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sexta-feira, novembro 26, 2004

Meu caro Luciano Amaral,

Escrevo-lhe atrasado por só hoje ter lido o seu (longo) poste em que elogiava O Acidental, enquanto espaço de pluralismo, demonstrando ainda assim alguma compreensão pelo que o Pedro Mexia está a passar.

Aceitando como argumento a deslealdade orgânica de que acusei o Mexia, o Luciano acrescenta que os partidos de direita têm, eles próprios, sido desleais organicamente a quem lhes tem sugerido políticas públicas. Nesse rol de pessoas (em que agora o incluo a si) inclui também o Pedro Mexia.

Gostava de esclarecer, para que não restem quaisquer dúvidas, o sentido das minhas palavras. Li com atenção e paciência o que alguns escreveram a esse propósito. Uns com mais paciência que atenção, confesso. A título de exemplo refiro aqui o Paulo Gorjão (acho que é este o seu nome), que, para não variar, disse um conjunto de disparates típicos de quem raciocina de forma pidesca e desmiolada. Mas adiante.

Quando falo em lealdades orgânicas falo, obviamente, em termos de espaço político. Não acho relevante que o Pedro Mexia critique ou elogie o Paulo Portas e o CDS: antes pelo contrário, quem recebe e fica inchado com piropos do Eduardo Prado Coelho não pode nem deve elogiar o Paulo Portas, sob pena de tudo isto se transformar em algo ilegível e confuso. Como gosto das coisas claras, e como sou dos que acredita que “não há almoços grátis”, penso que um elogio proveniente de tal senhor traz sempre “água no bico”.

Pelo respeito que lhe tenho a si, pelo que escreve e como escreve (não tenho a sorte do Paulo Pinto Mascarenhas e de outros amigos comuns de o conhecer pessoalmente), deixe que identifique aquilo que penso serem duas incorrecções no seu texto.

Em primeiro lugar, o Luciano fala em “partidos de direita”. Confesso que fiz um esforço para tentar perceber o plural. “Partidos” de “direita”? As confusões que à “direita” se fazem com o “centro” político são graves e preocupantes.

Em segundo lugar, o que quis dizer com o post sobre o Pedro Mexia é mais ou menos o que a Inês Teotónio Pereira escreve ali em baixo sobre a “direita”. O Pedro Mexia tem todo o direito de escrever o que escreve. E eu, tal como o Francisco Mendes da Silva, identifico milhões de fínfias na sua análise. O problema não está aí... a “deslealdade orgânica” não é, como está bom de ver, o “delito de opinião” ou o “desvio de esquerda”. O que penso é que não se pode dizer, por dizer, que a direita vai mal porque não se gosta dos fatos de quem a dirige ou por razões meramente pessoais.

São argumentos demagógicos, típicos da esquerda, a quem o Pedro Mexia concede autoridade numa postura totalmente autofágica. Ou seja: o Pedro Mexia preferiu o acessório ao essencial. E isto, meu caro Luciano Amaral, não é aceitável.

Com os meus melhores cumprimentos,

[José Bourbon Ribeiro]

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