Quando a esquerda é reaccionária
| Vamos recomeçar. Acreditar que a homossexualidade é um pecado é, acima de tudo, uma concepção religiosa. Partilhada, aliás, pela esmagadora maioria das religiões e honestamente não acredito que seja incompatível com o exercício do cargo de comissário europeu, ou de qualquer outro cargo cívico.
Por essa lógica, George Bush (protestante) nunca teria sido presidente de uma das mais antigas democracias do mundo. John Kerry (católico) não seria candidato, Boutros Guali (muçulmano) seria vetado como secretário-geral das Nações Unidas e por cá António Guterres nem para o Partido Socialista servia. Pergunto-me que raio de critério é esse que afastaria a Madre Teresa de Calcutá ou o Dalai Lama do lugar de comissário? Utilizando uma expressão bem apropriada ao tema, pergunto-me se o parlamento europeu não estará a ser mais “papista que o Papa”? Mas podemos ir mais longe. Rocco Buttiglione disse que as mulheres deviam ficar em casa? Que serviam para procriar e educar os filhos? Rocco Buttiglione disse que a homossexualidade era crime e que a sua prática devia ser ilegalizada? Quando? Onde? Nunca! Partiu-se do princípio que sim. Porque Rocco Buttiglione era religioso e conselheiro do Papa. Porque Buttiglione escreveu e pensou a aplicação dos valores católicos na sociedade moderna. Este “partir do princípio” é preconceito. Mas o preconceito revela também ignorância. Poucos dos que falam agora conhecem a obra de Rocco Buttiglione e menos ainda aceitam discuti-la sem recorrer a lugares comuns. Por isso mesmo digo que o caso Buttiglione é bem mais grave que a “vitória do politicamente correcto”. Com o seu gesto, os eurodeputados impuseram limites de participação para a democracia-cristã na construção europeia. Com o seu gesto os eurodeputados provaram que o fanatismo anticlerical é tão ridículo e perigoso como o fundamentalismo religioso. Uma análise justa do caso passa obrigatoriamente pelo tema do debate ideológico, das causas e das doutrinas. A construção europeia foi durante muito tempo um sonho, uma bandeira e um exclusivo da esquerda. É aliás isso que se lê no preâmbulo da sua constituição Mas felizmente já não o é. A direita passou por um enorme salto doutrinário a todos os níveis. Soube assimilar princípios e integrá-los. E por isso mesmo Pacheco Pereira queixa-se que nos encontramos todos ao centro. A esquerda mais pura, curiosamente, é quem tem mais dificuldades em lidar com isso. E por isso mesmo lhe pedi para dar uma olhadela ao seu discurso sobre o assunto. Já não consegue discutir valores, tem medo da doutrina e sente-se mal preparada para as discussões de um novo milénio. A esquerda mais pura está ultrapassada doutrinariamente. E como todos quantos se sentem ultrapassados, a esquerda mais pura tornou-se na guardiã do templo sagrado. Conservadora, moralista e até reaccionária. É isso que estamos a discutir Carlos. Nada mais. [Rodrigo Moita de Deus] PS: Por lapso, publiquei inicialmente este texto sem assinatura. Aos leitores e ao PPM as minhas desculpas. |


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