O Homem a Dias
| Algures para as bandas de Matosinhos, entrincheirado entre a lota e a refinaria, vive um pecador. Valerá a pena, inquire o leitor, badalar aos ventos (que o povo diz serem quatro) a identidade do incréu e respectiva queda? Perscrutadas as razões, compreenderá o leitor que sim. Corria, por curiosa coincidência, o dia 10 do mês 10 do corrente ano. Em casa de pasto de amesendação competente e serviço honesto, lá para as bandas por aonde El-Rei D. Deniz mandou plantar vasto pinhal, aprestava-se o escriba a degustar um recipiente devidamente coberto de tranchas assadas do fiel amigo. A acompanhá-lo (ao bacalhau, que não ao escriba), as inevitáveis batatinhas a murro. Combinação canónica, à qual só se pode fugir (precisamente por ela ser canónica) caindo em pecado. Pois a acompanhá-lo (ao escriba, que não ao bacalhau) encontrava-se o citado matosinhense, o qual logo se apartou da exclusiva combinação, imediatamente tombando em desgraça. Apascentava-se o matosinhense num prato em que o amigo piscícola se fazia acompanhar (valha-nos Deus, Nosso Senhor) de arroz branco - provavelmente carolino, assim chamado devido à sua origem americana. Eu sei, é terrível. É mesmo horroroso. Terá ele salvação? Por improvável que pareça ao amigo leitor, sim. Há muito tempo que o pecador se redimiu por antecipação, ao mandar o vosso dedicado escriba deixar de falar antes de ver esta obra cinematográfica. Bacalhau com arroz é pecado mortal? Em circunstâncias normais seria, mas neste caso passa a venial. Quem aconselha assim, está eternamente perdoado.
[Luciano Amaral] |


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