Atalho de esquerda
| Tenho a infeliz impressão que esta "questão Mexia" não é a primeira nem será a última.
Pessoalmente gosto muito de o ler e, politicamente, considero importante que exista um "colunista-intelectual-opinion-maker-what-ever" de direita. E é importante que diga mal do que não concorda, e todos defendemos a liberdade estrutural com que o faz. Mas não quero deixar de explicar o que é que não gostei, no artigo que ontem PM publicou: A síntese da história política do CDS está mal feita. Considerar que Adriano Moreira é um sóbrio conservador indica apenas que PM nunca leu o que de mais importante o Professor escreveu, o que é uma pena. Para o Pedro. Quanto ao restante, PM desfila os figurinos de direita com que o CDS se apresentou ao eleitorado. Mas associa tal transformismo às personalidades dos líderes (o que o leva a colocar Adriano como conservador, para a teoria dar certo) e não à evolução política do nosso País. O CDS lutou pelo centro, democrático e europeu, durante um PREC radicalizado entre a esquerda e a estrema-esquerda. Mostrou-se liberal e europeu num Portugal estatizado e paralisado. Quando a europeização se tornou moda, com um desenvolvimento economicista, à custa das pessoas, o CDS personalista e democrata-cristão lembrou valores essenciais. Quando o europeísmo se tornou obrigatório o CDS puxou a discussão para o lado de cá (e foi longe de mais, na minha opinião). Desde 98, o PM descreve bem a história, porque já a conhece melhor. O erro de PM não é achar que o CDS devia apresentar um "claro caderno doutrinário", é pressupor que este caderno seria dogmático. Nunca foi. Mas a parte menos importante do artigo é a que alguns poderiam julgar como ofensiva para o actual CDS - a profecia do fim após o Governo. É a profecia habitual, já proclamada tantas vezes e tantas mesmas vezes provada errada. PM, na sua passagem breve pelo CDS não percebeu que este partido tem no seu seio várias sensibilidades de direita, que nascem e renascem dependendo do que está em jogo - o direito à vida, a liberdade económica, etc. - e até hoje, nem que seja de táxi, nunca deixaram de se expressar. Curiosamente, para os que viram nesse texto um ataque ao CDS, PM avalia como boa a acção do CDS no governo. E, pergunto-te eu Pedro, não é exactamente isso que é suposto ser mais importante para um partido? O que vem depois? Depois veremos. Mas mau seria se um partido no poder estivesse preocupado com o que será depois do actual líder ser ministro, em vez de tentar governar o melhor que pode. E, pelos vistos, sabe. Também não gostei de alguns comentários superficiais, porque já me habituei a ouvi-los dos comentadores de esquerda. Isto não quer dizer que o Pedro tenha feito um desvio para a esquerda. Apenas que não foi original. O que é uma pena pois Mexia é melhor do que isso, é mais profundo do que isso. E, caro Pedro, se a direita gosta de cavalos vencedores, também é verdade que procura ver-lhes os dentes, e essa saúde é a confiança que se ganha com as responsabilidades assumidas e a promessas cumpridas. A dita "accountability" que correctamente valorizas. E ainda bem. [Diogo Belforf Henriques] |


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