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quarta-feira, outubro 27, 2004

O auto de fé

O que aconteceu com Rocco Buttiglione nestes últimos dias devia fazer-nos pensar se estamos ou não preparados para a construção do projecto europeu. Alguém acredita que o candidato a comissário europeu era o selvagem, retrógrado e fundamentalista que foi retratado por alguns? De que crime foi acusado? "I may think that homosexuality is a sin, and this has no effect on politics, unless I say that homosexuality is a crime”, eis a frase proferida como resposta a um eurodeputado sobre a questão.
Não existindo dúvidas sobre uma eventual incompatibilidade jurídica, política ou mesmo ideológica do candidato a comissário no exercício do cargo, sobra a problemática religiosa. Afinal é ou não a homossexualidade um pecado? A discussão é, em última instância, teológica. A discussão é, em última instância, irrelevante para o Parlamento Europeu que se diz laico. A discussão é, em última instância, ridícula para todos os deputados que se dizem ateus. Portanto…
Buttiglione foi condenado pela frase, mas há muito que se fazia o seu auto de fé. Foi vetado pelas suas crenças religiosas. A Europa da tolerância, da liberdade e da transigência considerou que um católico seria incompatível com exercício do cargo de comissário. Fará esta decisão jurisprudência?
E o que dirão os críticos de hoje quando a Turquia entrar na União Europeia? Serão tão fundamentalistas nas suas opiniões quando o candidato a comissário turco explicar que beber álcool e comer porco são pecados mortais? Estão eles, os críticos de hoje, preparados para aceitar uma Europa das diferenças?
É preocupante para a Europa, e para todos nós, a dificuldade com que aceitamos alguém com valores e princípios que vão para além do político. Mas é mais preocupante o fanatismo militante com que o assunto foi tratado.
Que ninguém se iluda. O dualismo ideológico continua bem vivo. Depois da questão do preâmbulo da constituição ficou bem registado que a esquerda da tolerância não tolera a crença religiosa. Não tolera uma direita para além do liberalismo. Não tolera sequer a discussão doutrinária das matérias, porque a sua doutrina é tida como dogma fundador do projecto europeu. No fundo, a esquerda olha para a Europa como um filho pródigo nascido do eterno combate entre as forças do bem e as forças do mal. O resultado desta posição é uma construção europeia pobre em diversidade e pobre em valores. A União Europeia é cada vez mais um projecto económico e cada vez menos um projecto social.
Buttiglione foi infeliz nas suas declarações? Foi, acima de tudo, ingénuo. Acreditou que na Europa da tolerância existia direito à diferença. Não sabia é que também existe uma diferença nos direitos.

[Rodrigo Moita de Deus]

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