Sinceramente, ainda mexe
| Se algumas vantagens retiro desta minha fraqueza anglo-saxónica, uma delas é o gosto pela discussão pública da vida interna dos partidos, das suas opções ideológicas, das suas estratégias pontuais, das suas referências pessoais. É coisa pouco vista em Portugal, pelo menos a um nível substancialmente acima do rasteiro, mas que em outros países mais civilizados é tema normal em jornais, revistas e programas de rádio e televisão, países onde a militância partidária não é vista por jornalistas como a pertença a uma qualquer seita maligna e onde o exercício livre da opinião, mesmo por gente assumidamente engagée não é tido como uma excrecência ligeiramente incomodativa. É uma lição que me é dada de cada vez que leio, por exemplo, a Spectator, o Telegraph, a New Statesman ou o Guardian e que não tenho a mínima intenção de recusar, por muito que me chamem de "novo-rico" ou, como algures aqui, de "pequeno lorde".
Daí não concordar minimamente com o tom com que o PPM e o JBR se atiraram ali em baixo ao Pedro Mexia, por causa do artigo de hoje no DN. O post do PPM ainda percebo, precisamente na lógica da discussão (o Pedro foi evidentemente simplista em muito do que disse), mas existe nele um certo tom de desilusão e traição, que no do JBR é a única coisa visível, e que não tem razão de ser. Porque não só o Pedro Mexia pensa como bem entender, como não é militante do PP, como, mesmo que o fosse, poderia pensar como bem entendesse e exprimir o que bem entendesse (se, sendo militante do PP, teria os espaços que tem para escrever e falar, enfim, essa é outra história). O artigo do Pedro coloca algumas questões pertinentes, com cujas respostas não concordo. Aliás, como também já disse noutras paragens (nas quais, reparo agora, o Fernando Albino acaba de me tirar grande parte dos argumentos, o estúpido!), acho que há um afastamento algo programado e forçado dos partidos, assim uma espécie de independência chique que lhe vem mais do medo do que da razão. Para além de que considero estar o Pedro enganado na maior parte do artigo. Existe, desde logo, uma deficiente verificação dos factos, não quanto à alegada dependência do PP relativamente a Paulo Portas, mas quanto ao papel do próprio nessa dependência. Não me parece, de todo, que Paulo Portas tenha como objectivo o culto do chefe e a criação de um partido centrado em si e na sua força salvífica. É verdade que isso é, em grande medida, o que acontece. Mas isso é algo de inelutável, quer nos partidos pequenos, quer até nos grandes, quando têm à frente líderes fortes e carismáticos (a palavra é uma palavra de merda, eu sei, mas serve o propósito). Lembremos Freitas, Lucas Pires, Adriano Moreira, Monteiro, Sá Carneiro, Soares ou Cunhal. A mim, confesso, é coisa que pouco incómodo me provoca. Eu só sou do PP por causa de Paulo Portas e do Miguel Esteves Cardoso. Este nunca esteve sequer próximo do partido e o primeiro aderiu depois de mim. Mas foi pelo que deles lia no início da adolescência (da minha, bem entendido) que me iniciei nesta coisa da política. Pelo que, para mim, bem vistas as coisas, o PP sempre foi um partido unipessoal. Como não tenho aspirações a ser um "intelectual" (pronto, outra palavra de merda), dou mais importância às pessoas do que às ideias. Se um dia o Pedro Mexia formar um partido, farei tudo para poder acumular militâncias. Repito: discordo do artigo do Pedro em quase tudo (desde o que já referi até ao facto de haver realmente uma indefinição ideológica, passando pela aversão aos fatos às riscas - a propósito, se alguém souber onde é que posso comprar um daqueles de traçar, agradecia o contacto). O que me distingue é que eu não me desiludo. Porque a mesma razão pela qual ele sentiu que devia escrevê-lo é precisamente a mesma que o fez escrever isto: A família Kirkby é uma simpatia (não ironizo). São uns bifes impecáveis, com bons modos e gravata a condizer, mas dá-lhes para a esquerdalhada. Ninguém é perfeito. Quanto ao PP, não creio francamente que sejam de extrema-direita, como disse o Carvalho da Silva. Repara que eu conheço bastante bem a extrema-direita, e poucas pessoas dessa área são do PP (os que eram desfiliaram-se recentemente). Acredita que há mais gente extremista no PSD do que no PP, até pelo perfil salazarista do Cavaco e por causa de o PSD ser um partido de poder, ao contrário do PP, que só o é de vez em quando. Há no PP uns tantos tipos da direita desbocada, como Rosado Fernandes, e existem vários cinzentões e gente irrelevante, mas só raramente detecto afirmações destas. O PP não tem nada a ver com o partido do senhor Haider, sejamos sérios, que é um partido filo-nazi. O PP é composto por conservadores, um ou outro democrata-cristão e um ou outro liberal. Residualmente existe gente mais extremada, mas confesso que as pessoas que até hoje ouvi dizerem coisas como «pretos para África» ou «morte aos maricas» são todas da área do PSD e da ND, e um ou outro nem votam. O populismo, um dos problemas sérios do PP, não é necessariamente de extrema-direita, cada partido tem o seu populismo, para o seu eleitorado. É sobretudo uma forma pouco exigente de fazer política, e lamento sempre que isso acontece, e escreverei todos os posts que sejam necessários a denunciar essa tendência. Agora o que existe é uma tendência da esquerda para considerar «extremistas» certos assuntos, como os da imigração ou da segurança; quem os traga á baila é sempre um perigoso fascistóide. E isso não aceito. A imigração e a segurança (por exemplo) são temas determinantes, e é preciso que sejam discutidos e resolvidos precisamente para evitar tentações extremistas. Não se pode é criar temas tabu. Não há temas extremistas, apenas respostas extremistas. E não tenho visto muitas respostas extremistas da parte do PP, mas sobretudo tiros no pé e navegação à vista. A criação de um partido à direita do PP pode aliás contribuir para evitar qualquer radicalismo do partido, que talvez caminhe, aliás, para uma fusão com o PSD, formando uma tendência claramente à direita num partido com pendor centrista. Os partidos do centro direita e da direita são para nós instrumentos para defender as ideias nas quais convictamente acreditamos. Mas não temos espírito de seita, e daí não contes com os Infames para fazer política partidária. [FMS] |


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