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sexta-feira, outubro 22, 2004

A democracia dos direitos e a democracia dos privilégios

Hoje de manhã, no Fórum TSF, o jornalista anunciava: “gostaríamos de saber a sua opinião sobre a energia nuclear.”. Podia ter perguntado sobre o preço dos bilhetes dos autocarros, sobre o encerramento do túnel do rossio ou sobre o resultado de ontem do Benfica. Mas não. Pediam-se juízos sobre vantagens e desvantagens da utilização da energia nuclear. A primeira intervenção foi feita por um convidado. Um professor catedrático em física nuclear. Falou sobre dogmas perversos, sobre falta de investimento na ciência, sobre a falta de estudo na matéria em Portugal. O jornalista insistiu “mas qual é a sua opinião?”. Queria saber se professor doutor era a favor ou contra a utilização de energia nuclear em Portugal, mas o professor doutor respondeu simplesmente que não existiam dados suficientes para opinar sobre o assunto.
Esta não existência de dados suficientes para “emitir opinião” não inibiu os seus participantes. O comerciante de Torres Novas, o serralheiro de Alcabideche e a doméstica de Faro, todos foram muito peremptórios nas suas opiniões. Uns muito a favor, uns muito contra. O fórum decorreu discutindo alegremente a problemática da energia nuclear, fundamentando os palpites com certos e inabaláveis conhecimentos de física e microbiologia. Todos tinham algo a dizer. Todos tinham opiniões dogmáticas. Todos tinham crenças de tal forma sustentadas que podiam fazer doutrina. Todos falavam de cátedra em matéria onde as verdadeiras cátedras não podiam falar.
Trinta anos depois de Abril e ainda tão longe de sermos uma sociedade evoluída. Tão longe de aprender que o melhor da liberdade de expressão nem é o direito de falar, mas o privilégio de ouvir o que os outros têm para dizer. Tão longe de aprender que o melhor da democracia nem é o direito de opinar. É o privilégio de aprendermos o que os outros têm para ensinar.

[Rodrigo Moita de Deus]

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