Marques Lopes]

terça-feira, agosto 24, 2004

Grande poste do FMS

O Francisco Mendes da Silva anda muito desaparecido por estes lados, o grande malandro. O que vale é que continua a escrever ali. Leia só este fabuloso Chicks on Waves e veja lá se eu não tenho razão.

[PPM]

Cuidado com as confusões

Só me faltava agora voltarem a meter O Acidental nas discussões bizantinas e intestinas do Blogue de Esquerda. Não sei se repararam, mas o BdE anda a provar os frutos da própria intolerância, numa discussão que se tem prolongado com argumentos algo contorcionistas sobre o anti-semitismo de esquerda, um fenómeno denunciado por vários blogues, entre os quais a Rua da Judiaria, do meu velho "camarada" Nuno Guerreiro.
Para que o Filipe Moura não lance a confusão onde ela não existe, peço-lhe que seja mais rigoroso quando escrever sobre as minhas relações com o Nuno. Da próxima vez, não invente: na "divisão" entre blogues que por aqui existiu numa fase inicial a única fatia que dizia apenas respeito a ideologias era constituída pelo grupo de "esquerdistas de estimação". O outro grupo, a que então chamei de "ligações perigosas", reunia blogues de autores das mais diversas origens e proveniências que, de uma ou de outra forma, me eram mais próximos, incluindo, na sua maioria, blogues de direita – mas não só. O blogue do Nuno Guerreiro figurava neste último grupo, entre outros, pelo simples facto de o seu autor ter trabalhado como correspondente do "Independente" nos EUA quando eu era editor do Internacional no mesmo jornal - e por o considerar como pessoa e como jornalista. Nada tinha a ver com o facto de ser judeu, como malevolamente é afirmado aqui.
Mais. Enquanto tive o gosto de trabalhar com o Nuno nunca soube sequer que era judeu – sabia, isso sim, que não gostava nada do Bush e era politicamente de esquerda, como aliás o Filipe Moura poderia comprovar se tivesse feito uma pesquisa mais apurada no Acidental (está tudo explicado aqui). Mas isso nunca constituiu qualquer problema para a nossa amizade, bem pelo contrário, era motivo de acesas mas civilizadas discussões.
A verdade é que, quando o Filipe Moura escreve que “a única explicação possível para tal facto está em tratar-se de um blogue judeu”, revela afinal o mais cego e perigoso dos anti-semitismos, mesmo que inconsciente, como se existisse uma espécie de identificação automática da direita com o judaísmo. Sem querer entrar numa discussão que, repito, não me diz respeito, relembro que grande parte da extrema-direita apoia a causa palestiniana por ser ostensivamente contra a mera existência do Estado de Israel e contra os judeus.

[PPM]

O barco do aborto a reboque do BE

Como se pode depreender pela leitura do poste anterior do Luciano Amaral, o aborto é um assunto complexo de mais para ser tratado de acordo com a agenda mediática de organizações pseudo-humanitárias como é o caso da holandesa "Women on waves". Toda a história do chamado "barco do aborto", a começar pelo convite que lhe foi endereçado por organizações portuguesas mais ou menos ligadas ao Bloco de Esquerda e ao Fórum Social Português, tresanda a oportunismo político e a demagogia populista.
Não sei aliás que legitimidade tem por exemplo o "Clube Safo" - dirigido e constituído integralmente por mulheres lésbicas - para convidar a "Women on waves" a vir propor abortos gratuitos para Portugal. Isto quando são elas próprias a assumir, numa sondagem publicada no sítio do "clube" na internet, que se decidissem ter um filho optariam na maior parte dos casos "pela Inseminação artificial com recurso a um banco de esperma, enquanto 26% recorreria à adopção". Não brinquem com coisas sérias, por favor.
[PPM]

MPs on waves

A Grã-Bretanha possui uma legislação que facilita bastante o recurso ao aborto. Aparentemente, cerca de 200.000 abortos são por lá realizados anualmente, sempre em hospitais públicos - uma das cirurgias mais frequentes no país. O limite para a realização do aborto são as 24 semanas (mais ou menos 5 meses e meio de vida intra-uterina) e, ao que parece, no ano de 2002 cerca de 1400 fetos de 22 e mais semanas terão sido abortados voluntariamente (por múltiplas razões). Entretanto, um novo aparelho de ecografia permite ter uma visão da vida intra-uterina que mostra o feto a fazer movimentos autónomos (como andar, por exemplo) a partir das 12 semanas. Para além disso, são cada vez mais os casos de nascituros de 22 ou 23 semanas que (também graças à tecnologia) sobrevivem, tornando-se crianças perfeitamente viáveis. Perante estes dados todos (i.e. a frequência das operações - tornando-as claramente num generalizado método anti-concepcional -, o limite tardio para a realização das operações, as novas visões da vida intra-uterina e as novas possibilidades tecnológicas de viabilizar a vida extra-uterina), vários deputados britânicos (da esquerda à direita) estão dispostos a discutir a possibilidade de tornar a lei mais restritiva.
[Luciano Amaral]

A guerra de Kerry



Se, na versão de Clausewitz, a guerra era a continuação da política por outros meios, na actual corrida presidencial nos EUA é a política que parece ser a continuação da Guerra do Vietname por outros meios.

[PPM]

Fogueira com ele!!

Leitor quotidiano do Babugem, deparo-me hoje com a seguinte frase: "ainda não cheguei à conclusão se o homem [João Gilberto] é um génio ou um chato". Ó ímpio! Ó blasfemo! Ó patife! Vade retro!
É assim: tenho para mim que a música popular do século XX terá produzido para aí uma meia-dúzia de cantores geniais. Enumerando-os (mas estou aberto à extensão da lista): João Gilberto, Frank Sinatra, Amália Rodrigues, Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Jacques Brel, Louis Armstrong, Chet Baker... Cada um deles é genial, não pelas grandes proezas vocais (neste aspecto Amália e Ella despachariam a concorrência, enquanto João e Chet se ficariam no fundo da tabela), mas por criarem uma personagem única na maneira como cantam. João Gilberto é sempre a mesma coisa? Eu, por mim, podia passar o resto da vida só a ouvi-lo cantar ininterruptamente a "Manhã de Carnaval". Ele canta sempre as mesmas canções porque procura a versão perfeita delas. Como naqueles quadros do Mondrian, todos muito parecidos, mas todos em busca da combinação perfeita de formas geométricas e cores. Existem poucas coisas mais bonitas nesta terra do que aquela voz e o som daquela guitarra - meu Deus, os acordes (voicings, para ser mais preciso) que o homem inventou no toque de guitarra de Bossa Nova... Mais, o homem (é certo que acompanhado) inventou a Bossa Nova. E sem Bossa Nova não haveria nada do que se lhe seguiu na música brasileira, nomeadamente Caetano Veloso ou Chico Buarque. Não me entendas mal, Ricardo. Gosto imenso do Caetano Veloso, mas para génio falta-lhe muito. É pessoa de muito talento e um talento até diversifcado. Mas há a música popular antes e depois de JG (João Gilberto) e não há a música popular antes e depois de CV.
O que conduz a uma conclusão: a tua alternativa está mal colocada. Não se trata de saber se João Gilberto é um chato ou um génio. João Gilberto é um chato e um génio. Ou, dito de outra forma, é um chato porque é um génio. Só nós, que não somos génios, é que não nos podemos permitir ser chatos.
[Luciano Amaral]

Viva o Benfica



Desculpem, mas eu não podia deixar de pôr aqui um ponto de ordem no Acidental, depois das recentes investidas clubísticas do PML e do DBH. Correndo o risco de passarmos por um blogue da bola, é certo. Que se dane: hoje é dia de jogo com o Anderlecht e o Benfica é uma Nação.

[PPM]

Porto seguro



Venho por este meio desvendar a frase de saudação entre os adeptos da única instituição portuguesa de classe mundial: PARA O ANO NO MÓNACO (para o João Marques de Almeida, com a devida vénia).

[Pedro Marques Lopes]

segunda-feira, agosto 23, 2004

Mais ainda que um grande português



...Um grande sportinguista!
[DBH]

Um grande português


(Fotografias: Fabrice Coffrini e Paulo Novais/EPA)


[PPM]

Pode alguém ser quem não é

Acabo de ler mais um genial livro do José Eduardo Agualusa (para mim, um dos maiores escritores de língua portuguesa vivos). O personagem central de “O vendedor de passados” é um homem cuja profissão consiste em arranjar “bons passados” para os seus clientes.
Curiosamente, os personagens que compram novos passados assumem de uma forma tão poderosa a sua nova história que se esquecem de uma forma completa de quem são e de onde vêm. Digamos que é uma nova forma de não se assumir o erro ou o arrependimento (se o houver... o que não é líquido).
Comprando o novo passado, o antigo (e verdadeiro) deixa de existir.
(to be continued)

[Pedro Marques Lopes]

Tantos sms para isto...



[Diogo Belford Henriques]

domingo, agosto 22, 2004

E MAIS PROPOSTAS, NÃO HÁ?



Os vários candidatos a secretário-geral do PS continuam a fazer propostas. Para o País, pensamos nós?

Não. Quase nada. Além de uma generalidades sobre tecnologia e vinte clichês sobre a liberdade, sussurradas ou declamadas em tonalidades diferentes, não se ouve nenhuma proposta... A não ser sobre a partilha do poder.

Isso sim, não faltam propostas para cargos. Propostas para o próximo primeiro-ministro, o próximo presidente da república, o próximo presidente da CML, o MNE, etc...

... Quase todas as candidaturas já indicaram as personalidades que querem propôr para o poder. Falta saber quem querem para grão-mestre do GOL.

[Diogo Belford Henriques]

sexta-feira, agosto 20, 2004

É por estas e por outras que o Google vale tanto



O Google tem mudado a sua imagem de marca todos os dias desde que começaram as Olímpiadas, representando as várias modalidades em competição. Esta, não sei bem porquê, lembra-me a recente eliminação da selecção portuguesa de futebol.
[PPM]

Inimigo Público tem a Vitriolica

Eu já sabia de outras histórias e de outras vidas passadas que o director do "Inimigo Público", Luís Pedro Nunes, é um tipo de olho vivo e perna longa que sabe escolher colaboradores, para além de outras inúmeras e valiosas qualidades (abraço, LPN). Esta minha opinião é agora confirmada com a recente contratação de Miss Vitriolica Webb, essa grande figura da blogosfera que nós aqui no Acidental tanto temos elogiado.
A não perder.
[PPM]

Blog Sócrates

A propósito da entrevista de José Sócrates ao "Diário de Notícias" de hoje, acabei de descobrir o Blog Sócrates, uma muito bem feita paródia à mania das citações do candidato à liderança do PS. O mais engraçado é que o próprio Sócrates o deve ter lido porque na referida entrevista apenas se encontra uma citãozinha e logo do candidato adversário, Manuel Alegre. Ainda assim, José Sócrates garante, em resposta a uma pergunta sobre a hilariante entrevista ao "Expresso", que "toda a gente sabe que faço citações, mas com conta peso e medida". Definitivamente, o homem já não é um animal feroz.
[PPM]

Somewhere Over the Rainbow

Pode ler-se hoje no Público on-line que José Barroso (o presidente da Comissão Europeia) não acredita que a Europa se possa transformar no "espaço económico mais competitivo do mundo em 2010", embora essa tenha sido a aposta da famosa cimeira de Lisboa de 2000. É sempre reconfortante sentir a chegada de um certo realismo ao topo de uma organização habitualmente tão dada ao delírio como é a União Europeia. Mas cabe perguntar se José Barroso terá efectivamente percebido o que está em causa, já que (para já) a única coisa que lhe ocorre sugerir a este respeito é que se "altere a data". Em tempos, durante a minha brevíssima experiência enquanto colunista do jornal O Independente , expendi a vasta sabedoria que possuo sobre o assunto num pequeno artigo. Como me parece que vem a propósito, reproduzo-o abaixo:

Estranha forma de vida
É muito acarinhada na fantasmagoria europeia uma determinada linguagem de tipo tarológico. Nessa linguagem, os “grandes” eventos da UE são remetidos para certas capitais provinciais do continente: Laeken, Nice, Maastricht, Bruxelas, Lisboa, para nomear apenas algumas. A cada uma é feita corresponder (no jargão do clube) uma “agenda” ou “estratégia”, cujo efectivo conteúdo normalmente escapa ao comum dos terráqueos. Por exemplo, a famosa “agenda de Lisboa”, da cimeira de 2000, propunha transformar a UE no “espaço económico mais competitivo do mundo” já em 2010 (ui, que medo…). Para espanto geral, a Comissão Europeia veio agora verberar o atraso generalizado na “implementação” da dita “estratégia”. Tal como aqueles artistas de circo que dobram colheres com o poder da mente, também a UE acredita que dobra a realidade por decreto. Convém, porém, lembrar o continente em que vivemos: este é o continente onde cerca de metade da riqueza é aspirada em impostos para depois ser regurgitada enquanto despesa pública, onde mais de metade da população depende directamente do Estado, seja pelas pensões de reforma, os subsídios de desemprego ou o emprego em empresas públicas e na função pública (desculpe, disse pública?), o continente onde às mais excêntricas actividades vai sempre adstrito um pequeno subsídio, onde nem um só trabalhador está disposto a largar uma profissão obsoleta e reciclar-se numa nova, onde há vinte anos a taxa de desemprego não baixa dos 10%, onde qualquer empresa nova tem de defrontar uma muralha de interesses instalados, quase sempre em prazenteiro conluio com governos e partidos. Isto para nos ficarmos por uma listagem sumária e meramente ilustrativa.
Enfrentar tamanha embrulhada requer mais do que rabiscar uns desejos no papel, com o estuário do Tejo enquanto cenário. Requer coragem política, uma mercadoria escassa na Europa de hoje. E Lisboa, a consabida capital planetária da competitividade, arrisca-se a ficar como o justo símbolo da decadência europeia. Para citar uma bela canção dessa bela cidade: tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é fado.

[Luciano Amaral]

quinta-feira, agosto 19, 2004

Mais vale Rainha por um dia (II)

Pois é, Rainha, como certamente percebeu agora não é "taxinomista" nem "viciada em rótulos" quem quer, mas quem o sabe ser. Eu, por mim, estou totalmente solidário com o sr. Flávio, fora aquela história do "Pqp", ainda que acredite que ele o estivesse a confundir com o Pedro Queiroz Pereira (PQP). Se o homem não é de direita, mesmo "distante mas alerta", porque é que lhe andou a chamar nomes? Da próxima vez não tente ser irónico, que talvez alguém o compreenda.
Com os meus melhores cumprimentos,

[PPM]

Não me perguntem porquê, mas eu bem que desconfiava

Como não bastassem as denúncias anteriormente apresentadas, a MoveOnPlease coloca ainda a mais extrema das possibilidades: a de Bush ser responsável pela criação do melanoma de terceiro grau (também conhecido entre o povo como hemorróidas). Eles não têm a certeza, mas desconfiam muito seriamente...
[Luciano Amaral]

Toca a mexer, por favor

A sempre tão louvada (tanto à esquerda como à direita) vitalidade da sociedade americana não cessa de nos surpreender. Pois deixem-me apresentar-vos mais um exemplo dessa vitalidade. Trata-se do site MoveOnPlease. O MoveOnPlease transforma Michael Moore e Eduardo Ferro Rodrigues em verdadeiros meninos de coro quando toca a denunciar os esquemas subterrâneos a que se dedicam furiosamente Bush e respectivos sicários neoconservadores. De resto, podemos encontrar no site o trailer do próximo filme de Michael Moore, I Am not an Asshole, bem como os resultados de um estudo científico que mostra como o Secretário da Defesa americano, Donald Rumsfeld, é geneticamente culpado de todos os episódios nefastos da história moderna, incluindo o aparecimento da obesidade mórbida. Devemos também ao MoveOnPlease a montagem da campanha que denuncia as tentativas de George W. Bush para poluir o planeta Mercúrio. O slogan é inspirador: "First the Earth, now Mercury, keep Bush off Uranus".
[Luciano Amaral]

Vida acidentada

Eu bem sabia, quando escolhi o nome do meu blogue, que esta vida virtual não ia ser ser livre de acidentes. Comecei sozinho e - aos poucos, sempre acidentalmente - fui reunindo um cartaz de ilustres convidados que me ajudaram a preencher páginas em branco. O que era uma aventura pessoal, quase íntima, transformou-se aos poucos num espaço de livre discussão política e ideológica à direita, que felizmente tanto irrita tanta gente de esquerda e, infelizmente, tanto assanha tantos mentecaptos de diversas proveniências e origens.
Primeiro, com a entrada do meu querido amigo, Vasco Rato, com muita pena minha hoje tão ausente destas lides. Depois, seguiu-se a adesão relutante do meu compadre João Marques de Almeida, a que se foram somando outras altas individualidades (onde não posso deixar de destacar o Luciano Amaral e o Vítor Cunha, mas também o Diogo Feio, o José Bourbon Ribeiro e o Pedro Marques Lopes) para além de alguns novos e brilhantes talentos (Diogo Belford Henriques, Eduardo Nogueira Pinto, Francisco Mendes da Silva e Rodrigo Moita de Deus).
Agora, chegou a altura de dizer adeus - não, não festejem, que não é este vosso irritante escriba que se vai já embora. A despedida, desta vez, depois do Diogo Feio e do Vítor Cunha, é do João Marques de Almeida, que está prestes a assumir o cargo de director do Instituto de Defesa Nacional, como poderão todos ler no Público de hoje (não consigo fazer o link mas está na abertura do Nacional). OK, João, vai-te lá embora e livra-te de não seres o melhor director do IDN de todos os tempos. É o mínimo que te podem exigir.

[PPM]

Marés vivas

Na Visão de hoje, na página de citações "Em Foco", Maria Barroso declara estar "um pouco au-dessus de la marée, como dizem os franceses" - numa tradução literal, a senhora considera estar acima da maré. Na capa da mesma edição, o marido Mário Soares escreve o texto "Lutar contra a maré". Com tanta imagem marítima, só falta saber onde estará João Soares.
Em maré baixa?

[PPM]

Mais vale Rainha por um dia

Só agora li uns postes de ontem no BdE-Blogue de Esquerda, onde Luís Rainha pratica o seu desporto favorito: atacar O Acidental e as várias direitas que, felizmente, existem. O mais curioso é que Rainha acaba por fazer precisamente aquilo de que nos acusa. Deve ser difícil descobrir taxinomia mais primária do que esta. Quanto ao vício em rótulos, caro Rainha, só pode ser um elogio, vindo de um especialista na matéria, publicitário responsável pela propaganda do Bloco de Esquerda, autor do célebre cartaz do padeiro de arquivo que gostava de bater forte.
[PPM]

O óbvio ululante

"Foram as crianças que envolveram Ferro Rodrigues no processo Casa Pia"
António Pires de Lima, porta-voz do CDS/PP, Capital de hoje

quarta-feira, agosto 18, 2004

A esta também lhe roubaram umas cassetes


Paris Hilton

Boa-sorte, Vítor

Não sei o que te diga, Vítor, para além de te desejar toda a sorte do mundo. Vamos sentir a tua falta aqui no blogue. Mas a vida continua. Almoçamos na sexta?

[PPM]

terça-feira, agosto 17, 2004

Ainda a propósito de Michael Moore

Fui ver o pseudo-documentário de Michael Moore. O filme tem algumas passagens muito divertidas e é milimetricamente preparado para agarrar quem o assiste. No seu conjunto, não passa porém de um delírio, onde Moore manipula imagens e depoimentos com o objectivo de derreter a credibilidade de George Bush.
Os argumentos são dois, velhos e esgotados: a guerra do Iraque e a ligação ao petróleo. Moore envolve Bush numa trama doentia. Segundo ele, o único objectivo do presidente americano é o de fazer a guerra a Saddam a todo o custo, afirmando a sua pretensa impreparação para governar os Estados Unidos e rebuscando o estafado argumento da alegada chapelada eleitoral na Flórida.
Pergunto: como é possível acusar o presidente Bush e a sua administração de enganarem o povo americano e de serem básicos, ridículos e primários através de uma peça de propaganda do Partido Democrata tão básica, ridícula e primária? Concluo: tanto disparate junto só é possível porque os EUA são um país verdadeiramente livre... onde até os maiores mentecaptos dizem o que bem querem em plena liberdade.
Só não fiquei no cinema o tempo suficiente para perceber se o patrocínio oferecido pelo Partido Democrata a Michael Moore consta, ou não, da ficha técnica.

[José Bourbon Ribeiro]

Tragam as cebolas, ou o fim da aventura


Let´s dance, Paula Rego


Por razões profissionais deixarei de escrever no ACIDENTAL (e no "O Independente") a partir de hoje. Ao Paulo Pinto Mascarenhas, amigo de longa data, agradeço o convite e a experiência inolvidável de participar no seu blogue, mesmo não sendo eu do PP. Quem diria?
Terei saudade também, naturalmente, dos restantes convidados e do espírito livre e semi-sectário que por aqui predomina. Confesso que nunca tive paciência para polémicas nem para medidores de audiências - para isso basta o BE/Barnabé ou o blogger da Marmeleira, respectivamente -, mas gostei da paixão e da fúria que em alguns momentos se viveu, principalmente por altura da "crise" política de Junho.
Bom, e agora, antes que comece a chorar vou-me embora certo de que, como diria o moribundo Heinrich Heine, "Dieu me pardonnera. C'est son métier".

[Vítor Cunha]

Uh, Ah, Bush no se va

Muito francamente, não me custa nada que Chavéz tenha ganho o referendo. É perfeitamente possível. Mas também não me custa nada que tenha havido fraude eleitoral. O quê, não digam que não é possível? De resto, tanto quanto à distância consigo apreciar, a oposição a Chavéz tem tanto de recomendável quanto o próprio. Mais graça têm aqueles que, à sombra dos observadores internacionais e de Jimmy Carter, garantem apopléticos a validade dos resultados, ao mesmo tempo que (identicamente apopléticos) continuam a regurgitar as palermices do costume (tão bem "documentadas" no filme do Michael Moore) sobre as eleições americanas de 2000. Enfim, compreende-se o ódio: afinal foram os "gajos" que lixaram o Ferro, pá.
[Luciano Amaral]

Obrigadinho, pá

Agradeço a ajuda do Rui Tavares do Barnabé sobre a forma como devo interpretar os textos. Recuperando a faceta de grande educador da classe operária, Tavares esclarece-me que o texto sobre o Benny Morris era neutral e contextualizador... Obrigado, de facto, não tinha reparado. Verifico o meu tremendo erro e ainda me pergunto como fui capaz de o considerar amargo e anti-semita. Quanto à forma como componho os meus textos, mais uma vez, as minhas desculpas. Vou passar a lê-lo com mais atenção para ver se aprendo alguma coisa. Mas existe algo que eu jamais conseguirei imitar: zangar-me com as pessoas que não pensam como eu penso e ser mal-educado e ofensivo com as pessoas que discordam de mim. Não compreendi aquilo do nazi (garanto que, no meu caso, seria fácil compreender), mas penso que não era para perceber. E limito-me a registar o incómodo quando se fala do Estaline.

[Pedro Marques Lopes]

E a voz do Capuchinho vermelho é a voz do lobo

"The Venezuelan people have spoken and the people's voice is the voice of God!"
- HUGO CHAVEZ
[VC]

segunda-feira, agosto 16, 2004

Aviso à navegação

O Pedro Marques Lopes (ver poste em baixo) é mais um convidado acidental que não tem nada a ver com o CDS/PP. Só para que saibam.

[PPM]

O anti-semitismo da esquerda

Registo com uma terrível incomodidade um poste acerca de Benny Morris no Barnabé. Este traço anti-semita que está nos genes da esquerda jamais deixará de me arrepiar. Quando Benny Morris tinha a "leitura certa" dos acontecimentos era um herói da resistência ao sionismo; agora que tem a leitura errada é um perigoso sionista. Esta esquerda está cada vez mais "Le Peniana", o que não é de admirar face à sua própria história. O ódio do Paizinho Koba aos judeus estava claramente relacionado com o amor que ele tinha ao povo palestiniano...
Haja Deus!

[Pedro Marques Lopes]

Ai, que saudade

“O instrumento fundamental de difusão do populismo mediático é a submissão da TV generalista às regras da mercadorização da política. A Televisão existe em Portugal desde 1957, quando o país tinha 40% de analfabetos, e assim a escrita nunca chegou a ser a forma dominante de informação, nem foi a escola que socializou o acesso das famílias ao conhecimento. Esse papel acabou por ser deficientemente cumprido pela TV e, em menor medida, a rádio. Mas até esse papel hoje quase desapareceu.”
In RESOLUÇÃO POLÍTICA DA IIIª CONVENÇÃO DO BLOCO DE ESQUERDA, Maio de 2003
[VC]

Em resposta a um jovem dado à reciprocidade

Meu distinto amigo Pedro Oliveira (do blog Barnabé/BE),
Tenho vindo a reconhecer em ti ultimamente um estilo popularucho-demagógico que desconhecia de anteriores encarnações tuas.
Mas, já agora, em nome desse indivíduo mais razoável que em tempos conheci, deixa-me informar-te que não tenho qualquer incomodidade em escrever juntamente com pessoas que são do PP. Se tivesse não estava a escrever aqui. Mas há um hábito, muito pouco praticado por cá, embora seja uma das imagens de marca da comunicação social anglo-saxónica, que é o de avisar de onde se vem, nomeadamente quando pode haver um interesse directo entre a pessoa que escreve e as matérias que estão a ser noticiadas ou discutidas. Muitos equívocos podem surgir quando não se fazem esses avisos. A imprensa portuguesa, por exemplo, estava a precisar neste momento de uma sabatina desse tipo, que era para a gente perceber porque é que certas pessoas noticiam e dizem certas coisas.
No caso concreto de que estamos aqui a falar, como o PP tem sido acusado por certos protagonistas do episódio de ser uma sua parte interessada, pareceu-me adequado identificar o ponto a partir do qual emito as minhas opiniões. Quanto ao mais, estou-me verdadeiramente nas tintas para o facto de o Paulo e outros daqui do blog serem do PP. Não foi para defender o PP que o Paulo me convidou a escrever aqui, nem ele está à espera que eu o faça, a não ser quando eu achar que o devo fazer.
Quanto a ti, desejo-te um santa vidinha, aí no Barnabé/BE. Ah, não é do BE? Pois olha, é a reciprocidade...
[Luciano Amaral]

Não faças aos outros...

...o que não gostas que façam a ti. Já agora, Pedro Oliveira, para sermos rigorosos não fui eu quem começou a tratar-vos por Barnabé/BE, mas o meu amigo Vasco Rato. Limitei-me a seguir o modelo, que não me parecia assim tão desenquadrado da realidade. Pelos vistos, tratou-se apenas de mais um caso de guerra preventiva. Como o Pedro adoptou agora a interessante tese da reciprocidade, quem sou eu para contrariar um dos principais gurus do Barnabé/BE? Claro que o Luciano Amaral tem toda a razão no seu disclaimer. Basta ler os nomes e os textos dos colaboradores d'O Acidental para perceber que este não é um blogue do CDS, ainda que eu o seja (do CDS/PP, é claro). Mas não é proibido, pois não?

[PPM]

Olá, cá estou eu

Acabadinho de aterrar na blogosfera, vejo que a coisa está meio adormecida mas ainda estão cá todos, ou quase. Neste processo de readaptação em curso, tenho agora de tratar do correio acumulado nos últimos 15 dias, entre convites ambíguos, mensagens simpáticas, insultos vários e o spam do costume (116 mensagens, ao todo). Eu vou, mas volto - sim, eu sei que, para alguns, isto soa a ameaça.

[PPM]

domingo, agosto 15, 2004

A Educação

Um texto imperdível de Fátima Bonifácio sobre a "Educação" que temos. [VC]

Ou então o problema é meu

Segundo o Correio da Manhã, Ferro Rodrigues no seu depoimento ao DIAP colocou a hipótese de a famosa cabala ter origem na própria residência última de Satã, a eterna Cidade na Colina, vulgo Estados Unidos da América. Já cá faltava. Não, agora a sério... De que outras coisas serão os EUA responsáveis? Do assassinato de Inês de castro? Da morte de D. Sebastião? Do terramoto de 1755? Da invenção do Tulicreme (algures por volta de 1963, ainda durante a presidência Kennedy)? Da discografia inteira do malogrado Dino Meira? Da obra de Baptista Bastos e outras tragédias equivalentes?
Alguém me explica o que é que se passa? É da água, é? Andam a deitar coisas na albufeira de Castelo do Bode e está tudo doidinho?
[Luciano Amaral]

Externalidades positivas II

Já alguém imaginou o que seria viver em Lisboa com a gasolina a 2,5 euros/litro? Quantos carros deixariam de estacionar na minha rua em segunda e terceira fila? Quanto desvalorizariam as acções da BRISA? Quanto custaria uma viagem de avião a Nova Iorque? Quanto se valorizaria o passeio a cavalo? Ou a carcaça feita em forno a lenha?
Num sentido, o mundo andaria um pouco para trás. Passaríamos a utilizar bicicleta na rua, abandonando de vez a do ginásio; o remo deixaria de ser Desporto para passar a modo de vida para os da margem Sul; as empresas de desodorizantes e sabonetes subiriam nas bolsas; deixava de se falar de Casa Pia; a leitura à luz de vela ressurgiria; as acções das empresas produtoras de cera aumentavam a cotação; as abelhas passariam a espécie protegida; as bebidas com álcool seriam usadas, de novo, para substituir o ar condicionado das famílias nouveau riche de Bragança, uma cidade que deixaria de poder contar com brasileiras para animar as noites dos homens solitários porque os donos dos lupanares deixariam de poder pagar a energia eléctrica usada para iluminar as noites longas de Trás-dos-Montes. Interessante. [VC]

Externalidades positivas

Já alguém mediu os efeitos, no ambiente, do barril de petróleo a 50, 60, 80, ou mesmo 100 USD? [VC]

sábado, agosto 14, 2004

Digging in the Dirt

Dada a natureza visivelmente excremental do assunto, talvez não devesse tocar nele. Mas dado que a discussão sobre a história das K7s e dos CDs tem sido monopolizada por partes mais ou menos interessadas nela (partidos ou pessoas a eles pertencentes), talvez seja relevante que alguém sem qualquer interesse directo ou indirecto a comente. No fundo, trata-se de pensar em voz alta, em eventual benefício de outras pessoas que, como eu, não sabem muito bem o que dizer sobre a questão.
(Já agora, um disclaimer que vem a propósito: uma vez que algumas pessoas se referem a este blog como sendo um blog do PP, gostava de dizer que me parece estarem erradas. Que eu saiba, o proprietário do blog é militante do PP e outros participantes também o são. Esse facto não faz dele um blog do PP. Muitas pessoas que aqui escrevem não são do PP. Eu, por exemplo, não tenho qualquer ligação directa ou indirecta com o PP. Sou simplesmente amigo do Paulo Pinto Mascarenhas, que me convidou a escrever aqui sem me impôr quaisquer restrições)
Dito isto, cá vai:
1. Começo por achar graça ao facto de aqueles que moralizam tanto sobre o jornalismo de “fontes” e sobre a quebra do segredo de justiça reproduzam, comentem e debitem sentenças também moralóides com base em informações obtidas através de um presumível roubo. Sabe-se lá porquê, acham o seu conteúdo escandaloso, mas já não acham escandalosa a maneira como as informações se tornaram públicas: roubadas (terão mesmo sido?) e, depois, muito provavelmente vendidas (sim, porque não estou a ver as ditas K7s e CDs serem graciosamente ofertadas por aí) às redacções dos jornais. Acrescendo que o mais provável é que as gravações tenham sido feitas sem o consentimento dos interlocutores dos jornalistas. Mais acho graça ao facto de logo concluírem extraordinárias histórias a partir de transcrições que não sabemos se foram truncadas e, tendo-o sido, de que maneira. Isto é, O Independente não terá publicado tudo o que é dito nas gravações. Logo, pode ter reproduzido passagens que nos conduzem a determinadas conclusões, omitindo outras que conduziriam a outras conclusões.
2. De acordo com o conteúdo que se conhece, não é possível alimentar a teoria da cabala. Isto é importante, porque essa foi durante algum tempo a linha de argumentação do PS sobre o assunto. De acordo com o que Salvado diz nas ditas gravações, Ferro Rodrigues é mencionado no processo. Pode colocar-se aqui outra hipótese: Salvado estava a mentir. Se estava a mentir, é fácil saber: basta consultar o processo. Para além disso, colocam-se mais duas hipóteses: ou estava a fazê-lo por autorecriação, por motivos pessoais, ou estava a fazê-lo a pedido de alguém. É aqui que se tem aventado a possibilidade de ter sido a então Ministra da Justiça (e, por seu intermédio, o PP) a fazer esse pedido. Não há maneira de esclarecer isto senão através de um processo judicial. Qualquer extrapolação a partir do que se conhece não faz sentido, não se podendo fazer semelhante acusação sem provas. Agora que a possibilidade existe, existe. E, a ser verdade, seria grave. Menos por se tratar deste ou daquele ministro ou deste ou daquele partido, mas pelas razões apresentadas no ponto 4.
3. As questões que toda a história levanta são duas: a da violação do segredo de justiça e a da independência do MP e da PJ relativamente aos governos do dia. Sobre o probelma do segredo de justiça, só há uma solução: punir quem deve ser punido por praticar essa ilegalidade. Mas resta uma pergunta incómoda: e o jornalista? O jornalista também violou o segredo de justiça. O que fazer com ele senão exactamente a mesma coisa?
4. O que nos leva à questão verdadeiramente grave de todo o episódio: a independência de magistrados e polícia relativamente ao governo. Tal como tudo hoje funciona, essa independência não está garantida, abrindo assim a porta à intrumentalização de processos judiciais para fins políticos. Não sabemos se isso aconteceu neste caso, apesar da pressa (obviamente motivada por razões políticas) de muita gente em concluir dessa forma. Claramente, é necessária qualquer solução (por imperfeita que seja) para dificultar essa intrumentalização. Ignoro inteiramente qual será essa solução. Mas, infelizmente, aquilo que vejo são pessoas habilitadas a pensar nisso (porque são especialistas, coisa que eu não sou) apenas entretidas a intrumentalizarem também elas a história, igualmente para fins políticos.
5. Termino apenas com umas notas um pouco mais genéricas: se Salvado mentiu sobre a menção a Ferro no processo, não é necessário concluír-se que o tenha feito a pedido de alguém. Pode tê-lo feito, mas não é necessário. Salvado poderia ter uma motivações própria, pessoal, que passaria por ser fonte de jornalistas. O que nos conduz ao último elo da questão: a promiscuidade em que se envolvem os altos funcionários públicos mais os políticos com os jornalistas. Quantos e quantos segredos não andarão por aí nas redacções dos jornais sobre políticos? Quantos e quantos jornalistas não usarão o esquema para proteger certos políticos e quantos e quantos políticos não se protegerão com jornalistas de que são fontes ou que podem publicar factos comprometedores? Não sei. Mas se se coloca a possibilidade da instrumentalização de funcionários judiciais e policiais por políticos, deve colocar-se também a hipótese da instrumentalização mútua entre políticos e jornalistas.

Eis o que me ocorre dizer sobre esta trágica história. E agora vou ali puxar o autoclismo.
[Luciano Amaral]

quinta-feira, agosto 12, 2004

A frase

"I don't need Michael Moore to tell me about 9/11"
Rudolph W. Giuliani, ex-mayor de Nova Iorque [VC]

quarta-feira, agosto 11, 2004

Portas de plantão

O BE é um partido-movimento-colectividade-empresa-de-eventos-grupo-de-jantaradas revolucionário, mas tenta esconder-se à frente de uma foto do parlamento.

Enquanto o líder Louçã e os seus rotativos deputados se encontram em férias, o eurodeputado Miguel Portas não deixa de utilizar o edifício da Assembleia da República para fazer conferências de imprensa.

Ora, Miguel Portas não é deputado. Não foi eleito. Não pertence ao grupo parlamentar e deve ter um acesso condicionado à Assembleia como qualquer outro cidadão (necessita de convite ou autorização para entrar). Mas, apesar disto, vai usando o mês de Agosto, em que deputados e funcionários estão de férias, para se dar ares institucionais na sala de conferências da AR.

Isto não é certamente um escândalo, mas não deixa de mostrar três coisas:

O Bloco usa e abusa do estatuto de partido parlamentar, como se a AR fosse a sua sede.

O Bloco quer ter um ar respeitável, longe do ar revolucionário que tinha quando organizava manifs na escadaria exterior de S. Bento. Quer ter o aspecto de partido responsável, com aspiração ao poder.

Miguel Portas não tem férias. Foi para Bruxelas-Estrasburgo mas ficou de plantão.

[Diogo Belford Henriques]

Correcção: JV, do No Quinto dos Impérios, avisa-me de que os eurodeputados têm acesso à AR, inclusivamente a gabinete se for necessário. Corrijo, assim, o que escrevi. Miguel Portas está só de plantão. Com a fotografia institucional do Parlamento por detrás.

terça-feira, agosto 10, 2004

Precisa-se

Preciso de uma cópia do cd (versão integral) com as conversas entre o jornalista do "Correio da Manhã" e as suas fontes sobre o processo Casa Pia. Aceito permutas ou cedências temporárias. Posso trocar pela caixa da "Nozze di Figaro" do Gardiner. Próprio ao próprio. Contacto: vlcunha@sapo.pt [VC]

segunda-feira, agosto 09, 2004

Taxi Driver

Meu caro Rui,
Peço desculpa pelo atraso na resposta, mas estive a banhos até agora, longe da tecnologia. Tenho, de resto, pouco para responder.
O filme de Michael Moore cabe na mesma categoria clínica daquelas longas dissertações iluminadas dos taxistas lisboetas sobre como "os gajos" andam aí para nos "lixar". Ou até dos taxistas nova-iorquinos, como o mostra o célebre filme Taxi Driver.
Tal como nesses casos, de nada vale mostrar relativamente ao filme de Moore o carácter delirante dos seus argumentos. Muito simplesmente, quando não há comunicação entre os dois planos da realidade, o nosso e o do paranóico, a discussão não é possível. Já fiz o link para a peça do Dave Kopel. A partir daqui não consigo dizer mais nada.
Ilustro só o que quero dizer com duas parábolas retiradas da vida real.
A primeira: conheci em tempos (nos tempos em que a URSS ainda existia, para ser mais preciso) um indivíduo que tinha sido membro do PCP e tinha deixado o partido. Não tendo sido essa uma decisão fácil, o homem começou a ter sentimentos de culpa que derivaram para a paranóia. Na sua paranóia a URSS tinha a certa altura decidido apontar uns mísseis balísticos dirigidos à sua pessoa. De nada valia dizer-lhe que era completamente absurdo que, com tantos inimigos do comunismo e dissidentes, logo o Brejnev ia gastar um par de mísseis com ele. Mas o que é que queres? O homem estava convicto da coisa. Não creio que valha a pena especificar onde é que ele acabou.
A segunda: as vendas dos livros de Noam Chomsky dispararam com a guerra do Iraque. Chomsky trabalha para o MIT. O MIT é um importante fornecedor de estudos, projectos e aconselhamento do Department of Defense. A guerra do Iraque fez com que o Department of Defense aumentasse as suas encomendas ao MIT. Estás a ver a panelinha, não estás? Estão todos feitos uns com os outros, para venderem mais livros, terem mais contratos e fazerem guerras em que todos enchem os bolsos.
Pode-se criticar a administração Bush e a guerra do Iraque com base em argumentos dignos, relevantes e sensatos. Todos eles, porém, dispensam a esquizofrenia desse filme disparatado.

PS - Quanto à Maria Bethânia, quando é que abrimos o blog conjunto? Até já tenho um nome para o dito: Farenheit 251. E seria inteiramente dedicado a testemunhos, fotografias e vídeos ilustrando a queima sistemática dos seus discos.
[Luciano Amaral]

domingo, agosto 08, 2004

Michael Portas Moore

Tal como muitos outros bloggers fui ver o Fahrenheit 9/11, ao Monumental. Como outros tantos bloggers saí do cinema impressionado, com as palmas alarves e divertidas no fim do filme.

Ao contrário de mim, Miguel Portas deve ter saído entusiasmado do filme. Deve ter pensado - "Este é o meu povo!" Deve ter querido capitalizar esta mais-valia.

Só assim se compreende as afirmações que saem hoje no Público:

"Miguel Portas aludiu ao documentário "Fahrenheit 9/11", que demonstra "como os interesses das grandes empresas do petróleo e da defesa têm directamente na Casa Branca os seus homens, os seus administradores, como se a Casa Branca fosse um conselho de administração das indústrias de energia e de armamento"."Em Portugal, este Governo de Santana Lopes começa-se a assemelhar muito, à nossa escala, a um pequeno conselho de administração de interesses organizados, ou em privatizações ou em negócios preferenciais", frisou. "

Só assim se compreende, com uma manipulação como exemplo, que tente ser um pequeno Michael Moore "à nossa escala".

Só por querer imitar, se compreende que mais uma vez insinue corrupção sem provar, que difame sem acusar.

Nada mudou, portanto.

[Diogo Belford Henriques]



sábado, agosto 07, 2004

As férias

"Santana Lopes está de férias na Quinta do Lago, no Algarve, mas o descanso do primeiro-ministro parece ter sido incomodado pelas obras na vizinhança. Foi pedido aos construtores das redondezas pouco barulho e pelo menos uma dessas obras vai mesmo ficar parada durante uma semana, até que chefe do Governo volte para S. Bento.
Pássaros e pouco mais, é o que se ouve agora nesta rua da Quinta do Lago. Nada de martelos pneumáticos ou rebarbadoras. Que se trabalhe sim, mas sem fazer barulho. Afinal está por aqui um primeiro-ministro e férias são para descansar. O pedido foi feito esta manhã por um funcionário do empreendimento a pelo menos duas obras em frente e ao lado da casa alugada por Santana Lopes. Ora, não seja então pelo barulho, que o primeiro-ministro fique com as férias estragadas. O construtor até é adepto da boa vizinhança e resolveu por isso parar a obra por uma semana. Os trabalhadores foram então, às 10h00, deslocados para outra zona. A administração da Quinta do Lago garante que lhe passou tudo ao lado, terá sido um funcionário do empreendimento que a pedido da empresa que alugou a casa a Santana Lopes, resolveu falar com os construtores Visivelmente incomodados com a presença da SIC, os homens da segurança não deram muita margem de manobra. Afinal na rua Alva não se querem grandes alaridos."


Esta "notícia" da SIC diz tudo sobre o estado de anormalidade que se vive na comunicação social portuguesa. A vítima do barulho podia ser o PM, podia ser o dr. Balsemão, ou qualquer português ou estrangeiro que tivesse contratado uma casa para férias na Quinta do Lago. O sujeito é irrelevante nesta história. Mas não é para a SIC. Aos meninos do canal não ocorreu questionar porque carga de água é que em pleno Agosto, num dos locais turísticos mais emblemáticos do Algarve, há obras. Não, interessaram-se mais, compreensivelmente, vindo de quem vem, pelo facto de Santana Lopes ocupar a casa que está entre duas obras. Duas obras. Em Agosto. Num empreendimento turístico que é dos mais caros do País. E depois, naturalmente, no final do Verão, os mesmos meninos farão o balanço do ano turístico e chorarão pelo facto de os portugueses terem ido para Espanha. Onde, presumivelmente, não há obras. Nem jornalistas imbecis. [VC]

sexta-feira, agosto 06, 2004

Uma Visão de futuro!

É comum pensar que a revista Visão é politicamente parcial. Nada de novo, aqui. Mas, ao folhear o suplento "Visão Júnior", encontram-se verdadeiras pérolas da propaganda dirigidas à "pequenada". Por exemplo:

Um artigo sobre John Kerry (o título é "Presidente radical para os EUA?")- "Ainda em campanha eleitoral, Kerry aproveita os ventos do Pacífico para praticar kite surf. Não admira! Ele é um fanático do desporto".

Um artigo sobre Fernando Negrão, que que se explica que "(...) ainda está a conhecer os cantos à casa. Aliás como quase todos os novos ministros deste Governo, que tomou posse em Julho. Este Governo é mais ou menos igual ao antigo"

Apesar disto, não deixa de ter entrevistas com grande actualidade, como a do Pedro de 11 anos:

- É fácil arranjar namoradas?
- É difícil. A gente nunca sabe o que elas querem.
- Porque gostavas de ter uma namorada?
- Para fazer coisas com ela, ir ao supermercado, fazer o jantar. Eu ia viver com ela ou ela comigo.
- E os teus pais iam gostar disso?
- Iam, se ela fosse de confiança.


[DBH]

Leituras de fim-de-semana

Pronto, também eu lá fui ver o celebérrimo Farenheit 9/11. É difícil descrever um filme que não passa de um amontoado de mentirolas e paranóia, à mistura com a mais estrita estupidez e alarvice. Que haja esquerda que sinta conforto no objecto (felizmente, outra não), que encontre nele algo de positivo para o avanço das suas ideias, diz quase tudo sobre o lastimável estado intelectual a que se reduziu a si mesma. As desculpas de que as mentiras não são graves porque se trata de propaganda assumida e porque "é só um filme" mais acrescentam a essa tragédia intelectual. Como é evidente, toda a presumida "força" do filme vem da sua pretensão documentarística (??), da sua reivindicação de que mostra "a verdade". Ora, quase tudo o que é dito no filme sobre a Administração Bush e o próprio Presidente é mentira: da "vitória roubada" da Flórida, ao "roubo dos votos dos negros" na Flórida, às ligações de Bush com Bin Laden, ao célebre "vôo dos Bin Laden" depois do 11/9, passando pela importância do investimento saudita nos EUA, facto sobre facto apresentados no filme são falsos. Já outro blog (não me lembro qual) fez em tempos um link para este texto de Dave Kopel onde tudo isto está documentado. Basta ler - é a primeira recomendação para leitura de fim-de-semana.
Na verdade, não é particularmente grave que Michael Moore seja um tonto e um cretino. O que é grave é haver tanta gente a quem agrada a desprezível companhia. Pois é isso mesmo, dêem-lhe a mão e avancem alegremente para o atoleiro mental em que ele já está enfiado. Não se preocupem que vão em boa companhia, uma vez que o Partido Democrata americano e o júri do Festival de Cannes também já vão a caminho.
Quanto à segunda leitura de fim-de-semana, vem a propósito, está aqui e foi escrita pelo mui apreciável historiador Victor Davis Hanson.
E pronto, assim parto de fim-de-semana, não sem antes vos dar uma notícia que certamente vos chocará: sabiam que o Bush é um imbecil?
[Luciano Amaral]

quinta-feira, agosto 05, 2004

HENRI CARTIER - BRESSON





1908-2004

terça-feira, agosto 03, 2004

Fisting

Não sei exactamente qual é a opinião do leitor mediano, mas parece-me que tudo começou a descambar quando João Soares prometeu que ia usar o punho - o que, bem vistas as coisas, afinal é compreensível num partido em que se podem pagar as quotas por multibanco, coisa que exige pelo menos o uso do dedo. Achava eu que a partir daqui as coisas só podiam melhorar, que o único caminho era para cima (the only way is up, para citar a Dra. Ana Gomes). Mas não. Desde esse dia rolam as mais fantásticas acusações de fraude. E João Soares cita mesmo conversas aparentemente privadas com Sérgio Sousa Pinto em defesa da sua tese. Estas revelações (ou como diria a Dra. Ana Gomes: these revelations) acabaram, porém, por ser um pouco decepcionantes, já que ficámos afinal sem saber se João teria usado o punho (y'know, the fist) e de que forma. Enfim, para citar Sócrates, apoiando-se numa obscura frase de Sócrates: "só sei que nada sei", e portanto não sei onde é que isto irá parar (where will this stop).
Seja como for, ou eu me engano muito ou esta ideia das eleições directas do Secretário-Geral foi a coisa mais inspirada que a política portuguesa produziu recentemente. Vamos ter (e continuo a citar Ana Gomes, numa expressão nova aprendida em Boston) fun, fun, fun! Eu acho que que vai ser tão bom que corre o risco de não voltar a acontecer. Como é evidente, um partido (a party) é a coisa mais anti-democrática que existe. Logo, nestas eleições, rumores de golpaças ou tentativas de golpaças vão suceder-se a ritmo vertiginoso - e sem o escrutínio da Comissão Nacional de Eleições. No fundo, é como dizia Chopin (na sua obra-prima Guerra e Paz, de acordo com José Sócrates): "uma eleição é uma eleição é uma eleição, use-se o punho ou não".
No meio disto tudo (in the middle of all this) apenas nos resta saber em quem vai votar José Pacheco Pereira: Soares ou Alegre?
[Luciano Amaral]

Ideologia, socialismo e debate. Pequenos contributos de grandes candidatos

O "debate político" no PS prossegue de forma estonteante. As acusações de batota eleitoral, aparentemente, dividem Sócrates e Soares, mas não separam completamemente Alegre de Soares. Podemos concluir, eventualmente, que os dois candidatos mais à esquerda estão muito próximos nas suspeições levantadas, o que "indicia uma leitura próxima de certas realidades internas que urge salientar", como diria um intelectual do PS.
E agora uma pequena homenagem a José Sócrates: o PS, citando Churchill, "has all the virtues I dislike and none of the vices I admire". [VC]

segunda-feira, agosto 02, 2004

Os incorruptíveis


É curioso mas, ultimamente, a nossa esquerda blogosférica não tem escrito uma palavra sobre o Médio Oriente...

Quase parece que a construção da vedação parou nos meses de canícula. Ou será que estão incomodados com as notícias da enorme corrupção na AEP? Lembro as enormidades que foram escritas sobre Sharom e o seu filho, questão aliás resolvida nos tribunais.

Será que já todos perceberam que o Presidente Arafat não é, de facto, digno de confiança? Será que vamos ter sms a pedir o nosso, da UE, dinheiro de volta?

[Diogo Belford Henriques]
PS. E sobre os escândalos no governo de Lula, silêncio também?

Opinion maker

Perguntei a um amigo qual a sua opinião sobre o que se passa em Darfur...
-"Não sei, ainda não li nada sobre isso no Spectator"

[DBH]

À sombra na esplanada

O meu caro NCS comenta e critica o Vítor Cunha, pelo seu post (anterior a este), na sua Esplanada. Faz muito bem. Este Verão blogosférico estava a tornar-se de uma secura impressionante. E, porque, não há nada como uma polémicazinha para ter a desculpa de entrar num cibercafé.

Fico à espera que seja o VC a, justamente, responder. Senão escrevo eu, que ando cheio de vontade de perorar sobre A Capital.

[Diogo Belford Henriques](sem saber fazer links em html)

domingo, agosto 01, 2004

Abrupto


José Pacheco Pereira

Pacheco Pereira é uma das figuras mais fascinantes do nosso tempo. É impossível não gostar dele. Poucos como ele compreendem os mecanismos contemporâneos e utilizam com tamanha perícia os instrumentos disponíveis.
Li Pacheco Pereira a fazer o elogio de "A Capital". Fá-lo pelo lado mais sedutor, mas Pacheco quer é levar-nos para o dark side do jornal: panfleto de propaganda anti-Lopes. A Pacheco não importa que o jornal seja mal feito, publique estórias não confirmadas, ou faça um jornalismo ao serviço da ala esquerda do PS. Não, só lhe interessa saber que pode contar com "A Capital" e com o seu pequeno grupo.
Esta é a face menos interessante de Pacheco. Faz lembrar Eurico de Melo, o homem que era importante em Lisboa porque aparentava força no Norte e era importante no Norte porque aparentava força em Lisboa. PP faz o mesmo jogo: é importante nos média porque aparenta poder no PSD e é importante no PSD porque tem poder nos média. Vive disso e com isso movimenta, agita.
Não, este Pacheco não me interessa. Gosto do Pacheco que gosta de livros, que cultiva interesses pequenos como jogos de computador, viagens e estrelas. [VC]