O Acidental à escuta d’O Acidental e a culpa da “direita” (e ainda uma pequena confissão de fracasso)
| (Aviso: texto grande)
Há muito tempo que ando para escrever um post chamado “O Elogio d’O Acidental”. Hoje ele foi mais ou menos escrito, embora não por mim e sim pelo Rodrigo (aqui e aqui). São obviamente idiotas todas as descrições d’O Acidental como o “blog do PP”, o “blog do governo”, o “blog da extrema-direita” e mais mimos quejandos. Toda a gente conhece a tendência humana para ler só o que se quer. Ou para ler o que não se quer e imediatamente esquecer. No caso d’O Acidental, o leitor comum vem para aqui com o bordão na cabeça (“aquilo é o blog do governo do Santana e do Portas”) e mesmo que leia os meus posts a dizer mal do governo ou do Rodrigo a dizer mal do PP ou outra coisa qualquer, lê e esquece. Entendamo-nos de uma vez por todas: isto é o blog do Paulo Pinto Mascarenhas, que é filiado no PP e adjunto do Ministro Paulo Portas. O Paulo (Mascarenhas) criou o blog e depois foi convidando as mais diversas pessoas que lhe passaram na cabeça para aqui debitarem (literalmente) o que quisessem. Por mim falo: as minhas primeiras intervenções n’O Acidental foram para dizer mal do governo Barroso e mal da maneira como o governo Santana se instalou. Fi-lo a medo e dizendo ao Paulo que se não quisesse que não publicasse: luta política é luta política e eu poderia estar a fazer o jogo daqueles que se opunham à solução que prevaleceu. Em cinco minutos aquilo que eu tinha escrito estava publicado, com o Paulo a pedir: manda mais. Eu estava numa fase em que não queria escrever em blogs (à qual regressei em grande medida), mas o genuíno espírito liberal do Paulo levou a entusiasmar-me outra vez e sempre fui escrevendo o que me apeteceu. Enfim, confesso que faço um pouco, não muito, de auto-censura, por simples cortesia - para com o Paulo e o partido e o governo de que ele faz parte – mas se alguma acção do governo me chocasse mesmo muito não hesitaria em criticá-la aqui e sei que o Paulo nada diria (e em privado talvez até dissesse que eu tinha razão – ou então não). Tenho a sensação de que a experiência de todos os outros que para aqui escrevem é parecida com a minha. Desta forma, o Paulo foi conseguindo reunir aqui um conjunto de vozes puramente individuais das mais interessantes que existem na nossa opinião pública (peço desculpa por, imodestamente, me incluir nelas) e não apenas na blogosfera. Só que isto é um blog e é o blog do Paulo. Lá fora (digamos assim) não há nenhum Acidental (nem sequer há os inúmeros outros excelentes blogs de “direita” que por aí abundam). É neste ponto que faço uma pequena revelação estratégica: sempre fui desde o início contra a estratégia primeira d’ O Acidental, que era assumir-se como o anti-Barnabé e o anti-BE. Na minha opinião (que expressei ao Paulo várias vezes) não valia a pena. O Barnabé e o BE não têm nada de interessante para dizer. Como eu disse há uns dias atrás, o Barnabé é, hoje, o mainstream político nacional: mesmo se muita gente não vai a correr votar no BE é naquelas conversetas que acredita. É respeitável estar de acordo com o Barnabé e até participar nele. Não é respeitável estar de acordo com O Acidental e até participar nele. A minha estratégia sempre foi a de sermos nós a marcar a agenda e não andar atrás da deles. Somos nós e outros parecidos connosco quem tem coisas interessantes para dizer e deveríamos estar conscientes disso, em vez do eterno e estafado complexo de que a direita é estúpida. Só que, se calhar, é mesmo estúpida. Outro dia, numa perigosa reunião de direitistas tentei vender outra vez este peixe. De “utópico” a “ingénuo”, passando mesmo por (usando meias-palavras, evidentemente) “palerma”, chamaram-me de (quase) tudo. Não quero defender o Pedro Mexia, cujo percurso recente me entristece e chega mesmo a deprimir (mas enfim, é lá a vida e as escolhas dele). Só que talvez se compreenda a facilidade com que ele se foi aninhando na mundivisão da esquerda (mesmo correndo o risco, segundo me parece, de cair na irrelevância intelectual). O José Bourbon Ribeiro acusou-o aqui de falta de “lealdade orgânica”. Talvez seja verdade. Mas a falta de lealdade sistemática que os partidos de direita devotam àqueles que lhes podiam dar as ideias de governo é um dos mais extraordinários (e também ele deprimente) espectáculos a que se pode assistir. Talvez, muito legitimamente, o Pedro Mexia se tenha cansado de falar para o boneco. Talvez, no fundo, ele tenha razão: o que não vale a pena é tentar oferecer uma agenda política à direita, porque ela não a quer. E assim confesso o meu fracasso: quem estava enganado era eu. O Pedro Mexia muito provavelmente fartou-se da completa falta de solidariedade que a maior parte da direita política lhe oferece e, vai daí, reorganizou a sua cabeça. E fez, se calhar, muito bem. O que estamos nós a fazer todos aqui n’O Acidental? Estamos aqui por causa do Paulo, não estamos aqui por causa da direita “orgânica” ou “organizada”, que se está nas tintas para nós. Basta olhar para a vitória de Bush nos EUA para se perceber que ela ocorreu graças à afirmação de um programa claro, tanto na esfera das relações internacionais como na da organização da sociedade. Em Portugal (na Europa, mesmo) a “direita” vive numa espécie de nihilismo gestionário, com um pendor tecnocrático, que a faz desprezar a afirmação das suas próprias ideias. Isto tem um lado algo burkeano do entendimento da política. Burke preocupava-se sobretudo com o “bom governo” mais do que com grandes manifestações de princípios. O problema está quando o “bom governo” se confunde com os princípios. Burke percebia isso, mas os nossos pequenos burkeanos domésticos não percebem. E enquanto não percebem, o nosso simpático país lá vai caindo mais um bocadinho no buraco em que se meteu há muito tempo. [Luciano Amaral] |


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