O Manuel Alegre da Direita
| Porque discordo da “agenda social” conservadora do partido, não sou militante do CDS/PP. Estou, é certo, próximo da visão de Política Externa e de Defesa defendida pelo CDS, assim como das suas posições económicas mais liberais, que coexistem com uma perspectiva social cristã que pouco me agrada. Quanto a Paulo Portas, reconheço os seus méritos políticos (que são consideráveis), mas também não ignoro as suas limitações (que prefiro não discutir publicamente). Não me sinto “desiludido” nem “traído” por Portas porque nunca acreditei que ele – nem ninguém - fosse o “salvador” da direita portuguesa.
Vem isto a propósito da “questão Pedro Mexia”, suscitada pelo artigo que publicou no Diário de Notícias. Pedro Mexia (PM) tem todo o direito de escrever o que entende, sobre aquilo que entende. No entanto, PM não é um “dissidente” nem um “heterodoxo” porque, no espaço da direita democrática, não há dogma nem ortodoxia. Contrariamente ao Zé, eu não espero, nem nunca esperei, lealdade (orgânica ou outra) do Pedro Mexia. Tenho apreço intelectual pelo Pedro, e estima pessoal. Mais nada. Todavia, incomoda-me verificar que as críticas de Mexia ao CDS são pessoais, resultantes de uma certa amargura e, eventualmente, de algum ressentimento. O problema é que o artigo do Pedro não é político; o problema de PM é com Paulo Portas – e, portanto, do foro pessoal. Sobre as suas razões, só PM pode saber. Mas vamos aos argumentos de Mexia. Diz que a “oscilação ideológica” do CDS foi negativa porque “a função do CDS, que consistia em apresentar um claro caderno doutrinário, foi sendo corroída pela constante mudança”. PM não parece entender que essas mudanças doutrinárias evitaram o colapso do CDS. São, por outras palavras, fonte da sua força porque corresponderam às mutações na direita portuguesa. Para sobreviver, o CDS adaptou-se às transformações sociológicas na direita. Que queria Mexia? Que o CDS se fechasse – tipo MRPP – num gueto doutrinário enquanto o mundo se transfigurava? Contrariamente a Pedro Mexia, que prefere um partido ideologicamente puro (mas politicamente irrelevante porque ideologicamente estático), eu julgo que o CDS ainda não mudou o suficiente. Que, ao manter um conjunto de “posições de princípio” (por exemplo, no aborto), o partido está afastado da realidade sociológica. Que o CDS/PP deveria ser mais liberal e mais aberto. Mexia dirá que os princípios sobrepõem-se às considerações de poder (é justamente isto que quer dizer quando afirma que a “função” do CDS seria “apresentar um claro caderno doutrinário”). Mas, se assim é, recomendo que o CDS deixe de ser um partido político – que visa conquistar o poder – e passe a ser um mero grupo de reflexão. Ou que se transforme num lobbi de uma causa, como foi o caso do Partido da Solidariedade Nacional. Partidos que deixam de estar enraízados na realidade sociológica e cultural do país morrem. Por isso mesmo, nunca elogiei a coerência ideológica de Álvaro Cunhal e do PCP. Mas se Mexia tivesse razão ao dizer que a “crise” do CDS resulta destas alterações doutrinárias, então a “culpa” da crise não pode ser atribuída a Paulo Portas, como faz Mexia. É, obviamente, muito anterior a ele. Então por que razão é que PM diz que a liderança de Portas tem sido “largamente fracassada”? Afinal, o CDS fez aquilo que os partidos ambicionam: chegou ao poder e está a contribuir para mudar Portugal. Mexia responde: “do ponto de vista partidário, o consulado Portas tem sido nocivo”. Não critica as políticas do CDS, nem a actuação de Portas na Defesa ou de Bagão nas Finanças. Com efeito, Mexia não critica o trabalho político do ministro Portas, critica a actuação partidária do “chefe” Portas. Diz que Portas “acentuou muitíssimo o grande problema que é a personalização do partido (lembremos a tão glosada semelhança de iniciais)”. E acrescenta que “Portas mudou de personalidade pública. Não abrandou a demagogia. Fez versos. Usa gravata. E fato às riscas”. Pedro Mexia pode não gostar das gravatas de Portas, ou dos seus tiques de personalidade. Mas não deveria confundir isso com a substância da actuação política de Portas. Ou seja, Mexia confunde o mensageiro com a mensagem. Simplesmente não gosta do packaging da mensagem – leia-se, não aprecia Portas. Apenas, mostra a sua preocupação com as gravatas e os fatos de Portas. Como crítica política, é curto. Quanto à tão glosada semelhança de iniciais, talvez Portas possa alterar o seu apelido para evitar essa coincidência. Depois de escrever que o CDS está condenado ao fracasso, Pedro Mexia acrescenta que “em certos meios de direita, as pessoas votam indistintamente, conforme os casos, num partido ou noutro. Esses dois factores, que funcionam como uma tenaz, ditarão o fim do CDS como partido autónomo ou viável”. O problema é que a conclusão não resulta da observação. PM deveria saber que este mesmo fenómeno – a flutuação eleitoral à direita – tem, ao longo dos últimos 30 anos, garantido a sobrevivência do CDS. Dito de forma mais simples, o CDS cresce quando o PSD perde a sua capacidade de atracção eleitoral. Ou seja, o CDS conquista votos à custa do PSD. Sendo assim, como é que o CDS pode crescer estando numa coligação com o PSD? Este é o verdadeiro dilema do CDS. Não é Paulo Portas, nem os seus fatos e as suas gravatas. Pedro Mexia tem uma perspectiva excessivamente fulanizada da política. Por isso, está desiludido com Portas e julga que o partido não tem futuro sem o seu líder (ironicamente, na óptica de PM, o CDS também não tem futuro com o seu actual líder). Eis uma perspectiva simplista, uma visão pessoalizada, uma leitura poética da política. Salvaguardando as diferenças, Mexia olha para a direita como Manuel Alegre olha para a esquerda: com os olhos de um romântico que não entende a praxis. É, no fundo, politicamente naive. A verdade é que Pedro Mexia não cometeu delito de opinião contra a direita. Limitou-se a escrever um mau artigo. Compreendo, pois, que queira deixar de escrever sobre a porca da política portuguesa. [Vasco Rato] |


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